Verdade Dolorosa Ás de Paus · Capítulo 23 de 33
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Verdade Dolorosa

Ao contrário do que julgou, Leon pôde ir para casa e ainda obteve a dádiva de chegar cedo, o sol nem havia se posto. Ilde não estava e sabia que ela só retornaria perto do anoitecer, possivelmente na companhia de Sônia e foi banhar-se após dar uma rápida olhada no filho, ele estava acordado e sorriu para o pai, conversaram um pouco e o homem foi relaxar debaixo da ducha, aqueles dias estavam tão tensos que nem a água quente sobre os ombros foi capaz de desfazer a rigidez do pescoço.

Ilde demorou horas para voltar e chegou chamando-o desde a entrada, com Sônia ao seu lado como ele previu e Leon desviou o olhar do esporte norueguês que assistia na televisão.

— Boa noite, Sônia. Você está melhor? — disse, levantando-se para cumprimentá-la adequadamente.

— Estou, obrigada.

— Leon, pode voltar a sentar, temos que conversar — disse Ilde.

Ele olhou para uma e para outra, ambas ansiosas, Ilde estava a ponto de empurrá-lo de volta para o sofá.

— Está bem — ele disse e voltou, sentou-se e desligou a televisão. — O que houve?

— Antes, me prometa que você ouvirá tudo, sem fazer objeções e que não tomará uma decisão precipitada.

— Prometo — respondeu Leon.

Ilde verificou o entorno, naquele horário nenhum empregado, além de Eleanor, a leal governanta, ocupava o interior da casa, mas Antony, sim, e nem ele deveria ouvir.

— O Antony está no quarto?

— Está.

Ela acomodou-se, então, com Sônia e Leon.

— Nós achamos o Edmund, quero dizer, ele nos achou — começou Ilde. — Ele chegou agora há pouco, em fuga. Houve um atentado contra a vida dele.

E ela resumiu a história para o marido, Sônia tomou o seu lugar na narrativa quando Ilde saiu para os fundos da casa. A mulher voltou, trazendo Edmund quando Sônia terminava de contar o que sabia, omitindo o fato de que enganaram Ilde quanto ao horário em que ele chegou.

Leon ouviu no silêncio prometido, conectando cada revelação com os indícios encontrados nas próprias investigações e foi até o rapaz ao vê-lo se aproximar, tenso. Depois de tudo o que aconteceu, a confiança de Edmund se tornou instável.

— Você está bem? Foi ferido? — perguntou Leon.

— Não, senhor. Eu me defendi, deixei os homens que me atacaram impossibilitados e saí de lá na mesma hora.

— Reconheceu alguém?

— Não.

— Eu recebi a sua mensagem.

— Que bom! A situação digital naquele porta-aviões é um lixo.

— Você não parece surpreso, Leon — observou Sônia.

— É porque não estou. Eu disse que o Edmund voltaria para a casa de vocês e supus que se tratava do retorno dele quando a Ilde disse que precisávamos conversar.

— Tenho que ser menos previsível — reclamou Ilde e Leon voltou-se a Edmund, sua alegria por vê-lo salvo transparecia no olhar.

— Você mudou as câmeras de posição dentro do depósito?

Edmund sorriu, malicioso. — Sim. Fico contente em saber que o senhor descobriu, fiz aquilo porque, se eu não conseguisse voltar, queria que alguém visse o que estava acontecendo lá.

— Já mandei a sua equipe descobrir quem é Félix Tahúr e estão trabalhando nisso.

— Obrigado, senhor. É bom que saiba também que o cargueiro está levando parte do contrabando endereçado à Félix Tahúr. Saí do porta-aviões em um deles e descobri os embrulhos durante o trajeto.

— Então é por isso que os cargueiros começaram a pousar no porta-aviões.

— Imagino que sim. Acho que não percebi que tinha produtos de contrabando nos carrinhos de transporte porque estava nervoso demais para prestar atenção neles antes de decolar e eram pacotes menores, estavam misturados aos outros.

— Você pousou na Belerofonte, não foi?

— Sim. Como sabe?

— O contra-almirante o viu embarcando no cargueiro, pelas imagens das câmeras de segurança, e aproveitou para deletar aquelas em que você aparecia.

Edmund comprimiu os lábios. — Eu pensei que tivesse me escondido bem.

— E se escondeu, ele é que foi minucioso. — Edmund assentiu, esgotado. — Agora sente-se e me conte o que você sabe, desde a primeira falha de comunicação, antes de o Ás de Paus se apresentar.

