Ofidiário
Quando Verbena chegou em casa, naquela tarde, encontrou um belo carro na frente de seu portão, um suntuoso Vulcano, grande como um touro, blindado como um cofre, em tons de marrom e com uma cobra cromada, de vinte centímetros, cravada na lateral esquerda da traseira. Elegante, luxuoso e poderoso. Ela só tinha lido sobre ele, não esperava que fosse tão bonito.
— Esse é o carro particular do marechal — falou Adam, estacionando na entrada da casa.
— Por que será que ele está aqui?
— Não faço ideia.
O motorista estava em pé ao lado do veículo e foi até eles antes mesmo de vê-los parar.
— Boa noite! O marechal solicita a presença da senhorita Koch na residência dele — o homem falou, sério e carrancudo, depois abriu a porta do carro para que ela saísse, uma gentileza calculada para mostrar que a moça não tinha opção.
— Agora? — ela questionou. — Mas não estou apresentável para ver o marechal.
— Agora!
— Eu posso levá-la... — tentou dizer Adam.
— Só ela! — cortou o homem.
— Tudo bem — falou Verbena. — Senhor Molls, posso deixar meus materiais escolares aqui no carro?
— É claro! O carro é seu para que faça o que quiser.
Verbena sorriu para ele, se virou e foi para o carro do marechal. O motorista abriu a porta traseira e a bateu com firmeza assim que ela entrou, deu a volta, posicionou-se atrás do volante e acionou todas as trancas. A visão causou calafrios contínuos em Adam, ele não foi capaz de evitar a sensação de que não a veria mais.
O automóvel do marechal era ainda mais deslumbrante por dentro, intimidante também, e Verbena analisou os detalhes dele, desejosa. No entanto, ela sabia que não poderia ter um igual, ele era único, feito para o marechal Zunik e ninguém mais poderia adquirir sequer um parecido em todo o território nacional, havia até uma lei exclusiva para ele, suas cores e seu designer. Para afastar a cobiça, ela observou a estrada, vendo com alegria as últimas câmeras das ruas no decurso de troca como ela sugeriu, Verbena gostava da agilidade com que os serviços exigidos pelo marechal eram feitos.
A casa de Zunik não era menos fascinante: um palacete antecedido por sebe podada em labirinto. Fazia anos que Verbena não via uma obra como aquela. Quem cuidava da manutenção dos jardins devia ser perfeccionista ao extremo, pois tudo estava disposto em ângulos milimetricamente cultivados. Verbena achou bonito e previsível.
O motorista estacionou em frente a escadaria da entrada, liberou as travas e abriu a porta para que a professora saísse.
Verbena levantou os olhos na direção da casa, as escadas levavam a um agradável espaço com um jogo de mesa e cadeiras em metal branco retorcido, a porta dupla era alta e ornada da soleira ao batente superior e além, agigantando a aparência do portal. Uma delas abriu quando ela se aproximou e deixou visível um mordomo alinhado como mandaria os protocolos reais de um reinado qualquer.
— Entre, senhorita, o marechal a espera na biblioteca — falou o homem.
— Obrigada — respondeu Verbena e entrou, o mordomo não respondeu, em vez disso, a olhou com antipatia, depois virou-se e caminhou rápido para o que ela supôs ser a biblioteca.
Ela o seguiu por entre as artes de valor incalculável, presas nas paredes e sobre aparadores, os despojos das conquistas territoriais da família Novakohut. Era impossível não admirar o gosto do marechal.
Verbena apreciava uma escultura quando o mordomo empurrou a porta de madeira grossa, envernizada com zelo, da biblioteca — outra obra de arte por si só — e a esperou com notável impaciência.
— Senhorita Koch! — ela ouviu Zunik dizer e ele apareceu na porta em seguida. — Por favor, entre.
Verbena sorriu. — Senhor, obrigada pelo convite e me desculpe pelos trajes, fui trazida praticamente direto da escola.
— Então sou eu quem pede desculpas. A senhorita não foi bem tratada?
— Oh... Fui sim, não se preocupe. Apenas gostaria de estar vestida a altura do encontro.
