O Nascimento de um Homicida
Leon não estava na sede do governo quando Ilde ligou para contar as novidades sobre a consulta de Antony. Ele estava no décimo segundo batalhão, autorizando a ida da equipe de investigação para o porta-aviões R-801, depois foi ajeitar material de camping em um dos carros adaptados para terrenos áridos. Dimitri o olhou com curiosidade quando viu quais veículos foram escolhidos para a missão.
— Vamos acampar? — ele perguntou.
— Se precisar, sim. Não quero voltar sem respostas para este caso.
— Por que isso é tão importante para você?
Leon parou. — Você realmente não sabe? Não faz nem uma vaga ideia?
— Não.
— Me fale a verdade sobre aquela missão e talvez nem precisemos sair daqui.
Dimitri recuou, o general definitivamente sabia o que aconteceu.
— Eu... Você está paranoico com essa história, Leon. Por que não se concentra no que importa? Este assunto já está encerrado.
— Porque, quando uma pessoa mente em algo tão pequeno, mente em qualquer situação. Eu preciso ver o que o Edmund encontrou para valer uma invenção desse tamanho.
Dimitri viu nisso uma abertura. Leon não tinha como saber quem mentiu, e o desaparecimento de Edmund poderia ser interpretado como uma evidência de culpa.
— Você tem razão, temos que ver isso. Confiei tanto no major que não investiguei.
Leon franziu as sobrancelhas, Dimitri não podia ser tão dissimulado.
— Então vamos — convidou. — Eu terminei o que precisava fazer mais cedo e você, com certeza, não tem nenhum serviço agendado para hoje, não há por que esperar mais.
Leon não queria ir, especialmente naquele dia em que ansiava por saber o resultado da consulta médica de Antony. O general esperava que a pressão da busca iminente fizesse Dimitri confessar para poupá-lo da viagem inútil, mas parecia que nada o faria falar, e parou na porta do carro, ponderando: Talvez fosse melhor confrontar logo Dimitri, estava se cansando de dar chances infinitas a ele.
O coronel voltou para o seu carro, pegou uma bolsa, levou para o transporte, enfiou na traseira de qualquer jeito e entrou. Não trouxe nenhuma barraca, nenhuma lona, nenhum colchão, somente alguns pertences insignificantes. Ele veio certo de que só iriam olhar o terreno e voltar.
Mas Leon, como o bom soldado que era, sempre levava itens sobressalentes para eventuais imprevistos e pensava neles enquanto o observava jogar a pequena mochila no carro, ainda oscilando entre a vontade de terminar com a farsa de uma vez e dar mais uma oportunidade à Dimitri. Por fim, também entrou no carro e ligou o motor, em silêncio.
— Espera! — pediu Dimitri. — Eu preciso pegar umas coisas no meu escritório, não sabia que iríamos acampar.
— Estamos levando tudo o que você vai precisar.
— Mesmo assim, tenho que ir.
— Já estamos perto da rodovia, Dimitri.
— Por favor, Leon, me leve lá. Vai ser mais rápido do que eu ir sozinho.
Leon suspirou, fatigado, e saiu do carro, trocou algumas palavras com os seus comandados e voltou mais aborrecido do que já estava.
— Vou levar você, e os outros se juntarão a nós na volta — ele comunicou e arrancou, à máxima velocidade, para a sede do governo.
O trajeto se passou em quietude tensa. Dimitri gostou, mas não era ingênuo para acreditar que se relacionava a um bom sinal. Leon nunca ficava calado por tanto tempo e estava com cada vez mais certeza de que a decisão, que tinha acabado de tomar para resolver o problema com ele, era a correta e, se tudo desse certo, não importaria o humor de Leon.
Naquele mesmo instante, Ziger enfim deixava a prisão após quatro dias recluso nela. Ao saber o que houve e porque o capitão foi preso, Zunik avisou que ninguém poderia soltá-lo sem sua ordem. Aviso que Ziger ficou sabendo no mesmo dia. Aquilo aumentou a sua ira mais do que imaginou ser possível. Mas ele esperou que fosse solto logo, o que não ocorreu; esperou que Dimitri fizesse algo a seu favor, o que também não ocorreu.
