Leitura Proibida
O contra-almirante passou uma hora estudando os pertences de Edmund e decidiu parar, precisava descansar ou não conseguiria mais raciocinar nem para cuidar de si próprio, e deitou-se de costas, olhando para o teto escuro, cochilou quase que imediatamente, todavia, seu cérebro não parou de procurar esclarecimentos e, de súbito, como se um raio atingisse sua consciência, abriu os olhos e sentou-se.
Percebeu que poderia não ter acontecido um assassinato, como vinha pensando, mas se houvesse uma tentativa, Edmund poderia ter fugido. Eric leu o arquivo do major, era um homem inteligente. Tanto que ganhou o cargo que ocupava aos vinte e quatro anos pelas capacidades singulares. Acharia fácil um jeito de sair incógnito do porta-aviões e isso explicaria o sumiço das chaves e dos documentos dele.
A ideia divergia de todas as suspeitas, mas parecia mais coerente do que a que esteve perseguindo. E voltou aos monitores à procura dos arquivos das imagens adquiridas pelas câmeras localizadas no caminho que fez depois que viu as grades amassadas, pelo lado oposto dos dormitórios. Não tinha verificado nenhuma gravação dali.
Havia quatro câmeras na área e todas estavam ligadas — por um segundo pensou que poderiam não estar — observou as imagens que transmitiam atentamente para decidir qual queria explorar primeiro. Ficou chocado ao ver que uma delas filmava outra câmera e a parede, mas continuou, cobraria isso do capitão mais tarde.
Escolheu aquelas que mais favoreciam um trajeto para o local de pouso do avião cargueiro, a data da última entrega de suprimentos coincidia com o tempo em que Edmund estava desaparecido e, se precisasse de uma fuga, não via nenhuma possibilidade melhor do que aquela.
Ele optou primeiro pela única que mostrava a porta do depósito e aproveitou para verificar o que os carregadores traziam e o que levavam dali, assim viu uma cena que o interessou. Três pessoas acessaram o local, dois carregadores e um oficial. Os primeiros saíram empurrando carrinhos de transporte, como o costumeiro, e o oficial saiu com uma caixa nas mãos, trancou a fechadura e caminharam para longe do alcance da lente. Um trabalho comum se o que levaram não fosse tão diferente. Eram caixas de papelão e de madeira, bem embrulhadas, mas nem os embrulhos e nem as caixas pertenciam às forças armadas.
Existiam vários motivos para tudo ser padronizado, tanto no exército, quanto na marinha e aeronáutica, impedir desvios era um deles, evitar entradas de material em desacordo com as normas estabelecidas era outro. Aquilo poderia não ser especificamente o que Leon pediu para investigar, mas era certamente suspeito.
Eric continuou sua pesquisa naquele arquivo, o achou bastante promissor, não só pelo que viu, mas pelo que não viu. Pouca gente acessava o depósito por longos períodos e, ausência de atividades no armazém principal da embarcação, onde se estocava tudo o que a tripulação precisava, era mais que incomum, era improvável. Quando chegou ao dia da entrega de suprimentos, observou com maior atenção, não ocorreu nada anormal no deslocamento dos carregadores e nenhuma das caixas suspeitas foi manuseada.
Procurou, então, os registros da plataforma no final daquele corredor, era onde existia o maior número de câmeras, escolheu uma, mas desistiu porque a lente vigiou mais o céu do que o convés, foi para outra e essa filmava a pavimentação com eficiência, e sacudiu a cabeça, revoltado. Edmund teria muita facilidade em esquivar-se daquelas câmeras, do modo como estavam posicionadas, uma criança conseguiria o feito. Sua filha, de oito anos, nem suaria. Ele quase desejou que o major tivesse executado as modificações nas máquinas para não pensar que a vigilância era feita daquela maneira desleixada.
Na quarta tentativa, Eric encontrou uma em posição satisfatória, e observou desde a chegada do cargueiro, até a saída. Viu um alvoroço e consequente correria dos marinheiros logo que começaram a carregar o avião com descartes do porta-aviões e nada mais que chamasse a sua atenção. Achou outro terminal em posição favorável, e observou tudo novamente.
