Fortaleza de Vidro Ás de Paus · Capítulo 27 de 33
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Fortaleza de Vidro

Zunik saiu da sede do governo logo depois de Dimitri, ele havia mandado avisar Verbena que se preparasse para ir, com ele, à construção da nova sede. Queria exibir a obra pela qual dedicou grande parte de seus esforços e os mais opulentos recursos de que dispunha, uma maravilha arquitetônica livre de vizinhos em um raio de quatro quilometro.

— Boa tarde, senhorita Koch. Obrigada pela companhia — cumprimentou Zunik, quando ela entrou no carro dele.

— Que surpresa, senhor, pensei que o seu motorista me levaria a sede para encontrá-lo.

— Fiz questão de vir buscá-la. Ninguém apresentará o símbolo máximo do poder da nossa nação como eu.

— Do seu poder, se me permite dizer.

— Como?

— Não se prive de expor a realidade como ela é. O senhor é o poder dessa nação, então o prédio é símbolo do seu poder, aquele que inspira a todos nós.

O olhar de Verbena não deixava dúvidas em Zunik, ela acreditava naquilo, com todo o fervor, e sua mente viajou nas palavras dela, ele adorava a visão que a professora tinha dele. Foi por isso que Zunik quis ir com ela, para observá-la ver o prédio desde que começasse a discerni-lo, queria testemunhar o seu deslumbre e seu nítido amor por ele aumentar como quando apresentou o seu ofidiário a ela.

— Onde está o coronel? Ele não irá conosco? — perguntou Verbena, tirando Zunik de seu enlevo momentâneo.

— O Dimitri tem trabalho a fazer. A senhorita sabe como são as crianças, se ficarem ociosas fazem besteira.

Verbena sorriu, mas preferiu não responder e olhou pela janela. O prédio para onde se dirigiam era realmente grande, tão alto que podia ser visto de toda a cidade e toda cidade era visível para ele. Ela ficou observando-o, maior à medida que se aproximava, se tratava de uma formidável construção, de estrutura requintada e sólida.

— Lindo! — Verbena deixou escapar enquanto saía do carro com os olhos grudados no edifício.

Zunik sorriu, era aquele olhar de espanto e admiração que ele queria ver.

— Exigi que fosse — respondeu. — O país tem que olhar para isso e ver a potência que somos. O bom gosto que temos.

— Eu não sabia que tínhamos uma construtora que faz trabalhos desse tipo.

— Temos e não temos. Esta construtora é de um grande amigo meu, Salomão Ureaesh, ele é árabe e tem diversas empresas aqui.

— Árabe?

— Sim, conhece?

— Não! Não! Nunca ouvi falar de um árabe que se chame Salomão.

— É um grande empresário, tenho certeza que já foi informada sobre o Spa para mulheres que fica aqui no centro.

— Sim, estive lá. É um lugar muito agradável.

— Pertence a ele. Embora o Salomão nunca tenha vindo a este país, entende os meus gostos e temos uma ótima relação comercial.

— Como o conheceu?

— Em Ras al-Khaimah, já ouviu falar?

Verbena sorriu. — Recoima?

Zunik também sorriu. — Há algo que a senhorita não saiba?

Verbena baixou o olhar, envaidecida. Não pareceu notar que Zunik deixou de responder à sua pergunta. Ele jamais confessaria que só viu o bilionário investidor de longe uma vez e que falava apenas com algum dos advogados dele, raramente. Mas, venderia ao homem tudo o que ele quisesse, pois era óbvio que gostava de gastar, mesmo em frivolidades como um Spa feminino.

Zunik a levou, então, para dentro do prédio. Estava quase finalizado, os trabalhadores concluíam os últimos detalhes e mal os olharam. Verbena, por outro lado, observava tudo, o imenso andar térreo, cercado por vidraças, oferecia uma visão panorâmica do entorno em processo de estruturação até onde a vista alcançava. Operários remexiam a terra nos fundos e havia muito mais segurança ali, o contingente foi aumentando, quadra a quadra, na direção do edifício e perceberia ainda mais, divididos entre os andares acima.

— Já temos data para a inauguração? — ela perguntou, enquanto se movimentavam.

— Ainda não, a construção tem época para terminar, mas não data. O sumiço do major Zinekolski atrasou a instalação do sistema de segurança e, sem isso, não podemos inaugurar.

— Esse atraso pode ser bom, assim podemos fazer um evento inesquecível. Talvez transmitido, ao vivo, pela imprensa internacional.