Dimitri até tinha a intenção de interceder por Ziger. Considerava mesmo a prisão absurda, porém, não encontrou tempo para ele e o capitão permaneceu na cela, remoendo o seu infortúnio.
A realidade era que o homem teve a sua cota de má sorte. O marechal não pretendia mantê-lo detido por mais de um ou dois dias, planejava apenas dar um susto nele para que não o desobedecesse outra vez. Só que acabou esquecendo-o lá.
Desse modo o capitão saiu da cela com o ódio acumulado a valores incalculáveis e foi direto satisfazer os dois desejos que mais cresceram naqueles dias: conhaque e Verbena.
O telefone ao lado de Zunik o sobressaltou e ele puxou o gancho antes que tocasse outra vez.
— Estou ocupado! — disse.
— O major Saturno mandou um comunicado, informando que está com um homem, sob custódia, na detenção da delegacia norte do terceiro anel, que alega ter informações sobre o Ás de Paus.
Zunik devolveu o telefone ao suporte, levantou-se e foi até a mesa do assistente.
— Como ele se comunicou?
— Mandou um cadete, ele está na recepção. Quer que eu o mande subir?
— Não. Quero que mande dizer ao Saturno para trazer o prisioneiro aqui.
— Ele é do quarto anel, senhor.
— Não importa.
E o rapaz não argumentou novamente. Duas horas mais tarde, o sujeito estava sentado no meio de uma sala clara e fria, com dois soldados atrás de suas costas e a empolgação por ter sido trazido à sede do governo — lugares onde um morador do quarto anel nunca cogitaria chegar — foi substituída pelo arrepio incômodo do nervosismo.
O fedor agrediu as narinas de Zunik quando ele entrou, com Saturno, vinte minutos depois. Aquele indivíduo, tão esfarrapado, não parecia portador de informações relevantes, nem de credibilidade. Mesmo assim ele cravou seu olhar inquisidor nele e o homem levantou-se, desajeitado, com os olhos fascinados e a respiração tão acelerada que não conseguia sequer falar. Nem em sonhos imaginou que veria o grande marechal, em pessoa, e a vinda ao coração pulsante da cidade não o fez pensar nisso também.
Desprovido de orientações sobre comportamento diante do líder, ele se abaixou em reverência, apertando contra si a única coisa que trouxe: um pedaço de papelão rasgado com esmero.
O marechal franziu as fartas sobrancelhas para o gesto, não estava muito animado, nem para um interrogatório promissor.
— Soube que você procurou a delegacia para levar informações sobre o Ás de Paus — começou Zunik.
— Sim — o homem respondeu com a cabeça baixa.
— Em troca de que?
— Nada... Eu só quero fazer o certo.
Mas ele queria algo, queria dinheiro, já tinha deixado isso claro na delegacia para onde foi vender a informação, no entanto, se acovardou em frente ao marechal. Seu olhar, contudo, o delatou. Um tipo muito conhecido para homens como Zunik e o major ali presente.
— O meu major disse de onde você veio. Mora na frente do oitavo batalhão, mas optou por ir à delegacia para contar a sua história. Por quê?
— Eu... — desconcertou-se o homem. — É que não me deixariam falar com o major, se eu fosse até o batalhão.
A verdade, que ele tentava tão fracamente ocultar, era a crença de que lucraria mais com a informação se a oferecesse à polícia. Não esperava que chamariam Saturno ou que o levariam ao marechal.
— É um longo caminho a percorrer, a pé, para não querer nada em troca.
O homem esfregou a mão que mantinha o papelão comprimido sobre a barriga.
— Bom... Se for da sua vontade me dar uma recompensa, eu ficarei agradecido — ele disse.
Zunik sorriu. — Então me dê essa informação e eu vejo se ela tem algum valor.
— O Ás de Paus está dando comida para os moradores do quarto anel.
— Comida? — Zunik olhou para Saturno, depois novamente para o homem. — Sabe o que acontece com quem mente para mim?
— É verdade! Eu... Eu juro! Nós experimentamos até café.
— Café? — urrou Zunik.