— Venha, quero que conheça a minha biblioteca, creio que lhe agradará bastante.
Ela caminhou com Zunik para o interior da biblioteca e suspirou ao se deparar com a grandiosidade do lugar, o cheiro inconfundível dos livros tomava conta do ambiente e seus olhos percorreram as lombadas que jamais conseguiria contabilizar em um olhar.
— É belíssima!
— Eu a mantenho bem abastecida, mesmo sem muito tempo para ficar nela.
— O senhor deseja que eu faça algum trabalho com os livros?
— Não! Nada disso! Caminhe comigo, senhorita Koch, vou apresentar os meus tesouros enquanto conta como se sente depois do que aconteceu na escola.
— O senhor fala da prisão do capitão Ziger ou dos livros proibidos?
— Os dois.
Zunik a conduziu para os fundos da biblioteca e, antes de sair, o mordomo fez questão de mostrar um riso maldoso quando ela olhou para ele.
— Eu me sinto assustada... — Verbena começou a dizer, voltando-se ao marechal com a angústia estampada em cada centímetro de seu rosto — O Ás de Paus me assombra. Mas eu me sentia segura na escola, com os muros altos e a presença forte do capitão Ziger, agora tenho a sensação de que vou encontrar aquele terrorista horrível em cada corredor que entro. Imaginar que talvez o capitão Ziger trabalhe para... Não, eu não consigo pensar nisso.
A mera menção de alguém causar mais medo em uma pessoa do que a figura do marechal fez revirar as entranhas de Zunik.
— Ah, pode ficar tranquila quanto a isso. O Zig não trabalha para o Ás de Paus, ele não é muito inteligente, mas a pouca inteligência que tem, conhece as consequências de me trair. Isso é coisa de gente mais engenhosa ou que pensa ser mais engenhosa.
Nesse momento, Zunik abriu uma das portas adjacentes da biblioteca. Ainda não a tinham atravessado, mas ele já sorria na ânsia de mostrar os seus mais adorados bens. Verbena passou, também sorrindo para ele, e caminhava alguns passos dentro da sala quando se deu conta de onde estava. A opressão da temperatura elevada a envolveu ao mesmo tempo em que avistou os terrários alinhados lado a lado nas paredes, como imensos quadros de vidro contendo moradoras vivas.
Ali havia uma coleção ostensiva de serpentes, de diversos tamanhos, formatos e cores. Verbena deu um passo para traz, mas não conseguiu completá-lo antes de suas costas se chocarem contra o peito de Zunik.
— O que foi, professora? Não gosta de cobras?
— Eu... — gaguejou Verbena. — Eu não sou acostumada com elas. Apareciam algumas na fazenda, mas eu não fazia serviço braçal, por isso não as via.
— Essas não são como as da fazenda do seu pai. Me deixe mostrar.
E ele se dispôs ao lado dela com a mão espalmada entre suas escápulas. Verbena percebeu a mudança de tratamento, ele a chamou de professora, não de senhorita, e a leve pressão em suas costas para que fosse onde ele queria não deixava dúvidas de que não estava em posição de contrariá-lo, tudo o que podia fazer era seguir em frente.
— Essa é a Dispholidus typus — ele explicou para impressioná-la. — Muito rara, já foi abundante em partes da África, hoje existem poucas no mundo. O veneno dela é uma obra prima da natureza, uma toxina que inibe a capacidade de o sangue coagular, mata com hemorragias intensas como se estivesse derretendo por dentro. Linda, não acha?
A serpente, de um verde intenso, descansava sobre o galho seco de uma árvore morta, colocada para ela no amplo terrário. Era inegavelmente bonita, suas escamas refletiam as luzes das lâmpadas internas.
— Sim... É linda — concordou Verbena.
— Também é conhecida como Boomslang. Eu queria que meu carro se chamasse assim.
— Por que não se chama?
— Porque essa espécie é muito boazinha, só ataca para se defender.
E Zunik a conduziu ao próximo terrário.
