Edmund
O major via a porta de metal do depósito principal do R-801 com frequência, ela estava sempre fechada, assim como estava naquele momento em que procurava um abrigo urgente, achava curioso o fato de ser a única que avistou com tranca eletrônica e de última geração, mas podia abri-la, estava com vontade de fazer aquilo desde que a enxergou, entretanto, não tinha tempo para isso e não podia ir para a plataforma no fim daquele caminho, ficaria exposto a outros perigos, não havia como saber quantos foram instruídos a pegá-lo e logo seus perseguidores se recuperariam.
Então ele se enfiou na primeira porta fácil de arrombar, em frente à do depósito, contente por não terem mudado as posições bizarras das câmeras que também não apontavam para aquele ponto.
O local estava cheio de prateleiras, abarrotadas de produtos de limpeza e trancou por dentro com um arame que encontrou ao lado. Deu três voltas no trinco com ele para garantir, o travou com um aspirador de pó e sentou-se no chão, encarando a entrada, ofegante e bloqueando a tosse como podia. Não demorou para ouvir passos pesados passarem, depois alguém baixou a maçaneta e empurrou a porta. Ela nem se mexeu e quem empurrou não se preocupou em estudar a fechadura. Embora Edmund não tivesse feito grande estrago, um olhar minucioso poderia perceber que estava danificada.
Decorridos mais alguns minutos, sobrou apenas o silêncio, nem mesmo uma sombra cruzou outra vez pelo vão de baixo da porta, o que não queria dizer que pararam de caçá-lo, apenas que ninguém mais o procurou ali, assim ele acreditou.
De qualquer maneira Edmund relaxou um pouco e aproveitou para ver se o seu minicomputador não tinha quebrado, ele sempre o guardava no bolso do peito, onde não foi atingido nenhuma vez na luta, por isso o aparelho estava intacto. O desligou e guardou novamente, a única certeza que tinha era a de que precisaria dele em algum momento e não sabia quando poderia expô-lo ao sol para ser recarregado e nenhum meio alternativo parecia promissor naquele instante.
Em seguida abriu a blusa e apalpou as costelas, não estavam quebradas, mas o lado esquerdo, onde levou um soco sem nenhum preparo para recebê-lo, protestou ao movimento, até a pele doeu com o toque.
Por último, tirou a botina. A unha do dedão descolou e certamente cairia em alguns dias, porém nada mais grave ocorreu ali. Recriminou-se por não ter ficado com a mochila desde o almoço, não o fez porque acreditava em seu retorno à cabine e a preocupação com o questionamento sobre o motivo de carregá-la agora parecia trivial. Teria resolvido isso com uma mentira simples.
Edmund era horrível mentindo, mas os rapazes não o conheciam para saber e suspirou exasperado ao pensar no quanto o kit de primeiros socorros dentro dela seria bem-vindo agora, então teria de se arranjar com o que um armário gigante de vassouras poderia oferecer.
Encontrou álcool, panos limpos e, para seu consolo, fita adesiva. A possibilidade de improvisar um curativo decente foi um alento, visto que a opção seria amarrar um pano no dedo, e sentou-se outra vez, atento aos sons para não perder a chegada do helicóptero ou a aproximação de alguém. Em seguida derramou o álcool direto no ferimento, não esperava sentir mais dor do que já estava sentindo e conteve o grito à custa de quase trincar os dentes, os olhos permaneceram apertados, vertendo lágrimas, até a dor diminuir, depois enrolou uma tira de pano e apertou com a fita adesiva. Não ficou impecável, mas resolveria enquanto não chegasse à base, lá faria um curativo apropriado.
Terminado o trato no pé, ele limpou o chão com o restante do pano, dobrou-o e guardou em um dos inúmeros bolsos da farda, fechou o garrafão de álcool e o colocou atrás dos outros, demoraria para que o encontrassem e duvidava que imaginariam o que aconteceu com ele.
Só então Edmund descansou, respirar começava a causar novas dores e a espera se prolongou. Ouviu muitos sons, mas não de helicóptero e perto do anoitecer, entendeu que não viria nenhum.