Foi o que Edmund fez, aliviado por, enfim, poder falar tudo.

Leon levou Edmund e Sônia de volta para a casa deles, haveria muitos riscos em deixá-los irem sozinhos, e Edmund finalmente sentiu seus músculos descontraírem todos de uma só vez, aquilo foi um pouco doloroso, mas foi bom.

— Tome um banho mais demorado para relaxar, vou preparar um lanche e levo ao quarto — falou Sônia.

— Não! Antes você me deve explicações.

— É uma longa história. Não prefere descansar primeiro?

— Eu tenho tempo. Não conseguirei dormir sem saber o que mais desconheço nessa casa e, principalmente, sem saber o que desconheço sobre você.

— Está bem, me acompanhe. — E ela foi para a cozinha, com Edmund, colocou água para esquentar, um bolo e uma empada, que tinha comprado para Danielle, em cima da bancada e abaixou-se sob ela. — Em primeiro lugar, gostaria que soubesse que nunca cogitei viver como vivo hoje e foi você quem mudou os meus planos — ela iniciou, puxando duas xícaras de lá e as depondo entre ela e Edmund.

— E o que isso quer dizer?

— Vou ter que pedir a você o mesmo que a Ilde pediu ao Leon: Que escute tudo primeiro e depois decida o que quiser. Se eu puder pedir algo mais, peço que pense com calma antes de qualquer ação.

— Não posso garantir, mas vou ouvir.

Sonia respirou fundo, hesitou, sentou-se e começou:

— Meu nome é mesmo Sônia, foi o nome que meus pais biológicos me deram, mas não sou uma Foltran. Eles morreram em um maldito centro de extermínio, e eu fui obrigada a adotar outro sobrenome. — Edmund franziu as sobrancelhas; ela entendeu por que, e explicou. — Aquilo que vocês chamam de “Centros de Cura”. O que se fala nas ruas sobre eles é a verdade: são centros de extermínio, laboratórios de testes forçados, projetados por um louco fã do sistema e financiado por monstros que amam provocar a morte, a dor e o sofrimento. — Seus olhos se fixaram nos dele em um desafio silencioso. — Sádicos nunca deveriam ter poder ou dinheiro.

— Não sei quem disse isso a você, mas...

— Não estou enganada, eu estive em um, nasci no Diamante. Primeiro, infelizmente não mais o maior e agora torrado Centro de Extermínio. Hilário eles terem nomes de pedras preciosas, são, sem dúvida, precisos para alguém.

— Do que você está falando? São centros hospitalares e de pesquisa, muitos medicamentos são produzidos lá. Eles salvam vidas.

— De quem exatamente? Para onde vai a maioria do que é produzido nos centros?

— Exportamos, sim, mas fica o suficiente aqui. O seu medicamento é produzido nos Centros.

— E mesmo assim preciso importar, o que é fácil, eu tenho condições de comprar, mas sou uma exceção.

— Você está tentando me confundir... O que isso tem a ver com...

— Você já ouviu falar de algum “paciente" que tenha se curado e saído dos Centros? — Sônia interrompeu. — Já ouviu falar de qualquer pessoa levada àqueles lugares que tenha saído?

Edmund recuou e refletiu, nunca sequer pensou nisso, não era seu trabalho pensar naquele assunto e ele só fazia o que lhe era ordenado. Mas percebeu que, de fato, nunca soube de alguém que tenha saído de um Centro de Cura.

— Deve haver muitos, eu não trabalho com o setor médico, por isso não sei.

— Tem uma coisa que você sabe. Os tipos de pessoas internadas lá.

Isso ele sabia bem, grande parte dos prisioneiros eram enviados para os complexos científicos.

— Os prisioneiros vão para os centros em troca do arrefecimento de suas penas, vão para ajudar com as pesquisas ou com os pacientes, é uma eficiente forma de recuperação dos detentos.

— E nunca voltam. É muito simples para você comprovar, basta entrar no sistema e ver quem ganha alta. Além do mais, não é qualquer preso que vai para os centros; são escolhidos apenas os que têm pele escura ou praticam supostos crimes contra a sociedade, e você conhece a lista de crimes classificados assim tão bem quanto eu, discorda da maioria deles também. Um professor e um bibliotecário foram recentemente para o lugar onde nasci. Por causa de um livro. Acha que eles foram mandados para lá em busca de que cura?

