Verbena
Semanas mais tarde ainda se falava sobre o infortúnio com os navios, e o responsável pelo evento ficou explicitamente conhecido, pois a notícia sobre a bandeira do Ás de Paus se espalhou mais rápido do que a notícia da perda dos navios. E a imagem do marechal, já ligeiramente deteriorada perante as outras nações, caiu ainda mais, uma vez que a novidade escapou e percorreu o mundo, apesar de a imprensa do país ter noticiado incansavelmente que o incidente foi provocado por um vazamento de combustível dos próprios navios.
Por isso o evento demarcatório da abertura das atividades da fábrica de armas foi transferido para o fim de semana posterior, para que a ocorrência com os navios ficasse mais distante da ansiada data, logo, a participação teste de Verbena foi protelada também.
A manhã daquele domingo nasceu promissora, um carro esperava em frente ao portão dela quarenta minutos antes do combinado, como estava pronta, Verbena entrou nele concedendo um cumprimento, sem resposta, aos rapazes que a esperavam em respeitosa posição. Dois soldados de baixa patente, com olhos atentos e tensão aparente, enviados para conduzi-la ao local do evento.
Em poucos minutos Verbena caminhava na direção do palco erguido na frente do prédio novo, entre os guardas, altiva em seu terno cinza, bem costurado, fechado até o pescoço e decorado com o emblema indicativo de sua ascendência acima das de educadora, ela não configuraria mais que um objeto móvel enfeitando o fundo do palco, onde um pronunciamento raso ocorreria para uma população desinteressada, mas faria isso da maneira como o marechal gostaria de ver.
Zunik apresentou a abertura da nova e mais moderna fábrica de armamentos do país, salientou as vantagens de uma nação que construía as próprias armas, do quão benevolente era um governante que edificava uma indústria bélica para proteger o seu povo e, ao final do discurso, nenhuma das pessoas que foram designadas para assistir ao monólogo, foi convidada para a festa de inauguração do edifício. Verbena também não esperava ser convidada e se retirou quando o discurso acabou.
— Senhorita Koch!
Ela virou-se e se deparou com um homem forte, loiro, de cabelos espetados, na casa dos trinta anos de idade, quase nenhuma diferença dos milhares de homens, de semelhante idade, que engrossavam as fileiras do exército.
— Sim? — ela respondeu.
— Muito prazer, senhorita, sou o tenente-coronel Adam Serquit Molls, o marechal Zunik quer falar com a senhorita.
Em silêncio, ela voltou. Outra coisa que não esperava era falar com o governante do país tão cedo, mas ali estava ela, se dirigindo ao homem. Para ele precisava de uma postura diferente da que apresentou ao coronel. Tinha que ficar ereta, orgulhosa, decidida, porém, submissa e disposta a acatar qualquer ordem. Tudo isso ao mesmo tempo em que sustentava a aparência de um cordeirinho aos olhos de Dimitri, o oficial grudado à lateral de seu líder. Felizmente, ali, ele não prestava atenção nela, seu foco maior estava no marechal.
— Vossa excelência — Verbena cumprimentou, baixando a cabeça.
— Você deve fazer a reverência do marechal! — ordenou Dimitri. — Tenho certeza de que foi ensinada a fazer isso.
Ela tinha feito para ele, ao encontrá-lo na entrevista de emprego, um gesto perfeito e desnecessário, já que ela não lhe devia nem mesmo uma posição de sentido e aquela reverência — coluna ereta, ombros para trás, cabeça baixa, braço esquerdo ao lado do corpo e punho direito serrado sobre o ombro esquerdo — era reservada apenas ao marechal, Dimitri pensou que jamais veria uma dedicada à ele antes de se tornar marechal e se sentiu inflado quando ela o fez, por essa razão sabia que Verbena foi bem ensinada.
— Ah! Ela não precisa — apaziguou o marechal. — A senhorita Koch é uma professora e, das melhores pelo que ouvi falar.