— Burro! — murmurou. — Era óbvio que cancelariam, provavelmente foi cancelado na hora em que saí do Centro de Controle.
E ele recostou a cabeça na parede, pensativo, não poderia ficar ali, era um almoxarifado, com apenas uma porta e nenhuma janela, somente pequenos exaustores pelos quais entrava a claridade do dia, não contava sequer com lugares para se esconder se alguém aparecesse. Teria que achar rápido um esconderijo menos vulnerável, onde pudesse planejar como sair sozinho daquele porta-aviões.
Ao olhar em volta teve uma ideia, não era das mais excepcionais, mas lembrou das câmeras, e que elas precisavam de uma fiação que certamente passava pela parede, bastava conectar-se a uma delas para ver o que acontecia do lado de fora.
Animado, ele foi para a porta, encostou a orelha na lateral e tentou seguir o zumbido. Já não havia muita luz no local, pioraria logo e passou a mão pelo reboco, procurando e esbravejando em intervalos regulares; bufando decepcionado entre um xingamento e outro, no final não encontrou uma tomada sequer e o interruptor não ajudava, ele poderia acabar acendendo as luzes no processo e fazendo um farol para que o encontrassem facilmente. Seria obrigado a sair dali do jeito que entrou.
— Pense, Edmund! — resmungou. — E pense rápido.
Com isso, lembrou-se do horário do jantar, sete horas em ponto. Quase todo o porta-aviões ia para o refeitório e a vigilância humana ficava centrada na plataforma ou em torno da ilha, seria sua chance. Pretendia atravessar o corredor e entrar no depósito, lá encontraria tudo o que precisava e uma tranca, na porta, oportuna para empregar suas habilidades digitais e articular a fuga enquanto colhia mantimentos, a menos que a fechadura eletrônica fosse fachada. Preferia não pensar nisso, nem passar muito tempo no local, já que era o melhor lugar para procurar um fugitivo que escapou sem nada.
No horário da refeição noturna, Edmund já se encontrava no escuro. Felizmente a luz forte do corredor também ultrapassava as aberturas dos exaustores e ele podia localizar onde estava o aspirador, assim como a maçaneta, o arame ele já tinha removido.
O rapaz esperou mais quinze minutos como garantia, ligou seu minicomputador e puxou o aspirador devagar, seu coração batia tão forte que teve medo de ser denunciado pelo som das pulsações, em seguida puxou a porta pronto para lutar e esconder quem quer que fosse ali dentro, se vencesse a luta. Bendita foi a hora em que Sônia o convenceu a praticar combate corpo a corpo.
O corredor era bem iluminado. O major precisou piscar algumas vezes para adaptar a visão. Porém, pôde respirar um pouco mais tranquilizado ao ver que estava deserto e as câmeras ainda apontadas para pontos irrelevantes: dali à porta do depósito, não precisava fazer qualquer desvio para se evadir delas. E correu até lá com o cabo de um dos inúmeros plugues pronto para conectar. Sabia exatamente qual seria o necessário, pois observou aquela fechadura incontáveis vezes. Gastou segundos para abrir com um ruído alto demais para a quietude do lugar e empurrou a porta, assolado por outro temor. Perdeu horas no almoxarifado e alguém poderia estar esperando por ele dentro do depósito. Pelo menos era o que ele faria.
Mas Edmund entrou igual, ouvindo mais do que vendo à medida que os olhos acostumavam com a escuridão depois de olhar para tanta luz, e não saiu da porta antes de adquirir uma frágil confiança de que estava sozinho.
Ali a escuridão era total, nenhum fio de luminosidade penetrava, além da oferecida pelo vão da entrada, o que o fez perceber que nenhum sairia também e poderia usar a lanterna do Palm Toot, uns dias antes pensou em tirar a lanterna do aparelho, agradeceu mentalmente pela falta de tempo para fazer isso. Mesmo assim ficou grudado à porta enquanto a fechava com mais cuidado do que abriu, e reconectava o computador portátil pelo lado de dentro, se entregando à alegria de ver que a tranca era íntegra. Considerando o estado do sistema de segurança do navio, Edmund teve medo real de que a fechadura não passasse de uma gambiarra ordinária.
