O Desmanche
Desde que Leon saiu da sala de Dimitri, sua mente não foi mais capaz de se concentrar no relatório e desistiu dele para reformular a estratégia escolhida para o dia seguinte, a presença do general mudaria tudo e teria menos de doze horas para fazer com que o esquema se encaixasse a companhia do homem.
A tarefa exigiu cada gota de sua energia, ele nunca trabalhou tanto e, quando enfim terminou, recostou-se em sua poltrona pronto para fechar os olhos e descansar. Mas ainda havia um problema a resolver e destrancou a gaveta mais baixa da mesa de seu escritório para pegar o rádio via satélite, que ninguém poderia saber que ele possuía. Sinalizou duas vezes e, logo em seguida, ouviu a conhecida voz raspada saindo do aparelho.
— Na escuta, coronel.
— Bespalez, que bom que finalmente consegui falar com você.
— Não estou ficando muito tempo na minha sala, o seu menino é bom. Ele está instalando um canal de comunicações tão potente que preciso ficar na central de controle o tempo inteiro para impedir que consiga se comunicar com a sede.
— Isso é péssimo. Ele não pode se comunicar com ninguém daqui.
— Estou cuidando disso, mas enquanto resolvo esse contratempo, não atenda aos telefones, ele consegue fazer até isso.
— Certo... Bespalez!
— Senhor?
— Se o major estiver perto de obter sucesso, providencie que ele desapareça.
Um canto da boca do capitão subiu em um sorriso satisfeito.
— Entendido, coronel.
Dimitri pôde perceber a satisfação na voz de Bespalez antes de encerrar a ligação. Depois deitou-se no estofado da sua sala, dormiu por algumas horas, mas levantou-se ainda cansado, se banhou em um dos vestiários para espantar a sonolência, preparou-se, e teria que encontrar Leon, porém, saiu do banho com outra ideia, e foi verificar os arquivos de relatórios dos últimos dias.
O marechal voltaria a se lembrar dos registros das buscas pelos soldados perdidos e, neste dia, não haveria escapatória. No entanto, se eles sumissem, não sobraria nada para incriminá-lo. E a ocasião era perfeita, já que Leon não estava olhando sobre seu ombro e o único capaz de perceber seus movimentos no sistema estava em um porta-aviões a mais de três mil quilômetros de distância. Na ausência dele, teria liberdade para vasculhar o que quisesse, uma vez que os técnicos não se atreveriam a delatá-lo.
Dimitri entrou na longa sala dos computadores com o coração retumbando pela expectativa, recebeu pouca atenção dos operadores, e sentou-se em frente a um terminal, digitou a senha de Zunik e esperou, o estômago se contraiu enquanto a tela abria. Conferiu mais uma vez os arredores e, quando a janela de pesquisa ficou disponível, seus dedos voaram para o teclado, digitou os comandos e deletou pasta por pasta, deixando a doce sensação do alívio o inundar a cada arquivo apagado.
Para encobrir sua intenção, ele deletou todos os arquivos do último mês, incluindo os financeiros, depois deletou também do backup e saiu correndo até o pátio dos fundos, onde o general o aguardava com os rapazes, em formação. Não esperava vê-lo ali, iria apenas dispensar os cadetes e sair a procura dele, sentiu que a sorte o agraciava naquela manhã.
— General! — falou esbaforido. — Temos um problema.
Leon o conduziu para uma distância discreta.
— O que foi? — perguntou em baixo volume.
— Nossos arquivos de missões desapareceram, junto com os financeiros e sabe-se lá mais o que.
— Como isso é possível?
— Eu não sei. Fui procurar os relatórios do major para que o marechal os visse enquanto fôssemos nesta missão, mas não encontrei nenhum arquivo depois do penúltimo mês. Parei de procurar, então não imagino mais o que pode ter sido apagado.
Leon se virou para os soldados. — Rapazes! — chamou. — Estão dispensados. Mas fiquem preparados, sairemos a qualquer momento.
Dimitri quase não conseguiu conter a alegria enquanto acompanhava Leon ao andar da informática. Quando Zunik chegou, os relatórios das perdas já estavam prontos, exatamente como Dimitri havia planejado.
