Sônia Ás de Paus · Capítulo 21 de 33
Obra Menu

Sônia

Leon saiu logo depois de Eric e foi para a casa de Sônia e Edmund. Ele não tinha dúvidas de que era para lá que o major estava indo, se é que já não tinha chegado.

O general decidiu ir pessoalmente para que a notícia do sumiço dele não chegasse à Sônia por intermédio de um mensageiro insensível, que acrescentasse uma invasão a casa dela para revista. Ele também intencionava ir sozinho, por respeito à amizade com a família, mas não conseguiu escapar da companhia de dois soldados designados para a sua proteção desde que o Ás de Paus começou os ataques.

Ele bateu discretamente na porta e não demorou para Sônia atender, ela não gostava de ter empregados para servi-la o tempo inteiro e fazia tudo sozinha ou com Edmund, só contratava pessoas para a limpeza da casa algumas vezes por semana, nunca para atender a porta, o telefone ou qualquer outra coisa, nisso ela era o oposto de Ilde. E sorriu, inocente, ao vê-lo parado na soleira.

— Leon. Que prazer ver você, entre.

— Não posso... Senhora Zinekolski...

— Ui! Por que me chamou assim? Sinto que ganho décadas de idade cada vez que alguém me chama desse jeito.

— Me desculpe, mas estou aqui a trabalho — ele disse formalmente, tão cerimonioso que ela ficou séria.

— Aconteceu alguma coisa?

— O Edmund está aqui?

— Ele foi para o porta-aviões R-801, a mando do coronel, sei que você sabe disso.

— Ele esteve lá, mas soubemos que não está mais e não tivemos notícias do paradeiro dele.

Um tremor paralisou Sônia por um instante. — Você quer dizer... — e o ar faltou, ela forçou uma aspiração pesada, seu olhar se perdeu sob as sobrancelhas arqueadas e todo aquele ar não saia do jeito que entrou, sua mão subiu ao pescoço, tão trêmula que os soldados puderam ver da rua. — Quer dizer que ele está...

— Não! Não, Sônia! Se acalme, o Edmund não está morto. — Leon se aproximou dela para que não fosse ouvido à distância. — Acho que ele está se escondendo. Talvez o Edmund tenha sido envolvido em uma trama, sem querer.

Ela olhou para Leon e desabou, desfalecia, ele a amparou e gritou por ajuda dos soldados. Os dois já vinham, correndo para o auxílio, e a carregaram para dentro.

— Cuidado, ela é cardíaca — pediu o general.

Sônia já recuperava a consciência quando a acomodaram no sofá, a respiração ficou ruidosa outra vez e o rosto se retorceu em desespero.

— Sônia, você precisa me escutar, mesmo que houvesse a suspeita de que o Edmund estivesse morto, eu duvidaria, ele é esperto, não morreria tão facilmente. Talvez seja só um atraso — Leon falou, de joelhos na frente da moça e segurando firme as suas mãos.

Ela escutou, fechou os olhos e tentou regular a respiração, lágrimas escorregaram em grandes volumes, mas ela conseguiu, devagar, depois ajeitou-se melhor no estofado e se virou para os rapazes, que a observavam de olhos arregalados.

— Naquela gaveta — ela apontou para uma mesinha na lateral esquerda da lareira —, tem um frasco vermelho de tampa branca, pegue para mim, por favor — Sônia pediu a qualquer um.

Um deles correu para lá e pegou o frasco rapidamente. Sônia tomou duas cápsulas e voltou-se à Leon.

— Jura, pelo que mais ama, que o Edmund não está morto.

— Desaparecido, não morto, juro pela minha família que não recebemos nenhuma notícia de sua morte, e tenho completa confiança nas habilidades dele, sei que está vindo para cá. A base é longe, se o Edmund estiver viajando por terra, demora muito e, com as comunicações ruins como estão, é possível que ele tenha tentado e não conseguiu avisar de seu retorno. Parece que só mensagens por sistemas antigos estão chegando e quem consegue se comunicar por estas vias hoje em dia?

Leon estava usando toda a sua imaginação para acalmar Sônia, mas acreditava no que dizia, mais que isso, estava convencido de que Edmund permaneceria escondido até saber se era seguro aparecer, só não podia dizer isso na frente dos soldados ali presentes.