— Aqui está uma que não é tão boazinha. A Dendroaspis polylepis, a temida Mamba Negra, ela não é tão rara ou bonita como a sua vizinha, mas é letal de maneira incomparável com a maioria das outras, não há como fugir dela, é uma mocinha rápida, forte, ágil, ataca com precisão, inúmeras vezes se achar necessário, e seu veneno apaga o sistema nervoso, causando paralisia, convulsões e morte dolorosa. — Por um momento Zunik esqueceu de Verbena e colocou a mão no vidro, em êxtase, imediatamente o animal se ergueu um metro do chão, expondo a boca escura, e seu sibilo incomodou as companheiras.
Verbena tinha o olhar fixo naquela boca ameaçadora, seduzida pelo leve balanço da serpente. A resposta sonora das víboras vizinhas arrepiou a pele dela em uma mistura de admiração e horror.
— Muito bem, minha menina! — ele disse para a cobra. — O bote dela alcança grande distância e ela consegue rastejar a uma velocidade de quase vinte quilômetros por hora, se você for um alvo, não há escapatória.
Ele a impeliu adiante, devagar, a passos deliberados. Passaram por uma serpente completamente azul, que hipnotizou Verbena com sua beleza singular, outra amarela ouro, com escamas que mimetizavam espinhos e pararam em frente a uma que arrancou suspiros da professora. Suas escamas eram multicoloridas e, mesmo enrolada como estava, era enorme perto das anteriores.
— Essa bebezinha aqui é uma Jiboia arco-íris, filha da nossa pátria. Não tem veneno, mas é mortal também, mata por contrição. Sabe o que isso significa?
— Ela aperta até que a presa sufoque.
— É claro que você sabe, que pergunta tola a minha.
E continuaram até o maior terrário do lugar. Ele continha uma gigante, sua cabeça superava facilmente a extensão dos ombros de Verbena. Uma colina enrolada em si mesma no canto oposto do cativeiro, imóvel em pleno sono.
Comparada às demais, Verbena achou aquela feia, a pele era esverdeada ou amarronzada, ela não conseguiu discernir de onde estava, com círculos escuros, parecia encardida, não refletia as luzes internas ou externas do ambiente, nem tinha cores atípicas, mas era igualmente magnífica e mortal, e a moça se encolheu na direção de Zunik. Isso o satisfez e, com um sorriso, ele apresentou sua inestimável aquisição:
— Aqui está uma das minhas prediletas. Eunectes murinus, conhecida como Sucuri, outra conterrânea. Não se engane por sua quietude e aparência, ela é rápida também e costuma ficar imóvel por horas para que suas presas não a percebam. É extremamente forte, o que torna quase impossível fugir do aperto dela, isso se ela não quebrar o pescoço da vítima no bote. Não sei se todas, dessa espécie, atacam direto na cabeça, mas essa ataca e é capaz de engolir alguém do meu tamanho. — E ele olhou para Verbena — Alguém do seu tamanho seria um petisco para ela.
Os olhos de Verbena se arregalaram, fixos naquele espécime descomunal.
— Então, professora Koch. Como aqueles livros foram parar nas mãos dos alunos?
Verbena virou-se para ele. — Senhor... Me permite falar honestamente? — perguntou hesitante.
— Eu exijo a sua honestidade.
Verbena olhou para o fundo dos olhos de Zunik, o coração retumbava e a adrenalina explodia em suas veias. Aquele homem era tudo o que enxergava.
— As serpentes me apavoram, mas não tenho medo do senhor — ela disse. E, a exemplo das cobras, Zunik estendeu a coluna, inflou o peito e alargou os ombros. — Você, marechal, eu venero! Mais do que tudo nessa terra e me sinto protegida ao seu lado.
A boca da professora ameaçou um sorriso, atraindo a atenção confusa de Zunik para os seus lábios. Eles não estavam trêmulos, permaneciam corados e mal continham a curva de prazer saudoso ao falar. Em algum momento, do passeio, ela perdeu o medo que expôs na chegada.
— Quando eu era adolescente — ela continuou —, tinha até um pôster seu no meu quarto, para o qual recitava o juramento todos os dias, fantasiando em vê-lo mesmo que de longe. E, quando fui para a Europa, conheci os contos de fadas...
