Supremacia Ás de Paus · Capítulo 11 de 33
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Supremacia

Os soldados já haviam recolhido balas, fotografado e reunido tudo o que pudesse ser analisado quando o coronel voltou. Dimitri já tinha perdido a paciência novamente quando finalmente Leon chegou.

— Estamos em dívida com a senhorita Koch — ele entrou dizendo.

Dimitri fungou, enquanto dava a partida. — Está piadista hoje, general.

— Você devia respeitar a senhorita Koch, Dimitri. Não existe função mais importante em nossa nação do que a de um professor.

— Exato, professor, não professora. Se ela não simbolizasse a raça suja dela como um exemplo da bondade do marechal, jamais ocuparia o cargo. Por mim não ocuparia mesmo que fosse branca.

— Mas ela ocupa e você deve respeito ao cargo que ela tem do mesmo jeito que deve a mim e ao marechal.

— Como é que é?

— Você sabe do que eu estou falando. Foi o seu tio quem implementou a lei da titulação para a docência militar, ele queria uma pena daquela no seu peito. Mas o que você fez? Nada. Podia, no mínimo, se graduar, talvez não como a senhorita Koch ou o Edmund, mas o mais próximo possível. Em vez disso você mal completou o ensino médio.

— Em primeiro lugar, eu jamais seria professor para ter uma pena. Em segundo lugar, a lei foi feita para homens, não para mulheres.

— A lei não é específica para homens.

— Porque ninguém imaginou que uma mulher alcançaria esse nível, se é que os aclamados títulos da honorável professora são verdadeiros.

— Ah, são! Nós verificamos, e ainda descobrimos que ela tem mais alguns que não mencionou. Todos com excelência. Afinal, só se consegue uma pena se houver excelência completa ou todo professor teria pelo menos uma.

— Ela é formada em literatura e artes. Poderia ter asas de ouro que continuariam não servindo para nada.

— Como não servem, Dimitri? A senhorita Koch forma pensadores que irão governar Novanação.

— Então vamos convocar a professora para o próximo conflito. Quem sabe ela alveje os inimigos com livros e tinta.

— Isso é ridículo!

— Ela não é militar?

Leon encarou Dimitri com tanta revolta que bastou a visão periférica do rapaz para perceber sua reprovação.

— Ainda bem que esse tipo não pode mais poluir as nossas faculdades ou teríamos outros como ela — ele acrescentou mesmo assim.

— Seria bom ter outros como ela.

— Como a senhorita Koch? Você não pode estar falando sério.

— Estou! Seria bom ter mais pessoas inteligentes para nos conduzir aos caminhos corretos das investigações — alfinetou Leon.

Dimitri se remexeu no banco e acelerou o carro, no perceptível intuito de colocar uma pausa naquele assunto.

— O que você quer com essa conversa, Leon?

— Quero que entenda que o marechal vai manter a senhorita Koch na posição em que ela está enquanto precisar, assim sendo não espere que ele faça você respeitá-la. Na frente de outras pessoas se for necessário.

— Porque com a senhorita Koch é tudo diferente, não é? — exaltou-se Dimitri. — Ela pode tudo, ela vê tudo, ela é tudo o que o marechal precisa e muito mais. Essa mestiça deve ser uma experiência genética, criada a partir das serpentes dele, isso explica o meu tio dar a ela o que ninguém mais tem! Aliás, por que ele precisa tanto assim de alguém como esta mulher?

— Não é possível que você não saiba.

— Relações internacionais. Grande coisa! Ela não é uma imagem tão boa que possa mudar o que pensam de nós.

— Ela é exatamente a imagem que pode atenuar os nossos problemas, com o bônus de ser inteligente, o que a torna muito diferente dos acompanhantes que a antecederam.

— E daí? Quem se importa? Temos tudo, não precisamos de nenhum país para nada. Uma nação que achar essa mulher uma boa imagem não serve para nós mesmo.

Leon ficou olhando para Dimitri, cansado. Sentir-se envergonhado pelo jovem Novakohut estava virando uma constante, e suspirou, voltando-se para a estrada, triste pelo orgulho de minutos antes ter sido tão breve.