— O Edmund consegue — murmurou Sônia.

— Eu sei que consegue, por isso tenho fé de que, se ele tiver uma oportunidade, é com você que irá se comunicar. Por isso vim perguntar se tem conhecimento do paradeiro dele.

Sônia sinalizou seu entendimento com um gesto de cabeça, ainda tinha o olhar um tanto desfocado, mas parecia melhor.

— Eu confio em você, Leon — ela disse. — Por favor, me mantenha informada.

— Manterei, prometo. Agora você pode me emprestar o seu telefone?

— Fique à vontade.

O aparelho ficava ao lado do sofá onde estavam, e ele se levantou com dificuldade por conta de seu peso, associado a joelhos ruins. O som da respiração ruidosa de Sônia tomava conta do cômodo e ele fez a sua ligação a observando, atento. Foi atendido na primeira chamada.

— Oi... Filho? Por que você que atendeu ao telefone e o que faz em casa? — Leon ouviu, e sua expressão se suavizou. — Ah, que bom. Você pode chamar a sua mãe, por favor? — E ele esperou por breves segundos. — Oi, Ilde, liguei para dizer que a Sônia passou mal. Você pode vir a casa dela para que não fique sozinha?

Sônia olhou, de súbito, para Leon.

— Ótimo! — continuou o homem — Não posso esperar por você, mas digo a ela que chegará logo.

Leon sorriu ao ouvir algo da esposa.

— Transmitirei o recado. Até mais tarde — respondeu e desligou.

— Não precisava fazer isso, Leon, eu já estou melhorando — falou Sônia.

— Você não pode ficar sozinha agora, e a Ilde me mataria se eu não avisasse.

— Muito obrigada, mas você conhece a Ilde, ela não vai querer ir embora ou vai querer me levar a um hospital.

— Melhor! Assim uma faz companhia à outra.

Leon não quis dizer que Ilde jamais ficaria longe de casa a noite inteira, dada a saúde do filho mais novo, ela certamente a faria ir dormir na casa deles e o general ficou satisfeito de igual maneira, não sabia se poderia voltar naquela noite também e Sônia seria uma companhia extra para a sua esposa.

— Está bem, obrigada mais uma vez.

— Você se sente melhor?

— Um pouco, mas estarei em ótimo estado dentro de alguns minutos.

— Então vou voltar ao trabalho e um dos rapazes fica para o caso de você precisar de ajuda até a Ilde chegar.

— Ah, não! Não é necessário, por favor, eu insisto! Vou ficar bem, juro! — E ela puxou o ar com força para adquirir um pouco de fôlego. — Além disso a Ilde vai chegar logo, prometo que nem saio desse sofá, não me faça sentir pior do que já estou, Leon.

— Sabe o que acontece comigo se a Ilde te encontrar sozinha aqui? Fique tranquila, ele vai ficar lá fora e só entrará se você chamar.

Sônia desistiu. — Está bem — concordou.

— Quero que fique tranquila quanto ao Edmund também.

Sônia apenas assentiu com novas lágrimas escorrendo pelo rosto. E Leon sinalizou para os dois rapazes, eles saíram mais depressa do que entraram, doidos para escaparem logo dali, no receio de que ela morresse na frente deles.

Sônia não os acompanhou, em vez disso secou o rosto, fechou os olhos e deitou a nuca no encosto fofo. Entretanto, levantou a cabeça rápido quando ouviu o som do motor do carro se afastando, os olhos sem qualquer resquício de lágrimas, depois correu para a janela e espiou através da cortina fina, um soldado estava na calçada, parado, vigiando a rua.

Sem perda de tempo, a moça trancou a porta e se apressou para o corredor entre os quartos, pegou uma haste fina de metal, escondida sobre um dos quadros modernos que colecionava, a ponta se retorcia num gancho, e ela cutucou uma das tábuas envernizadas do teto liso com ela, ao som de um clique, o alçapão oculto se projetou e Sônia o puxou com o gancho, a escada desceu em seguida e ela subiu alguns degraus, depois se debruçou no assoalho do sótão.

— Edmund! — ela chamou, mas ele já engatinhava até ela.