Rapidamente ele se trancou dentro do depósito, em seguida invadiu e controlou as câmeras do corredor pelo qual tinha acabado de passar, depois fez uma investigação virtual do espaço e descobriu que estava cercado por detectores de movimento, luzes automáticas, câmeras ativas e de captura infravermelho.
Um contraste berrante com a proteção empregada no restante do navio. Apesar disso, nada mudou quando Edmund abriu a porta, se ele tivesse planejado o sistema, colocaria sensores para responderem ao deslocamento do ferrolho. Mas não podia reclamar e sentou-se para trabalhar com menos desconforto. Não havia vigilância visual ali onde estava também, foi difícil afastar a curiosidade sobre a razão de câmera alguma mostrava a entrada por dentro ou por fora.
Afastou de qualquer maneira, precisava se concentrar na procura de um possível alarme silencioso que pudesse delatá-lo. Se soubesse que havia tanto cuidado com o lugar teria escolhido outro para se esconder, pois ninguém colocaria aquele nível de defesa em uma sala e relegaria algo tão simples como um alarme.
Edmund estava enganado. Não existia alarme algum e sacudiu a cabeça com o ridículo que aquilo pareceu, em seguida se lembrou que tinha mais era que agradecer ao desmazelo que garantiria a sua sobrevivência. E começou a trabalhar no domínio do sistema de segurança do ambiente ao redor.
Desligou os detectores, se apoderou das nítidas imagens em infravermelho dos últimos minutos antes de ele entrar, gravou e guardou. Buscou a única câmera do Centro de Controle e cortou sua conexão com a central. Edmund sabia que conseguiria porque o sistema era integrado e operava por somente uma via, ele já subjugava códigos como aquele aos doze anos de idade.
Quando conseguiu capturar o sinal da câmera, a focalizou nos monitores, e o rapaz que devia vigiá-los estava de costas, em animada conversa com os colegas, como sempre, substituiu as imagens pelas que gravou e as deixou lá, estáticas, as telas nem piscaram, aquilo jamais seria possível nos seus monitores da sede do governo, mas essa foi outra observação que jogou para o esquecimento e focou sua atenção em girar a lente os trezentos e sessenta graus que ela tinha capacidade de girar, devagar, para observar a movimentação sem atrair curiosidade. Estava tudo normal e nem se preocupou em verificar a sala de vigilância, não havia monitor algum lá, outro dos absurdos que encontrou naquele porta-aviões.
Como próximo passo, Edmund desativou o monitoramento do recinto em que estava e transformou as câmeras em sentinelas particulares, com luzes em azul, enquanto permanecessem dessa cor, estaria protegido. E, por fim, acendeu as lâmpadas, mas as deixou com metade da intensidade, não precisava de muita iluminação e queria se prevenir de qualquer possibilidade de ser visto, mesmo sabendo que a claridade não escapava, Edmund tinha fé na prudência.
Com isso feito ele levantou os olhos, o lugar era imenso, não parecia tão grande de fora, e voltou ao computador portátil a procura de uma planta da área, demorou um pouco nisso, mas achou e, enquanto esperava a conclusão do download, resolveu verificar se tinha algo que pudesse servir de transporte agendado para chegar ao porta-aviões nas horas seguintes, ele não sabia pilotar, nem navegar, teria que conseguir uma carona. Viu que só havia um e sorriu, esperançoso.
Edmund fechou a pesquisa e conferiu de novo as atividades na sala de controle. Os monitores continuavam mostrando o que ele queria e aproveitou a oportunidade para direcionar uma das câmeras do corredor para a porta do depósito e duas para as pontas opostas, assim poderia vigiar quem se aproximava por ambos os lados. O major passou tempo suficiente naquele Centro de Controle para saber que ninguém perceberia tais mudanças tão cedo, ainda assim, continuou observando por alguns minutos até ter certeza de que era seguro deixar o Palm Toot ali, se alimentando pelo cabo conectado à tranca, e ir fazer o que precisava.
