A Fúria de Zunik
Danielle não vivia dias tão maravilhosos fazia muito tempo. Dimitri não voltava para casa havia dias, ela mesma não o viu mais e fazia o que tinha vontade, era libertador, até seus hematomas desapareceram, a moça nem se lembrava mais de quando viu o seu corpo inteiro sem escoriações.
Naquele dia atribulado para o seu marido, o que mais agitou o seu dia foi a aparição repentina de Ilde e Sônia, as duas almoçaram com ela em animado monólogo de Ilde, detalhando o que sabia sobre os acontecimentos noturnos, mesmo assim ela não deixou de reparar na transformação de Danielle longe de Dimitri. Em seguida elas foram ao Spa, Ilde estava preocupada com Monique e com a possibilidade de a empresa ter sofrido invasões também.
Mas Monique não teve problemas, sequer sabia das fofocas da cidade e Ilde se encarregou de atualizá-la entre xícaras e xícaras de chá, terminou fazendo recomendações de segurança.
— Não estou preocupada — respondeu Monique. — Não tenho nada que possa ter valor para um terrorista.
— Esse homem é louco, não sabemos o que quer. Só prometa que vai tomar medidas de prevenção — pediu Ilde.
— Vou fazer isso, prometo. — E ela soltou a xícara para conceder total atenção ao trio. — Então? O que vão fazer hoje? Os banhos de argila estão prontos para o uso.
— Hoje eu não vim para isso, só queria saber como você está — respondeu Ilde.
— E eu vim por outro motivo — disse Danielle. — Você ainda tem aquela vaga para a contabilidade?
Monique abriu o seu maior sorriso. — Sim, tenho. Você vai aceitar trabalhar comigo?
Danielle também sorriu. — Nada me dará mais prazer.
— Ai que alegria que você me deu agora! — rejubilou-se Ilde e abraçou a amiga, contente por ver Danielle dar o primeiro passo para longe dos grilhões.
— Também estou feliz — falou Danielle.
— Mas e o Dimitri? — preocupou-se Sônia.
— Ele não precisa saber.
Sônia sorriu para ela em resposta.
— A minha casa pode ser um dos seus lugares de trabalho — propôs Ilde —, tenho um escritório ótimo e sem uso lá. Assim você disfarça o serviço como visitas a mim, além de dias de beleza aqui.
Sônia apertou o braço de Danielle em apoio:
— Estou muito orgulhosa de você e só não ofereço a minha casa também porque o seu adorável marido não deixa você me visitar, então seria um problema a mais para pensar, mas faço todo o seu assessoramento jurídico, se quiser. E não se preocupe com o Edmund, ele só vê o que eu quero que ele veja.
— Podemos combinar um modo de fazer o pagamento dela para que o esposo não saiba e não tenha acesso? — perguntou Monique a Sônia.
— Com toda a certeza.
— Então, mais encaminhado do que isso, não há como ficar.
Se Danielle já sentiu tanta felicidade, ela não se lembrava e ficaram ali, com Monique, planejando e comemorando o novo emprego da moça.
Logo outras clientes começaram a chegar e mudaram de assunto, mas os novos assuntos trazidos pelas clientes eram um só, os roubos, e Ilde parou para ouvir, de alguma maneira as notícias sobre os delitos noturnos vazaram e as teorias de quem teria executado tal ato se intensificaram. O codinome Ás de Paus foi mencionado diversas vezes no decorrer da tarde, afinal, ninguém nunca desafiou o governo e Ilde sabia que isso seria mais um problema para Leon resolver.
O frigorífico Tordon, isolado por quilômetros graças ao odor fétido que exalava, exibia uma estranha calmaria quando o pequeno grupo de soldados chegou, e não demorou para acharem a causa: dezenas de pessoas estavam amarradas e vendadas no saguão, os funcionários entre eles.
— Aqui é o primeiro-tenente Adrian Kirst. Estão todos bem?