— Você notou que quase não havia sangue em lugar algum, além do carro com a frente destruída? — desconversou Leon.

— Não pensei em sangue. Você tem que concordar que não temos como pensar em pormenores enquanto investigamos coisas tão sérias.

— Eu imagino que houvesse duas pessoas no carro que bateu na corrente, os danos não deixam dúvidas de que foi uma corrente. Eles devem ter se machucado com o impacto, por isso há sangue no carro deles, sem os corpos, provavelmente não morreram no local. Também não houve tiro inimigo e ninguém foi atingido pelos nossos ou teria algum sangue, no mínimo perto do muro, então a usina foi só o ponto de rendição e captura. Suponho que tenham sido levados de caminhão.

— Por que diz que não houve tiro inimigo?

— Não há buraco de bala nos nossos veículos, nem no chão, nem na construção à frente, só no muro da usina.

— Solucionamos o mistério, então — debochou Dimitri, embora começasse a pensar em fortalecer aquela história, ela complementaria a dele.

— Acho que ele queria que nós encontrássemos este lugar.

O coronel não respondeu, seria possível que o Ás de Paus quisesse que encontrassem aquilo ou ele não era tão esperto como Leon estava pensando. Analisaria melhor essa questão mais tarde, agora precisava pensar no relatório que faria e em como conversaria a respeito com o tio. Preferia fazer isso junto com Leon para que não tivesse que falar muito e, desse modo, não correr o risco de se trair.

Mas o general não o abandonaria, não quando havia o perigo de o coronel causar a própria punição. Cuidar de Dimitri foi a função que tomou para si quando o pai dele morreu, seu grande amigo desde os tempos de segundo-sargento. Leon viu o menino crescer, perder a mãe e Zunik nomeá-lo como seu herdeiro; conviver com o órfão o fez desenvolver grande carinho por ele, nunca correspondido, mas sempre inalterado.

Por isso Leon encarregou-se da reunião e contou o que viu, além de elogiar a atuação de Dimitri como se ele tivesse agido de maneira eficiente, escondeu a desobediência dele, e o fez parecer o grande militar que não era. Ao final, Zunik elogiou o sobrinho, levando Dimitri ao auge da satisfação e Leon ao auge da alegria.

Não muito tempo depois, na escola, Verbena sentou-se em uma das mesas da sala dos professores para corrigir alguns trabalhos que deu aos alunos. Para seu infortúnio, justamente naquele dia a sala encheu durante o intervalo e ela já estava com problemas para se concentrar quando ouviu os passos brutos de Ziger pararem ao lado dela.

— Bom dia, professorinha — ironizou Ziger.

— Bom dia, capitão. Devo ensinar como se faz posição de sentido? Ou será que uma punição ensinará melhor?

— Haaa! Você vai me punir?

Ziger sentia-se poderoso em meio a grupos de pessoas subordinadas, por isso aproveitou que Adam não estava no colégio e foi atrás de Verbena, na sala dos professores, exatamente quando estava cheia, para subjugá-la em público e fazê-la de exemplo. O tom irregular da fala dele denunciava quanto conhaque havia em sua corrente sanguínea.

— Sim, eu vou.

— Soube que caiu nas graças do marechal e do general.

— Não fui informada disso.

— Não foi você quem sugeriu que procurassem o nosso destacamento desaparecido na rodovia Capitão Teodoro Vicente?

— Ah, isso? Foi.

— Sim, isso! Ficou sabendo que encontraram o que procuravam?

— Verdade? — E Verbena sorriu. — Passei a manhã aqui, enterrada em trabalho, não sei nada sobre o mundo exterior.

— Logo será informada e provavelmente receberá uma condecoração inventada para aumentar os seus enfeites — Ziger alfinetou, apontando para os broches de Verbena. — Imagino que precisa de muita genialidade e um pós-doutorado para apontar o óbvio.

— Além de dois doutorados, caso tenha esquecido, mas obrigada mesmo assim.