A moça desviou o olhar, envergonhada.
— Prossiga!
— Eu imaginava o senhor como... Perdão, estou ultrapassando o limite. É que nunca pensei, nem nos meus sonhos mais generosos, que um dia encontraria o senhor, de verdade, que ficaria tão perto... E vir a sua casa? Ah, isso era inimaginável.
— Por quê?
— Porque o senhor é quase um Deus e eu não ignoro a deficiência dos meus genes. Triste vida a minha, amar com tanto fervor o meu líder e a natureza ter me feito a tão grande distância dele... Agora, ver os animais poderosos que coleciona, me faz admirá-lo mais do que eu supunha ser possível. Então, senhor, a maior honra da minha vida está acontecendo agora, a minha vontade é a sua vontade. Se eu soubesse como aqueles livros foram parar lá, eu já teria dito só para fazê-lo feliz. Mas, se assim mesmo, o seu desejo for que eu sirva de alimento para uma de suas serpentes, eu servirei feliz, porque o senhor já me deu o maior presente que eu poderia receber.
Zunik a observou por um instante, depois a analisou com cautela. Os olhos de Verbena, presos aos dele, transbordavam paixão em uma devoção que nunca viu nem nos seguidores mais fervorosos. Eles o seguiam por medo; ela, por desejo. Reprimia, com nítido esforço, o ímpeto que a etiqueta obrigava a conter. Mas havia algo mais... Algo por trás da paixão.
— O que você quer, senhorita Koch?
— Além de servi-lo?
— Sim. Esta é uma curiosidade que me persegue desde que chegou. Agora é a hora de me contar a sua motivação.
Verbena o encarou por breves segundos e hesitou, com os lábios congelados na resposta que parecia queimar para sair. Zunik a viu retrair-se. os olhos se desviarem, lentos, para a serpente, tentando encontrar nela as palavras que não queria dizer.
Ele havia encontrado o ponto fraco da professora, mais aterrorizante do que as cobras que usou para intimidá-la, e o silêncio se alongou, pesado, cada gesto custoso para Verbena como uma sentença. Zunik notou que ela evitava, com esforço quase doloroso, retornar o olhar para ele, a resposta devia ser um segredo que a consumia como veneno. E o prazer cruel de ser o único capaz de arrancá-lo dela fez a adrenalina rugir em suas veias.
— Tem uma coisa... — disse ela.
— Diga o que!
— Cura. — E ela se voltou ao rosto agora confuso de Zunik. — Soube, alguns anos atrás, que as pesquisas no campo da cura da minha condição estão em fase final aqui em Novanação, por isso decidi voltar para cá. Agora desejo com ainda mais fervor.
— O que mudou para que você queira com mais fervor?
— Pensei que fosse óbvio.
Zunik a analisou por mais um instante, a mensagem foi clara e aquele olhar não dava espaço para equívocos. Como não percebeu antes? Ela não sentia amor devoto como ele pensou. Ela sentia amor verdadeiro. Verbena estava apaixonada por ele. E relaxou, contente. Era uma satisfação inebriante ter em suas mãos alguém tão incondicionalmente arrebatada, e a repentina percepção da imensa oportunidade que tinha tomou conta de sua mente.
— Faria qualquer coisa pela cura?
— Sim.
— E faria qualquer coisa por mim?
— Sem sombra de dúvida.
Zunik sorriu. — Você é muito especial, minha querida. E, ao mesmo tempo tão frágil, tão sozinha no mundo. Sem mim você não terá ninguém. — As sobrancelhas de Verbena se arquearam angustiadas. — Talvez a natureza tenha dado a você suas deficiências de gênero e hereditariedade para que me ajude a tornar esse país grande — ele continuou. — Por isso não posso lhe dar a cura agora, mas prometo que terá assim que alcançarmos os nossos objetivos.
Verbena ofegou. — Então as pesquisas não estão em fase final. Elas já foram concluídas. Há uma cura!
— Sim — mentiu Zunik com extrema satisfação. — Você só terá de esperar mais um pouco.
