Flagrarofobia
Os dias após o retorno de Leon ao trabalho foram um inferno para Dimitri, o olhar atento do general seguia cada um de seus movimentos e, para piorar o medo dos subalternos arrefeceu na presença dele e o pavor intermitente que pairava sobre a memória do destacamento perdido foi se esvaecendo, substituído por olhares cada vez tranquilos.
Quando o marechal voltou, ninguém mais parecia preocupado com nada e, Dimitri descobriu uma fobia nova, a de ser flagrado, e escapou do tio por dois dias. Apesar de seu êxito em descobrir o que houve, Zunik o surpreendeu requisitando explicações precisas e Dimitri não estava preparado, acreditou tão completamente que o tio se esqueceria do assunto encerrado que o abandonou. No fim, não teve escapatória, na primeira vez que pôs os pés na sede do governo depois do retorno dele, foi obrigado a atender a seu chamado.
— Por que nenhum corpo foi trazido para averiguar como morreram? — foi a primeira pergunta que ele fez, antes mesmo de cumprimentá-lo.
Dimitri sabia exatamente do que Zunik estava falando. Como não pensou que aquilo poderia acontecer? E olhou para Leon, à procura de um auxílio, que não veio. O general o encobriu como pôde, naqueles dois dias, mas esgotou seu estoque de desculpas inventadas para a ausência do coronel, apesar de todas as convocações do marechal.
— Porque estavam em avançado grau de decomposição — ele respondeu lenta e moderadamente.
— E?
— E eu acho que o Zinekolski não quis desrespeitar os mortos como o Ás de Paus fez.
— E onde está o major? Quero falar com ele!
— Ele foi em uma missão no R-801 — respondeu.
— Isso faz dias, quero saber onde ele está agora.
Dimitri hesitou por uma segundo. — Ainda não voltou — respondeu com metade do volume da voz.
— Como não voltou? Ele foi para uma missão, não para morar lá.
— Houve uma tentativa de invasão hacker no porta-aviões, imagino que a gravidade do ataque o obrigou a ficar.
Zunik olhou, incrédulo, para Leon e novamente para Dimitri.
— Você imagina? Quer dizer que não sabe.
Mais uma vez Dimitri hesitou, oscilando entre o temor de responder e o de não responder.
— Faz quanto tempo que ele foi? — quis saber Zunik.
— Alguns dias, senhor.
— Quantos dias, Dimitri? — irritou-se Zunik. — Dez? Dois? Cinco?
Dimitri pensou por um instante, recebeu o comunicado de que Edmund partiu na manhã seguinte ao da homenagem, então fazia sete dias.
— Uma semana.
Zunik marchou até ele, com os passos denunciando o furor crescente.
— Você mandou o nosso maior especialista em tecnologia para o porta-aviões mais distante que temos, e não o trouxe de volta depois de uma semana?
— A equipe do Zinekolski é capaz de manter a qualidade do trabalho na ausência dele.
— Espero, para o seu bem, que sim.
— Ela é.
Dimitri não sabia se era, tampouco queria saber, só queria que Zunik acreditasse.
— E ele já se comunicou?
— Ainda não.
— E você?
— As comunicações estão péssimas...
— Ou seja, você nem tentou.
— Senhor, eu juro...
— Quando o major entrar em contato, eu quero falar com ele. E, se não entrar em contato, você vai ao R-801 descobrir o que aconteceu.
— Sim, senhor, providenciarei isso.
E Zunik retornou aos mapas sobre a mesa.
— Por agora, vá buscar o relatório da missão, quero ver os registros, fotografias, coletas, filmagens... tudo.
Um tremor sacudiu as entranhas de Dimitri, não havia dúvidas de que Edmund registrou tudo, nem era permitido que qualquer coisa fosse feita sem o devido registro dentro das forças armadas, regra solicitada pelo próprio major quando desenvolveu os aparelhos para serem levados nas missões, inclusive o compartimento para guardar coleta biológica, que certamente haveria se tivessem mesmo achado corpos.
— Marechal! — chamou Verbena da porta aberta.
Zunik olhou para ela. — Professora! Entre, por favor.
— Me desculpe, eu não sabia que estavam em reunião.
Os lábios de Dimitri viraram uma linha apertada.
— Não é uma reunião, o Dimitri está me atualizando sobre o que aconteceu enquanto eu estava fora.
— Sobre a perda dos soldados? Eu soube, e sinto muito.
