Princípios
Edmund perdeu a noção de quanto tempo ficou deitado no chão do sótão, sem conseguir racionalizar com clareza, sem conseguir achar uma explicação lógica para o que viu. Quando desceu, abraçado ao seu companheiro balde de lixo, que lhe ofereceu o único alívio das últimas horas, sentia-se sujo e esgotado, muito mais do que depois de sua longa viagem de retorno.
As luzes do corredor estavam acesas e ele sentiu-se grato por isso, não sabia se orientar bem no escuro, e foi para o banheiro, lavou o lixeiro e entrou no banho. Deixou a água bater em sua nuca, escorrer pelo corpo e fechou os olhos, as imagens voltaram de imediato, os gritos também, e os abriu, angustiado.
Edmund entendeu a mensagem: Nunca mais poderia fechar os olhos. E, como uma avalanche, seu raciocínio retornou, concedendo a compreensão carrasca do que estava nos documentos que leu. Não havia erro neles. A verdade que não queria ver estava clara em cada um.
Num impulso ensandecido, então, esfregou-se com violência, depois esfregou-se de novo e de novo, limpou o rosto e a cabeça, apertou os dedos contra o couro cabeludo, o friccionando tanto que doeu. Já estava com a pele vermelha e continuava sentindo-se imundo, encheu as mãos com seus cabelos e os puxou, queria arrancá-los, arrancaria a pele do corpo todo se pudesse. No entanto, nada mudaria o fato de ser um major, de ter passado grande parte da vida servindo e defendendo as pessoas que faziam aquilo.
Quando Edmund virou a cabeça para procurar um barbeador com o qual pretendia raspar a cabeça, viu Sônia segurando a porta enquanto o observava. A vergonha tomou conta do que restou de sua consciência devastada e baixou a cabeça, desnorteado. Sônia foi até ele e o abraçou, ele desabou, ela com ele, e Edmund chorou copiosamente no peito da esposa.
Meia hora depois, o rapaz estava de pijama, sentado em sua cama, com as cobertas até a cintura, a cabeça baixa e o olhar fixo nas mãos, os cabelos cobriam parte da testa e das sobrancelhas, desgrenhados, e ele não se importava.
Sônia entrou no quarto com um prato de bolo e uma xícara de chá, depositou-os na mesinha de cabeceira e se dirigiu a Edmund, mas ele mal notou, seus olhos vermelhos apenas passaram pelo lanche e se voltaram às próprias mãos.
— Está melhor? — ela perguntou e ele negou com um gesto diminuto da cabeça. Sônia sentou-se ao lado dele e apertou uma de suas mãos. — Vai passar, eu juro.
— Você não sabe o que eu vi.
— Eu imagino.
— Como você...? Ah... Não quero saber.
Sônia afastou sua mão da dele.
— Os Centros de Cura são monitorados pela minha gente e recebi uma ligação avisando que você estava tentando invadir o sistema.
Edmund levou segundos para entender a que ligação ela se referia, e olhou para ela.
— Viveiros de pedras preciosas são os Centros de Cura e eu sou a coruja? — Sônia assentiu. — Admito que foi uma maneira inteligente de passar a mensagem.
— A Ivana chama você de coruja.
— Por quê?
— Porque ela acha engraçado reduzir você à uma criatura submissa a mim.
Ele concordou, novamente com um gesto da cabeça, e o lado oposto da cama pareceu muito interessante, de repente. Edmund não queria olhar para Sônia, por um motivo diferente dessa vez, supôs que não dava para sentir-se pior do que já se sentia até vê-la e ter a vergonha do mundo acrescentada ao horror que experimentava.
— Você precisa comer — disse Sônia.
— Eu não consigo.
— Beba pelo menos o chá, é calmante, você precisa se acalmar.
— Eu vi um homem sendo torturado, aplicaram alguma coisa nele, algo ruim, depois fizeram uma cirurgia... Não, uma autópsia, mas ele estava vivo... Acordado, sem anestesia... Sem nada...
