Texas Holdem Ás de Paus · Capítulo 28 de 33
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Texas Holdem

Dimitri realmente pretendia fazer uma parada rápida em casa e estava tão faminto que quis comer algo antes de tirar aquela farda nojenta. Seu mau humor foi agravado por sentir-se tão sujo e esfomeado, por isso, ver Danielle o fez querer berrar, ela estava na cozinha, desesperada para preparar algo rápido, mas tudo o que conseguiu foi ajeitar ingredientes para um sanduíche e começava a montá-lo, quando o marido entrou.

— Dimitri? Você aqui nesse horário?

— O que tem para comer? — ele perguntou e abriu a geladeira.

— Não tem nada preparado, eu não esperava você tão cedo, mas estou fazendo um sanduíche. Quer que eu faça um para você?

— Um sanduíche? — Ele olhou para ela, batendo a porta da geladeira. — Você acha que eu sou homem de sanduíche?

Danielle deu um passo para trás, com o pavor tomando conta dela de imediato. — Não. É só para abrandar a fome até que o jantar fique pronto.

Ele se precipitou na direção dela, com um braço subindo para acertar o costumeiro tapa que a jogava no chão. Desejava chutá-la até aliviar as frustrações, depois deixá-la estirada, como sempre, para despertar sozinha e curar as próprias feridas, ou morrer enquanto ele estivesse longe.

Contudo, parou quando ia atingi-la. Ele cuidava para não golpear a moça em lugares que as roupas não pudessem esconder desde que Zunik manifestou interesse pelas aparências. Se extravasasse naquele momento, com Ilde prestes a chegar, não teria como esconder o feito e toda a sociedade saberia. O marechal o mataria pela mancha em seus esforços para melhorar a imagem, ainda que as leis promulgadas pelo próprio soberano estivessem do seu lado.

— Vou tomar um banho. Faça logo essa droga de sanduíche, que eu como na volta.

Ele saiu da cozinha e Danielle desabou sentada no chão gelado; as lágrimas desceram incontroláveis. No primeiro ano vivendo aquilo pensou que um dia não sentiria mais tanto terror, mas o medo nunca diminuía. Cansou de pensar em tirar a própria vida, porém, faltava coragem e odiava-se pela covardia. Muitas vezes, acreditava que merecia a sua desgraça por não conseguir nem executar um ato tão simples.

Lembrando justamente disso, obrigou-se a levantar e se controlar para cumprir a ordem de Dimitri. Caso contrário, ele voltaria e perderia a paciência adquirida à força pela promessa da presença iminente de Ilde. Ela respirou fundo, agradecendo silenciosamente a proteção da amiga, e foi fazer o jantar.

O coronel voltou poucos minutos depois, examinando as mãos e pensando na besteira que teria feito se acertasse Danielle com o dorso da destra. Não tinha avaliado o risco de marcar sua pele bem tratada com hematomas indesejados. Ao passo que Danielle se arrepiou ao vê-lo vestindo roupão e chinelos — a vestimenta indicava que ele pretendia ficar em casa.

— Quer comer alguma coisa especial? — ela perguntou, movimentando as panelas, apressada, enquanto escondia o rosto vermelho.

— Não vou comer do seu lixo, nem essa porcaria que você está fazendo — ele respondeu, abdicando do sanduíche, à sua espera na bancada, por uma banana e uma maçã. — Não tenho tempo a perder.

E ele saiu outra vez, foi se arrumar, mas não vestiu outra farda, não tinha a intenção de voltar ao trabalho, queria relaxar, sair de seu mundo por algumas horas e só conhecia um lugar onde se sentia livre.

Colocou, então, uma bela e cara camisa de seda, sob um blazer italiano e uma calça de corte seco, habitualmente levava a maior parte do tempo escolhendo um sapato entre os incontáveis que tinha, adorava experimentar cada um em frente ao espelho do closet, naquele dia, entretanto, montou o traje na mente durante o banho e colocou um par de sapatos pretos, finos e brilhantes, ajeitou rapidamente os cabelos e desceu acelerado para sair antes de Ilde chegar.

Dimitri não viu Danielle, e ela apenas o ouviu sair. Pelo perfume deixado na sala, a moça imaginou que não o veria mais naquela noite e exalou o ar preso nos pulmões, jogando-se no sofá, aliviada. Ali chorou até que suas forças se esgotaram e o coração se acalmou. Só então ligou para Ilde, mas a rouquidão na voz não passou despercebida, apesar de seu esforço para ocultá-la.