Um segundo depois ele entendeu. Os moradores do quarto anel estavam recebendo os alimentos que o Ás de Paus roubou dos depósitos, pois café só exista neles, os estoques mais próximos do centro, para abastecer apenas os líderes maiores e empresários mais afortunados. E Zunik sentiu a fúria subir pescoço acima, aquilo era mais uma provocação.
— Sim — respondeu o homem.
— Como você sabe quem é Ás de Paus?
— Quando o desenho dele começou a aparecer nos muros, os militares vieram para apagar, contaram o que era e avisaram que as pessoas que estivessem desenhando seriam presas porque era o símbolo de um terrorista chamado Ás de Paus. Os alimentos já chegavam naquela época, por isso ninguém desconfiou de quem vinha, pensamos que eram doações do governo. Quem mais saberia da existência de desgraçados, esquecidos por Deus? Alguns até pensaram em um ricaço, mas ficamos com a teoria de que eram os militares que deixavam as caixas, já que são os únicos que podem andar pelas ruas depois do toque de recolher. Só que agora as caixas vieram com o símbolo.
E ele entregou o pedaço de papelão para Zunik. Não havia como se enganar, era o símbolo impresso do Ás de Paus, o mesmo que o atormentava fazia meses.
— Por que aceitaram comida de um terrorista? Eu não os alimento bem?
— Porque... como disse, ninguém sabia, as caixas apareciam nas portas e a gente pegava.
— Quando os símbolos começaram a aparecer nos muros?
— Um ano, talvez um pouco mais. É difícil saber as datas lá no quarto anel. Dizem que ele vem buscar, se pichar o nome ou o desenho dele.
— E quando começaram a aparecer nas caixas?
O homem deu uma olhada rápida para Zunik, depois baixou a cabeça novamente.
— Essa foi a primeira vez — respondeu.
— Saturno, venha comigo! — falou Zunik e foi na direção da porta.
— Marechal — chamou o homem. — Minha informação o satisfez?
— Oh, sim. Apenas espere que o major o recompensará como merece — respondeu Zunik e saiu, Saturno foi logo atrás.
O marechal esperou a alguns metros, além da porta, olhando para a gravura no papelão.
— Por que eu não soube que o símbolo do Ás de Paus estava sendo pichado pela cidade?
— Eu também não sabia. Como acabo de assumir o oitavo batalhão, não pude me inteirar de tudo ainda, mas irei averiguar assim que sair daqui — disse Saturno.
— Faz sete meses que você assumiu, já é tempo de ter toda as informações pertinentes ao seu cargo.
— Peço desculpas, senhor. Isso não se repetirá.
— O que sabemos sobre esse informante que você me trouxe?
— Ele é um meliante comum, sem importância. Furta o que pode dos vizinhos e troca com os próprios vizinhos por coisas que o interessem mais. Às vezes, tenta vender alguma coisa para os nossos soldados e vive procurando fazer amizade com eles — respondeu Saturno.
— Por que ele não foi preso?
— Porque nunca ultrapassou as fronteiras do quarto anel. De acordo com o delegado, ele não passa de um preguiçoso, que venderia os membros da família se tivesse uma. O último anel está cheio deles.
— Acha que a informação é legítima?
— Acho. Ele chegou à delegacia ao amanhecer, os agentes tiveram tempo para investigar sobre os alimentos, pedi para que dissessem que a comida veio mesmo do governo, por isso estavam fazendo uma verificação, de rotina, e que reutilizamos caixotes antigos para as entregas, assim justifica a presença dos símbolos e reforça a ideia de que as doações vieram de nós, enquanto abafa a de que um terrorista os alimenta, de graça.
— E acreditaram?
— São pouco mais do que animais, acreditam em tudo o que dissermos.
Zunik olhou novamente para a imagem de Paus alado em frente a letra A, aquele desenho afligia seus pesadelos.
— Fez bem — respondeu. — O que acha que o Ás de Paus quer com isso?
— Creio que ele não tinha o que fazer com toda a comida que roubou de nós. Talvez o contingente dele não seja tão grande assim.
— Não é isso. Ele se sente um justiceiro.
— Talvez não, pode ser que só quisesse provocar alimentando os porcos com o que temos de melhor. Parece que ele gosta disso.
— A primeira aparição do Ás de Paus foi quando destruiu o Diamante, há oito meses, justamente na fronteira do quarto anel, e a suposta caridade acontece a mais de um ano, assim como as pichações, segundo as informações que acabamos de receber.
