Prólogo: O Chamado da Lua
A noite estava viva. A lua cheia pairava no céu como uma rainha silenciosa, observando o mundo abaixo com olhos pálidos. Sua luz escorria como prata líquida entre as árvores, dançando sobre a terra úmida e as folhas caídas, mas não havia paz naquela noite. Não havia sossego. A floresta pulsava. O vento sussurrava canções esquecidas, murmurando nomes que há muito tempo foram engolidos pela história. A névoa rastejava como dedos frios, serpenteando entre os troncos retorcidos. E no meio da escuridão, olhos brilhavam no breu — sombras observavam, silhuetas se moviam na penumbra, carregadas de um segredo que a humanidade nunca deveria conhecer. No coração da vila, os lobos estavam inquietos. Desmot, o Alfa, permanecia imóvel sobre a colina que dava vista para a aldeia. Seus olhos âmbar refletiam o luar, sua postura era rígida, e seu rosto era uma máscara de aço. Ao seu redor, os membros da alcateia murmuravam em línguas
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antigas, seus corpos seminus marcados por tatuagens que pareciam pulsar com a luz da lua. — Ela está vindo. — A voz de uma anciã soou como um trovão abafado. Os murmúrios cessaram. Todos voltaram o olhar para o céu. A lua havia mudado. Seu brilho, antes suave e prateado, agora pulsava com uma força estranha, quase irreal. Ela brilhava demais, como se estivesse derramando sua essência sobre a terra. Como se estivesse abrindo um portal entre mundos. Desmot cerrou os punhos. — Então, finalmente aconteceu. O presságio que os anciãos temiam há gerações. O sangue seria derramado.
Beatriz despertou com um frio cortante rasgando o ar. O chalé onde morava parecia diferente — como se o tempo houvesse parado por um instante. As
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sombras estavam mais profundas. O silêncio era espesso demais. Algo estava errado. Ela se levantou devagar, os pés descalços tocando o chão frio. A xícara de chá ainda fumegava sobre a mesa, mas o cheiro de ervas parecia distante, irreal. O monitor do computador estava ligado, mas a página continuava vazia, exatamente como estivera nos últimos dias. Beatriz suspirou, massageando as têmporas. O bloqueio criativo estava sugando sua sanidade. Ela se aproximou da janela. A lua... Nunca estivera tão grande. Tão brilhante. Ela estreitou os olhos, sentindo uma pressão estranha dentro do peito. Uma inquietação sem nome e então, o som. Um uivo. Não um uivo comum. Não um som perdido na vastidão da floresta. Aquele uivo carregava algo a mais. Uma dor profunda, um chamado irresistível. Beatriz congelou.
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Seu coração disparou, os pelos de sua nuca se arrepiaram. O som parecia vir de dentro dela, ecoando em seus ossos, reverberando por sua alma. Ela soltou um suspiro trêmulo. Era um delírio. Tinha que ser... ,mas quando fechou os olhos, o mundo girou ao seu redor. E então ela viu. Não o chalé. Não a floresta, mas algo além. Árvores gigantescas que ela nunca vira antes. Um riacho iluminado pelo luar. Sombras que se moviam sem fazer barulho. Olhos ambarinos observando-a do escuro. Uma aldeia cercada por penhascos, um símbolo da lua marcado em pedras ancestrais. Ela conhecia aquele lugar, mas aquilo não era possível. Aquele lugar só existia no seu livro. Beatriz engoliu em seco, sentindo o sangue gelar em suas veias. Um vento forte entrou pela janela, derrubando objetos ao seu redor. A chama das velas piscou freneticamente antes de se apagar.
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A floresta a chamava. Sem saber por que, sem entender o que estava fazendo, ela se moveu. Pegou o casaco, calçou os tênis e com as mãos trêmulas, agarrou uma lanterna e saiu pela porta. A noite a recebeu como uma fera à espreita. O caminho que levava à floresta estava tomado por sombras que pareciam dançar. O vento murmurava palavras incompreensíveis. As árvores pareciam se inclinar em sua direção, como se sussurrassem segredos antigos. E então o uivo veio novamente. Desta vez, mais próximo. Desta vez, dentro dela. Beatriz correu. Cada passo que dava era como atravessar uma barreira invisível. O ar ficou mais denso. A temperatura caiu drasticamente. E quando finalmente emergiu da trilha e viu o riacho, o mundo pareceu parar. Ela ofegou, os olhos arregalados.
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Não. Não podia ser. A água cristalina refletia a lua com uma perfeição absurda. O som do riacho era exatamente como ela havia descrito em seu livro. A textura das pedras, a maneira como as folhas flutuavam sobre a correnteza. Era o cenário exato que criara em sua história, mas ela nunca estivera ali antes. Ela deu um passo à frente, os joelhos tremendo. O ar estava denso, como se algo gigantesco estivesse prestes a acontecer. E então, uma presença. Sombras se moveram à sua esquerda. Beatriz prendeu a respiração. Uma figura emergiu da escuridão, alta, poderosa, com olhos ferozes que brilhavam no breu. O coração dela quase parou. Desmot.
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O Alfa. Exatamente como o descrevera. Cada detalhe. Cada marca. A tatuagem da lua queimando em seu antebraço, os músculos tensos sob a pele, o olhar implacável. Ele estava ali. Beatriz sentiu as pernas cederem. — Você... você é real? A voz dela era um sussurro quebrado, a mente lutando para encontrar lógica no impossível. Desmot deu um passo à frente. O cheiro da floresta e da noite o envolvia, sua presença era esmagadora. — Você não deveria estar aqui. — A voz dele era baixa, perigosa. Beatriz mal teve tempo de processar o aviso antes de algo se partir no céu. A lua brilhou, o chão sob seus pés pareceu oscilar e então, outro uivo rasgou a noite.
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Um uivo desesperado. Ferido. Beatriz virou a cabeça, seu coração se contraindo. Ela não pensou. Não hesitou. Apenas correu. O destino já estava selado.
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