Inocência Despedaçada
Edmund não conseguia falar com Sônia, nem sequer olhar para ela, não reconhecia aquela mulher e aceitou o seu casamento como acabado, ou antes, como algo que nunca existiu, se repreendia por ter escolhido ignorar que ela não era o que ele julgava, Sônia não fazia tanto segredo sobre as suas ideias e, pouco depois que se casaram, ela lhe deu documentos falsos como presente. Todos os tipos, desde a certidão de nascimento. Edmund poderia passar o restante da vida como Sandoval Bartinic.
Na época, ele ficou furioso com ela, os devolveu exigindo que ela queimasse, mas alguns meses mais tarde, achou um zíper invisível em sua carteira e lá estavam os documentos, com o lembrete de que ele precisava usar as digitais da mão esquerda quando tivesse que utilizá-los.
Foi quando Edmund decidiu pesquisar quem era aquele personagem, e descobriu que era o filho de um rico empresário francês do ramo da vinicultura. Pesquisou a suposta família também, tudo foi tão bem construído que ele teve receio de estar com a identidade de outra pessoa nas mãos. Levando em conta que, na maioria dos países, tudo era digital e ninguém mais precisava de documentação física, seria fácil para alguém com recursos, roubar a identidade de um indivíduo e imprimi-la para outro.
Mas notou que a vinícola poderia não existir quando viu que os documentos do terreno indicavam uma localização diferente dos registros da empresa. Infelizmente, para investigar isso, teria que ir até lá e era trabalho demais somente para satisfazer a sua curiosidade.
Edmund achou apenas esta ponta solta, porém, primorosamente escondida. Se considerasse a realidade inegável de que ninguém mais iria tão fundo para descobrir quem era um inútil vivente da fortuna do pai, era uma identidade perfeita, infinitamente melhor do que aquelas encontradas com frequência ali mesmo, na cidade.
Ainda assim as colocou onde encontrou, apagou os rastros de sua pesquisa e optou por esquecer do assunto. Intencionava queimar o material, mas nunca queimou, em vez disso passou a ficar com a carteira sempre grudada a ele pelo perigo de alguém se apoderar dela e descobrir as falsificações escondidas no forro.
Era óbvio que Sônia nunca foi uma santa, que tinha recursos e contatos poderosos para conseguir algo como aquilo, mas ele a amava e preferia rejeitar qualquer coisa a perdê-la. Naquele dia percebeu que não era qualquer coisa que rejeitaria. E rolou de um lado para outro na cama que montou no sótão, as dúvidas ganharam tamanha proporção que não foi capaz nem de cochilar, por isso desistiu e ligou um dos computadores. Sônia tomou o cuidado de levar os melhores aparelhos para cima.
Edmund precisava conferir aquela história dos Centros de Cura ou nunca mais dormiria. Ele tinha acesso a tudo o que o governo tinha, isso significava que podia acessar o país inteiro, e foi direto ao que precisava, os registros de internação e alta dos pacientes do destruído centro de pesquisa e cura Diamante.
Edmund ficou atônito ao se ver impedido de acessar o sistema do complexo, nem mesmo suas senhas mais elaboradas funcionavam e parou, era experiente o bastante para saber que devia haver um esquema de segurança que apontaria tentativas clandestinas de conexão e apressou-se para impedir o rastreio de seus esforços.
No entanto, isso incendiou a sua curiosidade e reforçou a própria segurança, depois procurou as bases de dados dos outros Centros, como resultado obteve o mesmo fracasso. Nunca imaginou que houvesse um sistema operacional no país que não pudesse alcançar, já que ele e sua equipe programaram tudo. Então como os Centros poderiam ter um sistema independente? E como ele não sabia?
Refletiu por alguns segundos mais, depois conectou o seu Palm Toot ao computador e ligou outro terminal, iria hackear o núcleo de dados e enviar uma identificação chinesa, uma inglesa e uma norte americana. Um inimigo, um neutro e um aliado. Quem quer que tenha programado a rede dos Centros, ficaria perdido se fizesse o rastreio.
Edmund começou a trabalhar, ávido pelo desafio, fazia anos que não realizava aquele tipo de serviço, um gênero de trabalho que não podia admitir o quanto gostava, e o porta-aviões nem chegou a testar suas habilidades.
Havia algumas barreiras intricadas a dispor, mas elas cederam em pouco mais de uma hora. Porém, quando ele começou a mapear o sistema, seu sinal foi bloqueado com tal rapidez que o arremessou para fora da rede, alguém percebeu o seu movimento e literalmente o jogou para fora, olhou rápido para o Palm Toot, nada afligiu o aparelho, ele não podia ser rastreado ainda, a prova estava na ausência de sons de carros militares chegando para fazer a sua captura.