Ao concluir, Eric massageou o pescoço em uma vã tentativa de aplacar a dor crescente. Nesse instante olhou pela janela e viu que o horizonte começava a dourar, verificou o relógio do monitor, estava muito mais adiantado naquele dia do que acreditou e resmungou para si, não queria que Bespalez percebesse a sua nova linha de pesquisa e ele logo apareceria.
Mas Bespalez não apareceria ali, estava do outro lado da embarcação, supervisionando a transferência de alguns caixotes suspeitos, que havia guardado em sua sala no dia em que o contra-almirante chegou, para um barco de apoio, ciente de onde Eric estava e tranquilo por saber que nenhuma imagem o denunciaria.
Observando as demais telas e as múltiplas janelas de vigilância, Eric aumentava o seu nível de irritação, até ali viu que faltava registros em grandes espaços de tempo, em diversas gravações, pontos cegos demais para uma embarcação tão importante e um número estarrecedor de câmeras desativadas.
Tudo o que olhava estava fora das diretrizes da marinha e lamentou pela impossibilidade de fazer uma investigação mais profunda. Uma câmera fora do lugar poderia ser descuido, duas, um erro inaceitável, mas tantas só podia ter objetivos sórdidos. Mandaria uma equipe especializada para fazer a averiguação completa assim que voltasse à capital.
No final da tarde, o contra-almirante começou a flertar com a ideia de desistir, a achar que alucinou e que talvez sua falta de aceitação pelo ato do suicídio, e não evidências reais, fosse a razão de continuar insistindo. Havia algumas gravações ainda e ele nem sabia mais se queria examinar, sua cabeça doía, seus olhos embaralhavam, e recostou-se no encosto da cadeira para perceber que sua coluna e cóccix também protestavam ferozmente, foi quando notou um rosto familiar. Pausou a imagem, esfregou os olhos, esperou que desembaçassem e voltou alguns segundos.
Eric não estava enganado, era Edmund, disfarçado como um carregador, só conhecia o major pelas imagens de vídeo dali e talvez justamente por isso não tivesse dúvidas.
Viu a imagem dos carrinhos de transporte de carga rolando rampa abaixo, na traseira do avião, de tantos ângulos que pensava não suportar mais assistir aquilo, mas só aquele ângulo mostrava o rosto da pessoa que os derrubou, e era o major. Ele continuou vendo a filmagem, Edmund desceu mais uma vez, pegou outro carrinho, mais carregadores subiram, desceram, mas ele não retornou, logo em seguida a rampa de carga e descarga subir e o avião deixou a plataforma.
Era tudo o que o contra-almirante precisava, sorriu contente, aliviado e feliz. Fechou aquela tela, deletou a imagem, possivelmente ninguém notaria, e clicou no outro arquivo, o da frente da porta do depósito, que tão bem verificou mais cedo, dessa vez contou cada carregador que entrou, depois contou e recontou quantos saíram, oito vieram para o serviço e nove saíram, isso significava que o major já estava lá dentro.
Retrocedeu a imagem, em alta velocidade, para ver em que momento ele entrou lá, mas na noite anterior a câmera simplesmente virou. Ele pausou e deixou o vídeo seguir na velocidade e sentido correto, a lente antes mostrava o teto, mal posicionada como quase todas as demais. Contudo exatamente dezenove horas e trinta e dois minutos ela se movimentou e focalizou a porta do depósito.
Mais um sorriso torceu os lábios do contra-almirante — se aquilo não era um sinal, nada mais seria. E procurou os arquivos daquela área. Clicou no horário desejado: sete e trinta da noite. Uma câmera permaneceu imóvel; as outras duas viraram também, um minuto depois da primeira, e pararam, enquadrando ambos os lados do corredor.
Eric não necessitava de mais nada e levantou-se dolorido, forçou as costas a ficarem retas e saiu atrás de Bespalez.
— Capitão! — ele chamou do batente da porta do escritório do comandante.
Bespalez estava em tão profunda concentração e silêncio que levantou num susto.