— Você está bem? — perguntou Edmund.

— Estou, por quê?

Ele apontou para os quatro monitores encostados na parede, o rapaz não fazia ideia que tinham tantas câmeras dentro e no entorno de sua casa.

Sônia comprimiu os lábios. — Sabia que você não resistiria sem ligar e ver o que era — incomodou-se.

— Eu só não desci porque não consegui abrir esse alçapão.

— E estragaria tudo. Eu não disse para confiar em mim? Que eu convenceria qualquer um de que estava morrendo de preocupação?

— Mas não disse que pareceria que estava morrendo de verdade. Eu vi você tomando os remédios, não estava fingindo.

— Aquilo é só um manipulado de camomila, com hortelã e cidreira. Dá uma relaxada, mas não é medicamento do tipo convencional.

— Tudo o que você fez foi atuação?

— Foi.

Edmund a encarou, desconfiado e confuso, sua cabeça estava fervilhando de perguntas e, ao mesmo tempo, não conseguia formular nenhuma, aquela mulher à sua frente não parecia a esposa com quem foi casado por nove anos.

— Você é cardíaca mesmo?

— Sim, isso é verdade, mas não sou a pessoa frágil que você pensa.

— Frágil é algo que eu nunca pensei que você fosse, mas... Tudo isso... — E ele olhou em volta. — Que lugar é esse? Desde quando existe um sótão aqui?

— Sempre existiu.

— Por que ele está cheio de mantimentos, dinheiro, malas, roupas? Se não tivessem roupas minhas também, eu diria que você planejava fugir de mim.

— Então já vou adiantando que você vai encontrar documentos e passaportes falsos. Sei o quanto odeia falsificações, mas eu tenho, para nós dois.

— O que isso quer dizer? O que está acontecendo?

— Edmund, talvez agora você comece a conhecer um outro lado meu, já viu um pouco disso hoje, não era para ser assim, sem conversarmos, mas aconteceu e não lamento. Essas coisas estão aqui porque gosto de ficar preparada e me antecipei para uma fuga quando me contou o que o coronel fez. Confesso que não queria que fosse necessária, mas também não tive grandes expectativas de que não fosse.

— Não explica esse sótão, escondido. Moramos aqui há oito anos e eu nunca suspeitei da existência dele.

— Eu escolhi a casa, lembra? Fiz a seleção pela engenharia, a única mudança que precisei fazer foi tornar esse cômodo a prova de som.

Edmund soltou uma risada de espanto e choque, não achava que poderia se surpreender mais.

— Amanhã mostro como você vai fugir — ela continuou — e mais tarde eu explico tudo o que quiser saber, mas agora preciso descer. Exagerei na encenação e o Leon chamou a Ilde para cuidar de mim, então você vai ter que ficar aqui o dia inteiro. Tem comida e água ali. — Sônia apontou para a parede à sua direita, depois para a janela no meio dela. — Daquela janela dá para enxergar as duas ruas laterais, se quiser vigiar. Não se preocupe em ser visto, não tem como ver de fora para dentro. Me desculpe por isso.

Ele dirigiu os seus olhos azuis mar para ela, mais brilhantes naquele momento, beirando ao pavor.

— Não me olhe assim — pediu Sônia. — Quero que não esqueça que eu amo você e tudo o que fiz, e vou fazer, é para proteger a sua vida porque, pelo que sei, a coisa não está boa para o seu lado.

— Você, me proteger? Não tinha que ser o contrário?

— Não quando eu posso proteger você melhor do que você a mim.

— O que isso significa?

Edmund nem sabia se queria saber, porém, sustentou o seu olhar inquisitivo.

— Tenho muitos modos de esconder você e planejei inúmeras saídas desde que soube que o Dimitri está jogando a culpa do erro com a busca dos soldados desaparecidos nas suas costas e que o marechal não está contente com isso. Não precisa ser um gênio para calcular as possibilidades, entre você e o sobrinho, é óbvio que o marechal vai escolher acreditar nele.

— Como você tem informações internas do exército?

— É complicado para explicar agora. Se você me ama, terá de confiar em mim.

— Está muito difícil agora.