— Foi uma grande perda, iremos apurar os fatos e tomar uma providência cabível.
— Apurar? Ainda não sabemos o que aconteceu?
Dimitri olhou para o tio, não acreditava que ele iria revelar os segredos da investigação para aquela mulher.
— Sabemos, mas eu quero descobrir como. Tudo o que temos é que eles saíram para a verificação do ponto de transmissão do Ás de Paus. A senhorita sabe de que transmissão falamos?
— Sim.
Leon se aproximou. — O que se fala por aí é a verdade, com pequenas alterações — explicou. — Ouvi cinco versões diferentes só esta manhã. Mas, a informação que temos é de que o grupo terrorista do homem conhecido como Ás de Paus, capturou e matou os nossos soldados de maneira cruel, depois deixou os corpos para apodrecerem ao relento.
— Isso é maldade demais — repudiou Verbena.
— Há muito tempo não vejo tanta.
— Como eles morreram, Dimitri? — perguntou Zunik.
— Torturados, espancados, alguns baleados.
— Foram mesmo capturados dentro da cidade? — quis saber Verbena.
— É exatamente sobre isso que quero saber — respondeu Zunik. — Como foi feito e como ninguém viu?
Dimitri estava tão vermelho que sua cabeça parecia perto de explodir, mas continuou quieto, e Verbena olhou o mapa apontado pelo marechal, enquanto ele voltava-se ao general.
— Leon, monte outro pelotão, quero homens fortes e ágeis. Junte aos que o major levou e vá ao local onde os corpos foram encontrados, refaça o caminho que fizeram até lá, eles não podem ter chegado tão longe voando. Tenho certeza de que encontrará alguma pista.
— Senhor — chamou Dimitri. — As buscas já foram feitas, não podemos ficar perdendo tempo com esse caso agora.
O tremor interno de Dimitri quase o paralisou, em primeiro lugar porque, tanto o marechal quanto o general, suspeitariam quando não encontrassem um homem sequer daqueles que foram com o major, Dimitri havia arrumado serviço ou transferência rápida para cada um deles, depois porque perceberiam a farsa assim que pusessem os pés lá.
— Está claro que não foi uma busca eficiente. É abominável ter que refazer uma coisa dessas em meio a tantos problemas.
— Então não seria melhor concentrarmos nossos recursos nos problemas mais urgentes? Além do mais, acho perigoso afastar o general nesse momento tão tenso.
Zunik pensou por um instante. — Você tem razão, vai você, então.
— Vossa excelência — chamou Verbena.
— Vamos combinar uma coisa, senhorita Koch? — disse Zunik.
— É claro, o que quiser.
— Deixemos essas cerimônias para quem está abaixo de nós. Me trate como os outros, nem mais, nem menos. “Vossa excelência”, é excessivo.
Verbena mostrou o seu melhor sorriso. — Está bem, senhor.
— O que você queria dizer?
— Ouvi falar muito bem dos drones que o nosso exército vem projetando, soube que são uma maravilha tecnológica inigualável.
— São realmente. É uma pena que o Zinekolski não esteja aqui, essa seria uma oportunidade excelente para fazer testes com eles, o que nos pouparia um tempo precioso. — E ele olhou para Leon. — Alguém, da equipe do major, é capacitada para operar os drones?
— Tenho certeza que sim — respondeu Leon.
Dimitri sentiu o ar faltar, de repente tudo se voltava contra ele. Por que ela tinha que fazê-los lembrar dos drones?
— Senhorita Koch, esse não é assunto para você, coloque-se no seu lugar e volte em outro momento! — falou Dimitri.
— Cale a boca, Dimitri! E só fale outra vez quando tiver as respostas que quero ouvir — repreendeu Zunik.
— Mas, senhor, isso não é mesmo assunto para uma mulher, ela se assustará ao saber de tantas adversidades que enfrentamos para manter a proteção de pessoas como ela.
— Ela é uma Koch, esqueceu?
— Mas ainda é mulher, se começarmos a misturá-las a nossas reuniões teremos o que? Lágrimas, atrasos e piedade dos inimigos?
— Obrigada, coronel. Me sinto honrada com a sua consideração — falou Verbena. Havia tanta audácia em seu tom, que Dimitri quis mandar puni-la de imediato, mas olhou primeiro para o tio, ele sorriu e o coronel percebeu que seria uma batalha perdida.
— Perdoe meu sobrinho, senhorita Koch, ele tem muito a aprender.