Danielle tinha tanta vergonha de sua condição que preferia escondê-la; sentia-se tão pequena, inútil, horrível e suja que não conseguia nem olhar para si mesma em um reflexo na maior parte do tempo, quanto mais ver seu suplício refletidos em outros olhos.

Ilde ficou sabendo o que vivia na intimidade somente porque a mulher não deu sossego até que foi obrigada a confessar o motivo do inchaço em seu maxilar, na primeira das muitas visitas casuais que ela passou a fazer. Foi a melhor decisão que tomou, pois Ilde não se tornou só a guardiã de seu segredo, mas a sua mais dedicada protetora.

A noite já havia avançado quando o coronel, ardoroso defensor da moral e bons costumes, chegou ao Texas Holdem, a casa noturna clandestina nos fundos de um posto de combustíveis, de grande porte, que servia de fachada para o estabelecimento.

O local ficava do outro lado da cidade, em uma região puramente comercial. Ele desconfiava que o lugar foi escolhido por ser uma região que morria ao anoitecer, nem o posto ficava aberto e não havia testemunhas por quilômetros. Todas as câmeras, oficiais e particulares, tinham os seus pontos cegos convenientemente naquela área e Dimitri se perguntava como ninguém notou isso. Mesmo assim ele usava um carro de vidros escuros, alugado com seus documentos falsos para ir até lá.

O cheiro de tabaco o pegou na porta e já o acalmou, porque lembrava que ali ele não era um coronel, era apenas um homem à procura de diversão. O som da música começava baixinho na metade do corredor, depois ia subindo conforme se aproximava da porta propriamente. Dimitri olhou em volta e caminhou devagar para o bar.

A casa não estava com lotação máxima naquela noite, havia homens de diversas idades e nenhuma mulher. Dimitri imaginou que deviam estar nas saletas particulares ou em um dos anexos de dança exótica. De qualquer maneira os membros do seleto clube estavam muito contentes e soltos na jogatina, como não podiam ficar do lado de fora.

Dimitri levou um copo de uísque recém servido à boca, não era a sua bebida favorita, mas achava que ela o fazia parecer mais viril. Fez isso bem a tempo de ver olhos castanhos familiares se virarem para ele.

Um rapaz alto, sorridente, de pele bronzeada e cabelos indefinidos foi até Dimitri.

— Pensei que não viria hoje também — ele chegou dizendo.

— Eu tive que achar um lugar descente para comer, por isso demorei mais do que desejava.

— Não teve jantar na sede do governo?

— Antes fosse isso, mas eu disse que viria e estou aqui — falou Dimitri com um largo sorriso.

Orton era a única pessoa que via aquele sorriso, o escolhido de Dimitri, quem ele vinha encontrar nos últimos meses. Ele não era bobo: Orton era um garoto de programa, e Dimitri era um cliente, nada além de uma fonte de lucro, não alimentava esperanças com o jovem, ainda assim passava os dias ansiando pelas noites e não temia a exposição. Nada o afligia dentro das paredes do Texas Holdem, pois todos ali violavam as regras, o que mantinha todos cativos do mesmo segredo e a liberdade daquela segurança o arrebatava.

Dimitri encontrou Orton na segunda vez que visitou o lugar e o rapaz o conquistou de imediato. Todos os garotos de programa da casa se vestiam com requinte singular, ele já tinha reparado, mas Orton se destacava, alinhado como ninguém, altivo como poucos, dono de um sorriso sugestivo e um olhar pecaminoso.

Além disso, Orton tinha uma conversa interessante e conversavam durante horas, muitas vezes a noite inteira, ele entendia o que Dimitri falava e Dimitri podia desabafar. O amante dava sugestões frequentemente simples, mas que, em seus dias tensos, ele não conseguia pensar, ajudava inclusive a elucidar questões difíceis de sua rotina, e o coronel saía leve dos braços dele. Dimitri tinha vontade de morar ali.

— Em sua vida exigente — respondeu Orton —, um imprevisto poderia acontecer a qualquer hora.

— Eu também disse que avisaria se algo mudasse e sou um homem de palavra.

Orton sorriu novamente. — Não mereço uma bebida essa noite?

Dimitri também sorriu e sinalizou para o garçom, outro homem lindo. Sob a luz clara, refletida nas paredes escuras, seu rosto se iluminava quando lançava o olhar de lado que tirou o equilíbrio emocional de Dimitri na primeira vez em que esteve ali. Ele jamais aceitou suas investidas, mas o coronel pedia uma bebida nova a cada rodada dos jogos de cartas que iniciava só para que o barman viesse servi-lo e inebriá-lo com seu perfume.