O marechal a observou por um instante, pensou que ela não estivesse falando sério, mas estava, era nítido. Portar tamanha importância, que a inauguração da nova sede do governo teria transmissão garantida para o mundo inteiro era tudo o que Zunik desejava, seu nome ecoando por cada canto do planeta, carimbado na história até por algo trivial. Mas ele sabia, com tristeza, que ainda não tinha alcançado tal nível de poder.

— Não farei um grande evento, será algo intimista, só com os apoiadores e mandarei algumas notas para a imprensa internacional.

Verbena girava com o olhar para o alto no saguão, pouca coisa estava descoberta, mas dava para ver que o teto seria uma obra de arte. Porém parou o movimento, de súbito, ao ouvir a resposta do marechal.

— Por que, senhor?

— Não posso fazer disso um atrativo para o Ás de Paus dar seu show com plateia intercontinental.

— Ele não se atreveria! — soltou Verbena e recuou em seguida. — Perdão, senhor, é que a nova sede está tão bonita. É uma pena não mostrar a todas as pessoas que puderem ver.

— Imaginei que pensaria assim. No entanto, precisamos ter cautela, tivemos perdas imensuráveis pelas ações desse arruaceiro, mas nada como a última fábrica, aquela que foi arruinada no dia em que nos conhecemos. Apesar da distração que oferecemos aos investidores, não há como reparar a perda.

— Entendo... — E Verbena voltou-se à vista do saguão. — O senhor tem razão, conhece o país melhor do que eu, tem a experiência dos anos cuidando dele, se diz que o Ás de Paus oferece uma ameaça real, é prudente dar um passo atrás para nos resguardar. Não é vergonha se proteger.

Apesar do tom sonhador de Verbena, as suas palavras doeram e acenderam a chama do orgulho de Zunik. Para ele aquela ação era vergonha, sim. Havia tantas coisas em seus pensamentos nos últimos tempos que não se atentou para o fato de que estava se encolhendo, covarde, diante de um simples inimigo interno, pior ainda, diante daquele inimigo que o humilhou de todas as formas possíveis. Se Verbena, que o idolatrava, teve essa ideia, a população teria também.

— Os elevadores já funcionam? — perguntou Verbena, resgatando novamente Zunik de sua discussão interna.

— Ah... Sim. Vamos subir, quero mostrar a melhor parte disso tudo.

— Fica melhor?

Zunik mostrou um sorriso torto. — Fica, você vai ver.

Eles entraram no elevador principal, esse com a decoração descoberta. Verbena fez a subida em contemplação admirada da representação artística do teto e do interior, cada detalhe foi cuidado com afinco e ela pensava que seria triste danificar tudo aquilo, que o marechal realmente tinha razão em se prevenir tanto quanto pudesse.

O último andar cheirava a novo, a tinta, e a madeira recém cortada, graças a mistura das paredes, há pouco pintadas, com móveis nunca utilizados. A exemplo do salão térreo, as janelas tomavam conta de todas as paredes e as salas estavam preparadas para receber seus ocupantes, com as instalações elétricas em plena condição de uso, os computadores em seus devidos lugares, num espaço tão grande que caberia tranquilamente dois andares da atual sede do governo.

Alguns passos a direita ficava o corredor de acesso aos gabinetes dos líderes maiores, passaram indiferentes pelo de Dimitri, em frente ao de Leon, e foram direto à porta dupla de madeira maciça entalhada, brilhando a verniz polido, entre aos dois gabinetes, atrás da qual ficava o do marechal, suntuoso, clássico e, ao mesmo tempo, discreto. Ostentava elegância, poder e riqueza desde a entrada até o estofado recostado sob a vidraça ao fundo.

Não demoraram ali, Zunik estava ansioso para mostrar a sala que ficava no outro extremo do corredor e a conduziu a ela, depois empurrou a porta para revelar um escritório, grande como o dele, mas livre de decoração, além do quadro de Jesus Honório Koch, que costumava ficar na sala do general.

— Essa, senhorita Koch, é a sua sala. Não foi decorada para que você pudesse escolher a própria decoração, mas achei que gostaria do quadro do seu pai.

Verbena já sabia que o marechal não aceitava “não” como resposta, ele sequer costumava ouvir algum, portanto tinha ciência de que aquela não era uma oportunidade para dizer, tampouco que ele estava oferecendo tal opção. Por isso ela entrou na sala, admirando a extensão, depois parou o seu olhar no quadro.

— É maravilhoso!

— Presumo, então, que aceita.

— Só não sei se estou à altura de tamanha honra.

— Modéstia não combina com o seu status, senhorita Koch, e menospreza o seu sobrenome.