Essas duas garantias deram a ele confiança e imprudência para recomeçar, outra estratégia certamente o levaria ao objetivo. Na primeira vez, não sabia que havia alguém lá, vigiando, agora sabia e estava preparado. Enquanto digitava freneticamente, sua visão periférica o alertou para movimento em um monitor, ele tinha ligado todos. Edmund olhou para a tela, Sônia caminhava na direção do telefone, e ligou o áudio.
— Alô! — disse ela, o som era limpo e claro, um segundo depois Sônia ficou tensa. — Aconteceu alguma coisa? — a moça perguntou; ouviu por alguns segundos e relaxou. — Os viveiros de pedras preciosas? — disse e escutou uma resposta rápida. — Como você sabe que é ele? — Mais uma pausa. — Eu não me oponho, ele precisa saber o que tem lá, mas deixe que se esforce, uma coruja dessa espécie não dá valor ao que encontra sem esforço. — Mais alguns segundos de silêncio e Sônia ficou tensa novamente. — Contei uma parte. — E novo silêncio, um tanto longo dessa vez. — Obrigada. E agradeça a ela por ajudá-lo a voltar para casa. — Sônia fez um gesto positivo com a cabeça enquanto escutava. — Tchau.
Ela desligou e voltou para o quarto com a postura ereta e altiva como sempre, mas se empenhou em ficar de costas para a câmera. Edmund conhecia o corujal que Sônia tinha em seu chalé no campo. O visitou uma vez, achou as aves que moravam nele apavorantes e nunca mais voltou. Passeou muito pela propriedade, mas não se aproximava do lugar. Suspeitou que, por isso, desconhecia a extravagância de um viveiro para corujas feito de pedras preciosas. E retornou ao computador, não queria pensar em Sônia ou em qualquer coisa referente a ela, nem sabia por que quis ouvir a sua conversa ao telefone.
A nova estratégia de Edmund demonstrou maior eficiência. Ele ultrapassou cada barreira mais rápido do que antes e decepcionou-se por não encontrar resistência. Se preparou para uma batalha cibernética, mas agora parecia não haver ninguém lá. Concluiu assim que tropeçou em um tipo de segurança automática e não em uma pessoa atenta.
Ele acabou demorando um pouco para encontrar os arquivos que queria, não por estarem escondidos, mas por não haver quase nada. Olhou para a caixa, no outro lado do sótão, onde estavam as pastas dos pais de Sônia e pensou que talvez os Centros ainda guardassem arquivos impressos. Se fosse isso, sua busca teria sido perdida porque não tinha como ir verificar nenhum deles e o Diamante não existia mais. Mas havia rastros que ele podia seguir e virou-se para o outro computador. As fichas dos criminosos eram de livre acesso. Leu algumas, selecionou a que despertou maior interesse e pesquisou mais a fundo.
O primeiro era um homem de trinta e quatro anos, preso por roubo, passou pelos nomes dos pais, da esposa, uma filha, último emprego, domicílio, nada que o interessasse, não havia registro do que ele roubou, mas havia o registro da transferência dele para o Centro de Cura Esmeralda dois anos antes.
Calculou que, se ele foi condenado por roubo, a pena era de dois anos e com diminuição de pena em troca dos serviços prestados lá, ele devia ter saído por volta de um ano mais tarde, contudo, sua procura foi improdutiva, pois não achou nenhum documento de liberação, de alta ou vestígios de sua existência depois da ida para o lugar.
Ele recostou-se novamente, com os braços cruzados e o olhar no assoalho, pensando, o homem poderia ter trocado de nome, mas isso seria uma violação mais grave do que roubar. Ele poderia também ter morrido, ninguém estava livre da morte, e procurou documentos de óbito, nenhum resultado outra vez. Decidiu, então, isolar os arquivos e fazer uma varredura automática pelo nome do sujeito.
Levaria mais tempo, uma vez que o isolamento teria que ser preciso para evitar detecção, mas usaria o intervalo para verificar melhor as fichas dos familiares do homem. Ele não ficaria longe deles, ainda mais com uma criança, de três anos, deixada para trás.
Foi um espanto ler que a esposa teve sua prisão efetuada, por roubo, no mesmo dia e horário, levada para o Esmeralda de imediato, sem passagem por nenhuma delegacia, sem registro de saída, de óbito ou de existência, parecia uma cópia da ficha do homem com mudanças apenas no nome, filiação, cônjuge e data do encaminhamento para o Centro de Cura.