— Eu esperarei o tempo que for necessário.
Zunik alargou o sorriso. — Você veio a mim no momento certo. Exatamente como é porque era assim que eu precisava que fosse; e percebo agora que é valiosa demais para ser perdida tão cedo. Não se tornará alimento para as minhas princesas, elas nem comem mais seres humanos. Dá muito trabalho, tenho que deixá-los nus primeiro porque elas odeiam roupas, e mesmo assim pessoas são péssimos alimentos. Descobri isso do pior jeito. A irmã dessa aí morreu quando deixei que comesse um traidor grande demais; ele devia ser mais sujo do que supus porque ela ficou tão doente que não conseguiu regurgitar o desgraçado. Não tive como salvá-la.
— São todas fêmeas?
— São — ele respondeu, condescendente. — No geral, fêmeas são maiores, mais bonitas e mais agressivas. No mundo das cobras, as fêmeas são superiores aos machos.
— É mesmo?
— É, sim. Me deixe mostrar a minha maior conquista. Algo tão raro quanto a senhorita.
E Zunik ofereceu o braço para Verbena, que o aceitou com um sorriso radiante. Em seguida ele a conduziu para o lado oposto do salão. De longe ela não percebeu que o terrário central também continha uma cobra, olhava para as outras enquanto caminhavam, mas quando pararam e ela viu, ficou sem fôlego com a beleza da jiboia de escamas brancas como papel e olhos negros como ônix.
— Ela é única, sua ancestral foi encontrada aqui, em nossas terras há muito tempo, era única também e, por infelicidade, não era eterna. A linhagem dela foi garantida pela ciência, mas acabou roubada e traficada até desaparecer, mas a biogenética atual pode recriá-la quantas vezes quisermos, por isso só permiti a criação dessa para que ninguém mais possa tê-la e ninguém terá porque providenciei para que não sejam produzidas outras depois da minha morte. Como também não há um vivente que ousará roubá-la de mim, serei o único a possuir essa preciosidade, para sempre.
— Incrível! — suspirou Verbena.
— De fato.
— Eu não sabia que a nossa tecnologia em genética estava tão avançada assim.
— Está. O Ametista é pequeno, mas é o melhor Centro de Cura para pesquisas desse ramo, por isso mantenho o material genético dela lá.
Verbena olhou para o marechal. — Qual delas foi a inspiração para as cores da nossa bandeira nacional?
Zunik mostrou um riso animado, ele nunca escondeu que mudou as cores da bandeira nacional inspirado por uma cobra, ao contrário, ostentava a sua escolha com orgulho.
— Eu não tenho mais nenhuma Coral, mas há muitas no Topázio.
— Então fazem pesquisas desse tipo lá também?
— Fazem em todos os Centros, apenas os divido por espécie.
— Quando poderei conhecer um desses fascinantes Centros de Cura?
— Talvez você ainda não esteja preparada para conhecer os Centros, por inteiro, mas quando estiver, eu mesmo a levarei. Por ora, tenho outros planos para a senhorita.
E eles começaram a fazer o caminho de retorno à biblioteca.
Verbena sorriu vaidosa. — O senhor me permite saber que planos?
— Ah, você já sabe! A senhorita me ajudará a transformar esse país em uma potência mundial, porque sua presença ao meu lado convencerá cada líder de que não sou o que eles pensam e, com a sua habilidade de amansar as feras, eles me ouvirão.
— Mas, senhor, esse país já é uma potência, não vejo no que deva melhorar. A meu ver, o senhor pegou uma pátria infante, antes mesmo de sair das fraldas, e converteu em uma soberania sem igual. Fez do legado de seu distinto pai um império. E agora tenho confiança para dizer que, marechal, não é mais um título adequado.
— Eu restituí o cargo de marechal. Ele não existia mais.
— E o senhor o superou há anos. A Era Novakohut ganhou uma nova face sob seu comando, o que tornou o cargo baixo para designá-lo.
— E o que seria mais adequado?
— Imperador.
A testa de Zunik franziu, aquilo pareceu um exagero, porém, em um instante a sugestão ganhou a sua mente: primeiro coerente, depois aceitável, por fim cabível.
