Reunião Ás de Paus · Capítulo 14 de 33
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Reunião

Verbena acordou um pouco assustada, continuava vestida, com os cabelos em coque, ainda dentro do bibico, até as botas permaneciam em seus pés. Pensou que se deitaria por alguns minutos e acabou dormindo a noite inteira. Levantou dolorida e, após um banho rápido, desceu para um desjejum simples, sua agenda escolar estava cheia naquela manhã, não podia demorar, contudo um envelope esperava por ela debaixo da porta de sua sala, com o requerimento para que fosse à uma reunião oficial na sede do governo e desacelerou, um tanto contrariada, seus alunos teriam de esperar.

Com mais tempo, ela resolveu tomar um café da manhã reforçado, lendo o jornal para se distrair. A manchete principal anunciava a inauguração da estátua de um antigo general, avô de Zunik, na praça principal da cidade, e destacava o convite para a população prestigiar o evento, ela sorriu ao ver a palavra: “convite”. “Convocação” seria uma palavra mais apropriada, visto que ninguém, naquela região, tinha permissão para faltar ao evento.

Verbena folheou as páginas em busca de notícias sobre as ocorrências do dia anterior, mas não encontrou menção a roubos ou terrorismo, nada além de uma desenxabida nota informativa de que o comércio estava fechado para uma reestruturação, nenhuma explicação de que tipo, só a garantia de que tudo voltaria a normalidade no decurso daquele dia.

Ela sentia falta da mídia dos países que visitou, rápida, digital, sem manchas de tinta ou manipulação descarada, o único prazer que extraía do método, era ler em papel.

Entediada, a moça abandonou os jornais sobre a bancada e foi se arrumar em sua farda especial para encontros daquela natureza. Cada um usava os trajes específicos de sua função em conferências oficiais, porém, naquela optou por vestir a saia do uniforme, em vez da calça. A achava desajeitada e dava poucas possibilidades de movimentação, mas a saia iria impor a sua feminilidade em meio a tantos indivíduos que a repudiavam.

— Estou preocupada com os meus alunos — ela disse a Adam.

— As suas aulas serão substituídas, a escola recebeu uma notificação igual a sua.

— Você sabe por que eu fui convocada para esta reunião?

— Creio que porque você tinha bens no Imperial Bank.

— Muitas pessoas tinham.

— Só militares e suas famílias.

— É mesmo?

— É, sim. O Imperial Bank é um banco militar.

— Então... esse banco foi escolhido para roubo como represália?

— É o que parece.

Verbena baixou a cabeça sob uma sombra de dúvidas.

— Se fosse só por dinheiro teriam escolhido um banco mais modesto, com menos vigilância — raciocinou. — Lembro que o Imperial Bank era muito bem protegido.

— E tudo o que foi roubado, destruído ou ocupado na noite de ontem pertence ao exército.

Verbena aquietou-se. Ela pareceu confusa, e Adam compreendia a sua confusão, era como se a moça tivesse caído no meio do fogo cruzado desavisada e destreinada.

— Os outros professores não usam esse banco também?

— Não! Há um individual para os funcionários do setor educacional.

— Bom saber — respondeu Verbena, já com o olhar se perdendo em pensamentos através da janela.

A sede do governo não era local de muita conversa, mas naquele início de expediente o silêncio oprimia, denso como uma neblina de inverno, nem mesmo o elevador foi parado enquanto os levava ao andar superior, sequer parecia haver ocupantes no edifício.

— O que esta mulher está fazendo aqui? — vociferou Ziger ao enxergar Verbena chegando.

— Para começar, ela está aqui porque perdeu mais do que você no roubo ao banco, bens que nem são possíveis substituir — respondeu Leon.

— E o que isso tem a ver com essa reunião?

— Ela veio por ordem minha, Zig! — informou Zunik.

— Mas, senhor, essa é uma reunião importante, não serve para pessoas como a senhorita Koch. Ela nem vai entender sobre o que trataremos. Além disso, tenho certeza de que ela tem aulas para dar — observou Dimitri.

— Talvez você não sirva para essa reunião já que não consegue se lembrar que existem outras fronteiras na cidade.

— Senhorita Koch, seja bem-vinda — falou Leon quando Verbena se aproximou o bastante para ouvir o que falavam. — Venha, sente-se ao meu lado.

