R-801 Ás de Paus · Capítulo 16 de 33
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R-801

Na manhã anterior, antes ainda de Dimitri dar início a operação dos carros fortes, o contra-almirante chegou na Base Naval 5, responsável por fornecer suporte para as operações no sul do Atlântico Sul, era uma infraestrutura planejada para conter a mais alta tecnologia bélica, a exemplo das demais bases navais espalhadas pelo país e adjacências. Circundada de árvores balançantes com o vento marítimo e prédios cinza padrão, como tudo o que era construído para as forças armadas.

Eric foi direto ao encontro do capitão Bronielsken, que correu para recebê-lo, com um largo sorriso.

— Eu não esperava que o contato fosse direto — disse ele, livre de formalidades, estavam sós e costumavam se portar como os amigos que eram quando afastados das demais pessoas ou em ambiente social.

— Percebi que seria mais proveitoso vir até aqui do que ficar tentando encontrar respostas através dos rádios medonhos.

— Não aguento mais usar estas bugigangas.

— Ninguém aguenta.

— Como estão as meninas? — perguntou Levi, se referindo à esposa e à filha de Eric.

— Estão ótimas, esperando por sua visita. E como estão as coisas por aqui?

— Está tudo em ordem, mas acho que não tanto no R-801.

— Por quê? O que houve?

— Consegui falar com o Bespalez, hoje mais cedo, e ele falou que não vê o major faz quatro dias.

— Como é?

— Perguntei se é só ele que não viu ou ninguém viu. É que Bespalez não é o tipo que faz esforços para se aproximar de alguém, menos ainda de visitantes.

— E não investigaram?

— Eu perguntei também sobre as investigações, ele foi um pouco evasivo, depois disse que iria fazer uma busca e me daria um retorno.

— Iria? Não fez ainda, mesmo passados quatro dias?

— É o que parece, mas não posso garantir, pode ser que tenham tomado providências depois e ele não me disse.

— Tem algum helicóptero disponível?

— Até mais de um, vou com você.

— Senhor! — gritou um rapaz, que corria ao encontro deles.

Os dois esperaram e o soldado parou em posição de sentido.

— À vontade. O que houve? — falou Levi.

— O general Handersen está chamando o contra-almirante.

— É claro, estava me esquecendo de avisar que cheguei — respondeu Eric. — Me leve até a central de comunicações.

— Novo protocolo? — perguntou Levi.

— Acho que sim, ele pediu para que eu entrasse em contato logo que o avião pousasse.

Levi virou-se para o jovem cabo. — Prepare um helicóptero, precisamos sair imediatamente.

Com um breve aceno positivo, o rapaz saiu, enquanto Levi e Eric seguiram pelo caminho contrário. Levaram poucos minutos para chegar ao centro de comando e o contra-almirante sentou-se em frente ao rádio.

— General, aqui é o contra-almirante Eric Lorenzini.

— Ah, contra-almirante, que bom falar com você. Teve boa viagem?

— Tive sim, senhor. Muito confortável.

— Fico feliz por saber. Imagino que não tenha tido tempo para ir ao R-801 ainda e, quando for até lá reporte diretamente a mim, por favor. Se possível, diretamente do centro de comunicações do porta-aviões, precisamos saber se está funcionando adequadamente. A equipe toda está a sua espera.

Eric franziu as sobrancelhas, não tinha deixado nenhuma equipe, o único com quem conversou foi Leon. Mesmo assim não deu demonstrações sobre o que pensava, acreditou que o general tinha motivos para falar daquela maneira e não pensou mais no assunto.

— Certo! Estou indo para lá agora, devo chegar em trinta minutos e entrarei em contato imediatamente, se não conseguir direto do R-801, falo com o capitão Bronielsken e ele falará com o senhor.

— Estarei esperando — respondeu Leon e desligou.

O contra-almirante virou-se para Levi. — Vamos? — chamou. — Como vê, tenho pressa.

— É claro. Acho que chegaremos em menos de trinta minutos.

— Eu sei. Só quero ter um tempo para entender o que está acontecendo no R-801 antes de falar com o general outra vez.

E os dois foram rápido para o heliporto mais próximo. Eric sentia a desconfiança crescer a cada nova informação e já não sabia do que desconfiava mais, tudo parecia errado desde que recebeu a ordem de procurar o major.