E ele colocou a cabeça entre as mãos, não conseguiria esquecer aquilo.
Sônia suspirou, cheia de remorso. Era óbvio que Edmund iria pesquisar, ela não pensou nisso antes da ligação de sua antiga tutora, e atual moradora do chalé onde cresceu, porque estava furiosa com ele, por essa razão também, não previu aquele resultado e se arrependeu por ter se negado a fazer oposição ao acesso do marido à rede dos Centros de Cura.
— Então precisa muito mais desse chá, você vai enlouquecer se não se acalmar.
— Acho que isso não vai ajudar.
— O pouco que resolver, é melhor do que nada. Por favor, Edmund.
Ele olhou para ela, por trás de suas mechas loiras.
— Os insumos... — ele murmurou. — Você sabe o que são os insumos que os Centros recebem? São pessoas. Por anos o quarto anel foi a fonte principal, quando começou a diminuir passaram para os presídios e começaram a comprar fora... Eles compram gente como matéria-prima! Compram para fazer aquilo e eu redigi os pedidos.
— Você não sabia o que era.
— Não importa. — As náuseas voltaram e ele se recolheu em seu silêncio mais uma vez. Sônia apenas esperou.
— Eu sou um monstro por ficar feliz em lembrar que o Diamante queimou? Porque morrer queimado deve ser terrível também.
— Não. Você não é.
— Você o queimou?
— Eu ajudei.
Edmund balançou a cabeça em aprovação, depois seu olhar voltou a se perder nas mãos e balançou novamente a cabeça. Seu silêncio perdurou por vários segundos dessa vez.
— Me desculpe... — disse, de súbito.
— Pelo que?
— Por não ter acreditado em você.
— Eu sabia que você não acreditaria em mim. Foi ensinado, desde criança, que aqueles lugares eram de heroicos benfeitores a serviço da saúde. O que eu não sabia é que ficaria tão brava quando acontecesse, pensei que estava mais preparada.
— E ninguém pode fazer nada em relação aos Centros?
— Nossa sociedade não questiona porque questionar é uma ação criminosa, rechaçada violentamente.
— Por gente como eu.
— Você não pode se punir por sua escolha profissional, ninguém serve ao exército sabendo o que acontece lá dentro.
— Mas o que eles fizeram... Aquilo não é ciência. Não é medicina. Não é nada.
— Quando dizem que o mal tem muitas faces, é sobre isso que querem dizer.
— Só que essa é a mais feia. Como alguém pode aceitar?
— Inventando uma justificativa para ela. A melhor forma de legitimar o mal é dar um motivo nobre a ele... tudo fica bom com o motivo certo.
— Nem tudo... — sussurrou Edmund, afundando-se na cama. Ele só queria ter o poder do esquecimento para apagar cada lembrança da memória... até a própria existência. — Há algum Centro que não seja assim?
— Não.
Edmund ficou em silêncio outra vez, digerindo devagar cada revelação.
— Então você é cúmplice do Ás de Paus — ele concluiu.
— Pode-se dizer que sim.
— Você trabalhou para ele durante todos esses anos?
— Se você se alimentar, eu conto o restante da minha história.
O rapaz estendeu o braço e pegou a xícara, em seguida sorveu todo o chá, não tinha percebido que estava com tanta sede.
— Tem calmante aqui?
— Só chá, mas se quiser, eu arranjo um calmante para você.
Sônia pegou a xícara e colocou o prato no colo dele.
— Eu contei que o homem que me resgatou e a filha dele me adotaram. Sempre quis dizer que tenho uma irmã, vocês se dariam muito bem. Ele me deu a melhor educação e todo o amor que um pai deve dar, a Ivana nos deu treinamento...
— A mulher que me odeia — acrescentou Edmund.