— Você vai descobrir que valem pouco aqui.

— Me parece que é suficiente para apontar aquele óbvio que você não consegue. Mas eu compreendo, deve ser difícil pensar, não é capitão? Dá trabalho.

Uma queimação subiu pelo pescoço de Ziger.

— Você é uma novata, recém-chegada do nada, e já participou de uma reunião particular com os três homens mais poderosos do país, e agora recebe elogios do general. Suponho que seja fácil chegar tão longe abrindo as pernas para todo o mundo, mas escute quem trabalhou para chegar aonde está, vantagens femininas não vão muito além da cama de um homem influente.

— Está insinuando que o general se rebaixaria a receber favores de alcova de uma impura? E está fazendo isso diante de testemunhas?

Ziger hesitou por um segundo.

— Estou dizendo que ninguém conquista tamanho privilégio, tão rápido, sem truques sujos — explicou.

— Truques ou uma posição na cadeia de comando muito, mas muito superior à sua?

— Simbólica! Sua posição é simbólica, você nunca alcançará um posto de comando, pode morrer estudando e acumulando títulos, que não será mais que uma prestadora de serviços malfeitos.

— Um tipo de serviço que você conhece bem, não é capitão?

Todas as rugas da testa de Ziger apareceram. — Quem você pensa que é?

— Alguém que sabe o seu lugar e não tem a intenção de comandar nada aqui, além de mentes ávidas por aprender. Você também devia conhecer o seu lugar.

Ziger riu, apesar de a palavra “você” pronunciada pela boca dela ter entrado como agulha em seus ouvidos.

— E qual seria esse lugar? — ele perguntou.

— O de parasita, em um cargo que não merece. Vadio, desnecessário, e que tem, sim, que respeitar os seus superiores, mesmo quando é uma mulher.

Ziger soltou uma gargalhada que preencheu a sala e assombrou os espectadores, todos conscientes de que a raiva daquele homem poderia colocá-los em problemas, indiferente de quem a tenha causado.

— Entendi, você quer o meu lugar.

— Jamais! Qualquer posição que você ocupe é inferior à de um professor, por isso o seu posto não me interessa nem um pouco, contudo, como você parece preocupado sobre o motivo de o marechal ter me chamado, eu posso contar, se pedir. Saiba, capitão, que você era o assunto principal da conversa.

A diversão de Verbena transparecia por seus olhos e sorriso perverso. Ziger viu isso e sua estratégia para desestabilizá-la e fazê-la desistir do emprego naquele dia, desmoronou, sobrou apenas o ódio crescente.

— Eu não preciso, se o marechal quiser falar comigo, ele o fará.

— Tem certeza? Porque ele não queria falar com você, queria falar sobre você.

Algo desagradável retorceu o estomago de Ziger, um sentimento novo, e desejou colocar as mãos em volta do pescoço fino de Verbena, depois apertá-lo devagar, queria sentir a artéria dela parando de pulsar lentamente e aquele brilho maroto no olhar da moça sumir aos poucos. Quando ela abriu mais o sorriso, esnobe, como se entendesse seus pensamentos, quase deixou dominar o impulso para agir como pensava, se não fosse o número de testemunhas e a absurda predileção do marechal por ela, teria feito isso, mas não antes de arrastá-la nua até rua como a lei lhe dava direito pela insolência.

— Aproveite muito bem o seu momento de glória, mocinha. Não vai durar — disse ele e virou-se para sair.

— Capitão! — chamou Verbena e levantou-se em posse de seu material ajeitado enquanto falava. Ele olhou para ela, desdenhoso. — Não está esquecendo nada?

A boca de Ziger tremeu, seu corpo enrijeceu e seu coração acelerou, cogitou ignorar, era simples, bastava se virar outra vez e ir embora, seria um prazer deixá-la esperando por um sinal de respeito que nunca viria, mas viu Adam, parado na porta, olhando-o com desaprovação e sabia que não podia se recusar na frente dele ou seria punido ali mesmo, diante dos demais professores, então, seu braço subiu devagar, sofrível como se fosse fabricado de madeira maciça, dobrou-se com notório esforço e terminou em uma continência agonizante.