— Eu sei, só que...
— Professores são os únicos que podem transmitir os meus conhecimentos à nação.
— Mas, senhor, ela não é como os outros, precisa dar o exemplo.
— Nós é que temos que dar o exemplo, uma professora é uma professora e ponto, a regra que vale para os educadores, vale três vezes mais para ela. Ou você não sabe o que significa um currículo como o dessa jovem? — e ele se voltou a Verbena. — É um prazer inenarrável conhecer a filha de Jesus Honório Koch. Seu pai a manteve escondida a vida inteira, agora entendo o porquê.
O marechal Zunik era dotado de grande lábia, convencia fácil até o mais obstinado pensador, seu jeito doce e gentil, treinados durante cinquenta e poucos anos de vida foi outro aspecto observado pela moça. Percebeu de imediato que, por isso talvez, as pessoas o defendessem de unhas e dentes, muitas vezes no sentido literal.
— O prazer é meu, vossa excelência. Sempre quis conhecê-lo.
— A perda do seu pai foi sentida por todos. Nossa nação perdeu o seu coração mais pulsante com a morte dele.
— Eu agradeço. Mas creio que o coração mais pulsante da nação seja o seu.
— Isso é uma gentileza sua, muito obrigado. — Mais uma surpresa, possivelmente a maior de todas, aquele homem sabia agradecer. — Dimitri disse que compartilha das ideias do seu pai.
Ela sorriu. — E tenho mais algumas.
— Isso é bom. Venha conosco à festa, e você não precisa usar esta insígnia, sua ascendência é clara e seus pupilos deverão respeitar a autoridade que tem. Se continuar usando, eles não a respeitarão, apesar das demais insígnias.
Dimitri, ao lado do marechal, arregalou os olhos, entre o temor de que Verbena o entregasse e a revolta por ouvir Zunik convidá-la para o evento. Se ela aparecesse no salão, junto dele, o contrato estaria firmado e não havia mais nada que pudesse fazer, se ela contasse que ele exigiu o uso do emblema, o coronel seria repreendido ali mesmo e provavelmente impedido de ir à festa. Mas Verbena apenas baixou a cabeça para o horrendo broche, enorme, vermelho, visível à longa distância.
— Ah, coloquei automaticamente, nem percebi que usava.
E ela levantou as mãos para tirá-lo.
— Estou curioso. Como uma moça, tão jovem, tem tantos títulos? — perguntou Zunik com o olhar fixo nas demais insígnias de Verbena, o que atraiu a atenção do restante do grupo na direção delas também.
No peito da professora havia mais do que o imaginado até para o líder: Uma pena cobre representando um pós-doutorado, duas douradas representando dois doutorados, uma prateada representando um mestrado, duas pretas representando duas graduações e uma branca, com cinco pontos vermelhos, representando línguas, sendo um ponto indicativo de cada idioma que ela tinha fluência. A cobiçada pena era o mais alto grau de conquista para um docente. Poder usar uma delas, já dava o respeito necessário para viver melhor do que os integrantes da alta sociedade, usar todas, em conjunto com uma patente, era como usar a farda do marechal.
— Fico feliz por seus bondosos olhos me verem como uma mulher jovem, mas não sou e também passei a vida só estudando. Poderia até ter mais alguns se não me perdesse nas viagens maravilhosas que o meu pai me deu pelo mundo.
— Sei que o seu pai a enviou para estudar, não para passear.
— Nem sempre nós, filhos, somos tão obedientes.
Um estouro surdo, próximo, os cortou e fez a mão de Verbena estremecer, a agulha perfurou o seu dedo.
Zunik olhou para Dimitri. — O que foi isso? — questionou.
Outra explosão, mais alta, reverberou como em resposta à pergunta.
— Vem da fábrica — respondeu Dimitri. — Molls, vá verificar!
— Vá você também! — ordenou Zunik e esticou o cotovelo para a apavorada professora. — Vamos? Eu acompanho a senhorita até o salão, nossos convidados nos esperam.