— Então, por que será que o símbolo só apareceu agora nas caixas?
— Não acredito que tenha aparecido só agora, essa é a única parte da história que é uma óbvia mentira. Resta saber quando realmente apareceram.
— Não entendo por que ele mentiria.
— Para não se comprometer. Para tentar obter mais lucro. Porque o Ás de Paus quer que saibamos para desviar a nossa atenção, de novo. Não há como saber; existem inúmeras possibilidades.
— Vou interrogá-lo de uma maneira mais eficiente. Até o fim dessa tarde ele vai contar quem o mandou.
— Não precisa, só dê um fim nele, depois vá à minha sala.
Saturno pensou por um segundo. — Será que... Não é bom ter olhos delatores, como os dele, no último anel para nos manter informados?
— Você disse que o quarto anel está cheio deles, não precisamos deste. Além do mais, não queremos que ele saia daqui dizendo que não sabíamos da grande benevolência do Ás de Paus. É melhor que continuem pensando que foi uma ação minha.
— Sim, senhor.
— Seja rápido. Como recompensa pelas informações.
Leon deixou os soldados levantando acampamento do outro lado da estrada e foi estudar o terreno argiloso, suposto túmulo de homens desconhecidos, mais para pensar do que para investigar, era nítido que o caso não requeria averiguações adicionais, à distância dava para notar que o lugar não foi escavado ou que sequer um cascalho foi movido, a terra ali era plana e dura mesmo em épocas chuvosas. Ainda assim ele observou o campo, seus olhos treinados não eram acostumados a deixar escapar nem as menores pistas, o que claramente não havia ali. A tempestade do mês anterior poderia apagar rastros e até sangue, mas jamais vestígios de covas recentes.
— O que acha que aconteceu? — perguntou Dimitri às suas costas.
— Uma grande mentira, como imaginei.
— Como assim?
Leon se virou com toda a imponência de um autêntico general, e cravou o olhar cor de mel em Dimitri. — Olhe você mesmo! Acha que algum ser vivo foi assassinado aqui?
— Podem ter sido trazidos depois de mortos.
— Você acredita sinceramente nisso? Talvez pense que o Ás de Paus tenha o poder de praticar uma chacina sem que ninguém sangre ou fazer disso um depósito de corpos sem mover um grão de terra, mas eu não acredito.
— Ele usou um tipo de gás para derrubar os nossos homens, pode ter feito igual para exterminar uma grande quantidade de gente. Já vi execuções muito bem-sucedidas com gás.
— Está me dizendo, então, que confia que os soldados do Edmund fizeram uma cova aqui, com capacidade para enterrar um pelotão inteiro sem modificar a superfície do terreno?
Dimitri olhou para o campo, nada que dissesse teria eficiência para convencer Leon.
— Eu não sei o que aconteceu.
— Me deixe dizer a minha teoria: A pressão para encontrar os nossos soldados perdidos começou a crescer e uma solução tinha de ser apresentada. Na falta de uma, alguém inventou a solução mais convincente, e a suposta morte de todos eles pareceu o melhor desfecho. Quem inventou isso não pensou, contudo, que deixaria os nossos soldados à própria sorte, visto que ninguém mais procuraria por eles. Quer me dizer quem foi o autor dessa história?
Leon insistiu na esperança de que a consciência de Dimitri fosse tocada e que, assim, ele contasse a verdade. O general já deveria ter tomado providências, não precisava dar chance alguma a ele, contudo, não podia dizer como sabia a verdade e não queria puni-lo, desejava tanto que o jovem coronel lhe desse a oportunidade de perdoar aquela transgressão, que estava sendo indulgente demais.
— Se eu relatei o que o major me contou, certamente foi ele — respondeu Dimitri.
— E por que o Edmund faria isso?
— Eu não sei.
— Por que você o mandou para o R-801? E onde estão os outros homens que vieram até aqui com ele.
Leon viu que Dimitri assinou todas as transferências, não havia mais como negar a artimanha.
— Alguém tinha que ir ao porta-aviões para resolver um problema. Não podia ser eu e nem o tenente-coronel porque ele está servindo de empregadinha para a professora, o major era o único capacitado e confiável disponível. Agora estou vendo que não era confiável.