Verbena parou na frente dele e retribuiu o sinal. — Ótimo, capitão. Viu só como nem doeu? — Mas parecia doer, o corpo do homem tremia em um esforço visível. — A partir de agora uma simples posição de sentido não bastará, você sempre me receberá assim e nunca mais se recuse a cumprir uma ordem minha em sala de aula ou fora dela, porque eu não preciso de permissão para jogá-lo na prisão mais fétida dessa cidade, antes de pedir a remoção da sua patente, nem do tenente-coronel para obrigá-lo a fazer o que eu mando.

A sala ficou em silêncio no começo do diálogo tenso e os presentes tinham os olhos arregalados na cena, nenhum deles conservava o poderio para falar com o capitão, e diretor da escola, daquela maneira, alguns falavam em pensamento muitas das inúmeras vezes que ele foi abusivo — o que acontecia todos os dias —, mas em hipótese alguma, em voz alta.

Até aquele momento ninguém tinha conversado com Verbena, além da exausta secretária, do próprio Ziger e dos alunos. A presença dela era intimidadora pelo seu vínculo militar e ficou muito mais naquele momento, porém, uma parte dos professores sentiu-se vingada ali e, com isso, mais propensos a aceitá-la no círculo pedagógico deles.

Verbena passou pelo capitão e foi na direção de Adam. O rapaz continuava observando o homem, parado no meio da sala dos professores, teria que tomar uma providência sobre Ziger ou engendrar um meio de afastá-lo do colégio. Mas, ao ver a professora se aproximar, ele sorriu e se apressou em uma continência exagerada que a fez rir.

— Eu já disse que não precisa fazer isso, senhor Molls. Prefiro que ninguém faça, só o capitão Ziger.

Adam também riu e a acompanhou pelo corredor, era uma brincadeira, mas espelhava assim mesmo a sua admiração dilatada naqueles últimos minutos.

— Ah, eu preciso! Você merece honras extra por colocar o nosso gentil capitão em seu devido lugar.

— Esperava menos de mim?

— Confesso, com vergonha, que sim. Você sabe que conseguiu um bom inimigo, não sabe?

— O capitão Ziger? Ele não é um inimigo, é só alguém que me diverte. Hoje mesmo, ele conseguiu aliviar o meu estresse e até uma dor de cabeça, apenas com o pequeno chilique ali na sala dos professores.

Adam a estudou pela distância de alguns passos. Verbena era diferente das outras mulheres, ela não estava com qualquer resquício do medo que ele via nos olhares das pessoas, não só nas do gênero feminino. Ela estava mesmo se divertindo à custa de Ziger.

— O capitão é um homem perigoso, tome cuidado.

— Por que ele continua capitão?

— Como assim?

— O senhor já é tenente-coronel e ele ainda capitão, embora o senhor seja muito mais jovem do que ele.

— Acho que o Zig não tem ambições, não tentou mais subir de cargo.

— Que estranho, ele parece se importar muito com quem está acima de quem.

— Ele se importa com você acima dele na hierarquia, até hoje não se importou com ninguém mais.

— Ah, entendo.

— Ele vai ter outro do que você chamou de chilique daqui a pouco.

— É? Por que?

— O marechal me chamou para dar novas ordens, bem mais específicas sobre as punições caso o Zig não demonstre respeito a você.

— Gostaria de ter o prazer de dizer isso ao capitão, mas ele não quis ouvir.

— A senhorita já sabia?

— O marechal também me chamou ontem para me dar ordens semelhantes. De alguma maneira ele ficou sabendo sobre a insubordinação do capitão.

— Ele conhece o Zig. E é bom que conheça também, professora. Ele não é dos melhores obedientes e, rancor, é a palavra que o define, então insisto que tome cuidado.

— Não se preocupe, eu tomarei.

— E eu gostaria também de informar os resultados das buscas dessa manhã, mas vi que o capitão se antecipou.