Verbena cruzou seu braço pelo dele e sorriu, mas outro estrondo a fez estremecer inteira e olhar para ele com o mais profundo terror.
— Não se preocupe — acalmou Zunik. — Esses são os sons da cidade, você se acostumará e estará protegida sob minha tutela.
— Eu fico agradecida — Verbena falou baixinho, a angústia transbordava na voz e o dedo sangrava.
— Pobrezinha, terá como cuidar disso quando chegarmos ao salão.
— Não se preocupe, vossa excelência, é apenas um furo pequeno.
— Modesto da sua parte. Sei que mulheres são capazes de aguentar dores descomunais com um sorriso no rosto.
— Vossa excelência é muito gentil.
— Não precisa me chamar assim, dê a mim o mesmo tratamento dos outros, em nossa nação os professores são as joias mais preciosas e, por isso, não precisam seguir as regras das demais pessoas.
— É mesmo?
— Sim, o seu pai não disse?
— Só sobre o senhor não gostar que docentes façam a reverência do marechal e sobre insistir nela em descumprimento da sua ordem de não fazê-la. Não conversávamos muito a respeito das regras de etiqueta na cidade.
— Você terá que aprender, porque participará de todos os eventos públicos que tivermos.
E mais um estouro, mas o homem continuou a conduzi-la despreocupado. O salão era esplendoroso, dourado, brilhante, luxuoso e cheio de apoiadores bem trajados com os ternos e vestidos mais caros que a moda tinha a oferecer. Todavia, nada despertou tanto fascínio quanto a moça trazida pelo marechal.
Excetuando os olhos escuros dela e de Zunik, nenhum olho naquele salão era mais escuro do que castanho claro, pela natureza ou pelos esforços de lentes de contato, nenhuma pele era mais escura do que as pétalas de uma jovem flor-de-algodão e nenhum rosto deixou de se virar, com o interesse fervoroso por conhecer a única mulher a ocupar um cargo de tamanha notoriedade desde o primeiro Novakohut a governar, o choque ao perceberem a cor da pele dela foi tão estimulante quanto Verbena imaginou que seria, maior pelo fato de estar usando farda e com a mão envolta no braço do próprio marechal. Verbena era o espécime novo, importado, para as necessidades recentes do homem mais poderoso do país.
A fumaça escura tomava o interior da fábrica quando Dimitri chegou, poucos segundos depois de Adam. As explosões foram feitas em lugares estratégicos para que a destruição fosse rápida, uma parede já desmoronava devagar e as chamas escapavam para o ar da noite, berrando em tons desesperados, idênticos aos sons que ele ouviu poucos dias antes, nos navios perdidos.
O coronel bradou ordens, enquanto os populares fugiam e o irritavam por ainda estarem ali, atrapalhando, eles deviam desaparecer depois do discurso, não correrem como moscas curiosas para bisbilhotar o que acontecia.
As explosões recomeçaram, agora obviamente destroçando a matéria prima e maquinário contido no interior, à espera do início dos serviços. Adam também corria, soldados corriam, tentavam jogar água, mas não havia nada capaz de aplacar o fogo, em dez minutos o prédio crepitava incandescente como uma tocha. Quando o caminhão chegou, com suas mangueiras e jatos potentes de água, já não havia mais o que fazer, mesmo que houvesse, nenhum deles era treinado para apagar chamas, costumavam usar aqueles jatos com pessoas, não com fogo.
Coube a eles somente observar enquanto as labaredas ganhavam altura, uivando, quebrando, demolindo. Adam se arrepiava ao observar a imponência do incêndio, que não morria, indiferente dos esforços empregados nele. O rapaz teve certeza que devoraria tudo ao redor e além, que não pararia enquanto não cansasse por si.