— Não precisa disso! — disse Eric, sacudindo a mão para que o homem relaxasse, estava cansado demais, incomodado demais e acelerado demais para perder mesmo míseros segundos com formalidades. — Eu só preciso saber por que o nosso sistema de segurança está irregular. Nunca vi um serviço mais desleixado, para não dizer omisso e imprudente.
— Ah, isso? Concordo com o senhor. O major Zinekolski estava atualizando o sistema. Segundo ele, era ultrapassado. Eu queria ter ajeitado há dias, e teria feito se não tivéssemos parado tudo para procurar por ele.
A história estava pronta desde que o contra-almirante começou a esmiuçar as gravações, era fácil creditar falhas a quem não podia falar, e Bespalez adorava uma facilidade. A verdade era que o capitão sabia que chegaria o momento em que alguém questionaria a maneira que posicionou as câmeras e estava satisfeito pela conveniência de ter Edmund na hora certa para camuflar o fato de que as deixou assim para nunca registrarem as atividades paralelas conduzidas no porta-aviões, ele era um empresário do ramo de revenda de propriedade militar fazia anos.
— Quem sabe, se não tivesse perdido tanto tempo com treinamentos poderia ter feito as duas coisas.
— Vou fazer como sugere, senhor.
— Eu estou voltando para a capital e, até amanhã, você colocará o sistema de vigilância em ordem. Enquanto faz isso, se não tiver uma justificativa para manter esse porta-aviões no mar, gastando todos os recursos do estado à toa, vai atracar na base e ficar lá até segunda ordem.
— Me desculpe, senhor, mas estou cumprindo ordens do coronel Novakohut e acredito que é da vontade do marechal também. Ele me mandou manter os homens preparados e prontos, não me disse por que, contudo, tenho minhas suspeitas de que seja por causa de um terrorista que está atrapalhando os nossos serviços.
— Eu confirmarei com o coronel e, até lá, coloque as câmeras em posição.
Eric saiu e Bespalez voltou tranquilamente às suas obrigações, não estava preocupado, Dimitri confirmaria qualquer história sua, sobretudo agora que deu sumiço no major por ordem dele.
No dia seguinte, bem longe do R-801, Verbena encontrou Ziger rapidamente ao chegar no colégio. Fazia tempo que não o via por ali, ele não comparecia ao serviço desde que Adam tirou a secretária de seu alcance. Ninguém disse à Verbena porque o tenente-coronel fez aquela escolha, mas ela desconfiou de algo ruim quando a sala da assistente ganhou mais câmeras do que as outras salas do prédio e a mulher disse que era para manter o capitão Ziger longe. No final a professora preferiu não sucumbir a curiosidade e agradeceu novamente Adam. Verbena não tinha percebido o quanto precisava de ajuda e seu trabalho se desenvolveu melhor depois que a secretária passou a ajudá-la.
A paz reinou ali pela semana em que Ziger deu sossego a ela e aos demais funcionários. A administração real da escola pertencia à Glauber, apesar de ocupar o cargo de vice-diretor e, quando ele assumia a função sozinho, conferia ares de leveza ao ambiente de trabalho. Isso porque, o serviço de Ziger, como diretor, se resumia a figura militar da instituição, ele não sabia administrar um clipe de papel, menos ainda um colégio. Como tinha pouco a fazer, gastava o tempo oprimindo, humilhando ou ameaçando cada trabalhador e aluno da instituição.
Naquela manhã, Verbena notou a diferença ao primeiro olhar. Os funcionários andavam com pressa, nervosos e acuados pela simples presença de Ziger no local, mal falavam, mal levantavam as cabeças e pareciam mal respirar. Os alunos, ao contrário, permaneciam tranquilos como se não o tivessem visto no juramento matinal.
— Professora, o que é isso? — perguntou Christine, quando foi buscar um livro na caixa, ela estava quase vazia e, graças a isso, o fundo ficou parcialmente descoberto.
Parte de um desenho estava a mostra no forro, Verbena puxou o restante dos livros, e deu um salto para trás quando viu o que era.
— Senhor Molls! — ela chamou, alarmada, e ele saiu de seu posto do lado de dentro da porta.
— O que foi, professora?