— Obrigada, senhor Handersen — respondeu Verbena e acomodou-se, enquanto analisava a coleção de rostos ao redor da enorme mesa, todos os comandantes estaduais estavam ali.

— Tenente-coronel, obrigado por vir — acrescentou Leon para evitar que o assunto prosseguisse, mas os olhares de Ziger e Dimitri, na direção de Verbena, continuavam falando alto.

Logo em seguida o contra-almirante, Eric Lorenzini, chegou, distribuindo cumprimentos, pouco correspondidos, e deu uma olhada espantada em Verbena antes de entregar uma pasta volumosa ao marechal. Ziger franziu o nariz como se sentisse odores fortes, Dimitri comprimiu os lábios, mas nenhum verbalizou o que ocupava os pensamentos.

Assim como vários representantes ali, os dois fizeram forte oposição à presença de um homem pardo em cargo superior, consideravam, no mínimo, uma afronta às tradições estabelecidas desde o bisavô de Dimitri. Mas Eric foi indicado pelo general Jesus H. Koch pouco antes de sua morte, e ganhou o apoio fervoroso de Leon, pela sua capacidade, por sua competência e porque Eric chamou atenção quando atravessou mares turbulentos e resgatou uma tripulação inteira, assim como a carga que o navio encalhado carregava.

Jesus fez Zunik ver que era a oportunidade perfeita para mostrar ao mundo que estavam errados ao julgá-lo como julgavam e Zunik não precisou de nenhum outro argumento.

— Eu convoquei essa reunião porque uma mosca vem zumbindo muito alto nos últimos tempos e, por mais que não passe de um verme em nossa grande nação, quero que seja eliminado antes que cresça — começou Zunik. — Ontem fomos saqueados por um grupo terrorista encabeçado por alguém que se intitula “Ás de Paus”, ele sentiu-se muito esperto roubando a nossa comunicação, nossas câmeras, nossa segurança e agora os nossos bens, mas cometeu um erro, usou veículos rastreáveis. Capitão?

— Identificamos o tipo de caminhão usado nos roubos e também os carros fortes, estes têm rastreadores e nossa equipe está tentando localizá-los — respondeu Ziger.

Na verdade, a polícia identificou e a equipe do afastado major Edmund estava trabalhando nisso, mas ele jamais admitiria que não fez nada nem para merecer a vaga naquela reunião.

— Tentando? — perguntou Zunik.

— Acredito que conseguiremos ainda hoje.

— E depois?

— Levarei a Divisão de Repressão a Crimes contra a Ordem. Não tem erro com eles.

Um leve sorriso curvou o canto dos lábios de Verbena, a fama dessa divisão era amplamente conhecida.

Zunik franziu as sobrancelhas. — Você vai levar um novo grupo para cair em outra armadilha?

— Meus homens não são fracos!

A ansiedade de Ziger para retomar as funções de ação o fazia tremer. Ele nunca aceitou, de boa vontade, assumir como diretor de uma escola, detestava cada dia que precisava ir para lá e agradeceria ao Ás de Paus, se ele não tivesse roubado o seu dinheiro também.

Zunik levantou-se, abrindo a pasta. — O contra-almirante Lorenzini trouxe um levantamento das nossas perdas com os navios naufragados, mais os custos para a mudança da frota que permaneceu inteira e a suspensão da entrega do mais bem equipado porta-aviões que já adquirimos. Foram perdas maiores do que as cinco fábricas incendiadas.

Ele silenciou-se e alguns dos presentes se entreolharam, nenhum sabia que o Ás de Paus havia destruído outras fábricas de armamento militar, mas Zunik recuperou a atenção deles açoitando a mesa com a pasta.

— Não há um roubo, nesse país, desde que o meu pai governava! — rugiu. — As punições eram extremas, os exemplos incomparáveis, por isso ninguém jamais ousou roubar de mim. Por que este rato está roubando e destruindo livremente como se o território fosse dele e ninguém fez nada?

O silêncio foi toda a resposta que Zunik recebeu.

— Alguém tem ideias para resolver os nossos problemas de comunicação? — ele insistiu.

Cada rosto mostrou uma expressão adversa, olhares para baixo, como Dimitri e o jovem representante da equipe de Edmund, olhares atentos como os de Verbena e Adam, e complacente como o de Leon, mas nenhuma solução.