E, em meio a tanto barulho e olhares pasmados, um chiado familiar começou baixinho e foi se intensificando gradativamente, abafado em meio ao caos, mas todos ali conheciam o som, era um estopim aceso e se viraram rápido para ver de onde vinha, não puderam identificar a fonte do som e correram para a rua por onde vieram, alguns se esconderam atrás do caminhão, contudo, não conseguiram ir longe antes do estouro. No entanto, não foi a explosão que esperavam, apenas um estampido de pequena proporção, muito menor do que os ouvidos no interior da fábrica e pararam, confusos. Segundos depois, a explicação veio do céu como uma garoa de papéis laminados vermelhos no formato da letra A, não maior do que a palma da mão.
Dimitri ofegou, agarrando uma letra no ar. — Desgraçado! Maldito, desgraçado! — vociferou. — Desapareçam com isso, agora!
Consumido pela raiva, Dimitri foi para o salão de baile, o ódio pulsava em suas veias e os pés nem sentiam a dor de pisar com tanta força no asfalto, mas as canelas queimavam quando parou na porta do salão. Respirou fundo, arrumou os cabelos e ajeitou a farda, as coxas reclamaram quando ele se movimentou para dentro com os passos ainda indóceis e um olhar que ameaçava matar quem atravessasse o seu caminho. Para multiplicar a sua fúria, demorou para encontrar Zunik, junto do general Leon Handersen, sucessor de Jesus H. Koch, com sua esposa e Verbena.
— General — ele cumprimentou.
— Coronel Dimitri. Estávamos falando de você agora mesmo — falou Leon.
O general do exército sorria para o coronel e para o mundo, embalado pelas incontáveis taças de champanhe que havia bebido. Se tratava de um homem fácil de encontrar na multidão, alto, redondo, rosado, embrulhado em uma farda expandida por sua barriga generosa e inúmeras medalhas, nenhuma de honra, Dimitri costumava salientar quando estava em conversa entre os que considerava aliados. Ele fazia um contraste impossível de ser ignorado com Zunik, ao seu lado, que mantinha a forma física no mais alto grau de desenvolvimento.
— Marechal, posso ter um minuto de seu tempo? — perguntou Dimitri.
— Agora? Estamos em festa. Onde está a sua esposa?
— Em casa, senhor.
— Então vá buscá-la.
— Ela não virá, foi acometida por sua fragilidade feminina.
— É uma lastima, ela enfeitaria esse salão com graça e elegância.
— Senhor... É importante — insistiu Dimitri.
— Está quase na hora do meu pronunciamento aos nossos convidados, Dimitri.
— Será apenas um minuto.
Zunik não queria ouvir, sabia que não eram boas notícias, suspeitou da gravidade do problema que viria desde que ouviu a primeira explosão. Mesmo assim sorriu, com tranquilidade, como se o nervosismo não tivesse tomado conta de seu corpo.
— Muito bem! — concordou. — Com licença, eu já volto, façam companhia à minha adorável professora, por favor.
— Será uma honra acompanhar tão exótica beleza — respondeu Leon.
Eles se afastaram alguns passos e nenhuma conversa se iniciou entre os que ficaram, ao contrário, os três permaneceram observando o diálogo particular entre o coronel e o marechal, logo a expressão de Zunik se fechou também, sobretudo quando Dimitri mostrou algo que só puderam identificar a cor, vermelha.
— O que está acontecendo, Leon? — perguntou Ilde, a exuberante esposa do general.
— Eu não sei, estive aqui desde o início da festa como o marechal ordenou, e antes de vir para cá estava tudo em ordem.
— Ouvimos estrondos dentro da fábrica antes de virmos para a festa, o marechal disse que eram os sons da cidade, mas pareciam explosões — falou Verbena.
Leon paralisou, conhecia Zunik, ele jamais demonstraria à elite do país, presente naquela comemoração, que estavam com problemas e, ele certamente disfarçou também para Verbena porque não a conhecia bem o bastante para ter certeza de que ela não entregaria o ocorrido.
— Eu vou descobrir o que está acontecendo, se me derem licença, senhoras.