Levantou-se, então, e começou a sua procura. A planta do depósito exibia mais quatro saídas, viu nela alguns cômodos adjacentes, que não acreditava conter o que ele necessitava, e nada tão especial que fosse exigir muito de sua memória infalível, desse modo achou fácil água e comida, teve maior dificuldade com aquilo que mais desejava: remédios e kits de primeiros socorros. Apesar de as fileiras estarem claramente sinalizadas, não encontrava nem as mochilas, artigo tão comum em depósitos militares, passou antes por produtos de higiene, roupas e calçados, fez uma nota mental de que precisava pegar aquilo na volta e continuou.
Ele caminhava para a estante vizinha quando se deparou com uma porta simples, de maçaneta como a do almoxarifado. Intrigado, desviou seu trajeto para ela, pensando no motivo de não constar na planta.
Estava destrancada e nenhuma câmera a vigiava, o interior também era livre de vigilância e cheio de caixas, de todos os tamanhos, prontas para envio, caixas feitas para o transporte de armamento, ficaria surpreso se o ar não estivesse impregnado do cheiro metálico, misturado a lubrificação nova, de artilharia recém-saída da fábrica. Não era de seu conhecimento que o porta-aviões fazia aquele serviço, até onde sabia, eles só enviavam a sucata e equipamentos defeituosos para serem substituídos, e as caixas deviam ser padronizadas para carregamento.
Edmund aproximou-se para ler as etiquetas, havia fuzis, muitos, dos mais modernos, nem ele teve acesso a um semelhante ainda, coletes táticos, granadas, dois lançadores de foguetes, placas, microprocessadores e outros equipamentos de uso militar, todos endereçados a Félix Tahúr. Um nome desconhecido e esquecido assim que o rapaz leu as palavras; “placas e microprocessadores”. Com novas ideias ele saiu, fechou a porta, observou se as luzes das câmeras continuavam azuis e voltou para o seu Palm Toot. Queria muito não ter de mantê-lo conectado ali para poder levá-lo consigo.
Tudo permanecia normal no Centro de Controle e corredores que antecediam o depósito, precisava confirmar porque iria procurar mais daquelas placas e gastaria tempo nisso, não era louco para abrir as caixas que viu, mas presumiu que existia outras em algum lugar entre as estantes.
Enquanto pensava nisso, Edmund percebeu algo peculiar e olhou para cima outra vez, apesar da intensa segurança ali dentro, não era apenas a porta que carecia de vigilância, era todo o caminho para a sala secreta, o corredor dispunha de um largo espaço cego, que levava da entrada à sala; quem trafegasse por ali não seria visto por monitoramento algum e nem o que carregassem. E entendeu enfim porque nenhuma câmera vigiava a porta principal do depósito por ambos os lados; e a sala de segurança — local que mais precisava de controle visual — não tinha nada. Estava diante de um esquema de desvio de material militar. Mas quem estruturaria tudo aquilo, para manter a sala, cheia de tráfico, destrancada?
— Alguém que tem muitos cúmplices — sua mente, rápida, respondeu.
Mas Edmund não podia se aprofundar na nova descoberta naquele instante, tinha que reunir o que precisava primeiro. E correu, lendo as placas indicativas. Encontrou as mochilas sem querer, pegou duas e começou a preencher uma com os produtos que necessitava, a outra reservou para os eletrônicos que pudesse localizar.
Os medicamentos estavam ao lado dos eletrônicos, talvez pela proximidade com a refrigeração, ele pensou, já buscando o que aplacaria suas aflições, as costelas o castigavam com uma facada a cada respiração, o dedo latejava, propagando a agonia até o cuneiforme medial. Se aplicou, rápido, um anti-inflamatório, também poderoso contra a dor, colocou mais algumas cartelas de comprimidos na mochila, três kits de primeiros socorros, ajeitou tudo para encobrir o seu roubo e seguiu para os eletrônicos.