Verbena abriu um afável sorriso. — Muito obrigada — agradeceu e caminhou na direção do quadro do pai. O analisou por inteiro, em seguida tocou as pontas dos dedos em um dos cantos.

— Está precisando de retoque.

Zunik parou ao lado dela. — Precisa? Para mim está impecável. Aliás, seu pai tinha muito orgulho dessa pintura, ele acreditava que ninguém pinta como você.

— O senhor sabe quem pintou?

— Sim, ele contou que o Koch assinado era o seu no dia em que prendeu esse quadro na parede do escritório dele.

Verbena sorriu novamente, até seus olhos pareceram sorrir dessa vez. — Gostaria de pedir permissão para levá-lo à minha casa, onde posso fazer uma restauração adequada. Será por poucos dias, apenas o tempo de um retoque rápido, ele precisa ficar verdadeiramente impecável quando os trabalhos começarem aqui, o quadro tem que combinar com o restante da sede.

— É perfeccionista, senhorita Koch, eu tinha notado, mas não sabia que era tanto.

— Sou. Às vezes isso me atrasa um pouco, mas deixa tudo na harmonia que agrada.

— Pode fazer o que quiser com a tela, ela é sua.

— Creio que agora é do general atual.

— Foi o Leon quem colocou a pintura aí, ele disse que seria bom ter uma visão familiar quando você chegasse.

— Vou agradecer a ele hoje mesmo.

Foi a primeira coisa que Verbena fez ao chegar em casa. Ligou para a casa de Leon, mas o telefone estava ocupado e esbravejou baixinho a falta de fontes de mensagens instantânea, tinha ficado mal-acostumada com elas antes de voltar ao país e optou por falar pessoalmente com Leon no dia seguinte.

A pressa de Dimitri ao deixar a casa de Leon e Ilde não deixou espaço nem para receber resposta a sua despedida, e Leon olhou para Ilde em plena compreensão de sua intenção ao mentir que faria uma visita à Danielle. Ela sorriu e foi para a sala, onde ficava o telefone, pretendia alertar a amiga da aproximação do marido e de seu estado de humor para que ela pudesse se prevenir.

Danielle atendeu ao segundo toque e Ilde informou rápido, tanto sobre Dimitri quanto sobre a mentira que contou a ele, a casa do casal era perto o bastante para que Dimitri chegasse antes de terminar a ligação, se ela se prolongasse.

— Me ligue assim que ele sair para eu saber que você está bem.

— Vou ligar, não se preocupe — respondeu Danielle.

— Se cuide e até mais tarde.

— Obrigada, tchau.

E desligaram, Leon observava do batente da porta.

— Se intrometendo na vida conjugal das pessoas outra vez?

— Não estou me intrometendo, estou ajudando a minha amiga como posso, ou você acha que eu devia deixá-la à mercê daquele bastardinho?

— Que boca mais suja, dona Ilde.

— E você ama essa boca.

— É dever de uma mulher cuidar dos rompantes do marido, a Danielle sabia disso antes de se casar.

— Você lembra por que eu me casei com você, Leon?

— Porque se apaixonou por mim.

— Sim, mas me apaixonei porque, além de lindo, você achava “os deveres da esposa” um monte de lixo.

Leon riu. — Ainda acho. Eu só queria ver a sua cara de brava.

— É bom que ache porque, se você tivesse feito comigo o que ele faz com a Danielle, mesmo que uma vez, mesmo que um tapa, não importa o quanto eu ame você, faria um escândalo tão grande que o seu nome iria parar na lama mais fétida do mundo e todos os países povoados saberiam o que fez.

— Só isso? Eu não ensinei você a atirar para fazer escândalos, eu ensinei para você não precisar fazer.

Ilde sorriu. — Você não me ensinou a sumir com um corpo.

— Tenho certeza de que achará um jeito, sem nem sujar as unhas.

— Hum... Posso ter umas ideias.

— Foi por isso que eu me apaixonei por você — ele disse e abriu os braços para ela, Ilde não hesitou em se aconchegar entre eles.

— Leon, eu queria te pedir uma coisa.

— O que?

— O Antony não melhora dessa fraqueza estranha e quero pedir para você arrumar uma vaga em um Centro de Cura para ele.

Leon deu um pulo e soltou Ilde. — Nunca! — ele respondeu de súbito.

— Por que não?

— Porque não, e ponto final.

— Então quer dizer que todo o mundo tem direito a tratamento nos Centros de Cura, menos o nosso filho? De que vale pertencer ao segundo posto mais alto da nação se não presta nem para conseguir uma vaga onde vão tratar dele direito?

— Lá não é lugar para o Antony, Ilde.