O helicóptero estava quase pronto quando chegaram e levantaram voo logo em seguida. O porta-aviões não estava longe, foi ancorado pouco mais de cinquenta quilômetros de distância da costa. Um monstro, de trezentos e dez metros de comprimento, sessenta e um de altura, setenta e seis de largura, oitenta mil toneladas de deslocamento, propulsão nuclear, duzentas e trinta placas de energia solar, turbinas compactas de hiperpotência, oito lançadores de mísseis, capacidade para noventa aeronaves e para transportar até cinco mil e novecentos tripulantes, mas operava folgadamente com apenas dois mil.

Foi a joia da marinha em seu tempo, maior, mais leve, mais rápido e não requeria tantas pessoas para funcionar com total eficiência, uma vez que quase tudo poderia ser manuseado remotamente. Mesmo antigo, permaneceria uma joia se não estivesse malcuidado, Zunik já não se importava com ele, pois representava o décimo nono maior e mais bem equipado do mundo, o que o desgastava, ele desejava estar entre os primeiros, os maiores, os melhores.

De longe Eric visualizou alguns navios da frota de apoio a volta do porta-aviões. Era outro, dos muitos treinamentos de Bespalez e Eric sacudiu a cabeça em desaprovação, mas não exteriorizou os seus pensamentos e ficou atento desde o pouso. Nenhum oficial foi recepcioná-lo, contudo, sobre isso não podia reprovar ninguém, ele veio sem aviso algum.

A ilha de comando ficava situada à direita do convés e eles se apressaram para lá, só então um suboficial apareceu e os conduziu à sala de segurança, depois ao Centro de Operações da embarcação. Eric foi observando o entorno, havia câmeras apontadas para todos os lados como mandava a norma, não tinha como o major ter desaparecido por quatro dias e ninguém saber o que houve.

O capitão Andrey Bespalez, era um homem alto, faltava pouco para alcançar a marca de dois metros de altura, magro, de rosto fino encimado por cabelos amarelo areia, espetados para esconder a falha oval no topo; de pouco gosto por falar e muito por gritar. Confraternizar e rir era algo que rejeitava com todas as forças, entretanto, era competente em seu ofício e em tudo aquilo que fosse conveniente ao seu bem-estar pessoal.

Ele estava em uma plataforma no meio da cabine, coordenando o treinamento. Bespalez ficou neurótico com os treinamentos nos últimos dias e, já costumava gastar quantias absurdas nisso antes, agora gastava o dobro, apesar de ter sido repreendido incontáveis vezes por ultrapassar em muitos números o orçamento com tais práticas. Esse foi o motivo principal do assombro do capitão ao ver Eric ali, ficou tão concentrado no que estava fazendo que não soube nem da aproximação de um helicóptero, coisa que nunca passava despercebida, e decidiu ficar imóvel em sua posição, esperando que viessem até ele, a fim de ganhar tempo para pensar no que dizer e em como se comportar diante do contra-almirante.

— Capitão! — chamou Eric.

O homem virou-se e posicionou-se adequadamente em respeito, como se tivesse acabado de vê-los.

— Contra-almirante, senhor! — disse em voz alta.

— À vontade, capitão.

— Que ótima surpresa! Por que não me avisou de sua vinda, eu teria preparado uma recepção apropriada.

— Isso não era necessário, estou em uma missão de grande importância para o marechal. Preciso do major Zinekolski.

Bespalez olhou para Levi, com uma ruga profunda vincando a testa.

— Você não informou ao contra-almirante sobre o major Zinekolski?

— Eu disse que preciso dele, não quanto tempo você não o vê — interferiu Eric.

— Peço suas desculpas, senhor. Mas não tenho como dizer o paradeiro do major, estamos investigando o ocorrido e infelizmente o que sei até agora é que o major está desaparecido há quatro dias.

— Não recebi nenhum aviso sobre isso. Aliás, também não recebi nenhum sobre ataques cibernéticos ou sobre a vinda dele para esse porta-aviões. Por que?

— Pensamos que fosse um caso simples, que não precisasse de mais que um bom técnico para resolver, contudo nossas comunicações, que já são péssimas, ficaram piores e não conseguimos mais contatar quase ninguém.

— Mas você conseguiu falar com o coronel, na capital, que fica a três mil quilômetros daqui.

— Isso foi singular e esperava que o major pudesse explicar, mas ele sumiu antes de dizer. Eu estava tentando falar com a base e quem respondeu foi o coronel Novakohut. Me surpreendi e pensei que ele estivesse aqui, só que não estava, de algum jeito a minha mensagem chegou lá e não na base, suponho que tenha sido algum tipo de interferência.