Verbena sorriu, encantada, e aquilo foi demais para Dimitri. Ele teve que se virar para não testemunhar mais aquilo.
— Se me permite, senhor, eu estava observando o mapa, e entendi que o nosso destacamento saiu por aqui — Verbena tocou o círculo vermelho destacando uma das saídas da cidade. — Estou certa?
Zunik e Leon voltaram suas atenções ao mapa.
— Está sim — respondeu Zunik.
— Mas, se eles teriam que ir até aqui — e ela deslizou o dedo para o pretenso destino dos soldados —, talvez tenham optado por outro caminho, um que os levaria mais rápido para lá, principalmente se tinham pressa. — Ela deslizou novamente o dedo até a saída que ficava alguns quilômetros à direita. — Esse caminho seria a escolha mais adequada para uma tropa tão bem treinada.
Dimitri lançou um olhar cortante para ela, queria escorraçá-la daquela sala. Ele só notou ali que Verbena não tinha mais a postura humilde que mostrou quando a conheceu e algo nebuloso surgiu em sua mente, ela poderia não ser o cordeiro que aparentava, poderia ser uma cobra peçonhenta que dava o bote lentamente na intenção de tirar o que era dele.
— Tem ótimos olhos, professora, eu também teria feito essa escolha — falou Leon.
Ele deu a dica para Dimitri dias antes, queria que o rapaz tivesse êxito na tarefa para ganhar o almejado reconhecimento do marechal, mas ele não atribuiu importância à sugestão e seguiu teimando no que era mais fácil.
Já Zunik encarou Leon, prestes a questionar sobre o motivo de não tê-lo feito, então. Mas viu sua expressão para Dimitri, e o conhecia bem demais para ignorar o significado: ele, mais uma vez, protegia o coronel.
Verbena sorriu. — É apenas o mais lógico. Se precisavam ir à pedreira Cesno e saíssem pelo Trevo Sandino, teriam que dar uma volta muito longa em terreno acidentado, o que levaria um dia inteiro ou mais já que precisariam ir a pé para não ficarem presos. — Outro fato que Dimitri se esqueceu foi que os soldados não tinham saído a pé e, portanto, algum rastro dos veículos teria que ter sido encontrado. — Pela rodovia Capitão Teodoro Vicente — Verbena prosseguiu, apontando para a rua principal da fronteira norte da cidade —, levariam poucas horas, em linha reta e o terreno não é tão difícil. Só não consigo entender como foram parar aqui — ela concluiu mostrando um espaço inóspito e inominado onde Dimitri afirmava terem achado os corpos.
— Conhece estas estradas, professora? — perguntou Dimitri, a palavra “professora” não foi proferida com a veneração que as demais pessoas denotavam, a dele saiu como uma ofensa.
— Eu cresci no campo. Aprendi a interpretar marcações em mapas antes de aprender a ler, é a melhor maneira de administrar uma fazenda.
— O que não aceito é que o meu coronel não tenha pensado nisso — falou Zunik.
— Os guardas fronteiriços disseram que os nossos homens não passaram por lá.
— E você mandou que verificassem?
Zunik encarou Dimitri e ele se concentrou na procura da melhor desculpa para esconder que não fez quase nada enquanto o tio estava fora.
— Eu estive ocupado, senhor.
— Com o que?
— Creio que comigo — salvou Verbena. — Peço suas desculpas. Encontrei um aluno com suspeita de sobrenome inimigo, poderia ser uma coincidência, mas informei ao tenente-coronel Molls, ele conferiu, não achou irregularidades e mesmo assim, incomodei o coronel Novakohut com o assunto. É difícil achar a descendência de cada sobrenome e imagino que o coronel tenha tido dificuldades para confirmar as informações.
Dimitri a encarou novamente, dessa vez, confuso com o esclarecimento conciliatório, aquilo era mais que inesperado. E veio a vaga memória de Adam falando sobre o tema e de o mandar embora com a ordem de nunca mais perturbá-lo com questões tão triviais, depois sequer lembrou do assunto outra vez.
— Você verificou mesmo, Dimitri? — perguntou Zunik.
— Sim, senhor. É como a senhorita Koch disse.
— Muito bem, prepare-se, quero você investigando as fronteiras norte amanhã cedo.
— Farei isso, senhor — respondeu Dimitri. Ele estava levemente aliviado, talvez encontrasse algo que corroborasse sua história; se levasse um número reduzido de homens poderia até enfeitar parte do que fosse observado para que se moldassem melhor a sua versão dos acontecimentos. Pensaria na narrativa com mais cautela dessa vez.