Muito longe da cidade, Edmund trabalhou por dias. Quanto mais se aprofundava no sistema operacional, mais problemas encontrava. Percebeu assim que havia brechas para a introdução de novos canais de comunicação e concentrou seus esforços nisso em vez de nas melhorias que prometeu.
O que o distraiu tanto que não percebeu o distanciamento de Bespalez pelos seis dias consecutivos que se ocupou com o novo canal, mal o enxergou ou ouviu falar dele, chegou a esquecer de sua existência e passaria o restante da estadia no porta-aviões sem se lembrar do capitão se Sônia não o lembrasse quando enfim conseguiu contato com ela pelo rádio particular que a esposa mantinha ao lado da cama do casal.
As comunicações eram realmente precárias no porta-aviões, conversou com ela apenas duas vezes, uma vez com a Base Naval, quando chegou, e cinco ou seis palavras com o capitão Bronielsken quando começou a mexer na rede de transmissão. Pensou que jamais conseguiria falar com Sônia outra vez, mas ganhou ajuda de qualidade para implantar uma via forte. Julgou que não houvesse profissionais capacitados a bordo, dadas as condições do navio, mas havia, e formou um círculo de amizade com eles no dia em que chegou.
Foi esse círculo que proporcionou a chance de falar com a esposa, apesar das constantes mudanças na posição da embarcação atrapalharem o processo e, quando enfim terminaram a instalação, falou com ela outra vez, em seguida tentou contatar a sede do governo, mas lá não conseguiu nem um fraco sinal.
— Pelo menos consegui falar com quem importava — ele brincou com os companheiros. — Vou contar a novidade ao capitão Bespalez, quem sabe eu até consiga um sorriso.
E os rapazes puseram-se a rir, Bespalez mostrar um sorriso beirava ao impossível. Naquele caso o capitão ainda se superou ao ouvir com um rosto inexpressivo, quase entediado.
— E quando vai funcionar direito? — ele questionou, desdenhoso.
— Está funcionando direito — respondeu Edmund —, só não está estável, mas ficará em dois ou três dias e, se funcionar como eu quero, nem a área de maior influência magnética será incômodo.
— São muitos “Se” para parecer bom.
— Máquinas podem funcionar como organismos vivos, nem sempre dá para prever se vão responder como o desejado.
— De qualquer maneira, parece bom demais para um navio que precisa trocar peça por peça.
— E precisa! O que estamos fazendo é uma migalha perto do que poderia ser feito com tudo novo, isso só falando do sistema de comunicações, mas o seu sistema de localização era jurássico a uns vinte anos, sinceramente não sei como continua operando, não tenho dúvida alguma de que logo parará de funcionar. Digo o mesmo do sistema remoto e de distribuição de energia, se não houver providências rápido, uma pane será inevitável e eu odiaria que esse lindo porta-aviões, afundasse.
— Não vai afundar, rapaz!
— Você falou com o coronel Novakohut?
— É claro que não, depois que você começou a bagunça, ficamos incomunicáveis.
— Tenho certeza de que não deixei o porta-aviões incomunicável, aliás, ouvi muitas mensagens entrando e saindo do centro de comunicações, nítidas como a sua voz agora. E posso garantir isso, quase não saí de lá, como você deve se lembrar.
— Apenas mensagens locais.
— Mas agora é possível falar por telefone doméstico direto daqui. Podemos tentar contatar o coronel hoje.
— Telefone? Impossível!
Ele sabia que não era impossível, já usava essa via para fazer negócios mesmo antes da instalação do novo canal.
— É possível sim, acabei de falar com a minha esposa.
Pela primeira vez, Bespalez olhou para o major. — E fez isso com a permissão de quem? — inquiriu.
Sua voz aumentou de volume significantemente.
— Com a minha! — rebateu Edmund. — Acha que eu preciso da sua permissão para qualquer coisa? Eu o mantenho informado por cortesia, mas não tenho que fazer nem isso, muito menos ficar aqui resolvendo os seus problemas.
— Quem você pens...
— Sou o major do exército de Novanação, capitão! Se atenha a sua posição.
Bespalez recuou e Edmund sentiu-se muito bem por estrear a sua voz de comando com o inconveniente comandante. Ele nunca precisou usá-la, nunca quis fazer isso, apesar de Leon o repreender com frequência por não assumir a sua patente e tratar a equipe que liderava como iguais, sem exigir qualquer gesto de respeito.