Quanto mais Sônia falava, mais verdadeiras suas palavras pareciam e Edmund cerrou os punhos. — Isso não tem ligação com o que estamos tratando aqui. Você não está me explicando nada.

— Tem ligação. Se você quer saber tudo sobre mim, tem que entender que a minha história começa aí.

Edmund quis argumentar, mas calou-se, fixando seus olhos chocados na esposa.

— Meus pais moravam no bairro colonial, onde hoje fica o Forte Delta. Para ele ser erguido, a área precisou ser desocupada e, em vez de realocarem ou expulsarem os moradores, prenderam e distribuíram pelos centros. Minha mãe estava grávida e deu à luz lá, na época ainda não faziam experiências com bebês, só com crianças mais velhas...

Edmund levantou-se. — O que você está querendo, Sônia? Bebês? Crianças? Quer me fazer acreditar que os maiores centros de medicina e pesquisa do continente, são laboratórios de carnificina? Por quê? Isso me faz crer que o que vem pela frente é muito pior.

— E é.

— Não! Por que você está fazendo isso?

— Estou fazendo o que você me pediu. Eu avisei que era uma longa história e você disse que ouviria, mas se não quiser mais saber, eu não continuarei.

Edmund permaneceu encarando, com as narinas dilatadas, nem ter sido quase morto, depois levantar voo de um porta-aviões dentro de um bagageiro, rastejar pela lama quando saiu do cargueiro e fingir ser outra pessoa para chegar ali vivo, fez o seu coração acelerar daquele jeito.

— Quer que eu continue? — ela perguntou.

— Eu não sei!

— Está bem, paramos por aqui, então.

E Sônia foi para o fogão acompanhar a fervura da água. Edmund levou alguns segundos para entender o que queria, as dúvidas ficaram maiores, estava confuso e com raiva, não sabia mais nada sobre nada, mas logo se lembrou de algo que sabia, não suportaria viver nem um segundo com as dúvidas que martelavam os seus pensamentos com a força de uma marreta.

— Eu quero que continue — pediu, então.

Sônia não olhou para ele ou se moveu, continuou observando a chaleira e prosseguiu:

— Fui tirada daquele lugar aos seis anos, quando as experiências começariam comigo, o homem que me resgatou, resgatou muita gente de lá e resgataria minha mãe também, mas ele chegou tarde para salvar a vida dela e meu pai já tinha morrido fazia tempo. Quando ele foi me buscar, ela estava no fim, injetaram... — ela hesitou outra vez, Edmund já estava transtornado demais para falar tudo como intencionava à princípio — injetaram uma substância nela para testagem. Tenho as fichas dos dois, se quiser eu mostro mais tarde.

— Hidrocarboneto.

Sônia olhou para o marido. — Sim, foi uma das coisas... Como...

— Sei de que fichas você está falando. Achei lá em cima enquanto esperava.

— Então não preciso entrar em detalhes, você deve ter visto os carimbos e assinaturas, o brasão em cada folha e o nome do lugar.

— Você me deu documentos falsos uns anos atrás.

— Mas as fichas não são falsas, elas são dos meus pais.

— Continue.

A chaleira chiou, Sônia a pegou e trouxe para a bancada.

— Quando o homem veio me pegar, eu gritei e me agarrei a minha mãe, eu não queria machucá-la, tinham bolhas enormes no corpo dela e eu sabia que doíam, mas eu estava com tanto medo... — a voz da moça fraquejou e ela respirou fundo para estabilizá-la, enquanto enchia as xícaras de água quente, os infusores de metal tilintaram de encontro a porcelana, enquanto o suave perfume de hortelã se elevava. — Aquele homem me apavorava, eu já o tinha visto buscar pessoas que nunca voltavam, não de uma maneira sorrateira como naquela noite, mas como militar. Então, minha mãe calmamente acariciou os meus cabelos, sorriu e me disse para ir com ele, que era um homem bom, que só se disfarçava como um dos maus para que ninguém soubesse o que ele fazia, disse que ele me tiraria de lá e cuidaria de mim. Esse homem foi até a maca, queria saber por que fizeram experiências nela e se minha mãe podia levantar, infelizmente ela mal respirava, só teve forças para pedir que me protegesse, acho que estava resistindo só para me entregar a ele.

— Não tem como você se lembrar disso se tinha só seis anos.