— Senhorita Koch, eu a chamei aqui para conversarmos sobre os últimos acontecimentos na escola — falou Zunik.
— Eu também queria falar com o senhor. Recebi a sua agenda, mas notei que há poucos compromissos.
— É porque a senhorita só me acompanhará aqui, na cidade, por enquanto. Expandiremos de acordo com o seu desempenho.
— E quanto à igreja? Não há visitas a nenhuma.
Dimitri estrangulou um riso de escárnio na garganta, atraindo novamente a atenção do tio.
— Dimitri, assim que terminar de falar com a senhorita Koch quero saber o que aconteceu com o lote de insumos que mandei você comprar para os Centros de Cura — disse e Dimitri paralisou novamente, estava certo de que o tio desconhecia o problema com o lote em questão, fez tudo para que ninguém soubesse, estava planejando adquirir um novo para substituir o lote que foi comprado e nunca entregue, antes que Zunik ou Leon tomassem conhecimento, pois ele não tinha como explicar onde e quando foi interceptado. — Me traga um relatório muito bem detalhado — ordenou o marechal.
— Senhor — chamou Leon. — Se me der licença, também vou cumprir o meu dever.
— É claro! Vá! Vá! — E ele voltou-se à Verbena, abrindo outro sorriso, o presunçoso. — A minha agenda não contém esse tipo de compromisso — esclareceu condescendente. — Nem há igrejas por aqui, só a partir do segundo anel.
— É? Eu não sabia.
— Templos religiosos são para a população. Nós estamos acima disso, não precisamos participar de cultos. Nós determinamos o teor dos cultos — ele explicou como se ensinasse uma menina de seis anos. — Imagine Jesus Cristo participando de um rito que o celebra — concluiu, estendendo o braço para que Verbena o enlaçasse e o acompanhasse.
— Oh! O senhor tem mesmo a visão inovadora que me disseram.
Apesar de não ter como Dimitri estar mais encrencado com Zunik, a vontade de ouvir a conversa entre o tio e Verbena teve maior poder do que o medo, e ajeitou uma pasta de papéis na curva do braço devagar, depois andou devagar perto dos dois com os ouvidos atentos. Nenhum deles olhou para ele e seguiram até o gabinete do marechal, deixando-o quase sapateando de frustração, duvidava que continuariam discutindo sobre cultos religiosos do populacho, até desconfiava que Verbena entrou no assunto aleatório para não tratar de importantes perto dele. E se enfiou em seu escritório, esgotado, não aguentava mais tantas variações emocionais.
Leon escutou a discussão na sala de reuniões observando Dimitri e, em vez de voltar para a sua sala, foi à central de inteligência. Comandou o setor pelos anos como coronel, por isso estabeleceu um vínculo com Edmund e seus rapazes. O usaria agora para esclarecer algumas dúvidas com Wolsh acerca dos acontecimentos em que o major esteve envolvido.
Wolsh o levou, então, para o escritório de Edmund.
— Realmente tem algo suspeito em tudo isso — ele confidenciou após fechar a porta. — Desde antes da transmissão do Ás de Paus.
— Por que diz isso? — perguntou Leon.
— Nós chegamos a cansar de avisar que o sistema de comunicações estava apresentando sinais que poderiam significar uma invasão antes de ocorrer e agora está acontecendo de novo, mas ninguém escuta. O chefe até tentou falar com o senhor algumas vezes, mesmo que fosse punido por isso, mas valia a pena porque ele confia só no senhor.
— Avisaram quem?
— O coronel Novakohut. Temos tudo documentado, se quiser ver. Depois começamos as investigações do destacamento que desapareceu, mandamos os drones e...
— Vocês usaram os drones?
— Usamos, pensei que soubesse.
— Eu não fazia ideia.
— Pensamos em usá-los para não expor mais soldados ao perigo, já que não sabíamos o que tinha acontecido.
— E funcionaram bem?
Wolsh sorriu, orgulhoso. — Muito bem, os resultados superaram as previsões. Precisa de mais ajustes antes de ficarem prontos para venda, mas para uso interno, estão ótimos.
— Que boa notícia. E foi assim que encontraram os corpos?
