Jogo de Poder Ás de Paus · Capítulo 8 de 33
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Jogo de Poder

De manhã Verbena saiu do Spa renovada, ela não imaginava o quanto precisava relaxar nem o quão eficiente era o programa. No decorrer da noite, Ilde listou mais alguns homens influentes para Verbena conhecer e ela não se importou, sabia que Ilde era feliz no casamento, por isso, queria que todas fossem igualmente felizes. O que a professora não sabia era que Ilde tinha outro motivo para agir daquela maneira, gostou dela, por isso queria garantir que Verbena não tivesse o mesmo destino de Danielle e, assim sendo, se propôs a conduzi-la a candidatos que suas pesquisas, com as conhecidas faladeiras, indicavam ter boa índole.

A saída de Danielle e de Ilde do Spa não foi tão boa, elas voltaram para as suas casas, desanimadas. Danielle por ser obrigada a retornar ao seu mundo estéril e Ilde por voltar para uma casa vazia, onde a ausência de Leon pesava em cada parede.

Danielle não viu Dimitri durante o dia e, à noite, trancou a porta do seu quarto, se ele aparecesse e percebesse, ela diria que a trancou porque sentiu medo pela solidão no imóvel gigantesco.

Mas Dimitri não voltou para casa naquele dia e nem nos posteriores, sequer lembrou-se que tinha uma, estava obcecado por notícias da missão de Edmund. Para seu desespero, passou-se quatro dias e nada, ele sentia-se grato por Leon não ter voltado, como o esperado, e quase mandava alguém procurar pela pequena equipe do major quando ele reapareceu, privado de qualquer novidade, somente com a certeza de que o destacamento não ultrapassou os limites da cidade e de que ninguém os viu. Dificultava o fato de as últimas moradias ficarem mais para o centro e as fronteiras daquele lado serem habitadas por barracões e depósitos abandonados.

— Certo... — disse Dimitri em uma calma anormal, sua frieza conseguiu ser mais inquietante do que seus gritos. — Então ouça o que aconteceu: o Ás de Paus capturou os nossos homens, você os encontrou, mortos, em campo aberto com a marca dele em toda parte, os enterrou e acabou de voltar com a triste notícia. Entendeu?

Edmund sentiu o estômago se contorcer, não havia como sustentar uma mentira como aquela.

— Senhor, eu gostaria de fazer uma busca nos arredores antes, há outras opções, outros caminhos pelos quais...

— Eu quero saber se você entendeu! — coagiu Dimitri.

— Entendi, mas insisto em explorar as opções. Existem muitas, inclusive a de estarem vivos.

— De fato, você não entendeu. Eu disse que eles foram assassinados pelo Ás de Paus.

— Não há vestígios disso. Nem de captura, nem mesmo de um pequeno combate. Não acredito que tenham sido assassinados e, se foram, não foi em local aberto.

Dimitri abriu um sorriso venenoso. — Sua teimosia o levará a lugares que não quer ir, major. E prometo que cuidarei para que sua esposa siga pelo mesmo caminho.

A garganta de Edmund secou, de repente, e Dimitri apoiou os cotovelos no tampo da mesa.

— Me diga, major Zinekolski, você encontrou ou não os nossos homens mortos pelas mãos do Ás de Paus?

— Eu...

— Responda, homem! — pressionou Dimitri.

Um arrepio gélido subiu pela coluna de Edmund e ele baixou a cabeça. — Sim — cedeu.

Dimitri levantou-se, exultante. — Planejei uma homenagem para eles, a melhor desde que o meu tio se tornou marechal. Esteja na Travessa dos Heróis esta tarde.

— A homenagem será hoje? — surpreendeu-se Edmund.

Dimitri pareceu nem ouvir. — Está cedo — constatou. — Só precisamos enviar o comunicado aos familiares e autorizar o desfile.

— Mas, senhor...

— Vá se preparar e chegue na cerimônia em luto.

Edmund ofegou, em silêncio.

— O que você disse? — forçou Dimitri.

— Está bem — desistiu Edmund.

— E aproveite para orientar os seus homens, não esqueça de quais cabeças irão rolar se não contarmos a mesma história.

O major saiu com o coração aos saltos. Dimitri o arrastou para a bolha corrupta de insanidades dele e não existia um meio de escapar; era certo que ele planejou tudo, não havia possibilidade Dimitri estar com um tributo daquele porte preparado se não o estivesse planejando há dias. Ele não esperava o retorno dos homens, nem queria uma solução real para o desaparecimento deles, só o deixou ir ao local para criar uma testemunha que confirmasse sua frágil mentira e ficasse preso a ela.