— Isso é o que estou pensando?
O controle forçado na voz de Verbena não deixava dúvidas de sua dedução, assim como o olhar de Adam dispensava uma resposta em voz alta. Era uma letra “A”, maiúscula, com o símbolo de paus alado na frente, não havia como confundir aquela marca. E Verbena abaixou-se para checar os livros que ainda estavam ali, estudou as capas e assim percebeu que, alguns deles, tinham uma sobrecapa para camuflar a verdadeira, mostrou duas a Adam, eram livros proibidos.
Incapaz de disfarçar diante dos alunos e do olhar debochado de Christine, que ainda observava ao lado, ela levantou-se e abriu a mão para a garota, a menina entregou o livro que segurava e voltou para o seu lugar.
— Quem estiver com um dos livros da caixa, entregue agora, quem não estiver, traga amanhã! Essa caixa tem que estar cheia no primeiro horário — ordenou Verbena e virou-se para Adam. — Por favor, vá às outras turmas e diga que pedi para devolverem os livros, se isso aconteceu aqui, deve ter acontecido em todas as turmas — sussurrou.
— Não é melhor tirar as caixas?
— Se tirar agora, eles não irão devolver os exemplares que pegaram e precisamos recolher todos.
Adam assentiu e saiu, enquanto Verbena voltou-se à turma, bem a tempo de ver Christine cochichando com sua colega mais próxima e rirem baixinho.
— Quer dividir conosco, Christine?
— Não, senhora.
Diferente dos demais alunos, que esqueciam por vezes o pedido de Verbena para ser tratada como professora e não como militar, Christine lembrava-se e a chamou de “senhora” de propósito, dando ênfase no termo.
— Tem certeza?
— Na verdade... Quero fazer a minha pergunta.
Verbena segurou o livro com as duas mãos sobre o ventre e recostou-se na lousa. — Pode fazer.
— O desenho no fundo da caixa é do Ás de Paus?
Verbena pensou por um instante, a procura das palavras corretas. Eram adolescentes, todos inteligentes, todos com as habilidades de raciocínio instigadas por ela própria, não daria para enganá-los, mas também não queria assustá-los.
— Me disseram que houve um símbolo no vídeo de transmissão desse terrorista — disse Verbena —, descreveram para mim, mas eu não estava na cidade quando o vídeo foi transmitido e, como uma simples professora, não tenho acesso a informações que possam garantir que seja. Mas acho que é autoexplicativo. Agora me responda você, algum dos livros que encontrou, naquela caixa, era proibido?
— Eu não sei, professora.
— Sabe, sim, todos vocês sabem quais livros são permitidos e que tudo o mais não é. — E ela levantou o exemplar que a menina lhe entregou. — “O poder da estratégia” ... É um bom livro, e permitido, mas se achei proibidos agora, certamente havia outros. Podem contar, vocês não serão punidos, são as vítimas aqui. — Ninguém abriu a boca. — Está bem, apenas devolvam todos, vou saber se faltar algum.
— Professora! — chamou outro aluno, Luka. — Estamos seguros?
Verbena mostrou um sorriso encorajador. — Estamos. Informarei ao capitão Ziger assim que terminarmos a aula e ele chamará quem for necessário para a nossa segurança. Vocês têm a minha palavra de que nunca sofrerão pelos atos do Ás de Paus.
— E, quanto aos... aos nossos superiores?
— Eu direi exatamente o que aconteceu: que não sabiam o que estavam lendo, que eu exigi a leitura e que serão orientados, nenhum prejuízo se estenderá a vocês, mas precisam devolver tudo e permanecerem discretos. As demais turmas não sabem o que está acontecendo e é melhor que continue assim, em segredo, ou todos os alunos poderão ter problemas.
O garoto assentiu e alguns olhares de pânico se arrefeceram. Verbena continuou a aula com a maior tranquilidade possível, queria passar calma aos alunos, e logo Adam voltou com um aceno positivo para indicar que concluiu a tarefa e que fez isso sem alarmes.
Não demorou muito mais para a chegada do intervalo e Christine passou por Verbena com o seu olhar mais diabólico.