— Médico nenhum descobre o que ele tem, imagino que os Centros de Cura contem com uma medicina mais avançada e pessoas com maior vontade de trabalhar.

— Não é esse tipo de cura que tratam nestes lugares. Qual é o problema do hospital militar? Ele é referência para toda a região.

— Só se for referência de incompetência! Sempre que levo o Antony lá, atendem de má vontade, olham de cara feia e os médicos nem se dão ao luxo de olhar os exames. Da última vez o médico perguntou se eu tinha me formado em medicina só porque insisti que olhasse os que levei e questionei o motivo de ele receitar remédio para epilepsia. Epilepsia, Leon! Quando que o Antony foi epilético? O estado dele é encarado como dengo ou uma tentativa minha de chamar atenção. Você lembra disso, não lembra?

— Sim.

— Quando não nos tratam com desdém, enchem o menino de antibióticos e ele fica pior.

— Então o leve a outro lugar, a uma clínica particular, gaste o que tiver de gastar e descobriremos o que ele tem.

— Só se for em uma que não tem filiação com o exército.

— Pode ser. Aonde você quiser.

— Está bem, me dá o seu cartão.

— Por que não usa o seu?

— A sua conta tem mais dinheiro.

Leon sacudiu a cabeça, mas sorria e tirou dois cartões da carteira. — O Antony está no quarto?

— Está.

— Vou lá dar uma olhada nele.

O homem entregou os cartões para Ilde e subiu as escadas, bateu na porta do quarto do filho e, sem respostas, a empurrou devagar. Ele estava dormindo, tão sereno, tão abatido, era evidente que não estava fingindo uma doença como os médicos daquele hospital insinuavam, ele teria que tomar uma providência quanto a isso. A atitude poderia levar a uma queda na credibilidade da instituição e, pior, quantos mais estariam privados de tratamento adequado?

Leon virou-se e fechava a porta quando ouviu Antony chamar.

— Pensei que estivesse dormindo — Leon respondeu.

— Eu estava.

— Então me desculpe, volte a dormir.

— Não... Quero conversar com você e com a mãe, é tão difícil conseguir encontrar os dois juntos ultimamente.

— Eu tenho tido tanto trabalho que não consigo mais vir para casa com a mesma frequência, mas vou fazer o possível para que as coisas voltem ao normal, prometo. Você está bem?

— Estou me sentindo bem hoje, só quero dividir uma teoria com vocês.

— Quer que eu chame a sua mãe, ou prefere conversar só comigo primeiro?

— Se puder chamar, eu acho melhor, assim não preciso falar duas vezes.

Leon assentiu e saiu, atravessou o corredor até o quarto dele, onde Ilde se ocupava com o início de seu longo ritual de hidratação corporal e sinalizou, da porta, para que ela o acompanhasse. A mulher o seguiu esfregando um creme perfumado nas mãos e sentaram-se ao lado da cama de Antony.

— Estamos aqui, filho, pode falar — disse Leon.

— Bem... — Uma fagulha de insegurança surgiu no menino, eles não iam gostar do que ele tinha a dizer. — Eu quero ser direto com vocês. Acho... acho que eu tenho uma doença no sangue. Uma autoimune.

— De onde você tirou isso? — perguntou Ilde.

— Como vocês sabem, apareceram livros proibidos no colégio. Eu sinto muito e peço perdão, mas li um deles e não contei para a professora, mesmo sabendo que era proibido.

— Antony... — começou Leon.

— Por favor, pai, me escute. É importante. — Ilde segurou a mão do marido e ele se conteve. — Era um livro médico e tinha a transcrição de algumas doenças lá, sinceramente, não existe nada nele que justifique a proibição da leitura... — Antony puxou o livro de baixo do travesseiro, onde o colocou quando o pai saiu para chamar Ilde, não podia tirar de seu esconderijo verdadeiro na frente deles. — É esse aqui. Eu sei que devia ter devolvido, mas ele me deu muito mais respostas do que qualquer médico.

E ele entregou o livro nas mãos de Leon, já livre da sobrecapa da biografia de Zunik, era velho, descolando na lombada e com um pedaço da orelha faltando, mas o conteúdo estava intacto.

— Mais alguém leu esse livro?

— Não, eu o achei assim que a caixa de livros veio para a sala e não contei para ninguém sobre ele. Meus colegas morreriam de medo de ler um livro assim, se soubessem que é proibido — mentiu Antony.

— Você não devia ter feito isso. Ler uma coisa dessas é crime — repreendeu Ilde, ela queria gritar com ele, mas não conseguia fazer isso no estado em que o garoto se encontrava.