Os lábios de Sônia quiseram se curvar em um breve sorriso. — Sim, ela mesma. A Ivana achou que deveríamos ter treinamento para que pudéssemos nos proteger, dada a natureza das atividades dela e do meu pai, mas nenhum dos dois queria que entrássemos na causa. Só que eu não esquecia de onde vim e nem o contínuo tratamento psicológico que recebi foi capaz de mudar a minha vontade de ver o Diamante destruído. Minha irmã compartilhava da mesma convicção, assim nos preparamos, em segredo, durante toda a vida para assumir o negócio paralelo de nosso pai.
— Negócio paralelo?
— Bom... Dá para classificar como tráfico humano, mas ao invés de fazer isso com finalidades sórdidas ou financeiras, ele tirava as pessoas dos Centros e levava para fora do país, onde pudessem ter uma esperança de vida. É claro que eu e minha irmã tínhamos ideias mais destrutivas, nós queríamos dizimar tudo, porque não importava quantas pessoas nosso pai e a Ivana tirassem dos Centros, sempre vinham mais, num fluxo muito maior do que eles podiam socorrer. E estávamos completamente focadas nos nossos objetivos, mas aí conheci você na faculdade...
Sônia hesitou, olhando para Edmund, queria tocá-lo, se reconectar a ele para que acreditasse no que estava prestes a dizer, porém o rapaz não deu abertura e se conteve. No momento, tudo o que o marido precisava era escutar.
— Talvez se lembre que tentei ficar longe de você, mas... não consegui — ela continuou. — Enfim, no decorrer do nosso namoro, meus planos mudaram e, quando concordei em me casar, desisti de tudo. Mesmo assim mantive o hábito de me proteger e acabei estendendo isso a você. Encontrei essa casa através da organização do meu pai e, enquanto estávamos na nossa lua de mel, o sótão foi transformado no que é agora e as plantas oficiais foram substituídas para que ninguém mais soubesse desse cômodo ali em cima, aos olhos de qualquer um, só há um reservatório de água grande atrás de um telhado modernizado.
— Todos os líderes do exército sabem o que acontece nos Centros?
— Não sei, acho que mais quem trabalha diretamente com eles. Quem não interessa, não deve saber.
— Leon?
— Sim, ele sabe.
— Não posso acreditar nisso...
— Ele não compactua com o que é feito neles. Desaprova, mas não tem poder para fazer objeção aberta ao funcionamento.
— Ele é o general.
— Ainda está abaixo do marechal.
Edmund baixou o olhar, pensativo, nem havia encostado no bolo sobre seu colo, mas se dava conta dele ali. Era muito para processar, mas falar com a esposa o acalmou um pouco.
— Você disse que desistiu de tudo, então como terminou ajudando a derrubar o Diamante?
— Fui avisada de que iria acontecer e pedi para participar, não podia ser diferente, era minha dívida. Mas você vai gostar de saber que ninguém morreu queimado, colocamos fogo depois que não tinha mais vivos dentro, sua perícia só não percebeu isso porque não se deram ao trabalho de estudar os corpos.
— Uma falha minha. Tinha tanto a fazer que dei ordem de procurarem o que fosse mais relevante.
— Foi bom, espalhou medo em quem precisava.
— O que fizeram com os trabalhadores?
— Os sobreviventes estão longe, mas vigiados. Foi também por causa deles que as comunicações precisaram ser derrubadas, não dava para arriscar que fizessem contato, nem todos saíram do Diamante de boa vontade, assim como nem todos estavam lá por boa vontade. Alguns cientistas vivem nos Centros encarcerados pela capacidade intelectual. Outros mantivemos vivos pelo que podem informar.
— Seu pai é o Ás de Paus?
Sônia sorriu. — Não. Não mesmo! Ele nunca usaria um codinome... Nem brincaria. “Ás de Paus” nasceu depois que o meu pai partiu, na mesma época em que você ouviu falar do Ás de Paus pela primeira vez.
Edmund olhou para ela novamente.
— Você perdeu seu pai adotivo também?
— Sim.
— Como eu não percebi que você estava vivendo um luto desse?