— Eu disse que a professora era esquisita — a menina falou para os amigos quando entraram no refeitório, único lugar em que podiam desmanchar a fila milimetricamente dividida, e falar —, fingiu que estava tudo bem, mas eu vi a cara que ela fez quando enxergou o símbolo desenhado no fundo da caixa. Parecia que ia desmaiar!
E ela riu sem qualquer cuidado.
— Como você sabe que era o símbolo dele? — perguntou André.
— Eu vi a transmissão. Todo o país viu... Eu acho.
— Qualquer um ficaria nervoso se achasse o símbolo de um terrorista desenhado em suas coisas, Christine. Você também não fez a cara mais bonita quando viu.
— Esqueci que você é o puxa saco número um da professora.
Os demais colegas riram como um eco das palavras de Christine, mas André não se abalou.
— Você morre de inveja da professora — acusou.
— Ah meu Deus do céu! Inveja do que? Olha bem para ela, uma pessoa pode tentar abandonar a sua origem, mas a origem nunca a abandona.
— Eu sei, e não me importo — o garoto respondeu, mas baixou o volume da voz para um murmúrio.
Christine sacudiu os ombros. — Problema seu. — E se virou para os outros. — Quero ver mais um desses livros proibidos. Quem tem?
Estavam em um grupo de nove pessoas e todos se entreolharam, mas ninguém respondeu. Havia câmeras bem ativas para todos os lados, porém, como bons adolescentes que eram, sabiam cada ponto cego da escola, o que incluía a mesa em que se acomodavam regularmente para as refeições, ainda assim tiveram medo de falar.
— Então você já tem um? — perguntou Luka, com a cabeça baixa para que ninguém visse, à distância, o que dizia.
Christine sorriu, maliciosa. — Sim! Não vi nada demais nele e agora fiquei curiosa, quero ver o que faz deles proibidos, nunca teremos outra chance. O livro que o professor Narciso deixou passar foi banido da escola antes que eu pudesse ver e era só um.
— Não podemos ler, seremos punidos e nossas famílias também — argumentou Keith.
— Você vai me dizer que leu sem notar que não eram dos permitidos, Keith? Eu vi você feito um caracol nos intervalos para ninguém perguntar o que estava lendo e vi que não conseguia largar o livro nem em público. Tenho certeza que lia em casa também, o mais longe possível das vistas dos seus pais.
— Mas agora, que fomos informados, é crime continuar lendo.
— Vocês ouviram a professora, não seremos punidos porque somos as vítimas, pelo menos até amanhã. Vamos lá, troca comigo, o que eu tenho é bem interessante.
— Temos que devolver amanhã, não dá para ler tão rápido — respondeu Keith.
— Eu não pretendo devolver. O que entreguei hoje já não era o que peguei, eles não sabem que livros estavam dentro da caixa, basta devolvermos qualquer um.
— O que é isso, Christine? Você está louca? E, se pegarem você? — questionou Luka.
— Eu sei esconder. E, se um de vocês me dedurar, deduro todo mundo e invento mais um pouco, agora somos cúmplices. Então? Quem vai trocar comigo?
— Eu troco — falou André e todos olharam para ele, sobressaltados, jamais esperariam tal ato do certinho da turma. — Estou curioso também e, se substituirmos o que pudermos, vai parecer que tinham poucos proibidos na caixa, assim a professora não terá tantos problemas.
Christine rodopiou os olhos. — É claro... — resmungou. — Está com ele aqui?
— Sim, trocamos na saída.
— O seu é sobre o que?
André se aproximou do centro da mesa, cada um involuntariamente fez o mesmo, esquecendo-se do quão suspeito era o gesto.
— Tenho dois desse tipo — sussurrou —, são bem antigos e está claro porque são proibidos. Um é de uma menina que morreu num lugar chamado Campo de concentração, e o outro é sobre uma família que passa a vida fugindo por causa da cor da pele, você não vai gostar desse, Christine.
— Não interessa, eu quero saber porque é proibido, pode me dar os dois.
— Você só tem um para me dar, então vou te dar só um.
— Troca o outro comigo? — perguntou Luka.