— Se estava com problemas, por que não levou o porta-aviões para a base?

— Como disse, pensei que não fosse grave, ainda nem sei se era. O coronel desconfiou de ataque cibernético porque foi assim que invadiram o sistema de comunicações na capital, até aonde eu entendi, e preferiu mandar o melhor no assunto.

— E o major chegou a uma resolução sobre isso?

— Se chegou, não contou a ninguém.

Apesar de não gostar de falar, o comandante sabia usar bem as palavras a seu favor, e as mentiras soaram como verdades convincentes aos ouvintes. Quando Dimitri disse que precisava afastar alguém de um possível interrogatório, enviando-o para a embarcação, o capitão nem questionou as razões, Dimitri fazia aquilo com frequência, uma vez que aquele porta-aviões era o melhor local para esconder os desafetos, longe e quase incomunicável.

Bespalez começou a desenvolver a estratégia para amarrar as pontas soltas no mesmo instante, tudo baseado na desculpa que o coronel formulou para a ida do major até lá. Depois espalhou a história entre os tripulantes e agora nem titubeou ao repeti-la para o contra-almirante.

— As comunicações parecem bem, estou vendo que o treinamento corre sem erros e sem falhas — insistiu Eric.

— Sim, foi por isso que apressei esse treinamento. Hoje tudo está funcionando e aproveitei para falar com a base, em seguida comecei o treinamento.

— Falando nisso. Por que mesmo você moveu o navio há alguns dias?

— Justamente para ver se conseguíamos melhorar as comunicações. Estávamos em uma área de magnetização intensa. Hoje nos movemos mais um pouco, durante a madrugada, e acredito que tenha sido esse o motivo do reestabelecimento das comunicações pela manhã.

O que ele jamais contaria é que começou a direcionar a embarcação pouco a pouco para a zona crítica quando Dimitri o contatou, assim o porta-aviões estaria exatamente no meio dela quando Edmund chegasse e culpou a maré por isso. Era um homem esperto, muito mais do que o coronel e planejou cada passo, antecipando todas as possibilidades de falha, assim não sobraria questão que não tivesse uma resposta crível.

— E os rádios antigos?

— Ainda não recebemos um bom, o único que chegou estava com defeito e aqui ninguém sabe consertar aquela coisa. Fiz o pedido de outro e estou esperando pela chegada, de preferência com alguém que saiba usar, porque eu não sei.

— Entendo. E você pode explicar os alertas de ataques que a base recebeu alguns dias atrás.

— Era um método de treinamento novo, alguém cometeu um erro e o alerta foi para a base, mas não houve nenhum ataque.

Tudo o que Bespalez sabia é que receberam alarmes de aproximação hostil, que se preparou para ataques, mas que jamais houve algum. O último uma vergonhosa humilhação. O que lhe restou foi formular teorias e nenhuma poderia ser admitida para o contra-almirante.

— E as câmeras?

— Estão funcionando como devem funcionar e, antecipando a sua próxima pergunta, verificamos cada gravação feita desde a última vez que o major Zinekolski foi visto até o dia de ontem e não encontramos nada que explique o desaparecimento dele. As câmeras o pegaram caminhando tranquilamente para o dormitório, sem qualquer sinal de agitação, preocupação ou nervosismo, mas o major nem chegou lá. Investigamos o caminho feito por ele e vimos sinais de que pode ter pulado a grade da ala leste, justamente num ponto cego da nossa vigilância. Como o major conhecia tecnologia melhor do que todos nós, imagino que tenha escolhido aquele lugar de propósito.

— Então você suspeita de suicídio.

O fato de Bespalez estar se referindo ao major no passado não escapou da atenção de Eric e nem o nervosismo e os olhares temerosos dos homens à volta.

— Encontramos o casaco dele pendurado do lado de fora da grade, deve ter ficado preso quando ele pulou. Tudo leva a crer que foi isso o que aconteceu.

— Se importa se eu verificar as filmagens de novo? — perguntou Eric com o tom implícito de que negar não era uma opção.

— É claro que não me importo, venha comigo.

O contra-almirante o analisou com cuidado, se Bespalez se importava, não demonstrou, e os levou à sala de vigilância, cheia de monitores, o deixou com os responsáveis e saiu com Levi.

— Vou falar com a tripulação — cochichou Levi para Eric e saiu após receber apenas um aceno positivo como resposta.