A reverberação da sua voz alvoroçou os prisioneiros e ele sinalizou para que as equipes se dividissem, seu olhar procurava potenciais perigos em cada sombra, nenhum movimento escapou de sua visão, nenhum ruído fugiu de sua avaliação, até que julgou a área segura o bastante para se aproximar dos reféns.
— Estão todos bem? — ele repetiu a um soldado a quem desatava as mãos.
— Eu estou, senhor, não sei quanto aos outros. Mas estávamos todos bem antes de vir para cá.
— E onde vocês estavam?
— Também não sei, fomos trazidos para esse lugar vendados, na carroceria de um caminhão, identifiquei o transporte pelo som do motor e, pelo ar fresco, deduzo que era madrugada. A viagem durou cerca de duas horas, talvez um pouco mais ou menos, não tenho certeza, eu sabia que estávamos desembarcando no frigorífico por causa do cheiro, ouvi vozes quando fomos colocados aqui, depois senti um forte cheiro adocicado e apaguei. A próxima coisa que ouvi foi a sua voz.
— Onde vocês foram capturados?
— Na saída do terceiro anel. Três dos nossos carros bateram em uma corrente, logo depois da curva que antecede a rodovia Capitão Teodoro Vicente, em seguida ouvimos bombas, pensamos que era de efeito moral, mas a fumaça veio com esse cheiro doce e, quando acordamos, estávamos presos em um local de meia luz, limpo e alto, havia camas também limpas e um banheiro com porta, parecia um dormitório. Ficamos separados em grupos de doze e trocávamos a cada dois dias.
— Você faz parte do destacamento que foi enviado para a pedreira Cesno? — surpreendeu-se Adrian.
— Sim.
O primeiro-tenente observou os outros cativos, liberados gradativamente por seus homens, havia muitos soldados entre eles, um provável destacamento e mais. E se voltou ao rapaz.
— Há feridos?
— Não. Encontrei todos os meus companheiros, os feridos foram tratados e éramos alimentados três vezes ao dia, tínhamos água potável em abundância e até um chuveiro.
— Então não há mortos também.
— Nenhum. Conheci alguns obreiros e combatentes de outra divisão, e eles relataram o mesmo.
— Certo. Se está bem, junte os soldados e me encontrem na porta.
Adrian confirmou o relato com outros prisioneiros e os deixou para examinar o estado do prédio, enquanto não conseguia contatar o quartel general.
Ele e seus homens realizaram uma demorada varredura no frigorífico, e os comunicadores permaneciam mortos. Começava a suspeitar que teria de enviar alguém em busca de auxílio, quando a voz condensada eletronicamente, do Ás de Paus saiu nítida e clara, com o recado sarcástico para o marechal, sincronizado em cada rádio ao alcance de sua audição.
— Meu Deus! — ele balbuciou, desconhecia a dimensão real dos acontecimentos da noite, mas tinha certeza de que aquela voz era do Ás de Paus e, se ele agradeceu por verba, só podia ter sido algo incalculável.
O chiado comum do aparelho voltou e seu primeiro impulso foi o de tentar novo contato, mas hesitou, temendo que pudesse ser ouvido pelo inimigo e não por quem precisava ouvir. Ele apertou o rádio, indeciso, seus homens e os reféns resgatados estavam alarmados, na trilha do medo maldisfarçado. Embora não tenha passado de uma voz, isenta de apresentação, todos sabiam a quem pertencia.
Após acalmar seus comandados, o primeiro-tenente refletiu, pesando os riscos e a demora de enviar alguém em busca de assistência, e concluiu que não faria diferença se o Ás de Paus ouvisse, estava claro que ele deixou aquelas pessoas ali para que as encontrassem, então ativou o aparelho e dessa vez foi rapidamente atendido.
— General Handersen na escuta, pode falar primeiro-tenente Kirst.
— Senhor, encontramos prisioneiros... Muitos. São os funcionários do frigorífico e também nossos homens, alguns eu não identifiquei ainda, mas uma parte é do destacamento enviados para a pedreira Cesno. Eles estão vivos e bem. Vou precisar de transporte, para mais ou menos trezentas pessoas.