Naquela noite Dimitri não queria pensar, se concentrar, ou se preocupar, por isso não engrossou a massa de jogadores espalhada pelas inúmeras mesas de jogos. Preferiu ficar ali no bar, ouvindo as risadas altas dos mais ricos e poderosos da cidade, enquanto se divertiam nos jogos e cantos privados com mulheres e homens.

Realizou todos os desejos de Orton, como gostava de fazer, e só voltou de manhã, banhou-se, trocou-se no quarto de hóspedes, seu verdadeiro quarto desde que conheceu o Texas Holdem, e saiu novamente para a sede do governo. Nem viu Danielle, suportava cada vez menos olhar para ela.

A verdade é que Danielle não estava mais em casa quando Dimitri chegou, ela foi cedo para o Spa, aqueles números continuavam a atormentá-la. Precisou sair da casa de Ilde quando Leon voltou, por prevenção, imaginou que Dimitri também poderia voltar e estava certa, mas ficaria em seu novo escritório, tentando resolver aquele problema se não fosse isso. Cálculos era o que ainda fazia quando Ilde avisou que Dimitri estava a caminho e queimou rapidamente os rascunhos, enquanto pegava os ingredientes para um sanduíche improvisado.

Ilde entrou no Spa logo depois dela, queria perguntar para Monique sobre as clínicas particulares da cidade, a mulher conhecia tanta gente, imaginou que pudesse ajudá-la naquela questão. Danielle cuidava da recepção quando chegou.

— Danielle? O que você está fazendo aqui, na recepção?

— Pedi para ficar um pouco aqui, até que a recepcionista termine de orientar os fornecedores sobre o ritmo das entregas.

O sorriso, difícil de esconder, de Danielle deixava nítido o quanto sentia-se contente com o trabalho.

— Mas, e se uma cliente reconhecer você?

— Não tinha ninguém agendada para esse horário e acho que ninguém mais me reconheceria, as pessoas quase nunca me veem.

— Hum... Está bem, tome cuidado. A Monique está aqui?

— Estou — respondeu Monique, já passando por Ilde e entrando também na recepção.

Ilde abriu um de seus grandes sorrisos. — Vim aqui só para falar com você. Queria saber se conhece uma clínica médica, de confiança, para eu levar o Antony. Ele está cada dia pior, nenhum imbecil do hospital militar sabe exercer a medicina e agora ele veio com um papo de doença autoimune. Precisamos de um lugar que possa nos dar respostas e tratamento adequado, e o Leon se recusa a levá-lo a um Centro de Cura. Se não achar atendimento decente, acho que eu mesma vou levá-lo a um.

— Não! — soltou Danielle, de súbito.

Confusa, Ilde franziu a testa para amiga. — Não o quê? — perguntou.

— Não leve o Antony para um Centro de Cura.

— Por que não? Os melhores tratamentos do mundo são feitos neles.

— Por favor... Por favor, Ilde! Não leve o seu filho a um lugar desse... Me prometa que você não fará isso.

A aflição de Danielle deformou a sua expressão alegre a tal ponto que assustou Ilde.

— O que está acontecendo? Por que não posso levar o Antony para um Centro de Cura?

— Talvez seja porque, lá, você só vai encontrar médicos do exército também — salvou Monique. — E duvido que algum deles permita a presença de familiares, aí você não poderá acompanhar o seu filho.

— É... É verdade. Eu não cheguei a pensar nisso.

Ilde deu uma boa olhada em Danielle, o conhecido olhar de que aquela conversa não havia acabado e que ela iria querer saber o motivo do seu nervosismo com relação ao assunto. Um problema para Danielle, pois contar que sabia o tipo de tratamento aplicado nos Centros de Cura porque Dimitri a obrigava a ver os vídeos medonhos que ele colecionava dos procedimentos utilizados neles, era o que não pretendia fazer em hipótese alguma. Ilde realmente o mataria se soubesse daquilo.

Além do mais, a verdade sobre os Centros de Cura enfureceria a amiga em um nível tão extremo que ela não ficaria quieta, o que a levaria a se tornar paciente em um, fosse ela quem fosse. A lembrança vívida das gargalhadas que Dimitri soltava, enquanto a segurava pelos cabelos para que ela não pudesse baixar a cabeça, nem virar para qualquer lado trouxe o gosto ácido das náuseas que a assolavam nas sessões macabras de cinema. Danielle sabia que não suportaria ver Ilde ou Antony em um deles.