A verdade era que Edmund preferia um jaleco a uma farda, teve que aceitar o posto de major quando foi convocado, mas não nasceu para o serviço militar em si.
Farto ele voltou a trabalhar, determinado a instituir ele próprio uma conexão com Dimitri e ganhar permissão para voltar. Infelizmente não chegou nem perto, pois, quando pensava alcançar um sinal promissor, o movimento do porta-aviões o anulava antes que pudesse comemorar.
Apesar disso teve mais uma conversa rápidas com Sônia, pois era com ela que sempre tentava falar primeiro, depois com o mordomo de Leon, mas o homem não entendeu nada. Talvez pela chamada ter sido recebida em um telefone comum e não no rádio de conexão via satélite clandestino que projetou, construiu e instalou em sua casa. E não estabeleceu nenhum contato com a sede do governo, censurou-se por não ter se preocupado em decorar uma variedade de números telefônicos de lá.
Independente dos transtornos, ele e os colegas estabilizaram a via na manhã seguinte, e quando isso aconteceu, nenhum movimento da embarcação foi capaz de desestabilizá-la. Mesmo assim Edmund não teve sorte com a sede do governo, o que não podia entender.
Em compensação, ouviu com alegria a mensagem da Base Naval 5 de que o general solicitava o seu retorno imediato. Leon fez o pedido assim que entrou na sede do governo, antes do horário que impôs à Dimitri para se encontrarem. Queria garantir que o rapaz estivesse a caminho ainda naquele dia.
Com isso Edmund resolveu relaxar, era uma questão de tempo até que alguém viesse buscá-lo. E foi almoçar com os companheiros em animada conversa, depois eles se despediram dele.
— Foi um prazer, senhor — disse o mecânico que tornou possível a construção de uma caixa de energia exclusiva para a sala de controle.
— O prazer foi meu — respondeu Edmund, ele gostou daquele homem, de meia idade e ares de cansaço, por mais que quase não tivesse ouvido a sua voz, uma vez que ele não era apenas uma pessoa de poucas palavras, era de raríssimas, e apertou sua mão estendida com gosto, se pudesse, e o mecânico assim desejasse, o levaria embora dali.
— Tenha boa sorte — disse o homem e soltou um papel na mão de Edmund.
Percebendo a sutileza usada pelo mecânico o major enfiou as mãos nos bolsos e sentou-se casualmente em frente ao computador mais distante da câmera esférica do teto, fez suas habituais anotações e enfiou no mesmo bolso, observou a tela com afinco, fez novas anotações e, quando as pessoas à volta se afastaram, retirou os papéis do bolso e os esticou ao lado das novas notas como se as comparasse, assim aproveitou para ler o bilhete dado com tanto sigilo:
“Major, tome cuidado, o senhor está sendo seguido desde ontem.”
Na manhã seguinte, os rapazes escolhidos para ir à nova missão de busca esperavam novamente pelo coronel no pátio. Para desgosto de Dimitri, Leon estava com eles outra vez, impossibilitando o seu plano de orientá-los longe de ouvidos delatores e, como não podia descontar sua raiva no general, descontou neles.
— Estão cientes do que vamos fazer. Fiquem atentos, não se separem e relatem a mim tudo o que virem. Compreendido?
— Sim, coronel! — responderam em uníssono.
Dimitri virou-se e foi na direção do primeiro carro.
— Motivador — falou Leon logo atrás dele.
— Queria que eu desse um abraço neles?
— Não, mas são muito jovens. Uma palavra de incentivo seria boa.
— Você já deve ter dito várias palavras desse tipo, eles não precisam de mais. Mimar soldados é deixar um pelotão inteiro mole.
— Eu não disse nenhuma, apesar de ter ficado com vontade quando vi que eram soldados cheirando a leite materno. Por que escolheu meninos recém alistados para ir conosco hoje?
Dimitri previu aquele questionamento e ensaiou uma resposta:
— Porque precisam de experiência agora que estamos enfrentando um inimigo dentro do nosso país e quanto mais cedo melhor — proferiu.
— Tomara que isso nos ajude mais do que atrapalhe.
Dimitri resmungou uma resposta malcriada e Leon suspirou, entristecido.
— Dimitri, me diga o que está acontecendo — perguntou complacente.