A tarde se iniciava quando pousou o avião em que Leon retornava. Ele se esgueirou pelo portão de desembarque, desviando das câmeras, por hábito, rumo ao banheiro mais próximo e saiu de lá vestido como um civil do segundo anel, de chapéu e óculos escuros. Depois entrou no carro que deixou a sua espera, o veículo grafite padronizado dos militares residentes do segundo anel e dos trabalhadores que atendiam as necessidades do primeiro anel.

Zunik jamais permitiria um veículo que atentasse contra a beleza fria do centro da cidade, e, quando necessário, os trabalhadores da região precisavam adquirir o carro aprovado, ainda que seus salários não comportassem a compra. Uma obrigação que os privilegiados escolhidos para os melhores empregos, com a oportunidade de uma casa no segundo anel e uma escola para alfabetização básica, não se recusavam a cumprir nem que acarretasse privações severas.

Leon usava o disfarce sempre que a necessidade o obrigava, ele preparou o veículo para Ilde, apesar da aparência barata e antiga, tinha blindagem, vidros de privacidade e motor aperfeiçoado, na eventualidade de ela precisar se locomover incógnita e protegida, contudo, vinha se adequando bem a ele. Para o que precisava fazer era necessário sigilo, principalmente do exército ao qual servia.

Ele deixou as dependências do aeroporto rápido e entrou no segundo anel, como planejou, não como deveria. Seguiu apressado dentro do bairro e parou diante de uma das casas típicas da região, idêntica às das incontáveis vizinhas dispostas lado a lado. A fachada era de um imóvel comum, por dentro, no entanto, era adornada de mobília envernizada e decoração incompatíveis com os ganhos de um morador daquela parte da cidade. Se outro membro do exército ficasse sabendo do escritório secreto de seu advogado, provavelmente o homem seria preso e seus bens teriam sido confiscados.

Leon saltou do carro após rápida verificação nos arredores, munido da documentação guardada no interior do veículo quando o deixou no estacionamento do aeroporto um dia antes de viajar com o marechal. Era perigoso, ele sabia, mas não podia arriscar ir à sua casa buscar aqueles papeis, Ilde faria perguntas, outras pessoas o veriam e não queria mais gente sabendo que já estava na cidade.

Ele subiu as escadas a passos ligeiros e nem precisou anunciar sua presença, a porta foi aberta enquanto se dirigia a ela, por um homem alto, grisalho, usando terno alinhado.

— Boa tarde, Philip — cumprimentou Leon ao passar.

— Boa tarde — respondeu o homem e fechou a porta. — Sua pontualidade me espanta, nunca falha.

— Dessa vez quase falhou, o voo atrasou um pouco.

— Vamos à minha sala. Trouxe os documentos que faltavam?

— Estão aqui — respondeu Leon e entregou a pasta ao homem.

— Você não devia usar uma pasta militar para vir aqui, ela chama atenção nas mãos de um civil, por meio dela vão olhar para você e reconhecê-lo.

— Eu sei, tive que guardar a documentação às pressas, e não tinha outra à disposição.

— Leve algumas das minhas para que não tenha de passar por isso cada vez que precisar me trazer informações.

— Será muito útil, considerando os últimos acontecimentos. Vou aproveitar o restante do dia de hoje e amanhã para coletar novos dados, antes que alguém saiba que estou na cidade.

Quando a solenidade começou, o major estava lá, cabisbaixo, com a esposa ao lado. Dimitri estreitou os olhos para ela, vestida com um tubinho escuro, colado ao corpo, um lenço de seda no pescoço, maquiagem marcante e lábios vermelhos, não passaria despercebida mesmo no meio de uma multidão e ele sacudiu a cabeça.

— Prostituta — pensou. — Esse moleque, mijão, é mole mesmo. Como deixa que a mulher saia desse jeito?”

E ele olhou para Edmund, bem arrumado, sério, taciturno e quieto, como ele queria que fosse, entretanto, aquela expressão era perigosa, ele entregaria a verdade a menor exigência e entendeu que tinha de fazer algo com ele. Refletia sobre isso quando a primeira descarga de fuzil o arrancou de seus pensamentos.

As honras foram feitas como mandava a tradição, contudo, sem corpos, sem féretros, malmente com uma bandeira demonstrativa para cada soldado e a presença de suas famílias alojadas em camarotes à direita daquele em que estavam ele e os demais oficiais superiores.

Dimitri tomou o cuidado de dar aos hipotéticos mortos honras de oficiais subalternos, ainda que mal passassem de recém alistados guiados por um cabo pouco mais velho, os homens que ele julgava descartáveis. Dimitri não queria desperdiçar energia realmente valorizando combatentes de tão baixa escala, ele queria ostentar o seu poder e, com isso, sepultar de uma vez por todas aquele assunto.