— Você tem a minha palavra de que esclareço tudo o que puder quando estivermos sozinhos, tente manter a confiança em mim até lá. Agora preciso descer antes que a Ilde chegue. Tem uma alça do lado de dentro do alçapão, segure ela firme, empurre com força e depois puxe, o alçapão solta assim e você poderá descer. Mas só faça isso em último caso e com cautela, a Ilde não é nenhuma idiota.

— Não vou descer.

— Bom. Serei cautelosa também, a Ilde não vai saber que você está aqui. Odeio mentir para ela... mas no final, essa visita pode ser útil. Quem sabe ela queira convencer o Leon a falar com você em segredo e, talvez, sua fuga se torne desnecessária.

— Não vejo como isso pode ser seguro.

— Ele esteve preocupado com a sua segurança no período em que ficou no porta-aviões, por isso deu a ordem para que voltasse.

— É bom saber que nem todo mundo quer que eu morra.

— Acho que o Leon viu a mensagem que você mandou para ele e acreditou nela, se entendi corretamente o que ele me disse. Então já deve saber o que o coronel fez.

— Espero que sim.

— Tenha fé.

— Tome cuidado, este mundo militar não é para você.

Sônia mostrou um sorriso de mil significados, mas não podia dizer nenhum deles.

— Eu te amo! — disse, então, e desceu, puxando o alçapão com mais força do que era necessária para trancar.

Ao sair da casa de Sônia, Leon se dirigiu ao décimo segundo batalhão. A instalação enorme ficava a dois quilômetros da futura rodovia Marechal Alexander Zunik, era àquele lugar que os adolescentes iam após o fim do ensino médio, para treinamento. Ele foi ordenar a organização de uma equipe de especialistas para esquadrinhar o R-801, centímetro por centímetro, e outra para ir, com ele, ao suposto lugar onde teriam encontrado os corpos dos soldados que foram à pedreira Cesno.

Depois que acharam os carros fortes, o comando do exército se transformou num ambiente tomado pela calmaria como se tivessem resolvido todos os problemas provocados pelo Ás de Paus e, como não precisavam mais tanto de seus serviços na sede do governo, ele decidiu cumprir a ordem que Zunik deu antes de se dirigirem à usina abandonada e, com isso, resolver definitivamente o assunto que levou Edmund ao exílio no qual estava.

Leon escolheu o décimo segundo batalhão por conhecer melhor os militares de lá, treinou a maioria deles. Isso, unido ao fato de que Dimitri não tinha contato com aqueles soldados e eles mal conheciam Edmund, fazia da equipe a mais qualificada para o serviço. Em seguida foi falar com Wolsh mais uma vez, precisava acrescentar um novo nome às investigações: Félix Tahúr.

Bem longe, Ilde cuidava da amiga. Ela abraçou Sônia com força quando a moça abriu a porta.

— O que aconteceu? — Ilde entrou perguntando, a sua aflição transbordava na voz.

— Eu levei um susto e não me senti bem, mas o Leon não precisava chamar você, tomei o meu remédio e estou melhor.

— Ele não é louco de me esconder uma coisa dessas!

Sônia sorriu. — O Leon foi um doce, tentou ser gentil para me contar que o Edmund sumiu e me acalmou muito saber que ele está do lado do meu marido.

Ilde franziu as sobrancelhas bem delineadas.

— Por que alguém precisa ficar do lado do Edmund? O que está acontecendo?

— Vamos tomar um chá e eu te explico.

As duas foram para a sala de estar, impregnada do perfume de maracujá, emanado da chaleira fumegante a espera. E puseram-se a conversar.

Sônia contou o que ocorreu desde o dia em que Edmund foi enviado à pedreira Cesno, detalhou a história inventada por Dimitri para encobrir o fracasso da busca e depois como Edmund foi despachado para um porta-aviões do outro lado do país, no intuito de resolver hipotéticos problemas tecnológicos. Concluiu falando da suspeita de Edmund de que a viagem servia para que a mentira de Dimitri ficasse segura.

Naquele instante ela teve o impulso de contar que seu mal-estar não passava de fingimento e que Edmund estava sobre suas cabeças, desejou tanto dizer que precisou parar e respirar profundamente para impedir-se.