As duas assentiram e o general saiu cambaleando na direção dos dois.
— A senhora disse que o seu filho será meu aluno, não foi? Quantos anos ele tem? — perguntou Verbena.
— Dezesseis — a mulher respondeu, esticando o pescoço para ver se conseguia decifrar a conversa desenrolada entre os homens.
— Tem mais algum filho?
— Sim... Tenho dois mais velhos. — E ela enfim se virou para Verbena. — Eles estão servindo à nação.
— Deve ser uma honra.
— Não é. Preferia ter tido três meninas, assim não teria que criar filhos para irem servir longe, onde não sei se estão vivos ou mortos.
— Eu sinto muito.
— Tudo bem, é a sina das esposas de militares. Aliás, são duas sinas, a segunda é ser chamada de “senhora” o tempo inteiro, então por favor, não me chame mais assim, já basta esse bando de soldados. Me sinto com noventa anos de idade.
Verbena sorriu. — Isso não se repetirá.
E Ilde esticou novamente o pescoço. — O que será que está acontecendo?
Verbena olhou para o trio, falando rápido e exaltado.
— Eu não faço ideia.
— Os homens não são muito dispostos a dividir informações com as mulheres.
— Isso não parece ser problema para você.
— Ah, não, querida. Eu preciso de muito esforço para saber das coisas.
— E consegue?
— É claro, sempre.
— Então me ensina, meu pai também não dividia muito comigo.
— Quando se casar será mais fácil, você poderá usar chantagens que não pode com um pai.
— Entendo.
— Conheci o seu pai, à propósito.
— Conheceu?
— Sim! Um bom homem, nasceu para as forças armadas, Leon o admirava demais.
— Me agrada muito saber disso.
A mulher se aproximou para um segredo. — Quase me casei com ele.
Verbena se sobressaltou, divertida. — Não me diga!
— É verdade. Antes de eu conhecer o Leon. Não deu certo porque seu pai foi para o norte e, quando voltou, eu já estava noiva de Leon.
Considerando que o casamento do general durava quarenta anos, Verbena calculou que foi poucos anos antes de ela nascer.
— Que coisa triste.
— Não. Não. Nem de longe. Foi um alívio para mim e para o seu pai também, porque a única coisa em que concordávamos é que não queríamos nos casar, nossos pais é que queriam a união, por isso não fizemos questão nenhuma de fazer contato quando ele foi embora, aí conheci o Leon e logo me casei com ele. Eu só conheci realmente o seu pai depois disso, e vi que era uma boa pessoa, poderia até ser feliz com ele, mas amo demais o meu Leon e não sei se amaria o Jesus, nem ele possivelmente, hoje tenho quase certeza de que a missão no Norte foi aceita para nos livrar do compromisso.
Verbena sorriu, não conhecia aquela história. — Que bom, então, que ele foi para o norte — disse.
— Você nasceu lá, não foi?
— Foi.
— Mais um motivo para a ida dele ter sido boa.
— É verdade.
— Quem acertará o seu casamento?
Verbena mostrou um olhar perplexo. Ela sabia que acordos nupciais previamente determinados eram um costume enraizado em Novanação, mas não esperava ouvir falar dele, nem cedo e nem tarde.
— Ninguém, não me casarei — respondeu Verbena.
— Por que, querida?
O assunto do marechal, do general e do coronel foi esquecido instantaneamente.
— Porque eu não quero e meu pai concordou. Que bom homem poderia querer se casar comigo?
Ilde pousou sua mão no braço de Verbena. — Não diga isso. Com certeza haverá um homem que queira uma beleza como a sua, nenhuma mulher é completa sem ter um marido.
Doeu ouvir aquilo. Para Verbena, que conheceu diversas culturas pelo mundo, aquele pensamento era bastante incômodo, mas manteve a sua melhor expressão de naturalidade, a mesma utilizada nas incontáveis vezes em que ouviu sobre a sua “beleza exótica” naquela noite.