— Não! E é aí que começa a ficar mais estranho, os drones pegaram imagens do local onde dizem que o chefe encontrou os corpos e não tinha nada lá, nem na pedreira Cesno, acho que ninguém chega perto dos dois lugares há anos. O Ás de Paus deve ter forjado a origem do sinal da transmissão. Pensamos em fazer um voo sobre a cidade, mas não pudemos naquele dia por causa da chuva, depois, nossa permissão para testes foi restringida e o chefe decidiu investigar as outras saídas da cidade, só que o coronel não deixou e mandou ir para a pedreira, pelo mesmo caminho, não sei por que. Quando o chefe voltou não falou com ninguém e, no dia seguinte, soube que ele tinha ido para um porta-aviões.
— Bom saber... Você pode me fazer um favor, Wolsh? É sigiloso, então peço que só fale comigo a respeito disso, ou com o Edmund.
— É claro. Do que o senhor precisa?
— Preciso que faça uma investigação minuciosa sobre o desempenho do coronel Dimitri Novakohut. Quero saber o que ele autoriza, o que não autoriza, o que recebe e o que paga, tudo o que passa pela mão dele. Acha que consegue?
— Com o acesso certo, consigo sim. Seria bom que o chefe estivesse aqui, ele faria isso em cinco minutos
Leon sorriu. — Também sinto a falta do Edmund, espero que ele volte logo.
— Todos nós esperamos.
— Se tiver uma maneira segura de fazer a investigação, para que ninguém mais fique sabendo, use por favor. Depois que terminar, leve junto com as imagens para a minha casa.
— Farei exatamente como pediu.
— Obrigado, e tome cuidado.
— Tomarei.
Leon voltou ao trabalho ruminando sobre a incompetência de Dimitri. Não queria aceitar que houvesse algo mais sinistro por trás da negligência, afinal a vadiagem já era decepção demais. Compenetrado nisso resolveu meditar sobre as suspeitas até encontrar uma explicação que não implicasse em Dimitri ter uma índole tão medonha que tivesse coragem de trapacear o próprio tio.
A tarde trouxe um breve alívio para Dimitri. Zunik saiu, por isso desistiu da ideia de se afastar do primeiro batalhão para dedicar-se ao relatório dos insumos perdidos dos Centros de Cura, era imprescindível esclarecer o ocorrido de uma maneira que minimizasse os seus erros. O serviço, porém, foi interrompida quando Leon parou na soleira da porta.
— Dimitri — chamou Leon.
Dimitri levantou o olhar dos papéis, sobre a mesa, viu o general e baixou a cabeça novamente.
— General, a que devo a honra da sua visita? — disse ele.
— Vim avisar que vou com você amanhã.
Dessa vez Leon teve a atenção de Dimitri.
— Por quê? — ele questionou. — O marechal não confia em mim?
— É claro que confia. Não estou indo por isso...
— Por que, então? — interrompeu Dimitri.
— Por vontade minha, quero entender o movimento terrorista que tem gerado tantos transtornos. Não me aprofundei sobre o tema “Ás de Paus” porque pensei que ele não passaria de um arruaceiro pirotécnico e que seria logo capturado, mas parece que ele é muito mais do que isso.
— Talvez eu não tenha sido claro antes, mas não acho prudente que você vá para um local onde os nossos homens podem ter sido emboscados. Acredito que simples soldados sejam apenas trutas para um terrorista, um general, por outro lado, é um salmão inteiro.
— E o futuro marechal, não é?
Dimitri respirou profunda e lentamente com os dentes tão serrados que precisou de esforço para abrir a boca.
— Leon, eu tenho muito o que fazer, você também tem. Cuide dos seus problemas, que eu cuido dos meus.
— Isso não é um pedido, coronel. É um comunicado, esteja pronto às seis horas e não se atrase.
— Quer dizer que eu não tenho o comando de minha própria missão?
— Quer dizer que você tem que cumprir ordens como qualquer um.
E Leon foi embora. O peso sobre seus ombros ameaçava esmagá-lo e adormeceu no carro, o motorista precisou acordá-lo quando chegaram.
O caminho para casa propiciou o único momento de tranquilidade para Leon, pois Josué, o mordomo, o encontrou na entrada para avisar que Edmund havia ligado, mas que não conseguiu falar muito e que nem recado deixou. Depois disso Leon ficou ainda mais intrigado. Se o major ligou em sua casa é porque tinha algo importante a dizer e a ideia de que poderia ter sido uma tentativa de pedido de socorro surgiu como um golpe impiedoso.
— Leon, por que você tirou o nosso dinheiro do Imperial Bank? — perguntou Ilde ao vê-lo sair do banheiro, esfregando a toalha nos cabelos molhados com profundas rugas na testa.