— Creio que o nosso maior problema agora é a segurança, senhor — arriscou Dimitri. — Precisamos reestruturar os sistemas de defesa.

— E o que você sugere?

— Dobrarmos o número de soldados nas ruas, nos estabelecimentos e em nossos lares; dobrar o rigor com a liberdade da população comum; exigir identificação constante e um toque de recolher mais rígido.

O marechal estava tão enfurecido que tais sugestões não o agradaram como agradariam em outros tempos, na realidade só o irritaram mais.

Zunik sentou-se. — Dimitri, você acompanhou os interrogatórios dos reféns encontrados no frigorífico Tordon?

— Acompanhei, senhor.

— Então compartilhe com os nossos amigos o que ouviu.

— Não houve respostas úteis.

— Fale o que os nossos soldados disseram, aqueles que você homenageou como mortos.

Dimitri não controlou o rubor e olhou, de relance, para Verbena. Ela o observava e aquilo sim o envergonhou. Uma ninguém, ele pensou, ela não deveria saber de seu fracasso.

— Foi o major quem disse que estavam mortos — ele respondeu.

— Não foi o que eu perguntei!

— Mas...

— Já que o mencionou, onde está o Zinekolski? Eu não mandei você trazê-lo de volta?

— As comunicações não voltaram completamente.

— Contra-almirante. Sabe como estão as comunicações no R-801?

— Não, senhor.

— Então saia daqui hoje e tente contatar o major Edmund Zinekolski Junior no porta-aviões R-801. Preciso dele aqui imediatamente.

— Sim, senhor — respondeu Eric.

— Então, Dimitri, fale logo o que os nossos homens disseram.

— Eles não tinham informações relevantes — falou Dimitri —, foram mantidos em prisões separadas, nenhum sabe como chegou ao cativeiro e nem onde fica.

— Diga como foi a hospitalidade do Ás de Paus.

— Relataram que foram bem tratados e não foram interrogados, ninguém sequer falou com eles durante o período em que ficaram lá.

— Nossos soldados e trabalhadores tiraram umas férias, com direito a água fresca para beber e quente para se banhar, banheiros privados e comida aquecida. Praticamente desfrutaram de um hotel e não vou me surpreender se tiver alguém admirando o maldito Ás de paus agora — esclareceu Zunik.

— Não colocaremos estes soldados nas ruas — falou Ziger —, devemos deixar todos em observação até termos certeza de onde está a lealdade deles, ou podemos fazer melhor, parar com esses interrogatórios moles e fazer um interrogatório sério. Me deixe cuidar disso, por um dia, e já descobriremos onde é o covil do Ás de Paus.

— Eles não sabem como chegaram ao cativeiro porque foram submetidos a algum tipo de gás e só acordaram lá, presos, sem ferimentos, aqueles que se machucaram foram tratados e o Ás de Paus não revidou nem um tiro durante a captura — detalhou Leon. — O que o marechal quer dizer é que tanta generosidade com prisioneiros é suspeita. Ele manteve nossos soldados e trabalhadores lá com o objetivo de soltar em algum momento. Mas para que? Qual foi o sentido de raptar estas pessoas se era para soltar, ilesos, e sem obter nenhuma informação deles?

— Eu digo porquê! Ele é um covarde, medíocre, não teve coragem de enfrentar os nossos.

— Talvez o senhor não tenha conseguido entender, capitão Ziger, mas não estamos lidando com um inimigo qualquer — rebateu Adam. — Ele fez uma operação colossal, bem planejada e bem executada, talvez em uma só noite. É, sem dúvida, um bom estrategista, com uma equipe muito bem-preparada e organizada.

— E numerosa, afinal ele começou a agir aqui, na capital, agora, mas já vem agindo fora há algum tempo — acrescentou Leon.

— Uma aparição aqui ou ali, em lugares irrelevantes — teimou Ziger.

Alguns líderes de governo se remexeram desconfortáveis, mas não ousaram se expor.

Adam encarou Ziger com maior severidade. — Nada é irrelevante — retorquiu. — Nos últimos anos, ele destruiu muitas coisas, de grande valor, não é um fanfarrão que surgiu de repente.

— Parece que temos fãs do Ás de Paus aqui.

— Conhecer o inimigo é a regra mais básica que existe. Qualquer menino aprende isso desde a escola.