André sorriu para ele e, pouco a pouco, os demais alunos se aninharam ávidos por contar sobre as histórias que leram. Até o fim do almoço, cada um se comprometeu a trocar os seus livros, classificou os melhores e, juntos, decidiram quais seriam substituídos na devolução. Quando o período de aulas terminou, a turma inteira estava no esquema.
— Antony! — chamou Cristine ao saírem do colégio, ela estava sozinha, o que era anormal, e o garoto esperou até que o alcançasse.
— O que foi? — ele perguntou.
Christine costumava ser legal com ele quando ninguém estava olhando, mas Antony nunca sabia o que esperar da colega, então ficava sempre na defensiva.
— Eu guardei esse livro para você.
Ela entregou um exemplar da biografia de Zunik e ele franziu a testa.
— Já li esse, é obrigatório.
— Não com esse conteúdo, acho que o que está aí vai interessar muito a você. — Antony levantou a mão para desfolhar. — Não aqui, idiota!
Ele parou e enfim entendeu que segurava um livro proibido, envolto com a capa de um obrigatório.
— Obrigado.
— É bem diferente dos outros, não é de literatura, é científico e não entendo porque não podemos ler, mas fala de algumas doenças, pode ajudar a descobrir sobre a sua.
Antony sorriu. — Verdade?
— Se eu estou dizendo que é, porque é! E, se você disser para alguém que eu te dei um livro, de graça, acabo com a sua vida social.
— Está bem, não vou contar.
Antony entendia o que ela queria dizer, Christine amava o seu posto de rainha do colégio, rainha cruel muitas vezes, apesar de ela nunca ter sido realmente cruel com ninguém, mesmo assim a menina não queria perder a fama de má, por isso o chantageava dessa maneira todas as vezes que o tratava bem, o que acontecia periodicamente.
E, de qualquer jeito, a ameaça dela era vazia. Ele não tinha vida social, ninguém tinha, os adolescentes nem podiam atravessar os portões das próprias casas sem a presença de um adulto autorizado e, mesmo que pudessem, não ocorriam festas para menores. Não havia bares, lanchonetes e, os restaurantes chiques, únicos existentes até onde sabiam, eram apenas para comer com os pais. Ninguém abaixo de vinte anos de idade podia entrar sozinho.
Os shoppings também não representavam uma opção, pois eram exclusivos para compras, qualquer interação, que não fosse de consumidores enquanto compravam, era desencorajada. Até os cinemas permaneciam monitorados pelo exército, além de que, os filmes exibidos não tinham outros temas senão as maravilhas de servir ao exército, da obediência, da fidelidade à religião única do país e de como a nação foi salva pelos Novakohut, os mesmo filmes repassados anualmente na escola. Por isso, o auge da vida social deles era ali, na escola, vigiados o tempo inteiro.
Quando o sinal do intervalo soou, Verbena ficou na sala de aula, encarando o fundo da caixa de papelão, suas sobrancelhas unidas com os temores estampados nelas e no rosto.
— Não se preocupe, senhorita Koch, vai ficar tudo bem — falou Adam.
— Será, senhor Molls? Um terrorista perigoso esteve aqui. Como ele entrou nesse colégio? Eu me sinto... Me sentia tão segura entre estas paredes, não achava que elas poderiam ser transpassadas assim, com tanta facilidade. E, se ele estiver nos observando? O senhor disse que desconfia das câmeras — e ela olhou para uma das duas câmeras da sala, nenhuma havia sido substituída ainda — e soube que ele gosta de fogo.
— Ainda não sabemos se isso foi obra do Ás de Paus, pode ser um trote, alguém tentando se passar por ele. Não acho que este homem se daria a tanto trabalho só para trocar livros e, se fosse ele, acho que aproveitaria para colocar explosivos e teria mandado a escola pelos ares há tempos.
— Não acho que seja um trote. Quem, além de um ladrão, teria acesso a livros que só militares de alta patente podem acessar? Alguns dos que estou vendo agora, eu pensava que nem existiam mais.
Adam olhou para a caixa, com a imagem de Ziger brotando no fundo da consciência. — Talvez um trote de alguém com acesso — ele conjecturou.