Ali precisava de maior atenção para não se distrair e pegar itens que julgava legais no lugar de itens úteis, ou esquecesse de vigiar as luzes das câmeras, únicas referências que tinha de que o perigo não estava tão próximo.
Em uma hora, as duas mochilas estavam cheias e Edmund sentou-se outra vez, recostado na porta de entrada. Demorou mais porque voltava a cada dez minutos para ver se sua segurança continuava inalterada. Agora ficaria ali, mastigando uma barra de proteína saborosa e observando. As dores cessaram, sentia-se até um pouco feliz e sabia que era o efeito do medicamento junto da falsa sensação de segurança.
Sua carona chegaria cedo, o cargueiro, com suprimentos, pousaria seis horas, certamente abririam o depósito antes e ele estaria preparado. Apagou as luzes, as reprogramou para acenderem em baixa intensidade quando fossem acionadas novamente e repassou o plano. A baixa iluminação reduziria as possibilidades de ser visto quando saísse do esconderijo para se misturar aos trabalhadores que fariam o descarregamento e carregamento do avião, já tinha separado o uniforme e capacete corretos para a função.
Os carregadores não o conheciam, o que devia bastar para passar despercebido. Levar suas mochilas até o avião junto com os fardos também seria simples. Entrar pelo trem de pouso era o que seria difícil e preferiu deixar para planejar essa parte após conhecer a aeronave.
Não saberiam da presença dele no compartimento de cargas, uma vez que ninguém, além dos pilotos, podia decolar e duvidava que qualquer um deixaria a cabine para verificar o lixo descartado pelo porta-aviões. Não era um avião grande, por isso calculava que a operação seria rápida.
Assim que terminou seu lanche, o major começou a trabalhar em uma ideia que teve enquanto colhia suprimentos. Tinha que avisar Leon sobre o que aconteceu, só confiava nele agora e não sabia quando o veria de novo, se é que veria. Contudo, a única coisa que poderia fazer dali era enviar uma mensagem, uma que fosse só para ele e, para isso, tinha a solução.
Edmund instalou o computador do general fazia alguns anos e nunca o atualizou porque Leon nunca ficava na sala por tempo suficiente para que ele fizesse o serviço, isso quando aparecia na sede do governo. Mas antes de ter sido enviado para o porta-aviões, ele viu que o general estava indo todos os dias para lá e, por conta da falta de atualização no terminal, o aparelho era capaz de ler mensagens por uma via tão ultrapassada que nem podia ser interceptada.
O que Edmund não sabia é se o seu minicomputador era capaz de mandar mensagens por esta via e fez alguns testes. Não queria correr o risco de sobrecarregá-lo e estragar a sua bolha de proteção.
Separadamente, então, escreveu um longo texto, contando sobre a mentira de ter encontrado os soldados desaparecidos, já mortos, quem a engendrou, sobre o que aconteceu ali no porta-aviões, todas as suas desconfianças e o que encontrou no depósito. Com a carta pronta, não teria que manter uma conexão delicada por muito tempo, enviaria a mensagem ao primeiro sinal e desconectaria em seguida, preservando assim a pequena rede de domínio. Porém, não foi fácil como ele pensou, cogitou desistir na terceira tentativa e talvez tivesse desistido se uma conexão promissora não aparecesse no meio da sequência.
Com mais aquela tarefa concluída, Edmund voltou a observar os arredores e o Centro de Controle. Bespalez estava lá, mandando sobre a plataforma central como ele costumava fazer, aquela plataforma era cafona, a extravagância de uma mente perturbada por delírios da grandeza que jamais alcançaria, mas era bom para Edmund porque o tornava completamente visível para a câmera e a girou na direção dos monitores outra vez, eles nem mostravam mais o depósito.
Observar tamanha calmaria deixou Edmund desconfiado, Bespalez parecia particularmente contente e devia haver algum tipo de agitação ou, ao menos, tensão depois de sua fuga, a não ser que Bespalez não tivesse envolvimento no ocorrido, o que ele duvidava vivamente. Até pensou em tentar acessar mais câmeras para procurar por seus agressores e ver o que faziam, mas não tinha certeza sobre o poder de alcance do Palm Toot em um sistema como aquele, por isso preferiu trabalhar em um projeto diferente.