— Você, se metendo em tudo — ele berrou em pensamento, porém, preferiu verbalizar uma resposta mais genérica. — Além de um terrorista, destruindo cada edificação que construímos?
— Conheço você desde que usava fraldas, garoto. Se houver algo mais, sabe que pode me dizer.
Dimitri bufou alto, Leon o vinha irritando demais nos últimos tempos.
— Essa situação me deixa nervoso, só isso — respondeu.
A situação de ser vigiado, ele queria dizer.
— Hum... Começou a me deixar também, nunca tivemos um conflito assim. Parecem organizados, possivelmente com algum treinamento. No entanto, você é o coronel, controle-se, estes meninos se inspiram em nós, se não mantivermos o controle, eles não conseguirão trabalhar com eficiência.
— Sim, senhor — desdenhou Dimitri.
— Não me faça obrigar você a respeitar a minha patente e meus anos de experiência, eu não gostaria disso.
Dimitri sentiu sua raiva se elevar, cogitou até girar o volante e bater o lado do passageiro nas paredes dos prédios pelos quais passavam. Em vez disso, guardou silêncio pelo restante da viagem.
O dia não demorou a raiar e o sol estava inteiro no horizonte quando chegaram ao final da rua Capitão Teodoro Vicente e início da rodovia de mesmo nome. Deveriam seguir, mas Leon fez Dimitri parar entre uma usina de energia desativada desde que Zunik ascendeu ao comando máximo da nação, há trinta anos, e um enorme prostíbulo de luxo.
O estabelecimento foi fechado por atentar contra a moral, teve seu letreiro destruído para que o nome fosse esquecido e suas terras desapropriadas para abrigar uma mecânica de tanques de guerra. Estava na fase inicial da reforma, ainda assim preservava a bela fachada em formato de castelo russo.
Dimitri estacionou atrás de um veículo militar abandonado, avistado por Leon à distância, e desembarcaram, intrigados.
— Isso explica porque os guardas fronteiriços não viram os nossos homens, eles nem chegaram lá — comentou Leon ao se aproximarem do carro destroçado; havia outro mais adiante com a parte da frente esfacelada.
Eles andaram com cautela, os soldados deixaram os outros veículos e se espalharam lentamente.
— Vocês dois! — falou Dimitri aos que andavam mais perto. — Verifiquem o estado dos carros.
— Coronel, olha o muro da usina — falou Leon.
Havia buracos de tiros nele e Dimitri fez sinal para que outros dois dos seus soldados fossem investigar.
Leon comprimiu os lábios e suspirou, exasperado, não podia negar que Dimitri sabia mandar, mas era assustador pensar que tipo de marechal ele seria se continuasse com o hábito de nem se preocupar em executar uma ação, por isso caminhou na direção do muro para que ele o seguisse, não eram apenas os soldados que precisavam de experiência.
Dimitri observou as costas volumosas do general, ele achava inadmissível um homem tão fora de forma nas forças armadas. Contudo, a condição talvez fosse vantajosa para ele, uma vez que, olhado para Leon naquele momento, percebeu o quão fácil seria dar um tiro nele.
Observou em volta, ninguém veria e sabia que jamais instalaram câmeras naquela região, poderia dizer que o tiro veio de algum lugar na construção atrás deles. Era longe, mas quem se atentaria para este detalhe com a morte do general? Imaginou a si próprio jogando-se protetoramente sobre Leon depois do tiro, enquanto gritava para que os soldados procurassem quem atirou, como um bom herói. Seria condecorado por aquilo e seus lábios se curvaram num sorriso que atingiu mais os olhos do que a boca.
Entretanto, no auge do seu devaneio, lembrou que grande parte da tecnologia restringida à população e estagnada em alguns setores, era aplicada na melhoria das técnicas forense e esse departamento evoluiu tanto que levaria menos de uma hora para descobrirem que a bala saiu de sua arma, mesmo com o pouco recurso que repassava a eles. Até avaliou a possibilidade de dizer que alguém pegou a sua pistola e atirou. Qualquer daqueles soldados poderia servir para receber a culpa, o problema seria explicar como um cadete, inexperiente, tirou sua arma.
— Você vem, coronel?
Leon sabia o valor do respeito e nunca se dirigia a Dimitri pelo nome diante de subalternos. Dimitri, por outro lado, o trataria como o lixo que considerava se não fosse o temor de que o tio ficasse sabendo.