O préstito passou lento e o prazer resplandecia no rosto do coronel exaltado, não só como o líder maior em exercício no momento, mas como um herói que voltou vivo da missão onde todos terminaram mortos. Ele não sorria, apenas olhava de cima, com o queixo alto e o peito estufado, por vezes gesticulava auto endeusado para quem tinha de olhar para ele. E, ao terminar o evento, se demorou, para observar as pessoas obrigadas a ficarem, uma vez que ninguém poderia sair antes do líder. Ele sempre quis fazer aquilo.

Edmund foi o primeiro a ir embora tão logo teve a oportunidade. Queria ser esquecido, mas, assim que a noite chegou, recebeu uma notificação de Dimitri, ordenando que ele fosse imediatamente ao porta-aviões R-801, investigar uma tentativa de invasão cibernética.

— Como assim, vai para um porta-aviões? — questionou Sônia. — A marinha tem milhares de pessoas capacitadas para fazer um serviço tão simples.

— Viu quem deu a ordem? — perguntou Edmund.

Sônia observou a assinatura nítida de Dimitri. Quando pegou o documento das mãos do marido, precisou ler apenas as primeiras linhas para entender do que se tratava e ficou tão possessa que não olhou de quem partiu a ordem e assim tudo ficou claro.

— Ele quer calar você.

— Sim.

— Então não vá. Vai ser perda de tempo de qualquer jeito, não precisa ninguém falar para que a farsa venha à tona, seria muito mais crível se ele dissesse que você achou indícios, até de que o destacamento foi morto mesmo, indícios desaparecem com a ação da natureza, corpos enterrados não. É bem possível que alguém seja enviado para resgatar estes corpos.

— É do Dimitri que estamos falando, pensar não é o forte dele. Além disso, ele não poderia ter uma solenidade como marechal sem morte supostamente comprovada. Não é?

— Idiota! Vadio! O forte dele é ser preguiçoso.

— Mesmo assim não posso descumprir uma ordem, ainda mais esta, você sabe.

— Eu sei, mas não aceito.

Edmund sorriu com ternura. — Não se preocupe, com sorte eu descubro rápido que não existe problema e volto. O coronel só quer mostrar o que pode me acontecer se eu não ficar de boca fechada, e duvido que vão continuar lembrando desses coitados por muito tempo. Só estou indo por prevenção.

Sônia não tinha tanta certeza disso, a única coisa que confiava em Dimitri é que ele jogaria a culpa em Edmund quando descobrissem que não havia corpo algum, e temia pelo marido mais do que já temeu em toda a vida. Infelizmente sabia que nada impediria Edmund de ir para tentar apaziguar logo os receios do coronel.

No dia seguinte, pouco se falava no primeiro batalhão, uma tensão dolorosa pairava sobre os soldados e o coronel achou aquilo estranhamente prazeroso. Teve um dia pleno, leve, sem muito trabalho, da maneira como gostava.

À noite ele foi para casa, de bom humor, assobiando, Danielle se arrepiou ao ouvi-lo chegar assim, a animação do esposo tinha potencial para ser pior do que sua rabugice.

— Chegou cedo — ela disse. — Ainda não terminei de arrumar a mesa.

— Não tem problema, eu espero — ele respondeu, e o coração da moça ribombou, ela receou até que o marido pudesse ouvir.

— Eu queria que estivesse quente quando você chegasse e deixei um pouco mais na cozinha.

— Já disse que não tem problema, sirva logo!

Ele sentou-se à mesa, na cabeceira como o rei da casa, pensando em como faria para manter os homens tão dóceis como naquele dia, planejava fazer disso o seu novo método de trabalho.

— Terei que sair essa noite, dormirei no quartel.

Comunicou Dimitri quando viu a esposa reentrar na sala de jantar e Danielle sentiu todos os músculos relaxarem de uma só vez, ele não planejava dormir com ela, e as desculpas que estava formulando para impedi-lo de se aproximar poderiam ficar guardadas para a próxima vez.

— Algo grave?

— Nada que seja da sua conta.

— Me perdoe.

— Tenho que terminar o relatório sobre a perda do nosso destacamento — ele decidiu explicar.

Danielle franziu a testa. — Foi mesmo o Ás de Paus quem fez isso?

— Foi. Por que?