Leon levou alguns segundos para transferir os pensamentos da inquietude por Edmund para o questionamento da esposa, estava tão absorto nas suas teorias que nem a viu sentada na cama.
— Como você sabe?
— Eu estive lá, e vi que temos muito menos do que imaginei. Disseram que você vem retirando quantias regulares para investimentos. Posso saber que investimentos são estes que estão nos falindo?
— Não estamos falindo e não são investimentos, eu estou guardando nossos bens em outro lugar para que fiquem melhor protegidos.
— O Imperial Bank é o banco mais seguro do país.
— Nem tanto, coisas podem acontecer lá e não quero que fiquemos sem nada.
— Que coisas podem acontecer lá? Especifique.
— Bem... muitas. Você sabia que tudo o que está guardado naquele banco pertence ao marechal?
— Eu sei que o banco é dele, mas o marechal jamais tocaria nos pertences dos outros.
— É só uma prevenção.
Ilde fixou seu olhar nos olhos do marido, depois aproximou-se dele.
— O que está acontecendo, Leon? Me diga o que o preocupa.
— No momento, é o Edmund.
— O Edmund? Por que?
— Ele foi enviado para um porta-aviões de difícil contato, de repente liga aqui e não na sede... Tenho medo que esteja precisando de ajuda e eu não estou fazendo nada.
— Eu e a Sônia também não gostamos dessa ida dele para lá. Ainda mais porque foi aquele infeliz, fracassado, do Dimitri quem mandou.
Leon franziu a testa em desgosto, ficava incomodado quando Ilde se referia a Dimitri daquela forma, mas na atual circunstância, não conseguia pensar em argumentos para defendê-lo.
— Isso é o que mais me preocupa.
Ilde se afastou, olhando-o com o dobro de estranheza, enquanto vestia o roupão de cetim deixado sobre a cama. Esperava que Leon defendesse Dimitri, como sempre fez, nunca que concordasse com ela.
— Por que? — perguntou, então.
— Tenho visto umas atitudes dele que jamais esperei ver.
— Ele bate na própria esposa, a pessoa mais doce que já conheci, só você para esperar caráter de um homem assim
— Eu não disse que atitudes são essas.
— Não devem ser boas, pela sua cara. Vou descer e ligar para a Sônia, ela deve ter notícias do Edmund. Pode dormir. Não precisa me esperar porque vou demorar, mas nossa conversa ainda não terminou.
Leon observou Ilde sair, não era capaz de conter o sorriso apaixonado quando a via daquela maneira. Ele ainda sorria, envolto pelo perfume dela, quando se vestiu para visitar outra de suas preocupações.
O quarto de Antony ficava do lado oposto do corredor, e bateu duas vezes para anunciar sua chegada. Sem resposta, empurrou a porta devagar, não conseguiria dormir se não o visse. O garoto caiu no sono com a luminária de cabeceira acesa e o pai se aproximou da cama, ele adormeceu enquanto lia a biografia de Zunik. Pegou o livro com cuidado, o fechou e colocou sobre a mesinha ao lado, depois o olhou novamente.
Antony era apenas outra de suas preocupações, era a maior de todas. Ele estava tão pálido e tão magro, mas parecia em paz, e Leon ajeitou seus cabelos, em seguida as cobertas e ficou mais alguns minutos, refletindo a observá-lo. As noites em que o menino estava acordado eram as melhores, porque os dois conversavam durante o tempo que o cansaço de Antony aguentava, depois Leon descansava com as energias renovadas.
Quando ele resolveu finalmente voltar para o seu quarto, a exaustão havia ultrapassado qualquer limite que já conheceu e jogou-se na cama, mas não dormiu profundamente como intencionava, seu sono foi tão superficial que despertou quando Ilde voltou e deitou-se ao lado dele.
— Ela falou com o Edmund? — ele perguntou.
— Sim. Parece que deu mais certo quando ele ligou para ela. A Sônia disse que está tudo bem, que o comandante do porta-aviões é um babaca, mas que ele terminou o serviço e só espera receber a ordem para voltar.
— Que bom, amanhã dou a ordem, bem cedo — disse Leon, de olhos fechados e, sem abri-los, abraçou Ilde.
— Você conhece o capitão do porta-aviões?
— Uhum! É um babaca mesmo.
E Leon não falou mais nada, adormeceu enfim. O sono profundo que precisava para aliviar tantas preocupações.