Naquele momento, algo no fundo da consciência de Edmund o alertou de que havia coisa errada, mas em um raciocínio teimoso, insistiu que a família inteira poderia ter participado do roubo. Se fosse o caso, seria coerente que o casal fosse preso junto.
— Mesmo assim, a pena não seria idêntica — sua consciência retorquiu e ele optou por não escutar.
Digitou o nome da esposa para a pesquisa automática no computador vizinho e resolveu procurar a criança, ela devia viver com outros membros da família, membros que não tivessem participado do roubo em questão. Foi um choque muito maior descobrir que a menina tinha sido condenada por roubo, presa e levada ao Esmeralda junto com a mãe.
Edmund paralisou, olhando para a tela. Aquilo não podia estar certo, uma criança de três anos não teria como ser condenada por nada, ainda mais roubo. Pensou um pouco e deduziu que os formulários só podiam ser erros de alguém desatento ou preguiçoso, e fechou a pesquisa.
Para sua surpresa a varredura automática havia terminado enquanto lia o relatório criminal da criança. Foi tão mais rápido do que ele calculou que conferiu os sistemas de segurança para ter certeza de que nada tinha caído. Mas a rapidez se deu porque os nomes estavam nos arquivos de insumos, ocupantes do mesmo ficheiro em que procurava os registros de entrada e sacudiu a cabeça.
— Que serviço mais relaxado — censurou em voz alta.
Verbalizou outra reclamação quando viu que a pasta de insumos só guardava formulários de pessoas. Navegou indignado até os sobrenomes que queria, clicou e empertigou-se quando se deparou com o nome da criança, junto ao dos pais e de mais dois membros da mesma família. Algo estava muito errado.
Não encontrou nada útil nos formulários, apenas vagas especificações de tratamento e nenhuma conclusão ou certidão de alta, mas todos presos pelo mesmo motivo. Muitas perguntas surgiram de repente: Não havia dados indicadores de enfermidades, nesse caso para que tratamentos? Que roubo seria tão extravagante para encarcerar vários familiares ao mesmo tempo? Nenhum profissional seria contratado se fosse inapto a ponto de errar a localização de tantos documentos importantes, assim sendo o que as fichas daquelas pessoas estavam fazendo em arquivos onde deveria haver matéria-prima?
Precisava destas respostas antes de prosseguir e voltou à lista dos ficheiros: ali estavam as pastas de insumos dos diversos Centros espalhados pelo país. Abriu o primeiro, clicou em uma ficha aleatória — estava cheia de nomes de pessoas. Abriu o segundo e viu a mesma coisa. O terceiro, igual. O maior ficheiro pertencia ao Diamante e se deteve nele; clicou na pasta mais pesada, em seguida procurou o maior documento. Se havia algo a encontrar só podia ser ali.
Acertou. O arquivo estava repleto de informações, com uma longa lista de condenados à prisão anexada, mas nenhum documento de soltura ou de óbito. Só então percebeu que não viu documentos do tipo nem quando verificou os arquivos carcerários. O que significava que ninguém saía da prisão se fosse mandado a uma ou que ninguém se preocupava em expedir um alvará de soltura.
Preferiu não se dispersar investigando isso e continuou rolando a lista à procura de algo que chamasse atenção; ela se diluiu em arquivos intitulados: “Quarto anel”. Clicou em um, e nova lista apareceu, com títulos mais estranhos. Escolheu a ficha que dizia: “Branqueamento”, depois manteve o padrão e acessou o maior.
Sorriu ao perceber que nessa havia uma infinidade de detalhes. Era certo que um deles provaria que Sônia estava errada. O formulário pertencia a um homem condenado a oito anos de prisão por crimes contra a pátria, sem descrição dos crimes, e levado ao Diamante no ato da prisão. O registro datava de onze anos antes. Ele já devia estar livre e reintegrado à sociedade como determinavam os protocolos.
Como o esperado, havia prontuários médicos, acompanhados de histórico de saúde e evolução do tratamento. Edmund não entendeu o motivo da intervenção terapêutica nem por que o aplicaram, já que o histórico apontava apenas desidratação e desnutrição. Havia também uma variedade de arquivos de vídeos, mais do que o restante, e selecionou em um deles.
— Processo de clareamento número vinte e sete — falou um senhor que Edmund classificou como médico ou cientista, e ele saiu da frente da câmera em seguida.