Se Bespalez participou ou não do ataque contra ele, Edmund não sabia, mas tinha certeza de que era responsável por roubo de material que devia ser utilizado para proteger o país. Por isso resolveu deixar um presente para o capitão. Dois, na realidade.
O primeiro foi mover as câmeras internas para cobrirem a área cega, incluindo as saídas adjacentes, três focalizando a porta que não estava registrada na planta, depois garantiu que as imagens fossem enviadas para a base e esperava que ninguém lá estivesse participando do esquema. Bastava desconectar o Palm Toot e elas começariam a gravar e transmitir. Qualquer um que fosse transportar aquelas caixas, seria flagrado e torcia também para que não notassem a mudança antes que todos os envolvidos no crime fossem filmados. Era uma pena não poder mudar os sensores de movimento de maneira remota também, mas não dava para ter todas as vantagens.
O segundo era para manter Bespalez ocupado enquanto executava o seu plano de fuga. Alguém que promovia tantos treinamentos, só podia ansiar por uma batalha ou viver em extremo tédio. De uma maneira ou de outra, uma abordagem hostil o manteria no Centro de Controle, cuspindo ordens e deixando os homens em tamanho alerta que ninguém prestaria atenção no avião cargueiro.
Assim sendo, programou uma falsa aproximação subaquática, igual aos simulados que formulava para o treinamento dos jovens soldados e estudantes das escolas. Tinha algumas cópias prontas no Palm Toot. Era obrigado a ter, considerando que nunca o avisavam com a devida antecedência de que um simulado ocorreria e precisava sair correndo para aplicá-los. Mais uma vez ele agradeceu ao amado dispositivo — seu melhor companheiro de serviço — como se ele fosse, de fato, o seu fiel cãozinho.
A única diferença dali para os simulados em terra, era o mar. Naquele momento o aliado perfeito já que ninguém poderia ver que não havia nada lá embaixo e, com o sistema defasado de localização, rastreamento e identificação do porta-aviões, jamais saberiam.
Edmund incrementou o sinal para aparentar o de dois submarinos. Com a impossibilidade de distinguir a procedência, já que não havia submarinos verdadeiros, Bespalez ficaria doido e sorriu ao imaginá-lo assim, queria poder vê-lo enlouquecendo.
Como bônus deixou outro alerta para a noite seguinte e um terceiro para a manhã posterior, simulando o avanço de embarcações múltiplas. Este seria a revelação da farsa em que se perderam por dias, mas levaria horas até que começassem a suspeitar, o que deixaria o capitão tão enraivecido quanto humilhado e, nas condições insones em que provavelmente estariam, teriam dificuldades para perceber pormenores como as posições das câmeras.
Ao concluir as traquinagens, Edmund desejou mandar uma mensagem a Sônia, mas repensou, já foi difícil manter a capacidade do dispositivo portátil enquanto enviava a mensagem para Leon. Sônia também não tinha acesso a um computador com sistema operacional tão antigo, então teria que mandar notícias pela forma convencional e isso seria facilmente rastreado, o que ligaria aquela situação de perigo a ela. Pensar nisso fez um arrepio percorrer o seu corpo e desistiu, em vez disso pôs-se a estudar a estrutura de um FURT-062, o cargueiro que o tiraria dali. Quando se deu por satisfeito, já estava na hora de trocar as roupas, a madrugada passou tão rápido que nem a viu correr.
Logo que terminou de se vestir, organizou os largos carrinhos de lona, usados para transporte, em uma fila desorganizada desde aquele ponto até a porta de entrada, onde os sensores de movimento não poderiam alcançá-lo quando religados. Espalhou o restante de modo displicente e enfiou a roupa suja ensacada em um deles, então agachou-se atrás do primeiro, pegou o computador portátil e olhou novamente os monitores do centro de comando, o depósito não aparecia em nenhuma tela e os poucos marinheiros que estavam lá não olhavam para as imagens.