— Mas, se não fosse ele, eu jamais saberia que tenho uma enfermidade grave.

— Você não pode se basear só num livro para determinar o que tem, Antony. Esses livros são proibidos porque são mentirosos.

— Só que apresento todos os sintomas, deixei até as páginas marcadas, foi o primeiro lugar em que vi sintomas como os meus. Por isso queria pedir para ir a um médico especialista em doenças desse tipo.

— Sua mãe já falou comigo, ela vai levar você a outros médicos, mas não se preocupe, você não tem nada grave.

— E se eu tiver, pai? Não quero ficar esperando até não existir mais solução porque tudo o que li, diz que o tratamento precisa começar cedo.

— É só uma anemia, filho — falou Ilde.

— Então por que não melhorou com dieta e suplementação? Cada crise vem pior do que a outra.

— Crise?

Antony encarou a mãe; agora teria de revelar tudo. Não dava mais para esconder o que vinha sentindo.

— Fique tranquilo — acalmou Leon. — Vamos providenciar o que for possível para que você receba o melhor tratamento, está bem? Agora pare de se preocupar com isso e quero que me faça um favor — pediu Leon.

— Qual.

— Descubra se mais alguém guardou um livro desses e me diga se descobrir.

Antony sorriu com gentileza. — Ninguém faria isso, eles têm medo de tudo e estão tão apavorados por causa do que aconteceu com o diretor, que jogaram os livros que tinham na caixa como se fossem tóxicos.

— Eles são tóxicos. E você? Guardou mais algum desses?

Antony jamais confessaria que existiam mais quatro, só naquele quarto. Aos poucos, novos livros na área médica foram aparecendo no esconderijo e ele ficou com todos eles. Pretendia devolver à saída de ar do banheiro assim que terminasse as suas pesquisas.

— Pai, eu só vi esse e só guardei porque estou com problemas. Desmaiei na escola, na frente dos meus amigos, há dias em que nem consigo abrir os olhos de tão cansado que fico, ao mesmo tempo meu coração acelera e não posso respirar, é aterrorizante. Sei que fiz errado em ler um livro proibido, mas talvez ele tenha dado a direção para que eu receba um diagnóstico correto, não quero mais sentir isso e garanto que não quero mais desmaiar, nem em particular.

Algo se afundou dentro de Leon, ele sabia que Antony não estava bem, mas acreditava na teoria da anemia, não imaginou que a enfermidade tinha chegado àquele nível e apertou o antebraço do garoto. Antony nunca contou que aguentava tudo aquilo, preferia preservar os pais, Eleanor e Josué, nem mesmo aos médicos relatou, uma vez que eles não lhe davam a chance de falar. Ver tamanho medo no rosto de Ilde e Leon agora o fez se arrepender de ter contado.

— Amanhã você vai à um bom médico — ele disse.

— Obrigado.

— Agora dorme, vou levar esse fugitivo comigo — falou Leon, apontando para o livro, Antony assentiu e deitou-se novamente.

Ilde se aproximou, beijou a testa do menino e saiu, ela estava à beira das lágrimas, por isso saiu muda, qualquer palavra que pronunciasse soltaria as rédeas do choro. Mas bastou se afastar da porta para que não conseguisse mais se reprimir e Leon a abraçou.

— Vai ficar tudo bem.

— E se não ficar?

— Iremos ao fim do mundo para tratar dele.

— Promete?

— Prometo. Agora se acalme e vá dormir também, eu já vou para a cama, antes quero ver o que o Antony leu nesse livro.

— Vou descer para esperar o telefonema da Danielle. Não demore.

Leon a deixou e sentou-se próximo a lareira do quarto para que a luz da luminária não atrapalhasse o sono de Ilde quando ela voltasse, desfolhou o livro um pouco, depois abriu na primeira página marcada pelo garoto. Ele também sublinhou as partes mais importantes para ele, e Leon começou a ler por ali, pouco mais tarde estava lendo capítulos inteiros e, de fato, não entendeu por que aquele livro era proibido.

Os primeiros raios de sol iluminavam a manhã quando Leon terminou sua análise. Acendeu a lareira, então, e ao ver o fogo alto, jogou o exemplar lá dentro, ao menos seu raciocínio lógico fez isso, mas sua mão pareceu ter vida própria e não soltou. Suspirou, olhando novamente a capa, era doloroso para um amante da literatura queimar um livro. Assim, desistiu e o guardou em sua estante, iria dizer ao marechal que Ilde o encontrou em um baú antigo, de família, quando foi arrumar a casa e que o entregou a ele.

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