Leon afastou o corpo do rádio, precisava de alguns segundos para processar a novidade. Dimitri congelou e a paralisia boquiaberta dele mostrou a Leon tudo o que ele precisava saber.
— Vou providenciar agora mesmo — respondeu um instante depois. — Não há dúvidas de que são os soldados desaparecidos?
— Não, senhor. Confirmei com cinco deles, só não informei antes porque o rádio estava com problemas.
— Não era o rádio, primeiro-tenente, era a rede.
— Eu desconfiei quando o sinal voltou logo depois da transmissão do Ás de Paus.
— O que? Como ouviu?
— Pelo rádio.
Alguns segundos se passaram até que Leon internalizasse mais aquela notícia. — Primeiro-tenente! — ele chamou. — Agora já sabemos que vocês estão esperando transporte, então só entre em contato novamente se for algo de extrema necessidade, farei o mesmo.
— Entendido.
— Quantos, dos prisioneiros, estão feridos?
— Nenhum. Não há feridos, foram todos abatidos com algum tipo de gás, suponho, porque cada pessoa com quem falei, relata ter sentido o mesmo aroma adocicado antes de perder a consciência.
— Conseguiram dizer mais alguma coisa sobre esse aroma?
— Só que era doce e um disse que era bom. Não consegui identificar a substância e acho que nem eles conseguem.
— Isso é ruim.
— É, sim. Acredito que o Ás de Paus tenha recursos, o bastante para produzir um gás capaz de colocar um destacamento robusto para dormir e... — Adrian vacilou, novamente inseguro sobre o quanto podia falar, mas achou melhor revelar cada informação colhida enquanto tinham contato, não havia como saber se a comunicação seria suspendida outra vez — eles também têm fardamento blindado. Alguns alegam tê-los alvejado e as balas não ultrapassaram o tecido das roupas dos inimigos. Não coletes, vestimentas completas.
— Não pode ser! É possível que tenham sofrido alucinações?
— Eu acho que não, foram relatos diferentes, de ações sofridas em épocas e lugares diferentes, dizendo a mesma coisa.
— Está bem. E há uma linha de tempo para o que ocorreu aí?
— Tudo foi feito entre meia noite e o amanhecer. Essa é a única certeza que puderam dar.
— Houve algum roubo?
— Me parece que não, mas acho importante que seja feita uma perícia.
— Obrigado, primeiro-tenente, falaremos melhor quando você voltar. Bom trabalho.
— Às ordens, senhor.
Leon se voltou a Dimitri, o coronel tinha o rosto cadavérico, vertendo suor. Dimitri notou que Leon o observava estranho desde cedo, mas ali o seu olhar era de profundo desgosto, para seu alívio, o general não disse nada, apenas levantou-se e saiu. Contudo o alívio foi momentâneo porque Leon se dirigiu ao gabinete de Zunik.
Ziger corria naquele instante, achou que seria rápido transmitir a ordem do marechal presencialmente, mas não foi, desse modo acabou nem ouvindo a mensagem do Ás de Paus, tampouco notou que as comunicações haviam sido reestabelecidas, percebeu com um sobressalto quando a voz de Dimitri saiu estridente do autofalante do carro, assim que retornou a ele.
— Zig! — ele vociferou.
— Coronel?
— Quem mais seria? — Muitas pessoas, pensou o capitão. — Vá para o Imperial Bank.
— Mas e os outros?
— Não viu que o rádio está funcionando? Só não passe informações importantes por aqui, venha dizer em pessoa.
— Certo. Eu estou perto da usina, não é melhor...
— Agora! — ordenou Dimitri.
— Sim, senhor.
Ziger deu a volta e retornou para o centro da cidade, era longe de onde estava e levou mais de meia hora para chegar lá, a polícia já enchia o local e ele correu, apavorado, para dentro do banco.
— Comandante! — ele chamou ao ver o chefe de polícia junto do gerente da instituição.