— Lembra quando viajei para ver uma amiga doente? Não era uma amiga doente, fui me despedir dele. Você não podia saber disso na época, então fiz tudo para que não percebesse.
Edmund voltou a se aquietar, olhou para a parede a sua frente, depois para ela outra vez.
— Eu entendo os seus motivos — ele disse após algum tempo —, mas o Ás de Paus é um terrorista, ele destrói, sequestra e mata.
— Destrói realmente, sequestra também, mas matar... Não. Pelo menos não fora de conflito e nunca assassinato. Como seria diferente dos monstros contra quem luta se fizesse isso? Por um exemplo, os homens perdidos na pedreira Cesno voltaram sãos e salvos.
Edmund arregalou os olhos. — Estão vivos?
— Estão. Nem sequer foram interrogados enquanto estiveram em cativeiro.
— Você sabia que eles estavam vivos?
— Não. Quando você foi enviado ao R-801, eu perguntei à Ivana sobre os homens, mas ela só me respondeu que estavam bem e que voltariam em breve.
— Mas por quê?
— Isso é outra longa história, o que realmente importa é que o Dimitri ficou encrencado. — Um sinal de riso fez tremer os lábios do rapaz. — Você não precisa aceitar o que digo sobre o Ás de Paus, Edmund, nem concordar, basta entender que eu abandonei a luta há muito tempo e que, apesar disso, temos proteção se precisarmos.
— Tipo documentos falsos?
— Também.
— Voltei como Sandoval Bartinic.
Sônia abriu um sorriso, largo dessa vez, verdadeiramente contente. — Que bom que você guardou os documentos, pensei que jogaria fora.
— Não consegui destruir um trabalho tão bom.
— Eu sabia que você estava voltando, a rede do Ás de Paus o rastreou e me informou, porque eu estava enlouquecendo, depois limparam o seu caminho para que retornasse com segurança, mas não disseram que era com a outra identidade... É isso que eu quero dizer com proteção, sem que você soubesse eles o escoltaram até aqui e eu não precisei pagar por essa escolta, ainda que você seja um major desse exército.
— Era. — Sônia franziu as sobrancelhas e ele a encarou com os olhos ainda mais vermelhos. — Como poderia ser major ainda? Sou um fugitivo, ajudado por um terrorista, meus aliados tentaram me matar, meu inimigo me protegeu e agora, mesmo que minha vida estivesse perfeita eu... eu não conseguiria servir ao exército... Não mais. Aquilo foi pura maldade, e os ministros estavam lá, assistindo, como se fosse um filme.
— O Dimitri não estava junto? Soube que ele vai, com os ministros, às vezes.
— Ele é vigiado por sua rede?
— A Danielle me contou. Uma ou outra vez ele diz a ela aonde vai e com quem.
— Certo... Certo...
— Tem outra coisa que você vai gostar de saber.
— O que?
— Os insumos — falou Sônia, com certo desconforto ao pronunciar a palavra. — Eles não chegam aqui faz um bom tempo, o Ás de Paus os resgata sempre entre a compra e a entrega.
Dessa vez Edmund mostrou um sorriso. — Que bom saber disso.
— Agora você precisa descansar, tente dormir pelo menos um pouco.
— Eu não consigo... Não posso fechar os olhos...
— Você se lembra do nosso casamento? — interrompeu Sônia, retirando o prato intocado do colo do rapaz.
Edmund não entendeu a finalidade da pergunta, mas respondeu do mesmo jeito.
— É claro.
— Eu estava tão nervosa naquele dia, tremia tanto que me senti congelando em pleno verão. Nem dormi na noite anterior. Você não faz ideia da loucura que foi.
— Faço sim, eu também não dormi, e suava, tinha calafrios, teve até um momento em que a minha visão ficou turva. Eu tinha certeza que você iria desistir.