Era um bom momento, desconectou o cabo da fechadura e imediatamente as luzes das câmeras piscaram uma e duas vezes, depois retornaram ao vermelho, quando isso aconteceu ele já engatinhava a meio caminho, levantou-se atrás do pilar e ficou lá, pela meia hora seguinte.
Quando remanejou as câmeras, deixou um ponto cego que abrangia parte dos carrinhos de lona e o pilar atrás do qual estava e mais nenhum, queria a entrada nítida e desobstruída para quem pudesse ver.
Edmund pensou que ouviria a porta abrir antes do pouso do avião, mas foi o contrário. A aeronave pousou e vários minutos depois os carregadores vieram, as primeiras palavras que discerniu foram reclamações pela luz fraca, logo em seguida pelos carrinhos espalhados, acusavam-se enquanto os pegavam. O major ficou olhando, colado entre a parede e o pilar para que a sombra o encobrisse, seu objetivo era os carrinhos cheios de velharia avariada para colocar no avião. Viu irem os vazios e voltarem lotados, rumo as fileiras equivalentes, bem longe dele.
Demorou mais do que desejava até virem buscar o descarte. Quando os viu se aproximarem, esperou que passassem e os seguiu, empurrando o carrinho que escolheu para levar com seus novos pertences no topo.
A adrenalina circulava como um furacão em suas veias. Já não sentia mais tanta confiança e detestou a sensação; aquilo enuviava o seu autocontrole. Empurrou mais rápido. O peso fez uma pontada cutucar o lado esquerdo do tórax, mas continuou pela plataforma clara demais, agora crente de que alguém notaria que ele não estava ali antes. Subir a rampa do avião foi outro desafio doloroso, e ouviu os primeiros burburinhos alarmados quando estava na metade dela.
Alguns oficiais se apressavam para os seus postos, marinheiros mais novos e, por isso, mais impressionáveis corriam em busca de informações, lá dentro imitou os companheiros e descarregou o que trouxe, com o cuidado de deixar o que era seu perto da escotilha do trem de pouso, esperava que não fosse diferente do que estudou naquela noite e agachou-se, puxando a fita de segurança para disfarçar que estava, na realidade, abrindo a trava do alçapão.
Não era exatamente como pensou, mas não era muito diferente também, se não conseguisse já planejava outra opção, daria tempo agora que os dois, que estavam com ele, saíram correndo para saber dos submarinos que se aproximavam do porta-aviões, mas conseguiu com dois puxões e só não entrou naquele instante para se esconder até que o serviço fosse concluído porque qualquer um poderia flagrá-lo e queria garantir que não colocariam nada sobre a tampa ou ficaria preso lá embaixo.
Trabalhando o mais rápido que pôde com as dores que retornavam, conseguiu acomodar os fardos em volta do compartimento, pegou o que sobrou nos carrinhos abandonados e empilhou na frente, fechou os dois carrinhos vazios, colocou dentro do que trouxe e levou para fora.
A plataforma estava em alvoroço, até o piloto foi para o meio do grupo de homens entre especulações, e a carga remanescente permaneciam negligenciada abaixo da rampa. Edmund xingou mentalmente, talvez tivesse exagerado na distração, e agora não sabia o que fazer, se prosseguisse com o serviço levantaria suspeitas, se entrasse no grupo poderiam perceber que ele não fazia parte da equipe. De repente, um temor abalou ainda mais a sua confiança, se a notícia chegasse à capital alguém daria a ordem para que o avião não saísse do navio.
Mas ninguém ficou sabendo o que ocorria e ninguém pensava nele naquele instante, pois longe dali, Leon e Dimitri exploravam o prostíbulo abandonado, em frente ao desmanche que tinham acabado de descobrir, todos os pensamentos se voltariam a isso e o major continuaria esquecido.
Edmund desceu a rampa devagar, raciocinando rápido, depois fingiu se atrapalhar com as rodas e os carrinhos desceram descontrolados. Todos pararam com o susto, se dispersaram e dois vieram em seu auxílio.