Verbena riu. — Acho que ele estava louco para me parabenizar.

— Seria justo, afinal, não teriam chegado lá sem sua indicação.

— O capitão Ziger tem razão em um ponto, eu só indiquei o óbvio, em algum momento alguém teria pensado nisso sem a minha interferência.

— Não seja modesta, professora. Se fosse tão simples, o problema teria sido resolvido há semanas.

Verbena não estava sendo modesta, ela realmente acreditava naquilo, apenas achou que demoraram demais para chegar àquela conclusão, por essa razão ela o fez.

— E o que encontraram? — perguntou, então. — Espero que algum sobrevivente para contar o que houve.

— Nenhum, infelizmente, mas descobriram que a velha usina servia como desmanche do Ás de Paus e a instalação, à frente, teve todos os homens sequestrados exatamente como o nosso destacamento.

— Que horror! — falou Verbena. — Era outro Centro de Cura?

— Não, é um prédio antigo em processo de reforma. A sede do governo está pegando fogo por isso.

— Senhor Molls, uma dúvida está me incomodado sobre esse caso: Por que as buscas ficaram centralizadas no Trevo Sandino e não em todas as saídas da cidade?

— Eu não sei, essa é uma boa pergunta. Talvez o primeiro destacamento não tenha informado que saiu por lá ou...

— Ou?

— Nada. A senhorita me faz pensar demais, sabia?

Verbena sorriu. — Fazer pensar é a função de uma professora.

— É. E a senhorita é boa nisso.

— No que eu o fiz pensar?

— Em uma coisa sem cabimento. — Mas tinha cabimento, Adam só não queria externar a suspeita de que o coronel fez buscas ineficazes por incompetência. A preguiça de Dimitri era tema repetido entre os murmúrios de corredor, e já desconfiou disso quando Edmund pediu sua ajuda para expandir as buscas, depois não expandiu. — O importante é que conseguiram encontrar algo. Eu gostaria mesmo é que tivessem salvado aqueles pobres homens antes da chacina.

— Pelo menos acharam alguma coisa, fico feliz por ter ajudado.

Os dois pararam em frente à porta de uma das salas de aula de Verbena.

— Eu também fico. Vou falar com o Zig, mas estarei aqui quando terminar essa aula.

— Muito obrigada, senhor Molls.

Adam contentou-se por ver, de longe, Ziger no guichê da secretaria, seria bom não precisar procurar por ele pelo prédio, mas se aproximou rápido demais, o bastante para ouvir uma parte do que ele falava com a secretária e parou atrás do homem.

— Não, senhor. Por favor, hoje não — ela implorava, com a voz embargada.

— O que? Está se sentindo corajosa também? Para a minha sala, já! E bem-disposta — ordenou Ziger e a mulher começou a se levantar, pálida, trêmula, com uma lágrima grossa escorrendo pelo rosto.

Adam não sabia se queria ter entendido o que aquilo significava. Tinha achado curioso haver uma mulher como secretária na escola; pensou que estivesse presenciando um pouco mais de revolução, mas não era isso e seu estômago embrulhou ao perceber o que era. Ela estava ali para Ziger.

O rapaz desejou ter se enganado, até se esforçou para acreditar que escutou mal, mas não foi a primeira vez que viu aquela fisionomia em uma mulher e os olhares acuados dos demais secretários não deixavam margem para dúvidas. Não era segredo o que parte dos militares fazia com qualquer mulher a que tivesse acesso e que não fosse da alta sociedade. Era um dos muitos repúdios que calava no fundo de sua consciência e a razão principal porque Zunik determinou vigilância constante para Verbena.

— Zig! — ele chamou. — Precisamos conversar.

Ziger se virou, repleto da bravura que não teve na sala dos professores.

— Depois. Tenho assuntos a tratar com ela agora — disse, apontando para a mulher atrás do balcão, com um meio riso libidinoso, o que esmagou a pequena esperança a que Adam se apegava.

— Não tem! — ele respondeu com ódio. — Eu é que tenho assuntos a tratar com você agora, então vamos à sua sala.