— Eu me completo com meu trabalho.
— Mulheres nem deveriam trabalhar, vou cuidar disso para você, estará casada até o fim desse ano.
Verbena não teve tempo para contestar, pois foram interrompidas por um homem que assustou Ilde com a aproximação brusca e reta na professora.
— Olá! Eu sou o major Willian Saturno, é uma satisfação conhecer a esperada professora e ver que é tão linda.
E ele pegou a mão de Verbena, depois a beijou demoradamente, em seguida levantou-se com o olhar percorrendo o seu corpo. Ela o tinha visto na praça e não ignorou a sua forma de observá-la, antes de parar ao lado dela durante o discurso. Verbena também notou que o homem não a perdeu de vista desde que entrou no salão de festas, se aproximando metro a metro no aguardo de uma oportunidade de abordá-la.
Verbena puxou a mão com discrição. — Olá! — respondeu.
O homem abriu um sorriso tonalizado pelo fumo.
— Serei o seu acompanhante na cidade — ele contou, cordial —, cuidarei da sua segurança enquanto estiver aqui.
— Não cuidará! — falou Leon, surpreendendo até Verbena. — O acompanhante da senhorita Koch já foi escolhido, e você vá se juntar ao coronel, ele precisa dos seus serviços.
— Mas eu fiz a solicitação para ser o acompanhante da estimada professora faz alguns dias, imagino que não houve outros candidatos.
— Houve, sim, e ele será o acompanhante dela. Agora vá fazer o que mandei. — Leon esperou até que o major se afastasse e voltou-se à Ilde. — Teremos que resolver um problema — ele avisou. — Já chamei três dos meus homens para levar você em casa. Senhorita Koch, deve ir com ela.
O tom de Leon era outro, oposto ao que tinha quando as deixou, agora estava sério, sisudo e sóbrio.
— O que está acontecendo? — perguntou Ilde, alto demais, ele baixou a voz para um sussurro.
— O terrorista atacou outra vez.
Ela levou a mão ao colo, assustada. — Não estaremos mais seguras aqui?
— Não. Vá para casa, sem alarme, mandarei mais homens para lá e o marechal, está enviando mais para a sua casa, senhorita Koch.
— Agradeça a ele por mim, por favor — respondeu Verbena.
— Vão logo.
Ele não esperou para vê-las sair, tampouco as acompanhou como mandava a etiqueta. Ilde detestava ter que disfarçar, mas sabia fazer isso muito bem e laçou o braço de Verbena com o seu, sorriu e começou a falar frivolidades enquanto caminhava para a saída, deixava escapar um ou outro riso afetado de tempo em tempo, o que permitia passagem ininterrupta. Não que Ilde esperasse interrupções, não demorou para que ela percebesse a pouca disposição dos convidados de se aproximarem de Verbena, por mais curiosidade que ela gerasse. E Verbena respondeu, sorriu, mas não se comportou da mesma maneira, Ilde olhava para ela como se observasse um camundongo assustado e a conduzia como tal. Quando entraram no carro, Ilde se livrou da máscara e desabou sobre o banco traseiro.
— Senhor misericordioso! — ela disse com a mão novamente sobre o colo — Eu imaginei uma bomba explodindo sob nossos pés a cada passo que dei.
— E é comum bombas explodirem no meio de festas por aqui? — perguntou Verbena.
— Não. Mas com esse terrorista pode-se esperar tudo.
— Que terrorista?
Ilde respirou fundo, à medida que o carro começava a se mover, precisou de três expirações para acalmar o coração.
— Ele é chamado de Ás de Paus. Um desordeiro sanguinário que tem causado incômodos indescritíveis. Estraga tudo o que pode, explode, queima, ele parece ter adoração por fogo.
— Esse homem parece um monstro.