— Não se preocupe, rapaz, no começo é difícil controlar essas belezinhas. Você vai se acostumar — o mais velho deles chegou dizendo.
Edmund agradeceu em pensamento, os demais supuseram que ele era novo ali, não precisaria mentir como antecipou.
— Desculpe — falou, então.
Eles o ajudaram a juntar os carrinhos caídos, depois Edmund foi pegar outro cheio.
— O que aconteceu? — ele perguntou para induzir os dois a retomarem o trabalho com ele.
— Um submarino está vindo na direção do porta-aviões e os novatos estão apavorados.
— Três — o outro corrigiu, mas o senhor o calou com um olhar severo.
— Sabe como as notícias se espalham. Alguns acham que é um, outros dois, outros três, daqui a pouco vira uma alcateia — ele explicou.
— Você não está preocupado?
— Não! Esse porta-aviões é blindado e, além disso, o capitão vai explodir ele, se não se identificar.
— Dá para fazer isso?
— Dá. O submarino não tem a menor chance, estamos seguros.
— Que bom.
Edmund olhou para o rapaz que subia do seu outro lado, suado e trêmulo, quase se sentiu culpado por ele, mas estava mais interessado em manter o rosto encoberto pela aba do capacete, não queria que aqueles homens sentissem a sua falta quando não voltasse com eles. Do lado de dentro do avião, não precisou se preocupar com isso, o serviço no meio das pilhas de pacotes apertados já mantinha o seu rosto oculto. Eles conversaram um pouco ainda. Em seguida, o mais velho foi acalmar o outro e o esqueceu.
Logo Edmund desceu para pegar o último carrinho e sua mente mergulhou em cálculos, agora que estava ali, não tinha certeza se conseguiria entrar por baixo do avião sem ser visto em pleno dia. Se conseguisse e não abrisse a escotilha do trem de pouso, a tempo, depois que estivesse lá dentro, não teria como evitar de se machucar na decolagem ou de congelar no voo. Se conseguisse, não sabia se dava para evitar ferimentos também no compartimento de cargas. Nunca tinha decolado de um porta-aviões, mas viu como era nos dias em que esteve ali, a coisa podia ser violenta, não existia possibilidade de ficar inteiro dentro do minúsculo espaço do trem de pouso e agachou para prender a correia da fita de segurança, em pânico.
A voz alta de um oficial o tirou de seus pensamentos.
— Terminem logo, o avião tem que decolar agora! — o homem berrou.
Os carregadores, que estavam ali dentro, jogaram o restante dos fardos, sobre as pilhas e saíram apressados. Mas o major estava tão embrenhado no meio da carga, prendendo as faixas de segurança no chão, que ninguém o notou e percebeu sua oportunidade de imediato, se enfiou mais entre os sacos e ficou ouvindo com atenção, ninguém o chamou, ninguém voltou para ver se havia alguém ali, ninguém notou a ausência de um carregador, e alguns minutos depois, a rampa começou a subir.
Edmund jamais sentiu tanto alívio, tinha certeza de que o avião não levantaria voo antes de uma inspeção minuciosa, por isso planejou entrar depois, pela abertura do trem de pouso. No entanto, nem teve tempo de comemorar o desafogo, precisava cuidar da sua segurança para a decolagem e se jogou na lateral de uma pilha, onde tinha ajeitado as fardas velhas, colocou junto apenas por organização, agora serviriam para protegê-lo.
Ele acreditou que tinha planejado tudo, só que por nenhum momento lembrou da hora de levantar voo. E puxou as faixas que mantinham a carga no lugar, prendeu-se nelas e quase enfartou quando os motores ligaram, entendeu que morreria ali, todo quebrado pelos impactos e deixaria alguém muito feliz com isso. Estudou as variáveis e nenhum resultado era favorável. Refletiu sobre a tolice que fez ao pensar naquele plano e, quando a aeronave parou para o processo de decolagem propriamente, ele pensou em Sônia. Se era para morrer que fosse com o que tinha de melhor em sua memória.
O avião levantou voo segundos depois.