Sônia sorriu, era a sua melhor aposta para concentrar a mente de Edmund em outra coisa, ele sempre mergulhava nas histórias sobre aquele dia e não havia uma vez que as contava que não se lembrasse de um fato novo. Se isso não o tranquilizasse a ponto de fazê-lo dormir, nada o faria. E ela apontou para o outro lado da cama.
— Posso?
Sônia não sabia como eles estavam como casal, sabia apenas que estavam em uma conversa civilizada, numa situação extremamente difícil do companheiro, o que não significava que estavam bem, por isso não quis deitar-se ao lado dele sem sua permissão.
— A cama ainda é sua. Por favor.
A moça deu a volta e deitou-se em seu lugar.
— Eu nunca entendi bem o que aconteceu com a mesa de doces — disse ela, e Edmund mostrou um pequeno e quase imperceptível sorriso, ele sabia o que ela estava fazendo e aceitou a ideia.
O plano obteve o êxito que Sônia desejou, ele começou a contar sobre como a mesa terminou tombada e com uma perna ausente, dessa história emendou outra, em um esforço próprio para não deixar os pensamentos regressarem ao recente trauma, e não demorou para seus olhos fecharem, ele nem percebeu quando adormeceu.
O dia amanheceu ainda mais cinzento e a primeira ação que Leon queria fazer naquela manhã era falar com Dimitri, por isso foi direto a sala dele, mas o encontrou andando calmamente pelo corredor entre o gabinete de Zunik e o dele, estava de bom humor, apesar de amargar as novas ordens do tio como um castigo.
— Dimitri! — ele chamou.
O coronel se virou. — Sim?
— Preciso de esclarecimentos a respeito da ação do major quando foi procurar os nossos homens, sobre a rota que tomaram e os corpos que encontraram. Gostaria de saber quem eram, já que não eram os nossos — disse, suscinto e grosseiro.
Dimitri bufou. — De novo isso? Com tanta coisa acontecendo, você vai atrás desse assunto resolvido?
— Não foi resolvido. Sei que o Edmund não mentiria, portanto quero saber o que ele encontrou.
— Temos mais o que fazer.
E o coronel virou-se para continuar o seu caminho.
— Dimitri!
Ele parou e olhou para Leon com sua mais debochada expressão.
— Tem alguma coisa te incomodando, Leon? Algum problema que queira dividir? Ou uma frustração que faça você ficar obcecado por essa besteira? — zombou.
— Tem, sim. O que aconteceu naquela missão? E por que você não quer contar a verdade?
Dimitri manteve os ares sarcásticos, mas se assustou tanto que, por pouco, não perdeu o controle de sua máscara de cinismo.
— Acharam corpos, pensaram que eram os nossos homens, sepultaram e o assunto foi encerrado, achei muito honroso. Que mistério há nisso?
— Tudo é misterioso. Por exemplo, como enterraram tantos corpos lá, se a terra daquela região é dura e compacta? Tenho certeza que não levaram equipamentos para isso. Por que o local não está nos planos de missão? Por que não chamaram as Andorinhas antes, se isso é padrão?
Arrepios percorreram o corpo de Dimitri como ondas, não era possível Leon saber o que aconteceu, Bespalez garantiu que Edmund estava morto, os demais homens estavam espalhados pelo país ou pelo mundo. Mesmo assim o calor do medo subiu pelas costas do coronel e seus olhos percorreram o entorno, não havia ninguém ali, poderia partir a cabeça de Leon e correr antes de alguém aparecer, mas o general era muito maior do que ele e o único objeto oportuno era um extintor longe do alcance.
— Você insiste que não tem nada para me contar? — pressionou Leon.
— Eu não tenho! — respondeu Dimitri. — Não me perturbe mais com esse assunto, tenho muito trabalho a fazer.
O rosto de Leon foi tomado pela decepção. — Está bem, não vou mais incomodar você com isso — disse e saiu, para alívio de Dimitri.