Com uma expressão azeda, então, ele seguiu o general e parou ao seu lado.
— Parece fogo amigo — adiantou Leon, observando o muro.
— Não sei como é o armamento do Ás de Paus, se é que ele tem mais que explosivos e material inflamável. Até onde sabemos, esses buracos podem ter sido causados pelas armas deles.
Leon caminhou ao longo do muro, estudando-o com calma, e parou cerca de dez metros de Dimitri.
— Coronel, venha ver isso.
Dimitri foi.
— Ver o que? — perguntou.
O general apontou para um gancho parcialmente arrancado da parede e Dimitri não entendeu.
— Isso é usado para prender correntes a navios — esclareceu Leon, mas Dimitri franziu ainda mais a testa. — Os carros, Dimitri! Eles foram parados por uma corrente grossa e, pelo tanto de estilhaços por aqui, aquele não foi o único — ele explicou, então.
— E o que foi feito com os outros?
— Eu não sei. Quantos vieram?
Dimitri não fazia ideia.
— O major foi o responsável por este destacamento e não me disse quantos vieram — mentiu.
— Você é o coronel, tem que saber tudo o que os seus subordinados fazem, como fazem e quando fazem.
— E você é o general! Como não sabe?
— Se eu estivesse aqui, saberia e o marechal também, porque é isso que um líder faz. Domina tudo.
Dimitri se cansou. — Vou verificar os arredores — disse e saiu.
— Você não quer dizer o interior da usina? — perguntou Leon às costas do rapaz.
— Não vejo motivo para verificar isso.
— Esse gancho quase arrancou o muro e não saiu, isso não é possível se não estiver bem preso do lado de dentro, e o poste a ponto de cair do outro lado não é suspeito.
Dimitri odiava mais aquele homem a cada segundo, mas foi para dentro da usina. Nem precisou se aproximar para ver o portão arrombado, empurrou, dez de seus soldados já estavam no seu encalço, Leon ao lado.
— Agora sabemos onde estão os outros carros — falou Leon.
As carcaças se espalhavam pelo velho estacionamento, mais do que esperavam e marcas de pneus de caminhão também, muitas.
— Era um destacamento pequeno, não vieram tantos carros assim — disse Dimitri.
— Então eles estão nos roubando a mais tempo e isso virou um desmanche — concluiu Leon.
— É o que parece.
Os soldados se dispersaram, avaliando o interior dos automóveis, Dimitri e Leon com eles a procura de pistas favoráveis, mas não havia nada. Tudo o que prestava nos veículos foi removido, incluindo as menores peças e, o que restou, se degradava em enferrujem, tornando assim nítido quais foram as últimas aquisições à coleção de roubos.
— Teremos que trazer os rapazes do Edmund para vasculhar essa usina de ponta a ponta — falou Leon.
A menção a Edmund fez Dimitri se lembrar dos drones e ele olhou para cima.
— Como os drones não pegaram imagens desse lugar? Vivem fazendo testes com eles, devem ter passado por aqui — questionou.
— Eles não fazem testes nessa área.
— Não fazem, ou viram o desmanche e não quiseram informar?
— Não fazem porque, nos primeiros testes, a infantaria do nono batalhão não sabia o que os drones eram e os abateram.
— Será que é por isso mesmo?
— É isso! — Leon respondeu, enfático. — Eu respondia pela inteligência militar na época e posso garantir. Não questione a lealdade deles, estão acima de suspeitas.
Dimitri não respondeu, o tirava do sério a avalanche de elogios que a equipe de Edmund sempre gerava, e se virou para sair, foi quando enxergou a enorme pintura, a grafite, de um A atrás do símbolo de paus alado. Era bonita, colorida e detalhada, um claro sinal de que ocuparam o lugar por muito tempo, se houvesse como desacreditar que o Ás de Paus era o responsável por aquilo, isso findaria a dúvida.
— Fotografem tudo e vamos embora — apressou Dimitri, e saiu a passou pesados, mesmo que a descoberta confirmasse sua história, ele se irritou, sentia que o Ás de Paus tripudiava dele.
Leon voltou devagar, examinando o terreno, foi em cada um dos veículos deixados do lado de fora, depois regressou à companhia de Dimitri.