O trabalho do contra-almirante foi longo e cansativo. Levi voltou com a confirmação da versão contada pelo capitão Bespalez, em seguida retornou à Base Naval. Eric conversou com Leon, depois começou a estudar as incontáveis imagens dos arquivos, movido por canecas de café, dormiu poucas horas e voltou ao trabalho, aproveitou para tentar acessar as imagens do depósito principal, mas não as encontrou na primeira tentativa, aqueles arquivos eram uma verdadeira baderna.

Levou três dias e duas noites, com escasso descanso, para que ele revisse os registros de todas as câmeras externas e não encontrou nada que pudesse indicar uma suspeita de suicídio e nem de qualquer outra coisa. Falou com Leon duas vezes por dia sem jamais enfrentar problemas de comunicações e, ao final de sua busca, frustrado, dormiu um pouco, se alimentou rapidamente e foi caminhar pelo navio.

Era uma embarcação bonita, a visão da natureza arrancaria suspiros até do mais bruto soldado. Ninguém imaginaria as truculências que aqueles mares faziam o porta-aviões enfrentar quando respondiam ao menor golpe do vento.

Naquele dia as águas estavam calmas e aproveitou para andar à esmo, observando o movimento de seus subordinados. Quando se cansou de passear e sentiu a mente limpa, decidiu seguir os últimos passos registrados de Edmund, ele notou que faltavam partes de algumas gravações, não era perito ou especialista no assunto, mas era fácil perceber certos cortes feitos por mãos tão pouco habilidosas quanto as dele.

Eric virou uma esquina, depois outra e chegou ao ponto cego mencionado pelo capitão, examinou as câmeras mais altas, olhou em volta, tinha cerca de doze metros de espaço livre de vigilância, humana ou digital, muito poderia acontecer ali, longe das vistas de qualquer testemunha. Passou, então, a mão levemente nas grades do corrimão, antes havia ali um vidro blindado e inquebrável, justamente para evitar que alguém pulasse ou fosse alvejado por projéteis inimigos, por fim não era tão inquebrável assim, se estilhaçou em uma tempestade e ninguém se preocupou em substituí-lo.

— Quem projeta um corredor como esse em um porta-aviões? — Eric pensou. — É pedir para que se joguem ou joguem alguém no mar.

Enquanto pensava no vidro, Eric sentiu uma parte da grade amassada, debruçou-se e observou. O metal em que a sua mão estava não era o único deformado, a barra que ficava na altura de seu quadril tinha levado uma pancada tão forte que afundou em diversas partes. Resolveu testá-las sacudindo e puxando, não tinham muita resistência, sinal de que não eram maciças como deveriam ser e como constava nas documentações, não precisaria de uma grande batida para deformar o metal, e afastou-se pensativo, olhando para o horizonte. Aquilo poderia realmente ter sido um salto tão malfadado que o major se chocou com a grade antes de cair.

Entristecido, o contra-almirante voltou para a ilha. Passou devagar pelo corredor entre o depósito e os dormitórios e olhou para a porta do depósito, reforçada, de metal grosso, lembrava mais a entrada de um cofre do que a de um estoque, e pensou que seria preferível pedir para revistar o interior, mas se Leon queria discrição, ele seria discreto.

Andou mais um pouco, passou pelo avião cargueiro que trazia suprimentos semanais, a aeronave já saía e ficou curioso, achava que os suprimentos eram entregues na Base Naval e trazidos de lá pelos helicópteros. Outro detalhe desprovido de relatório informativo. Mesmo assim não se ateve a isso e seguiu adiante, já começava a anoitecer e estava exausto.

— Contra-almirante! — Eric ouviu, não percebeu que Bespalez estava tão perto.

— Capitão! — cumprimentou Eric, e Bespalez parou em posição de sentido. — À vontade. Encontrou alguma coisa?

— Não. E o senhor?

Eric notou a repentina mudança de comportamento do comandante, do displicente, obrigado a se conter diante de um superior, para o respeitoso que sua posição exigia. O que, na visão do contra-almirante, foi suspeito o bastante para prestar ainda mais atenção no homem.

— Também não.

— É uma perda lastimável.

— Por acaso houve coleta de material biológico naquela grade amassada pouco antes do dormitório onze?

— Onde achamos que o major pulou?

— Exatamente.

— Não, porque aquelas grades já estavam amassadas. Herdei esse porta-aviões com elas daquele jeito.

— Hum... Que pena.