— Ele é. Há um mês ele destruiu um Centro de Cura com todos os trabalhadores e pacientes dentro, não gosto nem de pensar nisso, fico imaginando aquelas pessoas lá, sem poder sair... — Ilde abanou a mão na frente do rosto para afastar a imagem de sua mente. — Enfim... Não sobrou nada do local, além de escombros.
— Você quer dizer: um Campo de Punição?
— Não chamamos assim, querida, não chame também.
— Me desculpe. Tive uma vida afastada, não conheço nada daqui, nem os modos corretos.
— Nas ruas, os mal-intencionados usam este termo para menosprezar o lindo trabalho que desenvolvem nesses lugares. Mas nós chamamos de Centros de Cura, Centros de Tratamento ou Centros de Recuperação, porque as pessoas são colocadas lá para receberem tratamento de suas enfermidades, além de que as pesquisas que desenvolvem são responsáveis por medicamentos e vacinas muito importantes. Eu sempre quis visitar um Centro, mas o Leon nunca deixou.
— Não cometerei esse erro outra vez.
— Você irá aprender tudo. Se permitir, eu ensino o que você precisa saber.
— Eu agradeço.
— Bom, voltando ao sádico, que aterroriza a população. Depois que ele incendiou o Centro de Cura, fez aquele pronunciamento provocativo, dizendo que luta pelo povo. Mas como luta pelo povo, se destrói cada recurso que adquirimos para eles?
— Que horror!
— Isso mesmo. Vou saber o que ele fez hoje só depois que o Leon voltar para casa, mas não deve ser coisa pequena, tomara que ninguém tenha se machucado.
— Eu também espero que ninguém tenha se machucado.
O carro estacionou em frente à mansão vitoriana da família Koch, no momento apenas de Verbena, ela herdou a casa do pai e todas as suas propriedades oficiais. Aquela era a mais linda da rua, o general Koch a mantinha como um tesouro especial, dava muito valor a arquitetura, e o imóvel, parecia novo, com cores vibrantes, jardins bem cuidados, paredes firmes, telhado robusto e grossas grades altas no portão, Verbena amava aquele lugar.
Ela saltou do carro que a trouxe da festa com ares de tensão no rosto, olhou para os lados e andou apressada na direção dos dois soldados parados nas laterais de seu portão, ela contabilizou mais quatro ao longo do quarteirão, todos faziam pares com soldados do outro lado da rua.
— Nunca saia depois do toque de recolher! — gritou Ilde, da janela do carro. — Principalmente hoje!
Verbena fez um aceno rápido e se afastou com as chaves na mão. Os soldados da guarda pareciam mal vê-la, mas compuseram-se em posição de sentido para a sua passagem e ela entrou, trancando a fechadura de metal antes de se dirigir à casa.
Entrar no santuário, que era a sala da residência, nunca falhava em restaurar a paz de Verbena. O cômodo ecoava a memória do pai em cada detalhe da decoração, das cores, das obras de arte e até das cortinas grossas e lustre inadequadamente grande, mantido apenas como mais uma peça a testemunhar as suas chegadas em casa depois, muito depois, do toque de recolher.
Ela andou até a antiguíssima poltrona de Jesus H. Koch, uma peça rara por si só, Verbena não a usava com frequência, mas precisava tocá-la cada vez que chegava como o cumprimento que não podia dar ao pai, era estranho, mas ainda sentia o cheiro dele nela e a sensação da proteção paterna a inundava quando se aninhava ali.
Verbena suspirou, cansada, era um alívio estar em seu lar, livre de tantos “oh” e “ah”, “estou lisonjeada”, “você é muito gentil”, e toda a afetação interpretada em frente à um público tão exigente, e subiu as escadas de madeira envernizada até o seu quarto, tão diferente do restante da casa, um cômodo minimalista, de paredes nuas, em branco simples e iluminação fria com adjacente nas sancas, foram elas que a moça acendeu, sua vista estava cansada de tanta luz e seguiu para um banho relaxante. Mas, antes que se despisse, um estrondo de vidraça quebrada, no andar de baixo, a sobressaltou.