— Acho que estamos desviando do problema — interferiu Leon. — Capitão, os nossos soldados estão em observação, mas não porque julgamos a lealdade deles, estão porque nos preocupamos com a saúde deles e queremos saber se não foram drogados ou submetidos a alguma experiência que possa ter feito com que esqueçam do que aconteceu. O Ás de Paus tem ficado um passo à nossa frente, isso só pode significar que ele conseguiu informações internas.

— Sugere que alguém, daqui, está passando informações para um terrorista? — perguntou Zunik.

— Talvez.

— General, eu acredito que não é assim que o Ás de Paus tem acesso a informações internas — declarou Adam. — Acho que ele nos observa e nos ouve. Desconfio que ele não tenha inutilizado nossas câmeras e nossa comunicação, talvez tenha apenas deixado inacessível a nós, nos restringido a comunicação analógica para que o acesso dele seja mais fácil.

— As câmeras foram verificadas, não estão funcionando — respondeu Leon.

— Mas será que estão inativas o tempo todo? Tive a impressão de ver algumas câmeras com luzes acesas há uns dias, pensei que era ilusão causada pelo cansaço, mas agora estou achando que não era isso. E, se o Ás de Paus está nos observando através das nossas próprias câmeras?

— É possível, Wolsh? — perguntou Leon.

Wolsh, o substituto de Edmund, assustou-se, não esperava falar naquela reunião e tremeu ao som de seu sobrenome. Ele estava acostumado ao terror que a simples proximidade dos Novakohuts despertava nele, mas se ver diante de Zunik, o homem que o levou a nunca mais usar o elevador principal só porque cruzou com ele na porta uma vez, o levou a outro patamar. Seu estômago doía como se uma broca o perfurasse e levou longos segundos para que sua voz aparecesse, mesmo que tenha sido Leon quem fez a pergunta.

— Não... Não, senhor. O sistema é independente e verificamos, não foi invadido, as câmeras só foram desligadas com o que suspeitamos ser uma descarga elétrica.

— Não há nenhuma possibilidade? — insistiu Adam.

— Eu não sei... Podemos verificar outra vez...

— Tire todas! — interrompeu Zunik.

— Não podemos. Sem monitoramento a população vai se sentir livre — argumentou Ziger.

— Prefere ser assistido pelo inimigo? — perguntou Adam.

— Você diz que as câmeras funcionam, ninguém viu funcionando.

— Isso não importa — respondeu Zunik. — Não temos como usar, a população já está sem monitoramento.

— Mas eles não sabem.

— Senhor, o que o capitão diz pode fazer algum sentido — apoiou Leon. — A população está especulando, criando histórias sobre os últimos acontecimentos, perceberam que houve problemas. Se tirarmos as câmeras, as desconfianças irão aumentar. Precisamos dar a eles uma verdade segura e não adicionar motivos para falarem ou terem ideias.

Dimitri olhou para Leon. — Dê a eles a verdadeira história — disse —, para terem quem culpar pelos preços que terão de pagar.

— Não acho prudente que admitamos publicamente a existência do Ás de Paus, isso colocará mais palpites nas cabeças das pessoas. Manteremos o controle enquanto ele for uma lenda urbana, sussurrada aos ventos. Acredito agora que tivemos sorte por termos arrancado os alto falantes ou o que ouvimos nos rádios teria sido transmitido para a cidade. Foi por isso que sugeri a presença da senhorita Koch nesta reunião. Um pronunciamento é necessário para confirmar as notícias que pusemos nos jornais, com telões nos pontos importantes, e a presença dela é essencial para que o povo sinta confiança no que dissermos.

— O povo não tem que ter confiança, tem que obedecer — respondeu Dimitri.

— Marechal Zunik — falou Verbena. — O senhor me permite?

— É claro. Fale, senhorita Koch!

— Nos jornais, foi mencionado uma reestruturação, podemos especificar, falar de reformas e melhorias, as pessoas amam melhorias, e comemoram sem questionar, inclusive as câmeras, podemos dizer que fazem parte da reestruturação e que serão trocadas por equipamentos mais sofisticados, imagino que a substituição seja mesmo necessária, assim teremos uma população satisfeita, feliz e quieta.

— Exato! — concordou Leon. — Não precisamos de conflitos agora.

— Que seja! Providencie isso, Leon — falou Zunik.