O coronel correu para a sua sala com a ilusória sensação de que o seguiam. Ali, trancado, andou de um lado a o outro, com o olhar fixo no assoalho calacata, por vezes levava a mão à boca ou à testa e continuava o percurso desatinado. Leon devia estar falando de outra coisa; ele não poderia saber que Dimitri criou a resolução para o problema e, se soubesse, não era um segredo tão ruim assim. Foi só uma mentira, ninguém se prejudicou, ninguém para quem Dimitri desse alguma importância, ao menos. Seu tio não poderia puni-lo por aquilo.
Não — ele repensou. Se Zunik soubesse, iria interpretar como fraqueza e ele perderia o seu cargo, no mínimo. Abominava o título de coronel, mas não queria perdê-lo de jeito nenhum, não havia outro caminho para chegar a general, já que o marechal desenganou suas ambições, mostrando que só nomeava para cargos prestigiados quem ele desejava e Dimitri não era um deles, então teria de seguir o caminho convencional, se fiando no seu sobrenome.
Até nisso o Ás de Paus conseguia atrapalhar, se ele não tivesse devolvido os homens, esse assunto estaria tão morto quanto eles. E, num sobressalto, Dimitri percebeu que poderia culpar o Ás de Paus, inventar que talvez fosse um plano dele para dividi-los, teria que planejar bem a história, mas ela tinha potencial, todos só pensavam nele nos últimos tempos.
Mas quando Dimitri foi ver Zunik para sondar se o tio tinha desconfianças acerca do ocorrido, encontrou-o na companhia de Leon, Dimitri teve a sensação de que o general não desgrudava mais de Zunik.
— Desculpe, pensei que o senhor estivesse sozinho — falou Dimitri ao marechal, já arrependido por nunca falar com o assistente à porta do gabinete de Zunik. Não queria mais ver Leon naquele dia.
— Pode entrar, Dimitri. O Leon estava me informando que vai se ausentar por um ou dois dias.
Dimitri teve que segurar o ímpeto de pular de alegria.
— Vai? — disse, então.
— É. Ele quer ver o descampado onde o Zinekolski disse que enterrou os corpos.
A alegria de Dimitri se transformou num choque trespassando suas entranhas.
— Vai fazer o que lá?
— Investigar — respondeu Leon.
— Não me surpreende que você tenha esquecido que o mandei fazer isso — falou Zunik.
— Eu não me esqueci. Apenas pensei que nos concentraríamos no Ás de Paus, aquele em quem temos que centralizar a nossa atenção agora e não ficar perdendo tempo com besteiras. Quando o major voltar, ele explica.
— Ele não vai voltar — o marechal contou.
— Por que não?
— O contra-almirante Lorenzini disse que o Zinekolski não está no R-801. Sumiu há alguns dias e ninguém sabe onde ele foi parar.
— No mar — pensou Dimitri.
— Por isso vou investigar — disse Leon. — As coisas ficaram estranhas com ele desde aquela missão.
— E a família? Ele deve ter feito contato com alguém.
— Já foi verificado, ninguém sabe nada sobre ele e deixamos a esposa em pânico.
— Ela pode estar mentindo.
— Não há como fingir um desespero daquele, Dimitri! — rebateu Leon. — Vou amanhã. Se precisar conversar comigo, terá que ser hoje.
E ele saiu a passos rápidos, nem se despediu do marechal.
— O que você fez para deixar o Leon a ponto de te bater? — perguntou Zunik.
— Não fiz nada.
— É claro que não, você nunca faz! Conheço o Leon e sei que ele não olha assim para alguém que “não fez nada”, e conheço você o suficiente para saber que fez.
— O Leon anda esquisito.
Dimitri sentou a três cadeiras de distância, analisando Zunik. O fato de o marechal ter percebido que existia algo errado entre ele e Leon não era bom, e começou a falar sobre qualquer assunto que lhe ocorria. Sua estratégia já não serviria de nada agora que o general, em pessoa, iria investigar a veracidade de sua história.