Eric analisou Bespalez novamente, o capitão disse que continuava as investigações, mas não o viu fazer nada referente ao assunto desde que chegou, ele demorava para fornecer o que quer que fosse solicitado e parecia mais preocupado em reforçar a suspeita de suicídio do que em desvendar o que realmente tinha acontecido.

— Por que o cargueiro trouxe suprimentos direto para cá em vez de levar para a base?

— Começaram a fazer isso desde que nossos navios foram realocados, mas nunca perguntei por quê.

— Certo... E o avião vem com a mesma frequência ou isso foi modificado também.

— A cada cinco dias. Não fui eu quem pediu a mudança.

— Eu sei, obrigado, capitão — disse Eric e seguiu para a sua cabine.

Enquanto se afastava, Eric estudou as palavras de Bespalez. Algumas respostas vieram rápidas demais, como que ensaiadas em excesso, indignas de completa credibilidade. Quanto mais tempo passava naquele navio, menos confiava nele e na história de suicídio.

No dormitório, ele se livrou da farda pesada, depois sentou-se em sua cama com a mente fervilhando em cálculos sobre como os fatos poderiam ter ocorrido desde que Edmund chegou no R-801. Foi quando notou a caixa de papelão em cima da mesa de cabeceira.

Era a que continha os pertences pessoais de Edmund. Levou os dias em que esteve a bordo para que lhe entregassem aquela caixa e já começava a suspeitar que jamais a veria. Ele não sabia quem a trouxe, mas estava tão ansioso para ver se encontraria nela as respostas que procurava, que sequer pensou nisso. Abriu, observando a lista detalhada colada na tampa; queria comparar ao conteúdo. Era uma lista rigorosa: ninguém entrava ou saía do porta-aviões sem que fosse catalogado cada mínimo objeto trazido e depois retirado. Tinha de haver algo importante ali.

Entretanto, eles só fizeram suas dúvidas criarem raízes, faltava os documentos pessoais e um molho de chaves, composto por cinco chaves e um sensor de veículo, o que Eric supôs serem de seu carro e de sua casa, além de algo chamado Palm Toot, ele não sabia o que era, mas supôs que fosse um aparelho que viu nas mãos de Edmund em todas as gravações, já que o objeto estava na lista, mas também não estava na caixa.

Eram coisas específicas demais para não haver nenhum significado. Só vislumbrava duas explicações possíveis para o major ter desaparecido junto com elas: alguém roubou depois que ele sumiu ou ele levou. Mas quem pegaria os documentos e as chaves de casa para se matar?

E, com todos esses pensamentos se sobrepondo em sua mente, Eric jogou os itens na cama. Houve diversas ocasiões, naquele dia, em que a palavra “assassinato” passou por sua cabeça. Ele não aceitou a possibilidade de suicídio quando Leon falou porque ela não fazia sentido. Por outro lado, se Edmund desconfiou de um ato tão grave como desvio armas das forças militares, homicídio era uma probabilidade perfeitamente plausível.

O suposto desvio era outra coisa que o inquietava, não existiam gravações do sistema interno de vigilância do depósito. Bespalez disse que o sistema de lá era separado do restante e não gravava, só vigiava. Então onde estava a vigilância?

— Pedi ao major Zinekolski para arrumar isso, mas... — o capitão lhe disse quando questionou.

Foi a resposta mais absurda que Eric ouviu. Ele sabia pouco sobre a tecnologia empregada em vigilância, mas era de conhecimento básico que tudo era gravado e transmitido para uma central, no caso, a Base Naval 5, e já planejava procurar lá. De repente ficou inconformado por não ter visto o avião cargueiro antes e aproveitado o abastecimento do depósito para entrar no recinto e ver se havia algo errado.

Naquele horário Danielle ainda trabalhava. Nos últimos dois dias ela trabalhou freneticamente, com raras pausas, não por necessidade, mas porque estava empolgada com o serviço, ela não se lembrava mais o quanto sentia falta dos números, de ser útil, de ser dona de si. Por isso não parou por nada, o que devia esgotá-la a revigorou e só deixou o Spa porque Monique exigiu que fosse descansar.

No entanto, Danielle estava animada demais para conseguir relaxar a ponto de descansar, seu cérebro raciocinava com tanta rapidez, que seria impossível. E, para não contrariar a nova chefe, pediu se Ilde permitia que usasse o escritório da casa dela, o que deixou Ilde também exultante.