Havia um homem deitado, de bruços, sobre uma maca de inox, ele tinha uma respiração sofrível, os braços e pernas estavam atados e a pele negra era pontuada por manchas de diversos tons nas costas, glúteos e panturrilhas, a visão incomodou Edmund, mas ele continuou, ciente de que se tratava de uma intervenção médica e, portanto, nada demais.
Quando quem quer que filmava se aproximou, ele pôde ouvir que o homem chorava e implorava, ninguém dava importância e Edmund se remexeu na cadeira, em crescente desconforto. O profissional continuou a explicar o método, Edmund não conseguia mais prestar atenção, era algo relativo a clareamento e ele supôs que devia ser para algum tipo de doença de pele, alguma que deixou a pele dele cheia de manchas como estava vendo ali, certamente uma enfermidade que o assolou depois do preenchimento do histórico de saúde, já que não havia nada assim transcrito lá.
Enquanto pensava nisso o médico fez uma aplicação na coluna do homem, o grito que veio em sequência o acordou de seus pensamentos e o paciente berrou mais e mais, se debateu com tanta força que um dos braços se soltou, mas seus músculos contraíam de uma forma estranha, não havia qualquer possibilidade de ele tentar soltar o outro braço para fugir, as panturrilhas dobraram-se em câimbras visíveis e Edmund fechou a janela, enjoado, respirou fundo e deitou a cabeça para trás, de olhos fechados, na tentativa de raciocinar com lógica.
Não entendia nada de medicina, nem de estudos científicos efetuados no setor. Ele sabia apenas que estavam curando aquele paciente porque era o que os Centros de Cura faziam. Talvez de uma doença mais grave e mortal do que a dor que ele o viu sentir, com uma técnica que inviabilizava o uso de anestesia.
Era isso, seu inexistente conhecimento na área o fazia se impressionar com os procedimentos, todavia, eles o estavam salvando, não matando... Salvando, não matando. Edmund repetiu para si. Era certo que teria algum vídeo, onde ele aparecia curado e se despedindo do Centro, agradecido pelos cuidados recebidos como nas imagens das campanhas governamentais. O homem foi condenado há oito anos e o vídeo foi gravado há dez, ele já estava longe quando o Diamante foi destruído.
Edmund sentou-se melhor, observou e escolheu o último arquivo de vídeo, crente de que era a filmagem do paciente reestabelecido, ele sempre ouviu falar que os Centros de Cura operavam milagres, ainda assim, teve medo de abrir o arquivo, hesitou duas vezes com o cursor sobre o documento antes de clicar.
O vídeo começou com a identificação da equipe médica e científica, eles eram apresentados aos ministros do outro lado de uma janela de vidro, Edmund conhecia alguns, que ainda ocupavam o cargo até os dias atuais, outros não, mas o importante era que estavam sentados confortavelmente, sorrindo e balançando as cabeças.
— Graças a Deus! — Edmund pensou em meio a um suspiro aliviado. — É, com certeza, o resultado do tratamento, ninguém mostraria procedimentos horríveis aos ministros.
O rapaz pensou também que devia ser um ótimo resultado, visto que estavam todos muito felizes. Porém, quando a imagem virou, Edmund viu outra sala, maior, com mais macas de inox, o homem estava deitado em uma delas, preso outra vez, havia sangue no chão e um segundo grupo trabalhava ao lado, em uma mulher, aberta, faziam uma cirurgia ou algo semelhante. Ele não sabia como eram feitas cirurgias, mas acreditava que não era daquele jeito.
A pessoa em posse da câmera deu a volta na maca e focou no homem, com a janela dos ministros ao fundo. O médico, mesmo do vídeo anterior, falava com os ministros ao lado do paciente, ele disse a palavra autópsia, Edmund pensou ter ouvido mal, impossível ter ouvido corretamente, o paciente estava vivo, acordado, se encontrava de frente dessa vez, assim podia ver o seu rosto aterrorizado e alerta, seus olhos externavam pavor, sua respiração estava acelerada e devia ter perdido em torno de trinta quilos do primeiro vídeo para aquele.
Os ministros aplaudiram e riram contentes, não combinava com o que estava acontecendo, e ele tinha de confiar que era uma coisa boa.
Mas não era. O médico se aproximou da maca, o homem não teve forças para reagir, tudo o que pôde fazer foi uma prece trêmula, audível na gravação, apesar disso. Quando o bisturi foi introduzido no abdômen do paciente Edmund paralisou outra vez, não foi capaz piscar, de fechar os olhos ou de se mexer.