— Eu e a senhorita Koch viemos conversando sobre os ataques — disse Adam —, e chegamos à conclusão de que pode ser um tipo de recado.

Ziger riu, enquanto se recostava na cadeira e cruzava os dedos sobre o abdômen.

— Recado de que? — questionou.

— Gostaria de saber, capitão. Mas não pode ser coincidência que só o que nos pertence foi vandalizado ou roubado; é possível que o Ás de Paus queira nos enfraquecer, surrupiando nossa exportação para estagnar as negociações com e exterior.

Zunik lembrou da primeira transmissão feita pelo Ás de Paus, aparentemente ele era um revolucionário, com ideias de libertação do país.

— Se os senhores me permitirem, gostaria de dar uma sugestão — pediu novamente Verbena.

— Prossiga! — respondeu Zunik.

— O tenente-coronel Molls acredita que estão nos ouvindo e vendo, o capitão disse que não demorará para rastrear os carros fortes e tememos uma armadilha, o que provavelmente é. Com esses elementos podemos armar um contra-ataque com baixas probabilidades de falhas.

Verbena conseguiu a atenção do grupo: o marechal recostou os cotovelos na mesa; Adam e Leon juntaram as mãos à espera; Wolsh levantou o olhar para ela, ainda apertando contra o peito sua pasta cheia de papéis inúteis — trazidos apenas para ter algo com o que ocupar as mãos. Eric observava especialmente interessado. Ziger com repulsa, ódio e desdém. Dimitri ostentando a ameaça de um riso em antecipação de algo ridículo. E os demais líderes, quietos e curiosos, nunca diziam nada naquelas reuniões de qualquer maneira.

Ela não os culpava, era professora, não soldado ativo. Foi trazida ali para ser informada de que ficaria no meio dos apoiadores que acompanhavam o marechal durante os pronunciamentos, como pura decoração, na mesma função de um pôster, nada mais. Dar uma opinião era mais do que podiam imaginar, dar duas superava qualquer limite.

— Assim que a localização for feita, será possível criar um plano de ação para encurralar essas pessoas dentro da própria armadilha — continuou Verbena. — Sugiro que retiremos as câmeras no trajeto para o local. Depois, sugiro que enviemos uma equipe para vigiar os carros, sem comunicação via rádio. Tenho certeza de que nossos soldados têm treinamento para isso. Quando estiverem posicionados, restabeleceremos as comunicações, anunciaremos a localização dos veículos e que estamos encaminhando um destacamento para recuperá-los. Isso atrairá esse Ás de Paus, se ele estiver ouvindo, e nossa equipe já estará lá, à espreita. Se não for uma armadilha, recuperaremos os carros com tranquilidade. Desse modo podemos vencer pela inteligência superior do nosso exército.

Era um plano simples, e o silêncio tomou conta da sala. Ninguém teve o ímpeto de responder, no entanto Zunik percebeu que ela tinha ganhado os líderes. Ele não sabia como, se um minuto antes a olhavam como uma curiosa extravagância. Talvez pelo tom de voz de Verbena, ou pela maneira cativante de ela falar, ou ainda pela aura catedrática que ela usou com maestria, o que sabia era que os comandantes de estado estavam embevecidos na visão dela, como se sua ascendência tivesse deixado de embarreirar sua credibilidade.

Verbena poderia dizer qualquer coisa que acreditariam e concordariam. Zunik nem notou o sorriso delineando os próprios lábios, sua bela aquisição era idolatrada por aqueles homens e ela idolatrava apenas ele. Nada lhe deu mais prazer do que assistir a maneira como Verbena ignorou os olhares fascinados dos novos fãs, sedentos por sua atenção, para se voltar, em fascínio, para o seu rosto.

Dimitri também viu isso e, com um riso solitário, cortou o silêncio junto com a linha de raciocínio do tio.

— Bem se vê que você não tem experiência alguma em combate — zombou.

— Por que, coronel? — perguntou Leon.

— Perdoe o Dimitri, senhorita Koch. Ele fez uma carreira no setor administrativo, não sabe que o simples é o que funciona em campo — alfinetou Zunik.

— Ele tem razão nisso, senhor, servi nos exércitos aliados enquanto estudava, mas nunca estive em um combate militar.