— O contra-almirante não tomou conhecimento de qualquer problema lá, mesmo agora ele não verificou falhas do tipo mencionado.
— O que quer dizer com isso, Leon? Por acaso está me acusando?
— Estou te dando a chance de me falar a verdade.
— Isso é inadmissível, eu sou um Novakohut!
— Justamente por isso, deve ser exemplar.
— E eu sou!
Dimitri iria sair, mas Leon segurou os seus ombros. As últimas ilusões do general se esgotaram e a tristeza estava escancarada em seu semblante.
— Me diga a verdade, Dimitri. Eu entenderei e daremos um jeito.
— Que verdade você quer ouvir? Que eu não queria ter que encarar a desaprovação do marechal outra vez, e inventei essa coisa mórbida?
— Exatamente.
— Mas eu não vou dizer, não é a verdade e me deixa em paz! Não se esqueça que um dia eu serei o marechal, você nunca passará de general.
— Um marechal precisa ser honrado e você precisa entender isso antes que o seu tio tire a sua chance de chegar lá.
Dimitri riu. — Não há outro Novakohut.
— E você acha que isso é impedimento para ele?
— Ele não faria isso.
— Experimente continuar errando e verá. — Dimitri baixou a cabeça, conhecia Zunik e sabia que ele não hesitaria em descartá-lo, nem que isso significasse iniciar uma nova raça de Novakohuts em laboratório.
Leon se aproximou, mais uma vez complacente. — Errar, na sua posição, é ruim, mas admitir o erro e não repetir, é o primeiro passo para se tornar um bom líder — aconselhou.
Dimitri levantou o olhar furioso. — Eu não cometi nenhum erro!
E ele viu a decepção outra vez no rosto de Leon, não suportava mais ver aquela cara.
— Eu sei que foi você quem inventou a história quando o Edmund voltou sem respostas. Sei disso desde que o Ás de Paus roubou os... Ah, meu Deus! — Leon se afastou, atônito, virou-se e andou alguns passos para longe do coronel, depois voltou-se a ele. — Você... Não pode ser!
— Você está tendo um ataque?
As narinas de Leon se dilataram. — O Ás de Paus está sempre uns cinco passos a nossa frente, suas digitais estavam nos carros fortes e você mais atrapalha do que ajuda, ninguém pode ser tão incompetente. Você está com ele, não está? Está traindo o marechal, seu sangue.
Dimitri gargalhou e nem sabia o porquê.
— Agora você enlouqueceu.
— Por favor, garoto, diga que estou enganado.
— Você está enganado, muito enganado.
— Meu Deus! Bespalez... O Bespalez está enviando nosso armamento para alguém. É para o Ás de Paus, não é?
— Como é que é?
— Não finja que não sabe do que estou falando! Você colocou o Bespalez naquele porta-aviões, você recebeu e ignorou o pedido de mais homens para a Base Naval 5, você...
— Espera aí! O Bespalez está fazendo o que com o nosso armamento?
Mas Leon não confiava mais no que ele dizia e baixou a cabeça com os olhos fechados de desgosto, não conseguia nem olhar para o coronel, e Dimitri aproveitou a brecha para deixá-lo.
Leon não se moveu, ficou lá por uma hora, pensando. Não restou dúvidas do envolvimento de Dimitri naquela trama, e estava tão envergonhado dele. Todos os seus filhos lhe deram orgulho, acreditava que Dimitri também daria, mas só experimentou decepções com ele.
Ainda assim, meia hora mais tarde, começou a crer que foi exagero supor que o rapaz trabalhava para o Ás de Paus. Leon conhecia Dimitri, ele podia ser tudo, menos um traidor e não queria entregá-lo, não por uma mentira criada graças ao temor causado pelas pressões do marechal e ele foi testemunha do quanto Zunik o pressionou durante a vida. Por outro lado, Leon o protegeu desde criança e o resultado foi um homem fraco e mentiroso, além disso tinha de pensar na reputação de Edmund, culpá-lo por uma mentira que ele não criou.