— Capitão Ziger, é bom ver o senhor — respondeu o oficial. — Esse é Deusito, o gerente do banco, ele disse que, quando os funcionários chegaram, as portas estavam trancadas exatamente como deixaram ontem, por isso demoraram alguns minutos para notar os cofres vazios e as portas dos fundos desaparecidas, até isso foi roubado, e nenhum alarme foi acionado — o comandante foi contando, na crença de que Ziger estava informado do sucedido. — Ele estava me dizendo agora que entrou em contato conosco na hora e ligamos para a sede do governo logo que chegamos aqui.
Ziger parou de respirar, tudo o que tinha estava guardado naquele banco, mas não quis mostrar o seu desespero àquelas pessoas, e olhou em volta, enquanto procurava uma fonte de calma em seu interior.
— E as imagens das câmeras? — perguntou, então.
— Não há nenhuma, elas pararam de funcionar as vinte e três horas, no que acredito ser o horário do roubo, e não voltaram até agora — explicou Deusito.
— Então ele tem controle das câmeras privadas também — concluiu Ziger.
— Ele quem? — perguntou o comandante.
Ziger o ignorou e se virou para o gerente.
— Me mostre a porta por onde entraram — mandou.
— É por aqui — falou Deusito.
E os três se dirigiram aos fundos, a abertura projetada para a entrada de carros fortes consistia em um largo buraco quadrado, as portas só deixaram dobradiças derretidas, e as marcas frescas de pneus indicavam que foram carros desse tipo que usaram para o roubo. Se alguém visse, não suspeitaria, considerando que era o método comum de transporte de bens.
— Vou precisar de peritos aqui. É impossível que nenhum fio de cabelo tenha ficado para trás depois de um roubo desse tamanho.
— Eu já solicitei, capitão — disse o policial.
— E os cofres?
Mais uma vez ele foi guiado pelo enorme e belo banco até os cofres, tão belos quanto.
— Ninguém entrou aqui, quando vi as grades abertas, isolei a área — relatou Deusito.
— Era o mínimo. — E Ziger entrou devagar, estudando centímetro por centímetro com a máxima atenção, não precisou dar três passos além da grade que separava os cofres do restante da agência para ver o cartão colado na gaveta em frente à entrada, agora estava sóbrio o suficiente para perceber o A com o símbolo de paus alado na frente. — Os peritos vão demorar?
— Já devem estar chegando — respondeu o chefe de polícia.
— E o que estas pessoas continuam fazendo dentro do banco?
— Estamos interrogando antes de liberar.
— Aqui não é lugar para interrogatórios, que vão fazer isso na delegacia.
— Com todo o respeito, capitão. O senhor é autoridade no exército, na polícia quem manda sou eu.
Ziger fulminou o homem com o seu pior olhar. — Isso é assunto do governo, está acima de você.
— Ainda é um roubo e cabe à polícia investigar. O senhor pode ficar e acompanhar, se quiser, mas sugiro que não atrapalhe o nosso serviço e nem o dos peritos, então saia desse cofre, por favor.
Ziger se virou, ultrajado, e saiu do prédio. Projetou sua revolta nos pneus do carro, que fumegaram gritando na partida para sede do governo a dez minutos de distância.
Zunik percebeu, de imediato, que foi vítima do velho truque da distração, que o direcionaram como um cão para o outro lado da cidade enquanto o real objetivo era o banco e isso o enfureceu de tamanha maneira que invadiu a sua sala e quebrou tudo o que era possível quebrar, até a mesa pesada de madeira ele conseguiu virar e o seu rádio, via satélite, escorregou rumo à porta, ele saltou sobre o dispositivo como se ele fosse culpado pela derrota que vivia.
O que adiantava ter aquilo, se ninguém com quem precisava falar tinha um para ouvi-lo?