— Tenho medo, senhor Molls.
O rapaz colocou uma mão no ombro de Verbena. — Fique calma, nada vai acontecer a você — acalentou.
Verbena olhou para ele, com os olhos cheios de lágrimas, e recostou a testa entre o ombro e o peito de Adam. Ele assustou-se e levou segundos para reagir, sem jeito, com tapinhas nas costas da moça.
— Agora precisamos falar com o capitão.
Verbena balançou a cabeça em concordância e os dois foram à sala de Ziger, contaram o que acharam e ele sorriu para ela.
— Então é isso — disse —, mais uma professora que se acha esperta para dar leitura proibida às crianças e, pelo que entendi, muito mais do que o Narciso. Será um prazer conduzir você à punição adequada.
— Igual prazer terei em levar um diretor — disse Adam.
— Como?
— Você condenou um professor e um bibliotecário, depois verificou cada livro e trancou a biblioteca. Ou mentiu sobre isso?
— Não! Eu olhei e desfolhei cada maldito livro antes de lacrar aquela porcaria de sala.
— Biblioteca — corrigiu Verbena.
— Depois não abriu mais? — inquiriu Adam.
— Não.
— Quando eu e a professora Koch fomos buscar as caixas de livros, tive que pegar as chaves das suas mãos, as caixas estavam fechadas, cobertas de poeira, tudo lá estava assim, sinal de que nem o pessoal da limpeza entrou depois de você, isso significa que tudo o que pegamos estava lá desde aquela época. Então explique! Como as caixas, com o símbolo do Ás de Paus, foram parar na biblioteca, cheias de livros que só militares têm acesso?
— Você não está insinuando...
— Responda à pergunta, capitão!
Ziger olhou para Verbena. — Vejo que as suas pernas laçaram esse aí, apertado.
— Levante-se e me acompanhe, capitão Ziger! — mandou Adam.
— Como é? Eu exijo uma investigação, garanto que os resultados apontarão para esta impura.
— Eu mandei levantar e me acompanhar! Você sabia das consequências de desrespeitar a senhorita Koch, recebeu ordens diretas do marechal, exatamente como eu recebi. Agora venha comigo, você vai saber os resultados da investigação de dentro da sua cela.
Ziger levantou-se, fulminando Verbena com tanta raiva que ela se encolheu para o lado de Adam. Ele sentiu mais do que viu o movimento dela, e Ziger parou, oscilando com o impulso de pular sobre a professora, nem queria mais matá-la devagar, queria quebrar o pescoço dela no impacto para não dar tempo de Adam socorrê-la.
— Capitão! — advertiu Adam e deu um passo para ficar na frente de Verbena.
Ziger se dirigiu à porta, lançando olhares de pura ameaça a ela, o tenente-coronel logo atrás dele e Verbena os seguiu.
— Professora, você pode alertar os demais professores sobre o que achamos nas caixas? Não podemos mais contar com o Zig para isso.
— Vou falar com eles agora.
— Voltarei em uma hora, mas mandarei alguns dos meus homens, de confiança, para cá imediatamente — avisou Adam.
Verbena foi para o refeitório e inteirou Glauber, na máxima discrição, e ele a ajudou a repassar o sucedido para os demais professores, depois voltou a classe, apressada. As aulas seguintes foram repletas de inquietude dos alunos, pois a notícia se espalhou entre eles durante o intervalo. Garotos mais ousados correram para a sala de aula antes de seus respectivos discentes para olhar o fundo de suas próprias caixas e lá estava o desenho, por isso, abarrotaram os braços de livros, esconderam e agora só queriam discutir sobre isso, a ansiedade por não poderem falar transbordava no comportamento dos jovens.
Verbena precisou parar as aulas em cada turma que entrou, sanar as dúvidas, apaziguar as inseguranças e ouvir a mesma resposta ao questionar se eles já tinham visto algum exemplar impróprio. Negativas rápidas demais para ser verdade, acompanhadas de silêncios profundos demais em retorno a sua confiança de que os livros seriam devolvidos. Para uma boa professora, o sinal mais brilhante de que estavam escondendo algo.