Adam não deu à Ziger o direito de argumentar, e se dirigiu à sala do diretor com a velocidade certa para não deixá-lo muito atrás. Sem opção, Ziger o seguiu e sentou-se pesado na cadeira atrás da mesa para ouvir a ordem que Zunik enviou. As veias de suas têmporas estufaram, pulsantes, enquanto o tenente-coronel falava, mas ele aceitou, em silêncio.

Adam quis fugir do nauseante odor de álcool digerido por dias, que empesteava a sala, mas não conseguiu se mexer. Não suportaria viver consigo mesmo se deixasse a secretária à mercê de Ziger.

— Tem mais uma coisa — disse, então. — Não se aproxime mais da secretária do colégio, ela exercerá outra função daqui para frente, será assistente da professora Koch. Se eu souber que você chegou perto dela outra vez, prisão será o menor dos seus problemas.

— Eu não posso ficar sem secretária!

Ziger não negou. Apesar de tudo, Adam esperou que ele negasse a sua insinuação, mas ele sequer se envergonhou.

Ainda que Adam tivesse sido ensinado que sexo era um direito inato do homem, que casamentos se firmavam sobre essa base e que seu pai insistisse, incansável, que era o mínimo que o sexo feminino podia oferecer em troca de proteção e sustento, ele tinha nojo da ideia e de quem a propagava. Não era possível para o rapaz aceitar o pensamento de que, forçar alguém a fazer algo tão íntimo, fosse correto.

Desde cedo o jovem tenente-coronel aprendeu sobre empatia com a mãe e ele tinha muita. Até o modo como as cadelas procriavam nos canis ele mudou para que não sofressem como sofriam quando recebeu a tutela delas. Imaginar a mulher, que agora conhecia e viu o medo nos olhos, suportando o abuso daquele sujeito, fedorento e asqueroso, repetidas vezes sabe-se lá por quanto tempo, fazia o corpo inteiro de Adam reagir. E, pela primeira vez na vida, ele quis infligir violência, com as próprias mãos, bem ali, no coração de um centro de ensino.

— Tem muitos outros para o serviço — Adam respondeu enquanto prendia o próprio corpo para não puxar Ziger por cima da mesa e quebrar cada osso que pudesse. — E o mesmo vale para as alunas.

— Eu nunca me aproximei delas.

— É bom que nem tente.

Adam saiu e, ao passar novamente pelo guichê, ele parou.

— Bom dia! — cumprimentou, e a secretária o olhou, a palidez e o medo permaneciam visíveis em seu rosto, mas as lágrimas desapareceram. — A senhora está bem?

A mulher piscou, desconcertada pela gentileza, e assentiu hesitante. — Estou bem, obrigada.

— Me ajude a arrumar uma sala para a senhora, não trabalhará mais para o capitão Ziger, agora será assistente da senhorita Koch e precisará de um ambiente só seu para trabalhar na função. — Ela se levantou, ágil, acostumada a operar enquanto lidava com as próprias emoções e nem sabia interpretar o que a novidade significava, enquanto isso Adam virou-se para os demais secretários. — Tudo o que precisar da atenção da senhorita Koch deve ser levado à senhora...?

Adam olhou para a mulher, não se lembrava do nome dela.

— Asafe — ela respondeu e novamente ele se dirigiu aos secretários.

— À senhora Asafe — concluiu. — Entendido?

— Sim, senhor! — responderam alto, e Adam se voltou a mulher para que o acompanhasse.

Caminharam por alguns minutos antes de Adam dizer algo outra vez. Ele queria escolher as palavras para falar, sem constranger, e também queria afastá-la do setor administrativo para que ninguém de lá os ouvisse.

— Por favor, senhora Asafe — começou —, escolha uma sala longe da diretoria e depois me informe. Vou solicitar uma câmera para a porta da sua nova sala e uma para o interior. O capitão Ziger está proibido de se aproximar da senhora, em qualquer circunstância, e pedirei monitoramento constante para que ele se mantenha longe.