Quando Leon voltou para junto dos outros as estrelas estavam altas no céu de inverno, e tinha tomado uma decisão, confirmaria a história em nome da amizade que teve com o pai de Dimitri, prometeu que cuidaria do filho dele e faria isso mesmo que custasse os seus princípios, ainda mais porque conhecia o temperamento de Zunik, se dissesse a verdade ele puniria tanto o coronel quanto o major. Dessa maneira protegeria os dois.
A noite avançou, os rapazes estavam animados por terem saído das dependências do batalhão, não ganhavam muitas oportunidades disso, e Leon os deixou à vontade para que pudessem se divertir um pouco.
Ele os observava, quieto. Pareciam escoteiros em volta da fogueira, Leon nem imaginava há quanto tempo não via uma daquelas, nem escoteiros aliás, eles deixaram de existir pouco depois que Leon foi um. Os rapazes nunca saberiam como a experiência era boa ou como seria uma fogueira, eram jovens demais para precisarem do recurso. Elas se tornaram obsoletas com o ingresso de novos equipamentos para a produção de calor e preparo de comida em campo. Mas eles ficaram tão entusiasmados com a ideia de fazer fogo que não quis desencorajá-los e até ajudou a acender.
Leon ainda não tinha contado que não precisariam cavar no dia seguinte, não queria falar sobre o assunto, protelar era um modo de fingir que o desapontamento que Dimitri causou não aconteceu.
— Posso me sentar com você? — perguntou Dimitri.
— Pode se sentar onde quiser — respondeu Leon.
— Vim me desculpar e fazer as pazes.
E ele entregou uma caneca cheia da bebida que foi cozida, por horas, na fogueira.
Leon pegou, observou e cheirou o líquido. — O que é isso? — perguntou.
— Especiarias cozidas no vinho. Os rapazes disseram que se chama Quentão, é uma receita de família de um deles.
— Eles trouxeram álcool para uma missão?
— Releve, Leon. Os garotos nunca se divertem, além do mais, eles juram que fica livre de álcool depois da fervura.
Dimitri duvidava disso, mas seria mais uma confissão que não faria, considerando a impossibilidade de expor a sua intenção de distrair os soldados e fazer Leon beber fosse o que fosse. Foi ele próprio quem trouxe o vinho para embriagar os rapazes, mas quando um deles mencionou que o bisavô — ou algo do tipo —, fazia aquela bebida, ele mudou o plano, pois nada que pensou poderia ser melhor do que a tal receita.
Doeu usar vinhos tão caros para a estratégia, chegou a hesitar quando pegou as garrafas de seu estoque pessoal no escritório da sede do governo, todavia, o objetivo fazia valer o sacrifício.
Leon aceitou a caneca e bebeu.
— Que delícia! — disse, e Dimitri abriu um sorriso tão largo que o rosto quase não comportou a amplitude.
— É muito bom — concordou, satisfeito, sorvendo um grande gole da própria caneca.
A amizade se restaurou de imediato. Mas Leon já estava sonolento antes de Dimitri chegar e não aguentou mais de cinco minutos.
— Vou dormir, fale para os rapazes não fazerem muito barulho.
— É cedo, Leon, aproveite a noite.
Ele desejava que Leon ficasse, apenas alguns minutos seriam o suficiente para ver o efeito que a bebida teria nele, porém, não houve negociação.
— Estou cansado demais. Boa noite.
Dimitri pensou por um instante, a resolução daquele problema não mudaria se ele terminasse ali ou deitado em sua barraca, e aceitou de boa vontade.
— Está certo, boa noite.
Leon levantou, andou alguns passos e se voltou à Dimitri.
— Não vou dizer nada ao seu tio, nós vamos resolver isso e sem prejudicar a ninguém.
Dimitri sorriu novamente. — Eu sei que você não vai dizer.
Leon também sorriu e assentiu. — Em troca você se comporta daqui para frente. Está bem?
— Já sou outro homem.
— Fico feliz em saber.
E Leon foi para a sua barraca, estava esgotado e adormeceu, tranquilo, assim que entrou, inconsciente de que tinha ingerido uma quantidade considerável de cianeto.
Dimitri estava tão animado que foi festejar com os soldados, nunca se sentiu tão eufórico como naquele momento e comemoraria até sozinho.