Ela tinha se antecipado e decorado um cômodo, como escritório, só para Danielle. Pretendia fazer surpresa e quase não suportou a ansiedade até que a amiga precisasse dele. Por isso, mal a cumprimentou à porta e ignorou tudo o que Danielle falou no caminho para a cozinha, o corredor atrás dela e o último cômodo depois. Em verdade, Ilde nem ouviu, estava em êxtase para mostrar o seu feito.

— Esse é o seu escritório — disse, empurrando a porta e conduzindo Danielle para dentro.

Era um amplo espaço, de janelas altas para a vista do lindo jardim de Ilde. Ladeado por paredes brancas adornadas com arabescos delicados, imitando linhas ao vento, uma alusão à liberdade que Ilde desejava para Danielle. A rica mesa, com entalhes contemporâneos de madeira e acrílico, ficava à direita, com material de escritório pronto para uso e um computador portátil, já dentro de uma capa impermeável com o nome dela e estampa nas suas cores prediletas; ao lado Ilde colocou uma estante e a deixou vazia para que a nova ocupante preenchesse. O estofado, sob a janela, esperava pelas pausas com chás em meio a conversas agradáveis.

— Meu escritório? Mas, Ilde, eu posso trabalhar até na bancada da cozinha, você já faz muito deixando que eu faça isso na sua casa, não preciso ocupar o novo escritório de vocês. Que, aliás, ficou formidável. Quando o montou?

— Esse não é o nosso escritório, você conhece o escritório da casa, é feio e sem graça. Esse é só seu. Eu arrumei aqui para você não ter que atravessar a casa toda vez que quiser tomar água e tenho certeza que não vai pedir à um dos empregados para trazer, assim você tem sua liberdade enquanto trabalha. O banheiro fica ali atrás.

Danielle nem tinha visto a porta, oculta por uma planta alta do lado oposto ao da mesa e também não conseguiu dar a ela uma importância cabível, pois a alegria pareceu se concentrar no seu estômago, em seguida explodir em mil borboletas felizes pelo restante do corpo.

— Ilde... Isso é lindo! Eu não mereço algo tão grandioso — disse, enquanto a ardência das lágrimas tomava seu espaço por trás dos olhos.

— É claro que merece! E eu também mereço, não tenho filhas, então preciso canalizar minha energia reprimida, de mãe de uma, em alguém.

Danielle abraçou Ilde e chorou, tinha tão pouco amor em sua vida privada, mas Ilde conseguia suprir esse amor em cada minuto de companhia.

— Sei que diz essas coisas só para eu não me sentir culpada por você abrir mão de tanto por mim.

— Não seja boba, Danielle! — respondeu Ilde esfregando a mão confortadora nas costas da moça. — Você sabe que eu queria uma menina também, é verdade o que digo. Além do mais, ninguém estava usando este espaço, o Leon queria transformar em uma despensa, mas quem precisa de banheiro em uma despensa? Até pensei em fazer uma segunda estufa, o que seria inútil porque a outra está com sobra de espaço. Acho que o lugar nasceu para ser o seu escritório.

— Obrigada... Eu não tenho como definir o quanto estou feliz agora.

— Não precisa, eu sei. E, tem um bônus, que vai até enjoar você.

— Qual? Fico muito tempo no jardim, vou passar o dia bisbilhotando o seu trabalho.

Danielle sorriu entre lágrimas. — Eu vou adorar isso.

— E não se preocupe com o Dimitri, perguntei para o Leon se ele terá permissão para sair da sede do governo hoje. Imaginei que, se o Leon não pode, o seu excelentíssimo marido também não, ainda mais agora, que a coisa está feia para ele. E acertei, ele não pode sair de lá, mesmo assim pedi para o Leon avisar que você vai ficar aqui esta noite porque eu tive medo de ficar sozinha.

Um riso saltou da garganta de Danielle.

— Você? Com medo?

— O Dimitri vai acreditar, nada é mais simples do que convencer um homem de que uma mulher tem medo, muito mais alguém como ele.

— Acho que sim.

— Agora, anda, vai se familiarizar com o seu escritório, vou fazer um lanche para nós, daqui a pouco a Sônia vem para conhecer o seu cantinho e quero sua ajuda para convencê-la a passar a noite também.

Danielle obedeceu e caminhou pelo lugar. Abriu a porta do banheiro, mobiliado para agradá-la — e agradou. Tanta emoção a afastou de seu objetivo; levou mais alguns minutos para que se lembrasse que precisava trabalhar e sentou atrás da nova mesa. Nunca se sentiu tão realizada como naquele instante.

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