Zunik amava a exclusividade, não havia um par para o seu carro, nem mesmo os seguidores mais leais recebiam permissão para adquirir um parecido, sequer da mesma marca ou cor, seus répteis eram tão raros quanto o dinheiro podia pagar, até suas roupas eram importadas sob medida para que ninguém pudesse se vestir com semelhante qualidade.
E tinha aquele rádio. Obtido para se comunicar com qualquer pessoa no mundo, livre de interferências. Ele fazia questão absoluta de ser o único a possuir um bem ostensivo como aquele dentro das fronteiras nacionais, e foi justamente esse senso de exclusividade que o impediu de contar com um meio de comunicação desimpedido que o salvasse de cair na armadilha.
Com uma nova onda de fúria ele pisou no aparelho e o estilhaçou. Já não tinha mais nada para destruir, ainda assim a raiva não cessou, ao contrário, ganhou combustível com a chegada de Leon.
— Senhor, o grupo que foi ao frigorífico fez contato.
— O que? O lugar inteiro foi roubado e sobrou só o terreno?
— Não! Eles encontraram os nossos homens e os trabalhadores do frigorífico, vivos e bem.
Zunik se virou para Leon. — Quais homens? Não havia soldados no frigorífico.
Leon hesitou por um milésimo de segundo.
— Os que foram para a pedreira Cesno e creio que os que vigiavam a construção em frente a usina — respondeu.
O marechal não respondeu, e passou pelo general com o ódio ecoando em cada passo. — Dimitri! — Ele gritou do meio do corredor, uma voz tão alta e forte que fez Dimitri tremer em sua cadeira no Centro de Operações, naquele instante ele se arrependeu por não ter feito oposição à montagem do quartel general temporário ali, tão perto da sala do tio.
— Você não disse que os nossos soldados estavam mortos? — Zunik entrou questionando.
— Eu estou tão surpreso quanto o senhor. O major disse que estavam mortos e que os enterrou, eu acreditei nele.
— Viu as provas? Foi verificar?
— Era o major Zinekolski, eu confiava nele.
— E você tem preguiça demais para conferir se um trabalho está bem-feito. Imprestável!
— Perdão, tio, eu...
— Não me chame assim! Tenho muito mais vergonha do nosso parentesco agora. Quero o major aqui, amanhã!
— As comunicações não estão boas, mal conseguimos contato dentro da cidade, não sei se consigo falar com ele até amanhã.
— Eu não quero saber! Estou cansado das suas desculpas.
— Talvez possamos falar com a equipe que o Edmund levou à pedreira até que consigamos contatá-lo — sugeriu Leon, que entrou em seguida, preocupado que Dimitri terminasse como os móveis do escritório de Zunik.
O coronel quis calá-lo com uma granada.
— Pois, que seja! Dimitri, reúna estes homens, hoje! — E ele se virou novamente para o general. — Onde estão os prisioneiros?
— Estão esperando transporte. Chegarão aqui por volta de quinze horas e os interrogaremos depois das avaliações médicas.
— Interrogue primeiro! As avaliações médicas podem esperar. — Zunik voltou-se a Dimitri. — Você, na minha sala já!
Não sobrou muito do escritório dele, o que não virou destroços foram apenas as paredes e os vidros inquebráveis, mas Zunik não precisaria de nada para esmagar o sobrinho sob as suas frustrações, ele estava com vontade de arremessá-lo do terraço por ter feito o exército passar a vergonha de homenagear mortos, que agora apareceram vivos. Os gritos podiam ser ouvidos no andar de baixo, depois Dimitri foi liberado para reunir a equipe de Edmund, que ele sabia estar longe.
A tarde se iniciava quando o tenente-coronel encostou o carro na frente da casa de Verbena. Ela já esperava por ele no portão.
— Boa tarde, senhorita Koch. Me desculpe pelo atraso, tivemos muito trabalho hoje.
— Algo bom?
— Se olhar pelo lado de que ninguém se machucou e o capitão Zig não vai para a escola, é bom.
Verbena sorriu. — Só saber que não vou precisar ver o capitão hoje já faz a minha balança pender para esse lado — ela comemorou. — A que devo tamanho presente?