— Tenho medo dele — ela esclareceu, unicamente para estabelecer uma conexão com Dimitri e mantê-lo calmo com ela. Mas, a verdade é que não temia tanto assim. Logo que o Ás de Paus surgiu, teve pesadelos com um homem horrível, enorme, destruindo tudo com fogo, porém os pesadelos cessaram quando percebeu o sofrimento que o terrorista causava em Dimitri e passou a se sentir realizada sempre que ele fazia com o marido o que ela não podia fazer.

— Nós o pegaremos, não se preocupe — asseverou Dimitri.

Danielle virou-se e foi buscar outra travessa, uma com almôndegas, muitas apenas para os dois. Se o coronel soubesse o que ela fazia com a comida que sobrava, quebraria os seus dedos outra vez.

Há muitos anos, Danielle flagrou uma empregada separando parte da comida excedente de maneira limpa demais para quem estivesse destinando ao lixo. A mulher se assustou e implorou para que ela não a delatasse, mas Danielle nem pensou nisso, ela sentou e ouviu a sua história. Ficou sabendo dessa forma que a funcionária não pegava para ela, pois não era afligida por grandes necessidades, mas que havia muitas pessoas no segundo e terceiro anel que eram. Que a fome existia e não morava longe.

Em vez de entregar a senhora às autoridades, Danielle começou a comprar e preparar o dobro de comida para que ela pudesse levar à um grupo maior de pessoas, isso aliviou parte do ódio que tinha pela arte de cozinhar e trouxe a sensação de uma pequena liberdade, a primeira decisão que tomou sozinha depois de conhecer Dimitri, o que deu a mais prazerosa excitação da rebeldia contra o marido, mesmo que ele nunca soubesse.

Os dois comeram em silêncio, em seguida Dimitri subiu, tomou um longo banho, cobriu-se de óleo pós banho, depois de creme hidratante, ajeitou meticulosamente os cabelos e perfumou-se. Danielle sabia que ele não voltaria para o trabalho, tampouco que dormiria no quartel, não entendia por que ele se preocupava em mentir para ela, mas assim estava bom e arrumou a sala de jantar com mais tranquilidade. Um dia desejava conhecer este lugar para agradecer ao dono por deixá-la livre dele.

Edmund não queria perder tempo, por isso arrumou as malas assim que recebeu a notificação de Dimitri e viajou ao amanhecer do novo dia. Mas foi recebido com surpresa na Base Naval 5, de onde seguiria para o porta-aviões. Ninguém o esperava, sequer sabiam de sua vinda, nem mesmo a chegada do voo era esperada, só souberam dele quando o piloto pediu permissão para pousar. Quem não ficou surpreso foi Edmund, aquilo confirmava a sua certeza de que veio porque Dimitri o queria longe.

Apesar de o major não ser esperado, teve a sorte de encontrar um helicóptero prestes a sair e pegou carona nele, enquanto o comandante responsável pela base comunicava ao diligente do porta-aviões sobre a sua chegada. Esse sim o esperava.

O rapaz nunca esteve em um porta-aviões e não conseguiu ocultar o deslumbre que a visão lhe causou. O capitão Bespalez o recebeu na plataforma, o conduziu ao departamento de segurança, na entrada da ilha de comando, depois ao setor de informática e ali o deixou sem mostrar um gesto de gentileza, mas Edmund não almejava hospitalidade, almejava resolver o que tinha de resolver e voltar para casa.

O capitão Andrey Bespalez, comandante do porta-aviões e partidário ferrenho de Dimitri, era um homem que pouco se importava em seguir as regras devidas, Dimitri usou o seu poder para colocá-lo lá e o mesmo poder para mantê-lo lá, indiferente de como se comportasse, desde que continuasse fiel a ele.

Foi por isso que Dimitri quis Edmund naquele porta-aviões, localizado no atlântico sul, o mais distante da capital e onde a comunicação já era complicada antes de ter sido roubada pelo Ás de Paus, agora havia se tornado quase impossível. Dimitri esperava que uma temporada no mar, tão longe e sozinho, exposto aos revezes da natureza e vigiado por um de seus mais leais subordinados o convencesse a ficar quieto para sempre.

Alheio ao alcance das tramoias das quais era vítima, Edmund trabalhou incansavelmente em frente ao computador, e precisou apenas disso para confirmar que não houve nenhum problema externo no porta-aviões, pelo contrário, todos os problemas eram internos, e identificou tantos que não sabia como a embarcação ainda flutuava, assim pensou que talvez as falhas pudessem ter gerado a ilusão de uma tentativa de invasão cibernética e que sua conclusão de que Dimitri o tivesse enganado pudesse ter sido precipitada, por mais conveniente que fosse.