— Alguma coisa não está certa — disse ao sentar-se ao lado do coronel.
— Como o que?
— Por que ele deixou estes carros aqui, onde podiam ser encontrados?
— Devia estar com pressa.
— Não. Se tiveram tempo para carregar os outros, tinham para carregar estes.
— Eles obviamente estavam destruídos.
— As peças úteis foram removidas como o restante, fizeram o trabalho aqui fora, não estavam preocupados em serem vistos.
Dimitri olhou para o prostíbulo desativado. — Os trabalhadores ou os soldados teriam que ter visto, pelo menos, os carros parados aí.
Havia duas pistas de tráfego, com um refúgio central largo e mais cerca de dez metros de calçada despedaçada pelo tempo até a frente do prostíbulo, dava uma boa distância, mas não grande o suficiente para que ninguém notasse o que aconteceu ali.
— Exatamente! Muito bem, Dimitri!
Outra vez os dois saíram, com Leon explodindo de alegria por Dimitri manifestar um resquício de capacidade. Atravessaram as ruas e, na metade do caminho, notaram que os soldados designados para guardar a obra não estavam em seus postos. Mais perto, perceberam que o local também tinha sido abandonado havia algum tempo, os serviços mal haviam se iniciado, praticamente só o material de construção foi recebido e se enfileirava como fantasmas enlameados.
Leon passou por eles, caminhando até o meio do que um dia foi o salão de festas, o cheiro do mofo invadiu suas narinas, e olhou através das fendas do antigo telhado, o vento gelado açoitava as rebarbas soltas. Se houve evidências ali em algum momento, as chuvas já tinham levado.
— O que aconteceu aqui? — questionou Dimitri.
— Tudo indica que o Ás de Paus consumiu com as testemunhas.
— Ele não pode ter tanto poder assim!
No mesmo instante, Dimitri lembrou que recebeu reclamações de famílias à procura de operários desaparecidos, meses atrás. Em algum lugar de seu cérebro percebeu que poderia se tratar dos trabalhadores dali. Ao menos ele esperava que fosse daquela obra ou teria de aceitar que trabalhadores de outra também foram sequestrados, e ele não conseguia se recordar do local exato porque jogou as solicitações de investigação no lixo.
A pior parte da nomeação como coronel foi herdar o comando do setor de Edmund, ele enchia sua mesa de documentos todos os dias e Dimitri sentia que enlouqueceria se desse atenção a tudo, por isso não dava atenção a quase nada.
Leon não viu a expressão irascível do coronel enquanto fazia seu debate interno, pois ele investigava o entorno, procurando rastros e vestígios que pudessem ajudá-los.
— Vamos, Dimitri! Temos que fazer o relatório de tudo isso e mandar uma equipe maior para averiguar, tanto a usina quanto esse lugar.
— Eu não acredito que uma operação tão grande foi feita aqui e ninguém soube.
— O Ás de Paus não me parece um terrorista qualquer e isso o torna muito mais perigoso.
— Maldito, quando eu o pegar...
— Quando o pegarmos, teremos que interrogar para descobrir o que mais ele fez.
— Que seja.
Dimitri não esperou por Leon, não esperou nem a passagem de um veículo solitário, o motorista quem teve que parar para a sua passagem repentina. Dimitri o olhou, de cara feia, era raro haver automóveis nas ruas, mesmo ao término do toque de recolher, e esbravejou mentalmente por aparecer um bem quando atravessava. Porém, o homem postou-se ao lado do carro em uma primorosa continência que o fez engolir a raiva.
Leon o seguiu lentamente, respondeu ao sinal de continência do oficial parado no meio da rua, uma vez que Dimitri continuou como se ele não existisse, e andou observando até onde a vista podia alcançar. Tudo menos Dimitri, que corria mais para disfarçar a indignação por saber que teriam descoberto aquele lugar, e quem sabe até capturado o Ás de Paus, se ele tivesse verificado as reclamações das famílias dos operários, do que por pressa.
Era certo que Leon levantaria as questões evidentes daquela novidade e Dimitri não queria que acontecesse antes que tivesse algo incontestável para responder. Afinal, se apurassem, achariam registros de que ele foi avisado, visto que Edmund era rigoroso com registros. Dimitri tinha a impressão de que não encontrava paz desde que foi promovido.