— Mas você não vai precisar dessas clínicas de qualquer maneira, porque conheço várias de confiança — falou Monique.

— Graças a Deus!

— Vou te dar o endereço de uma com diversas especialidades e que irão tratar vocês com o respeito que merecem. Aliás, posso ligar lá e marcar horário agora, se quiser, na maioria das vezes consigo vaga na agenda para o mesmo dia.

— Seria uma bênção. Muito obrigada.

— O que é isso, Ilde? Não faço nada demais — respondeu Monique, pegando o telefone.

— Talvez você não faça é ideia do tamanho do bem que costuma fazer às pessoas.

Monique sorriu, enternecida, não acreditava que fazia tanto bem quanto era necessário.

— Vá fazer uma massagem enquanto eu ligo, assim que conseguir vou lá avisar. Você e o Antony estarão disponíveis em quais horários?

— Tenho o dia inteiro e tiro ele da escola a qualquer hora.

— Então relaxe na massagem e fique tranquila, eu resolvo tudo para você.

Ilde sentia-se tão grata que deu a volta no balcão e abraçou Monique. — Eu não tenho palavras para agradecer pelo que você está fazendo.

— Não precisa, agora vá.

E Ilde foi. Nunca recusava uma massagem e estava tão tensa que, se ficasse ali, esperando pelo término da ligação, seu corpo travaria. Não demorou dez minutos para Monique agendar a consulta e deixar a atendente ciente da condição do menino, Ilde a atualizava constantemente sobre a saúde de Antony. Depois foi entregar a anotação do endereço, horário e nome do médico que os atenderia, ainda pela manhã.

Ilde abandonou a massagem e foi para casa apanhar os exames que tinha de Antony e correu para a escola, o pegou e foram para a clínica.

O recepcionista já surpreendeu Ilde, porque olhou para eles diferente dos demais recepcionistas das clínicas em que esteve, com respeito e uma expressão cordial, pegou os exames e levou para o médico, durante o tempo em que Antony preenchia o seu histórico de saúde e o profissional já estava atualizado quando entraram.

— Bom dia — o homem disse, segurando porta para que entrassem.

— Bom dia — respondeu Ilde e sorriu, não pensava que médicos conseguiam tirar as bundas das cadeiras nos consultórios e segurou-se para não verbalizar isso.

Antony teve dúvidas se poderia falar ou não, assim optou por não responder.

— Muito prazer, meu nome é Gregori Ceng. Sente-se, por favor.

Só então, Ilde percebeu que estava na presença de um homem asiático, não sabia identificar a etnia específica, ele não tinha sequer um sotaque que pudesse indicar, tudo o que podia afirmar é que ele não se tornou médico ali, onde havia a proibição de estudar, viver livre e procriar quando houvesse ascendência estrangeira.

— Obrigada — ela disse em seu melhor tom para disfarçar a surpresa.

— Analisei rapidamente os exames do Antony, mas gostaria de estudá-los melhor, se não se importarem. Prefiro avaliar exames com maior atenção, porque é nos detalhes que descobrimos o que acontece em um corpo humano.

— Você acha que pode ser algo grave? — perguntou Ilde.

— Esses exames são um pouco vagos, então não posso dizer ao certo, mas gostaria que o Antony me dissesse o que sente, assim posso pedir exames mais precisos.

Nova surpresa, Antony nem soube como responder e o médico o incentivou com um olhar gentil. O homem não era convencional em nada, e Ilde decidiu observá-lo melhor.

Os diplomas nas paredes indicavam uma vasta formação, todos de países distantes, o que esclarecia parte das curiosidades dela. Ele também não era arrogante, outro tipo de profissional que Ilde jamais conheceu, sempre cuidou das enfermidades nos hospitais e clínicas militares, e absolutamente todos aqueles com quem esteve foram arrogantes com ela, com os filhos e com as esposas de membros do exército que conhecia.

A saúde feminina nunca foi levada a sério, malmente teve acompanhamento pré-natal e a violência que sofreu no parto de Antony, junto da quantidade de vezes que foi chamada de velha demais para ter filhos, a fez desistir de gerar a menina que pretendia. Certa vez foi maldosa e perguntou a um médico se ele tinha formação, ele a olhou como se quisesse matá-la e não respondeu, depois Leon garantiu que não existia médico sem formação no país e foi a única resposta que obteve. Ali Ilde pensou que, talvez, devesse ter saído do amparo militar mais cedo.