Mesmo sendo um serviço fácil, Edmund gostava de ser minucioso e, após a verificação manual, conectou o seu computador portátil e o programou para fazer uma varredura completa no sistema operacional do porta-aviões. Ele passou anos projetando aquele aparelho para que invadisse, reconhecesse e simplificasse qualquer sistema existente, inclusive facilitasse a decodificação de senhas.

Queria aperfeiçoá-lo para que fizesse parte do equipamento militar padrão, mas a necessidade de um fio para ligá-lo às máquinas ainda o incomodava, e a velocidade o tirava do sério; sozinho ele levou dois dias para desvendar os problemas do navio, o aparelho deveria levar poucas horas, mas precisou da noite inteira e mais meio-dia para fazer a sondagem completa. Embora a modificação que visse maior urgência fosse no nome que deu, não acreditava que os soldados iriam querer chamar de “Palm Toot”, sobretudo se soubessem que “Toot” era o nome do seu cãozinho e melhor amigo na infância.

Quando o dispositivo concluiu o exame, Edmund saiu à procura de Bespalez e procurou por um bom tempo, o homem não estava em seu escritório, não estava no dormitório, nem no Centro de Controle ou refeitório, o encontrou uma hora mais tarde, voltando da plataforma de pouso e decolagem.

— Tenho boas notícias — Edmund disse ao capitão, assim que ele atingiu o alcance de sua voz. — Não houve nenhum ataque hacker, o problema está no sistema eletrônico do porta-aviões.

— O que você projetou?

— A única coisa que projetei aqui foi o sistema de segurança e ele também já está defasado, aliás.

— Então você quer dizer que não houve qualquer ataque externo ao porta-aviões? — perguntou Bespalez.

— Foi exatamente o que eu disse.

— E o que causou o defeito no sistema eletrônico?

— Acho que a rede muito velha, ela nunca foi atualizada até onde vi.

— Então atualize.

— Não é tão simples. Para atualizar, seria necessário atracar e fazer pedido de uma grande quantidade de... de tudo. Levaria meses para fazer este serviço.

Bespalez riu. — Vou falar com o coronel Novakohut, mas duvido que ele irá permitir que atraquemos.

— Creio que o contra-almirante da esquadra vá compreender melhor a situação.

— O coronel representa o marechal e quem manda nesse país é ele.

Edmund comprimiu os lábios, tinha acabado de conhecer aquele homem e já não gostava dele, e nem era por sua gritante falta de respeito, estava acostumado a ser desrespeitado por ser jovem demais para a patente que carregava. Não gostava dele por sua arrogância e desinteresse em resolver qualquer coisa, ele não atendeu a nenhum de seus pedidos. Na maior parte do tempo fingia nem ouvi-lo, tão parecido com Dimitri que o repugnava.

A realidade era que o comandante não estava feliz com Edmund fuçando em tudo, não pensava que ele seria minucioso, nem que investigaria tão a fundo ou que descobrisse tão rápido que nunca houve ataque algum. Era perigoso ter alguém assim por ali, ele poderia decifrar mais do que a farsa que o trouxe ao porta-aviões.

— Então diga ao coronel que já cumpri as minhas ordens e que estou pronto para voltar. Ou melhor, diga que não preciso estar longe para entender as minhas obrigações.

O capitão o encarou, impaciente e cheio de vontade de responder que não daria recado algum, porém, simplesmente assentiu, dissimulado.

— Eu mencionarei quando falar com o coronel. Até lá, arrume o que puder.

— Não posso garantir que melhorarei muita coisa.

Mas Bespalez o ignorou e retornou a seu caminho.

Edmund voltou para a central de informática, linda, ampla, com uma vista de trezentos e sessenta graus de tirar o fôlego, literalmente para quem não era habituado ao mar infinito visto através de paredes de vidro, um tanto desesperador para quem precisava ficar ali todos os dias de meses e anos, Edmund ficou quatro dias e já estava enlouquecendo, durante o período em que aguardou o término da varredura virtual do porta-aviões pensou em solicitar uma troca dos vidros por paredes normais ou pelo menos cortinas grossas para proteger a aparelhagem da agressão do sol.

Mas, naquele momento, foi para lá com o pensamento fixo em ir embora, ter que ficar naquela sala, olhando a água, equivalia quase uma tortura, porém, se tinha que esperar, seria trabalhando. E, em mais algumas horas, ele percebeu que dava para fazer algumas melhorias, poucas, mas suficientes para que o navio tivesse o mínimo de funcionalidade até que pudesse ser renovado e se esqueceu da vidraça. Ele não sabia como a embarcação era operativa com aquele sistema, demorou para começar a apresentar falhas.

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