Com a farda encharcada pelo suor frio, Dimitri saiu da sala de Zunik à procura de Leon. Sabia que o general raramente permanecia na sede após o meio-dia, mas, mesmo assim, vasculhou todos os cantos, até descobrir que ele havia ido para um dos quartéis, irritou-se por ninguém saber qual e decidiu pedir informações por rádio, indiferente do estado dos aparelhos, Leon nunca se separava de um enquanto estava em serviço.
— Alguém sabe onde está o general Handersen? — ele perguntou a qualquer um, aos berros. Ninguém respondeu e ele se enfureceu. — Ninguém está me escutando nessa porcaria de rádio?
— Identifique-se! — ordenou uma voz rouca.
Ele sabia que precisava se identificar todas as vezes que usasse o rádio, mesmo antes de o Ás de Paus ter invadido os sistemas de comunicação, porém, raramente fazia isso por crer que sua voz bastava para que soubessem quem ele era. Dimitri só esquecia que todas as vozes pareciam igualmente roucas pelos aparelhos.
— Era só o que me faltava! — reclamou. — Aqui é o coronel Dimitri Novakohut, eu quero saber onde está o general e quero saber agora, não tenho tempo a perder.
— Desculpe, senhor, mas preciso do seu número de identificação.
Dimitri só se lembrava dos dois dígitos iniciais padronizados, indicativos do grau de patente, todos os dias recebia um diferente além desses, para evitar que alguém fingisse ser ele nas comunicações, por sorte um de seus assistentes lhe entregava, a cada manhã, um papel com o número anotado e ele o enfiava no bolso do peito. Puxou-o com raiva, abriu rápido e leu ainda mais rápido.
— Zero três, duzentos e nove, oitocentos e vinte. Agora fale logo o que eu quero saber!
— Aqui é o subtenente Victor Bassanezi, número de identificação trinta e um, quatrocentos e sessenta, cento e dezessete. O coronel Handersen passou por aqui mais cedo, mas já saiu.
— Aqui, aonde?
— Décimo segundo batalhão.
— O que ele foi fazer aí?
— Eu não sei, senhor, não chegamos a conversar.
Dimitri desligou e saiu, reclamando sobre ter de procurar Leon pela cidade, mas não demorou para encontrá-lo, simplesmente foi à casa dele. Lembrou-se que a única maneira de Leon ficar incomunicável era em casa, se não o encontrasse iria para a sua casa, não muito longe, e usaria o telefone de lá para falar com ele mais tarde, Danielle com certeza teria o número de sua tão estimada amiga Ilde.
— Boa tarde, Dimitri — falou Leon ao vê-lo tão alarmado em sua soleira, ele próprio atendeu a porta. — O que houve?
— Não encontrei você em parte alguma.
— Era só perguntar para o seu tio. Ele sabia que eu viria para casa depois de organizar os meus homens para irem comigo amanhã.
— Eu vou com você.
— Ah é? Por quê?
— O marechal mandou eu sair em mais missões.
Leon ficou olhando para Dimitri, na vã expectativa de que ele dissesse o que queria ouvir, mas ele não disse, nem pretendia dizer.
— Certo, iremos às dezesseis horas e nos agruparemos no décimo segundo batalhão.
— Estarei lá.
E ele se virou para a escada de acesso à rua.
— Dimitri! — chamou Ilde, ela esteve pouco atrás do marido o tempo todo, o coronel optou por ignorá-la, para sua infelicidade, não poderia ignorar ao chamado e virou-se novamente. — Você está indo para casa? — ela perguntou.
— Sim, vou dar uma passada lá.
— Então diga à Danielle que vou encontrar com ela assim que terminar de me arrumar. Se quiser esperar, podemos ir juntos, estou quase pronta.
— Eu não posso, estou com pressa, vou dar uma parada rápida e voltar. O marechal está me esperando — mentiu Dimitri. — Até amanhã, Leon.
E ele saiu, tão acelerado que desapareceu das vistas do casal em segundos.