— Eu me lembro como se tivesse acontecido há algumas horas, e não é apenas disso que me lembro. Aconteciam coisas paralelas lá, coisas que os guardas faziam para ocupar o tempo deles, os gritos atormentam os pesadelos dos quais você me acorda às vezes.

— Não... — E ele sacudiu a cabeça como se quisesse afugentar as imagens que se formavam lá. — Para com isso, Sônia, se não quer dizer a verdade...

— Eu posso parar, não quero mesmo falar sobre isso.

— Olha o que você está dizendo! Acha mesmo que vou acreditar nessa história?

— A opção é sua, não estou pedindo e nem vou pedir para que acredite, mas agora é a hora de te contar toda a verdade.

— Que verdade? Nada do que está dizendo faz sentido, não entendo por que você está inventando...

— Não estou inventando! — interrompeu outra vez Sônia, firme e irritada. — Não há como explicar nada da minha vida sem você saber dessa parte.

Edmund cruzou os braços. — Então continue... Não tem como esse conto piorar.

— Tem, sim, e vai piorar muito. Mas, enfim, as últimas palavras da minha mãe foram para eu ser boazinha e a primeira coisa que fiz foi desobedecer. O homem me pegou e correu comigo e é claro que não fui quieta como deveria, eu gritei, esperneei, mordi, puxei os cabelos dele, mesmo assim ele não me soltou, tinha fumaça, gritos de ordem e barulho de água nos corredores, foi o que abafou o meu escândalo. Quando saímos, ele me entregou para uma mulher — Sônia parou um instante, sopesando se poderia falar aquele nome ao menos e optou por dizer —, a Ivana...

— Sua tutora? — duvidou Edmund.

— É — confirmou Sônia. — Ele me deixou com a Ivana e voltou, ela me fez parar de berrar com mãos fortes e uma voz de aço que me apavorou mais do que o homem. Entrei no furgão muda e me acalmei um pouco quando vi outras crianças lá dentro, junto com uma menina mais velha, que distribuía água. Eu soube na hora que não era uma de nós e, em seguida, que não era para estar no local porque a Ivana gritou com ela durante metade do percurso por ter ido escondida. Mas a menina fingiu nem ouvir e sentou do meu lado, pegou a minha mão e se tornou minha irmã, foi o pai dela quem me resgatou, depois me adotou, me deu uma nova identidade e uma nova vida.

— Como uma falsa Foltran.

— Não falsa porque não existia nenhuma família Foltran aqui, não assumi a identidade de ninguém, só inventei uma para mim. Eu merecia ter uma que não me metesse em outro campo de extermínio.

— Para de dizer isso.

— Eu nunca vou parar, porque é o que esses lugares são! — alterou-se Sônia.

Edmund começou a rir, desatinado. — Isso não pode ser real. Acho que me jogaram no mar e estou tendo um delírio pré-morte.

— Devo continuar?

— O que você vai me dizer agora? Que os cientistas dos centros são monstros extraterrestres, que vieram à terra para dizimar a população?

— Monstros, com toda certeza, extraterrestres, não. Para que precisaríamos que viessem de fora do planeta se já temos os piores aqui?

— Chega! Já foi o suficiente para mim, entendi que você não quer me contar a verdade. E, se inventou tudo isso, é porque a verdade é que você me enganou a vida inteira. Nosso casamento é uma mentira. Como eu sou cego, idiota... Eu acreditava que era inteligente, mas olha para mim! Um trouxa, feito de bobo por quatorze anos pela mulher por quem pensou ser amado.

— Eu amo você, essa é a única verdade completa e só não estou fazendo o que cresci planejando fazer por sua causa.

— E o que seria?

— Revolução.

Edmund riu de novo. — Contra o que? Nossa vida não é perfeita?

Sônia balançou a cabeça de um lado a outro. — Falhei com você, Edmund. Eu devia ter arrumado um jeito de mostrar as coisas como elas são de verdade. Nada é como você pensa, a bolha de cristal na qual você foi criado não é a realidade de quase ninguém, e a realidade da população desse país é viver na fome, dor, desinformação e medo, cada pessoa dentro das nossas fronteiras, e abaixo dos Novakohut, é prisioneira de uma forma ou de outra, até mesmo você, só não percebe.

Edmund olhou para Sônia, em desespero, não queria aceitar que a vida ao lado dela tinha sido uma ilusão.

— Você venceu — disse após alguns segundos. — Não quero mais saber de nada.

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