— Ao Ás de Paus. Ele fez muitas coisas essa noite e até o Zig teve que ir atrás de respostas.
Verbena fechou o sorriso. — Meu Deus! Ele raptou mais gente? Colocou fogo em outra fábrica?
— Não.
E Adam contou o que sabia, assim como as providências tomadas até o momento e a mensagem que ouviu do próprio Ás de Paus, pelo rádio que carregava.
— O marechal e o general vão fazer uma atualização melhor, eles só pediram para que eu adiantasse o assunto com a senhorita e a levasse para a sede do governo depois das aulas — ele concluiu.
Verbena baixou a cabeça e pensou por alguns segundos, depois olhou novamente para Adam com as sobrancelhas franzidas em desapontamento.
— E você não pôde continuar trabalhando nisso porque tinha que cuidar de mim — ela entendeu.
— O que foi um consolo, pode acreditar. Passamos a manhã correndo em círculos. Depois que as comunicações voltaram, eu só entendi que o Zig foi mandado, às pressas, para o banco e que todo o resto está igual, acho sinceramente que não tem como encontrar o que foi roubado.
— Qual banco? Será que houve alguma coisa séria lá também?
— O Imperial.
— O Imperial Bank? — alarmou-se Verbena. — As telas do meu pai estão lá.
Adam arregalou os olhos, seu senso dedutivo trabalhando em alta velocidade. Se recebeu a ordem de levá-la à sede do governo em meio a uma crise daquela, era possível que o ocorrido no banco a tivesse afetado e, se afetou, só podia ser um roubo.
— Eu... Eu não sei o que aconteceu lá, pode não ter sido nada grave — Adam tentou amenizar. — Quer que eu leve a senhorita para o banco? Alguém poderá substituí-la nas aulas.
Verbena respirou fundo para conter o pânico.
— Não — respondeu com a convicção falhando. — Eu tenho que dar as minhas aulas.
— Eu posso deixá-la na escola e ir atrás de informações. Se for um desejo seu, eu não estarei descumprindo as minhas ordens.
— Sim, eu quero. Muito obrigada, senhor Molls.
Adam nem a conduziu para dentro do colégio, só esperou que saísse do carro e foi, a toda velocidade, para o banco principal da cidade. Lá ficou sabendo, com exatidão, o que aconteceu, era mais sociável do que Ziger e, por esse motivo, nenhum membro da polícia se recusou a fornecer informações.
Para aproveitar o tempo, ele seguiu para a sede do governo à procura de novidades, apenas Leon estava lá, nervoso, mas disposto a atualizá-lo, Adam conversou longamente com ele e voltou com notícias frescas para repassar a Verbena.
— Sinto muito, senhorita Koch — ele disse ao ver a tristeza vermelhar os olhos dela.
— Os demais bens não me preocupam, senhor Molls, só as telas. Eram raras, antigas e algumas pintadas por meu pai, essas são as mais valiosas para mim.
— Vou levá-la ao banco, o gerente quer discutir algo sobre o seu seguro.
— Não tenho mais que ir à sede do governo?
— O general Handersen me incumbiu de mantê-la informada sobre o andamento das investigações e tomar conta dos procedimentos com o banco, porque novos fatos requerem uma atenção maior dele e do marechal, então não poderão cuidar de mais nada hoje.
— Entendo.
A conversa foi rápida na agência bancária, quarenta minutos depois Verbena entrava em sua casa, tão esgotada que largou o material escolar na entrada e foi direto para o quarto de Jesus, no segundo andar. Intocado desde a última vez que o pai esteve nele.
Sempre que a saudade apertava, Verbena se abrigava ali e aspirava as loções e fragrâncias que a carregavam de volta à sua presença gentil, ao seu sorriso barbado. Naquele quarto, imaculadamente limpo e organizado como ele gostava, podia senti-lo perto e enrolou-se na cama como a menina que buscava refúgio nos braços paternos em noites tempestuosas. E ali adormeceu.