Adam iria aproveitar a oportunidade para apressar a troca de câmeras no complexo educacional, seria prudente que Ziger permanecesse vigiado em todos os espaços.

Ao seu lado, a secretária lutava contra a vontade de voltar a chorar, agora de alívio por enxergar um futuro longe das garras do capitão, sobretudo no interior de seu escritório repugnante, obrigada a fazer o que ele quisesse, por vezes, com a porta aberta para que qualquer um pudesse assistir sua humilhação. Ela já estava resignada ao destino de ficar presa ao cargo para sempre, sob as ameaças proferidas por Ziger caso saísse ou não o satisfizesse.

Como o prometido, Adam estava na porta da classe de Verbena quando ela saiu, não havia nele nenhum sinal da revolta recente.

— Arrumei uma assistente para você — ele contou, quando começaram a andar.

— Uma assistente? — surpreendeu-se Verbena.

— Sei que eu devia ter pedido permissão, já que seu cargo não prevê a existência de uma, mas vi que estava sobrecarregada e tomei a iniciativa quando a oportunidade surgiu. Você já a conhece, é a secretária do colégio.

Verbena abriu um largo e sincero sorriso. — Eu agradeço, senhor Molls. Realmente estou precisando de assistência.

— Olá, professora — ouviram cumprimentar e se viraram, era um dos professores que Verbena só tinha visto de longe, ele veio correndo para alcançá-los.

— Olá — ela respondeu.

O homem estava sem jeito, fez um sinal questionável de continência e parou em dúvida. — Eu... Eu não sei direito como se faz.

— Não! Não! — Apressou-se Verbena. — Isso é entre mim e o capitão, nenhum de vocês têm que fazer igual.

Ele sorriu, aliviado. — Obrigado.

— Você é o senhor Glauber, diretor interino da escola e professor de biologia, se não estou enganada.

— Não está. Muito prazer, peço suas desculpas por não ter me apresentado antes.

— Tudo bem, eu também não tive a oportunidade de me apresentar.

— Eu sei, a senhorita precisou assumir muitas aulas de uma vez e até a de artes foi reativada para que você pegasse também.

— Sim, uma surpresa que se mostrou boa.

— Se me permite tirar uma dúvida. Foi você ou o seu pai quem pintou a tela que fica na entrada da escola?

— Meu pai, eu ainda não atingi aquele nível. O que é uma pena, teria mais a ensinar se tivesse.

O homem sorriu. Tinha um sorriso afável em um estereótipo perfeito de professor exausto pelos anos na profissão, sua careca reluzia contornada por fios embranquecidos, sua barriga esticava os botões da camisa presa por dentro do cinto e um par de sapatos marrons completava a imagem.

— Acho que está fazendo um bom trabalho, os alunos falam, sabe? Talvez por isso o capitão esteja tão bravo.

— É?

— É, e eu gostaria de dar isso a você. — O professor lhe entregou uma folha com o cronograma de avaliações e outra com o calendário das solenidades fixas do ano. — Vi esta manhã que você não tem o programa letivo e achei que seria útil trazer uma cópia. Eles ajudam muito a não se sobrecarregar.

— Muito obrigada. Isso aqui vai ser a minha salvação. Eu nem imaginei que existia um cronograma na escola e não me lembrei que deveria ter uma agenda de solenidades.

— Não há de que.

— Agora a professora Koch não ficará mais desatualizada, a senhora Asafe é a nova assistente dela — informou Adam.

— Ah, mas que boa ideia — falou Glauber.

— Daqui para frente ela não prestará mais nenhum serviço para a diretoria, só para a senhorita Koch.

O sorriso aliviado que surgiu no rosto do professor, confirmou a Adam que ele também sabia o que acontecia com a secretária, mas era um dos que não podia fazer nada a respeito.

— É uma alegria saber — respondeu o homem e se virou novamente para Verbena. — Tenha uma boa aula, nos vemos mais tarde.

Verbena assentiu com um sorriso grato e o deixou ir, enquanto olhava para os papéis, aquilo certamente a ajudaria.

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