Verbena esperou que a ideia se assentasse na cabeça de Zunik e olhou para frente. — Esse é o seu legado, o senhor deixará um império, respeitado pelo mundo, para o seu sucessor — concluiu.
Lembrar de Dimitri fez os pensamentos de Zunik caírem da altitude em que voavam. Dimitri seria um péssimo líder, nem conseguia ser um soldado decente, ele só foi promovido porque seria uma vergonha para um homem como ele, ter como sobrinho e sucessor, alguém que sequer era capaz de obter uma promoção. O que ele conseguiria, com primor, era destruir tudo o que Zunik construiu.
— Senhorita Koch, você conhece o meu sobrinho, certo?
— Apenas um pouco, não tivemos a oportunidade de nos conhecer melhor.
— Bem... Ele não é exatamente o que se espera de um líder. A senhorita, como educadora, sabe como fazer dele um homem?
— Oh... Creio que não tenho essa capacidade.
Zunik esticou o braço para abrir a porta que dava na biblioteca. — Eu não sei mais o que faço com ele — disse, puxando a maçaneta e deixando Verbena passar, ela viu o mordomo antes que ele a visse e esperou que Zunik se pusesse a seu lado.
— Acho que não expressei adequadamente a minha admiração por sua biblioteca — ela desconversou. — Fico mais encantada a cada vez que olho.
Zunik compreendeu a mudança drástica de assunto e também olhou para o mordomo, os observando atônito. Ele não esperava vê-la de novo, ao menos não inteira, embora fizesse algum tempo que não presenciava o marechal usar as cobras como executoras, imaginou que ele fosse abrir uma exceção quando o viu levá-la para lá. Previa, no mínimo, ter de limpar a sujeira e se desfazer de partes dela, as serpentes sempre deixavam restar alguma coisa, dependendo da espécie, muita coisa.
O homem assustou-se ao ouvir o som da voz de Verbena e muito mais ao vê-la saindo daquela sala, viva, isenta de qualquer resquício de medo e beirando a felicidade, enquanto colocava o seu braço em volta do braço do marechal. De repente, não havia mais ar naquela imensa biblioteca e seu corpo parou no meio do movimento de organizar a escrivaninha, ainda com um livro na mão.
— Faça um chá para nós, Anísio! — ordenou Zunik, para afastar o homem de suas vistas, em seguida olhou para Verbena e colocou sua mão sobre a dela em seu antebraço, para maior assombro do mordomo. — A senhorita fica para o jantar?
— Será um prazer — respondeu Verbena.
E ele voltou-se ao mordomo. — Prepare o jantar para dois hoje — falou e o ignorou completamente, mal o vendo largar o que estava fazendo, para atravessar a ampla sala.
— Suponho que a senhorita já viu bibliotecas maiores.
— Vi. Mas não é só sobre tamanho, bibliotecas sempre geram encanto, não importa as dimensões. Uma vez passei quatro horas em uma, que, na verdade, era um caminhão baú transformado em biblioteca.
— Interessante.
— Sim, era um charme. Mesmo assim nem se comparava a essa, acho que a biblioteca da escola se beneficiaria muito com alguns desses exemplares.
— Fui informado de que a biblioteca da escola está fechada.
— Penso em pedir ao professor Glauber para reabri-la. Quero inundar as cabeças dos alunos com boa leitura, para que eles esqueçam das ruins às quais foram expostos.
— Ordene, não peça.
Verbena sorriu. — Obrigada, senhor, mas quero que gostem de mim, então prefiro pedir.
Foi a última coisa que o mordomo ouviu ao fechar a porta atrás de si e, testemunhar o marechal falando daquela maneira melosa com Verbena o atordoou. Lembrou do pai de Alexander Zunik, ele também o serviu no final da vida e imaginou que o homem daria um tiro na cabeça do filho se o visse naquele momento, contudo, não era de sua alçada questionar e foi cumprir a ordem recebida, enquanto preparava o seu psicológico para servir uma impura que causava nele todo tipo de repulsa.