— Eu sinto muito cansaço e falta de ar — começou Antony, tímido —, não tenho apetite, na verdade, como à força porque sei que preciso e odeio desmaiar.

— Você já desmaiou?

— Algumas vezes.

A resposta trouxe a atenção de Ilde de volta à conversa.

— Quantas no último mês?

Antony vacilou, não queria que Ilde soubesse, seu olhar já demonstrava o impacto de ouvir que ele havia desmaiado mais de uma vez. — Quatro — respondeu.

Ilde respirou fundo, se recompôs e não se manifestou.

— Sente mais alguma coisa?

— Dor de cabeça quase sempre.

— Há quanto tempo você se sente assim?

— Cerca de cinco meses.

— Está bem. Precisarei examinar você. Pode deitar-se naquela maca?

Antony olhou para onde o médico apontava e obedeceu.

— Mãe! — o médico chamou e Ilde se virou para ele, em novo choque, nunca ouviu aquela forma respeitosa de tratamento. — Você notou mais alguma coisa diferente nele?

— Só a palidez e, nos últimos dias ele ficou assim, amarelado. Agora começou com uma teoria de doença autoimune.

— Interessante! — O médico levantou-se e foi para a maca onde o garoto deitou. — Por que você pensa que tem uma doença autoimune? — ele perguntou e pegou uma das mãos de Antony para testar a resistência de suas unhas.

— Eu supus, pelo que sinto. Sei que tem muitas doenças que podem ter esses sintomas, mas comparei com os meus exames e vi que pode se encaixar melhor nisso.

— Você sabe ler exames?

Ilde imaginou que o homem iria se irritar e foi até eles. Se havia alguma certeza que tirou dos minutos em que passou no consultório era a de que, esse médico, ela não queria insultar, até ali tinha sido o melhor que conheceu e possivelmente a única esperança de ajuda para Antony.

— Me desculpe, doutor. Não se ofenda — ela apressou-se em dizer. — Ele não quer ensiná-lo a fazer o seu serviço, nós ficamos desesperados e ele pesquisou um pouco.

O médico puxou levemente as pálpebras do garoto, depois voltou-se à Ilde.

— Não estou ofendido, estou impressionado. De acordo com os nomes listados nos exames, o Antony passou por muitos profissionais, entendo os motivos de ele ter pesquisado. Mas não sabia que o colégio militar tinha um ensino tão aprofundado. Interpretar exames e sintomas não é algo fácil de fazer.

— É... Foi uma pesquisa nova que tivemos na escola, gostei e li mais a respeito. Mas eu não interpretei exatamente, só supus, já que ninguém descobre o que tenho.

— Então não se preocupe mais, aqui vamos descobrir o que há com você, nem que tenhamos de fazer todos os exames que existem no planeta.

— Não há nada que desejemos mais — confessou Ilde.

O garoto sorriu para o médico e se aquietou para que ele fizesse os demais exames.

— Pode levantar — ele falou pouco depois e voltou a sua mesa. — Me responde mais uma coisa. Esse mês fez frio, você notou piora nos sintomas depois que a temperatura baixou?

Antony pensou um pouco. — Sim — disse. — Agora que o senhor falou, percebo que alguns sintomas pioraram, sim. Isso pode ser uma indicação da doença?

— É possível. Mas não posso dizer que você tem uma doença autoimune baseado só nisso, nem que não tem. São patologias que acometem pacientes cada vez mais jovens, por isso vou te dar exames específicos para isso e alguns outros, vai ser chato porque é muita coisa, mas vamos achar o que está causando esses problemas.

— Obrigado.

— Não há de que, é para isso que estou aqui.

Ilde queria abraçar aquele homem e agradecer para sempre, agora tinha certeza que não se trataria em outra clínica e saiu tão animada que só queria falar com Leon e contar sobre o atendimento.

Porém, omitiria que o médico era asiático. Até onde sabia, Leon teria de verificar a presença de um com ascendência estrangeira atuando ali, reportar se ele não estivesse com a devida documentação ou mentir e, por mais que não houvesse leis que impedissem profissionais com formação e especialização em países prestigiados de exercerem suas funções em território nacional, ela sabia que poderiam causar problemas a ele. E não queria nem pensar em perder esse médico.

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