— Então é por isso que o Leon anda estranho, nervoso, não tem dormido direito há dias, isso quando não fica na sede do governo e ele odeia ficar lá — observou Ilde.

— Pode ser, não sei.

— Ele gosta muito do Edmund. O problema é que gosta também do Dimitri, não imagino por quê. Eu sabia que tinha alguma coisa suja acontecendo quando os soldados mortos voltaram vivos, salvos e mais saudáveis do que antes de desaparecerem, e não me surpreende nem um pouco que tenha sido o Dimitri quem inventou a morte dos garotos, preguiçoso como é, não iria querer continuar trabalhando nisso.

— Pensei o mesmo. Quando o Edmund foi, eu pedi que tomasse o máximo cuidado, tive medo pela vida dele naquele lugar e disse para voltar a qualquer sinal de perigo. Sei que ele não partiria de lá assim se não fosse por uma situação desse tipo.

— Quando o Edmund mandou a mensagem para o Leon?

— Pouco antes dos roubos aos depósitos e mercados — respondeu Sônia devagar, não podia dizer que soube daquela informação depois que Edmund chegou em casa e, pronunciar apenas palavra previamente avaliadas era a única solução para não se trair, Ilde perceberia de imediato.

— Sim! — compreendeu Ilde. — Foi desde aqueles dias que o Leon ficou esquisito e não quis me contar o que incomodava, pensei que era por causa das atividades terrorista, mas agora acho que não. Você sabe o que tinha na mensagem?

— Não.

— E quando foi a última vez que você se comunicou com o Edmund?

— Naquela época também.

Isso não era mentira, entre a conversa rápida com Edmund quando ele ainda estava no porta-aviões e o momento em que ele apareceu em casa naquele dia, não houve nenhuma comunicação entre os dois, ainda assim doeu dizer aquilo à Ilde.

E a mulher se recostou no sofá, pensativa, depois voltou-se à Sônia.

— Você aceitaria falar com o Leon sobre isso, junto comigo? Ele precisa saber todas as versões dos fatos. Conheço o Leon, ele vai tentar proteger os dois, mas aquele verme do Dimitri tem vantagem e o Edmund vai precisar da ajuda dele.

Sônia sorriu, aliviada, nem precisou mentir tanto para conseguir o que desejava, e pegou a mão de Ilde.

— Muito obrigada! — Algumas lágrimas voltaram a cair, verdadeiras dessa vez. — Eu não sei o faria sem você.

— De jeito nenhum eu deixaria você passar por isso sozinha.

Sônia suspirou, seus ombros relaxaram pela primeira vez em dias e ela chorou, agora em desabafo, escoando o nervosismo que controlou até ali. Primeiro a tensão de Edmund ser mandado para longe com um objetivo discutível, em seguida os escassos contatos, depois o desespero de não receber notícias dele e havia só dois motivos para tamanho silêncio, ele estava morto ou fugindo.

A moça tinha certeza de que a preocupação a mataria, indiferente de quanto do seu controle utilizasse, se não tivesse recebido a informação de que ele estava voltando encoberto pela identidade falsa que ela lhe deu. Edmund encontrou vias não oficiais para viajar, o que prolongou seu retorno e aumentou sua angústia. Sônia só conseguiu relaxar quando ele chegou, exausto, minutos antes de Leon bater em sua porta e ela o enfiou no sótão rápido, sem explicações ou conversa.

A visita de Ilde foi o bálsamo de que ela precisava. A mulher esperou até que se esgotassem as lágrimas da amiga, massageando levemente seus cabelos para acalmá-la, e só depois retomou o assunto.

— Não se preocupe, vai dar tudo certo — Ilde falou e Sônia olhou para ela cheia de genuína gratidão, quis novamente contar que Edmund estava ali, à salvo, mas a decisão tinha que ser dele, já que era o dono da vida que estava em risco. Então, foi ao banheiro se recompor, e parou em frente à câmera do corredor, sinalizou uma mensagem clara, em libras: disse que confiava em Ilde e que, se desejasse, descesse para falar com ela, seria muito mais útil ter aquela conversa com Leon juntos. Ela sabia que o marido estava olhando, em vez de descansar como deveria.

1/1
Menu

Fazer anotação