— Mas tem uma visão estratégica excepcional. Zig, quero a localização dos carros hoje! Garoto — ele cravou o olhar no trêmulo Wolsh —, retire as câmeras e providencie novas, no prazo de uma semana. Leon cuide do destacamento que irá vigiar os carros e veja se as Andorinhas encontraram alguma coisa que preste nas investigações. Lorenzini, assim que fizer o que eu mandei, se prepare para ficar na cidade por alguns meses, você vai supervisionar a reestruturação da nossa esquadra e reconstrução da nova frota.

— Si... Sim, senhor — gaguejou Eric, não intencionava permanecer na cidade mais do que dois dias.

E Zunik se virou para os demais líderes. — Anunciem reestruturações imediatas em seus estados: a jornada de trabalho, de doze horas, passa para quatorze horas diárias; ajustem as taxas de direito ao trabalho e os impostos para financiar os serviços; e informem a população que a idade de alistamento, a partir dos terceiros anéis, muda para oito anos de idade. — Zunik viu cada um assentir em concordância inquestionável. — Dispensados!

O marechal levantou-se e todos os outros com ele. O plano era, com efeito, simples e talvez Zunik não lhe desse muita atenção em outra circunstância, entretanto, foi a única ideia apresentada e, depois de criarem tantas estratégias mirabolantes para serem destruídas com parco esforço do inimigo, talvez um claro, direto e um tanto inocente, poderia ser mais eficaz.

Verbena foi para a escola trocando teorias com Adam. Ela até preferiu ir no banco da frente para que pudessem dialogar melhor e, a meio caminho, a moça se aquietou novamente.

— O que foi? — perguntou Adam.

— Por que será que roubaram mercados e estoques de alimentos?

— Acho que tem a ver com as nossas exportações.

— Mas não faz sentido. Eu entendi o roubo ao banco, o que tinha lá era dinheiro ou podia ser convertido em dinheiro, mas alimentos não podem ser vendidos, nem no mercado ilegal, se é que existe um aqui. Iriam vender para quem?

— Talvez ele vá vender fora, sacas de café têm alto valor no mercado.

— Mas e o que ele roubou nos mercados? De acordo com o que você me disse, foi o não perecível e também o perecível, até utensílios domésticos... Não entendo por quê?

— Hum... Talvez seja para os rebeldes dele. Deve ser um grupo grande.

— Com tudo o que levaram, teria que ser um grupo maior do que o nosso contingente municipal e creio que, se ele tivesse uma tropa desse porte, já teria tomado a cidade. A capital, coração do país, seria a conquista ideal, se isso não aconteceu, imagino que o grupo não seja tão grande assim.

— Pode ser.

— É muito distante da realidade pensar que esta facção se comporta como combatentes de guerra?

Facção. Adam não tinha pensado nessa designação, de repente pareceu que devesse começar a pensar.

— Não... Não é — respondeu ele, manobrando o carro no estacionamento da escola. — Não pense tanto nisso, senhorita Koch, não dá para entrar na mente de um criminoso sem ser um.

Em contrapartida, ele não parou de pensar no assunto por nenhum instante, os questionamentos da professora fizeram sua mente fervilhar e nem conseguiu prestar atenção ao andamento das aulas dela. Ainda pensava naquilo quando a levou para casa, mas não quis afligi-la mais com o tema.

— Eu venho buscar a senhorita dezoito e quarenta e cinco, só vou me preparar e voltar.

— Outro soldado pode me levar ao pronunciamento.

Adam sacudiu a cabeça. — Tenho ordens e preciso cumprir.

— Certo! Não serei eu a induzi-lo a descumprir suas ordens, mas ainda acho um desperdício você ficar servindo de babá para uma adulta.

Adam sorriu. — Mas insisto que não é. — E continuou sorrindo.

— Eu disse algo errado? — perguntou Verbena.

— A senhorita me tratou por “você”.

— Eu não percebi, peço que me desculpe, por favor.

— Não precisa se desculpar, isso mostra que confia mais em mim, gostaria que continuasse me tratando dessa maneira, se não se importar.

Verbena mostrou um pequeno sorriso. — Desde que você passe a me tratar da mesma forma.

— Será uma honra.

Adam era sincero; estava cada dia mais feliz com a função. Comparado ao marasmo de antes e aos chiliques de Dimitri — o importunando tanto quanto podia — ficar dirigindo para uma professora era uma grata recompensa, que só perdia para cuidar de seus amados cães.

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