Aquele monstro o abriu acordado e sem anestesia, nem hesitou, o prazer estava nos seus olhos, os gritos ecoaram e nem a câmera, em mãos humanas, tremeu. Os ministros festejaram, levantando seus copos de bebidas, como se estivessem em um evento esportivo, e ele enfim entendeu porque eram macas de inox, como as dos necrotérios.
A primeira ânsia veio tirar Edmund do torpor, tão forte que teria vomitado no teclado se não tivesse recuperado o controle do corpo. E olhou, rápido, para o alçapão, jamais conseguiria chegar ao banheiro, então optou pelo recipiente de lixo. Ele chutou um mais cedo, quando voltou para o sótão, mas onde ele foi parar? Procurou ao redor, em desespero, queria mais desligar o computador do que encontrar o utensílio, entretanto uma nova onda de náuseas mostrou que precisava primeiro dele.
O avistou caído sob a janela do sótão, fechada atrás do blecaute, e correu para lá, jogando-se sobre o objeto, quase não houve tempo de alcançá-lo. Os gritos faziam o seu corpo inteiro reagir, e Edmund queria cessá-los, porém, não conseguia parar de vomitar para desligar o computador e eram justamente os gritos que traziam uma ânsia atrás da outra. Por fim, ele controlou as náuseas, rastejou até a tomada e puxou os plugues.
O contraste do silêncio repentino, acompanhado da escuridão foi estranhamente calmante:
— Como a morte! — pensou Edmund e fechou os olhos, as imagens pareciam gravadas em sua retina e correu de volta para o lixeiro, por pouco não perdeu sua localização.
Enquanto Edmund enfrentava a tormenta de suas descobertas, Danielle trabalhava na casa de Ilde, as finanças do Spa se mostraram mais complicadas do que ela esperava. Os materiais para tratamento estético, terapêutico e de higiene chegaram em uma mistura confusa, ela estava fazendo o que mais parecia um inventário para organizar a papelada do que o serviço de contabilidade e, naquele horário da madrugada, começou a pensar que seu raciocínio estava avariando, pois os números se revoltaram e decidiram não combinar mais entre si.
Danielle recebeu os relatórios das rendas e das despesas dos últimos meses. À primeira vista, as notas pareciam corretas, mas, após alguns cálculos, reparou que o volume de produtos era incondizente com os gastos. Não tinha jeito de cosméticos, equipamentos e apetrechos daquele tipo terem custos tão baixos, por isso passou horas revisando as contas.
Ela já esperava que os medicamentos que lhe eram concedidos furtivamente pelo Spa, chegavam de maneira ilícita, e se preparou para manipular os números a fim de escondê-los, mas ainda que considerasse uma quantidade significativa para atender diversas pacientes, a discrepância continuava grande demais. O Spa parecia operar sem despesas, além das necessárias para o fornecimento de energia e água. Não existia a possibilidade de aquilo estar correto.
No entanto, quanto mais Danielle calculava, mais incoerências encontrava. Irritada por não saber onde estava errando, levantou-se e foi para a cozinha. Ela não tomava café, Dimitri abominava o cheiro da bebida, por isso consumia antes de se casar e voltou agora, que Eleanor deixava pronto para ela.
Danielle desconfiou que Ilde contou para a mulher o quanto ela adorava um bom café e aquele era excelente, beber dele a relaxava, ao contrário de como devia agir em seu corpo, e era tão bom apreciá-lo em um momento de paz silenciosa, longe dos temores que a afligiam noite após noite, Danielle desejava nunca mais sair dali.
Devanear sobre as maravilhas que vinha vivendo, a fez olhar o impasse contábil do Spa por outra perspectiva. Ela não conferiu as listas de materiais, só a contagem final, imaginou que o problema poderia vir de lá, talvez tivesse deixado passar algum relatório e houvesse notas em duplicidade, sem verificar isso não poderia acertar as contas mesmo. Terminou de encher a caneca, meio bebida, então, e voltou ao escritório.
Não era função de Danielle revisar os relatórios de produtos fornecidos à empresa, ela tinha a impressão de que Monique nem queria que isso fosse feito, mas sabia que a administradora estava apenas tentando poupá-la de tanto trabalho, mas trabalho era justamente o que a moça queria, ocupar a mente tornou-se a melhor forma de não pensar no inferno que era a sua vida, por isso iria olhar cada item comprado nos meses que havia em seu computador, queria entregar o melhor serviço para Monique, em agradecimento pela oportunidade.