Capítulo 16: Ecos da Verdade e
Promessas Queimadas A lua pairava alta e majestosa sobre a vila adormecida, um disco prateado e luminoso cortando o manto negro do céu noturno, derramando sua luz pálida e espectral através das janelas do quarto como dedos fantasmagóricos tocando tudo com gentileza sobrenatural. A chama única e frágil da vela sobre a mesa tremulava suavemente no ar parado, dançando em um ritmo hipnótico e irregular, lançando sombras oscilantes e inquietas pelas paredes de madeira gastas, fazendo o espaço parecer vivo, respirando. Beatriz ainda estava sentada na cama, o corpo tenso mas imóvel, a postura rígida como se tivesse medo de se mover, a respiração controlada e medida mas claramente custando esforço, seu olhar perdido e
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distante fixo em algum ponto invisível no espaço — vendo não o quarto escuro ao seu redor, mas algo além, algo interior, algo assustador. A névoa espessa e sufocante de lembranças esquecidas e enterradas começava finalmente a se dissipar lentamente, como fumaça se dissolvendo ao vento, revelando fragmentos pontiagudos de verdades que ela não sabia se queria ver. Desmot permanecia imóvel ao lado dela como uma sentinela de pedra, tenso e vigilante, cada músculo de seu corpo preparado para reagir a qualquer ameaça — visível ou invisível. A noite era silenciosa e pesada ao redor deles, o tipo de silêncio profundo que parecia pressionar os ouvidos, mas o peso esmagador do que foi dito — das revelações, das confissões, das verdades distorcidas — pairava entre os dois como uma
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presença física e tangível, denso e impossível de ignorar. Desmot observou-a por um longo momento carregado, vendo a confusão e o medo lutando em seu rosto pálido, antes de decidir quebrar o silêncio opressivo. — A presença que sentiu no sonho... — Ele quebrou o silêncio deliberadamente, a voz baixa e grave, controlada mas carregada de tensão mal contida. — Acha que já esteve lá antes? Naquele lugar? Com aquela... coisa observando você? Beatriz apertou os dedos finos no lençol áspero com força suficiente para embranquecer os nós dos dedos, as unhas cravando no tecido, os olhos se estreitando enquanto procurava na névoa de suas memórias fragmentadas. Houve uma pausa tensa e prolongada.
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E então, com voz baixa mas firme, sem hesitação: — Sim. Uma única palavra, mas carregada de peso imenso. O Alfa prendeu a respiração involuntariamente, o ar ficando preso em seus pulmões, o coração martelando uma vez — forte, violento — contra as costelas. “Ela já esteve lá antes. Aquela presença já a vigiou antes. O que significa que eles a levaram para aquele lugar — o Limiar — intencionalmente. Repetidamente.”
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Ele forçou o ar para fora lentamente, controlando a reação, antes de fazer a próxima pergunta — a mais importante, a mais perigosa: — E acha que pode voltar? — Sua voz saiu tensa, cada palavra pesada. — Para aquele lugar? Ela ergueu os olhos lentamente, finalmente, e o encarou diretamente com uma intensidade sombria e perturbadora que fez algo se contrair dentro do peito dele. Seu olhar era sombrio, profundo, carregado de conhecimento terrível. — Se quiserem que eu volte — ela disse com uma simplicidade devastadora, voz baixa mas absolutamente certa — posso ser puxada para lá de novo. Não tenho escolha. Não tenho controle. Puxada.
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Como um animal na coleira. Como uma marionete com cordas invisíveis. O que quer que tenha sido feito com ela — os selos, as memórias roubadas, a identidade falsa plantada — ainda a prendia como correntes invisíveis mas absolutamente reais. Eles ainda tinham poder sobre ela. Ainda podiam alcançá-la. Ainda podiam levá-la. Desmot sentiu um gosto amargo e metálico se espalhando na boca, bile subindo na garganta, fúria e impotência se misturando em algo venenoso.
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— Isso não pode continuar — ele disse com voz baixa mas firme, carregada de determinação absoluta e promessa sombria. “Não vou permitir.” Ele odiava visceralmente não saber como protegê-la contra ameaças invisíveis e incompreensíveis. Odiava não saber exatamente o que fazer, que passos tomar, como quebrá-la livre dessas correntes que ele não conseguia ver ou tocar. Odiava sentir-se impotente. Beatriz ficou observando-o em silêncio por um momento longo, a cabeça inclinada levemente para o lado, erguendo os olhos lentamente e observando-o pela primeira vez com verdadeira atenção — não apenas olhando, mas vendo.
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Vendo a tensão em seus ombros largos, Vendo a linha dura de sua mandíbula cerrada, vendo a preocupação profunda gravada em cada linha de seu rosto e então ela disse, voz suave mas clara: — Você está preocupado comigo. Não era uma pergunta, era uma afirmação. Uma observação. Uma descoberta e havia algo na voz dela — surpresa, talvez, ou confusão sobre por que alguém se importaria tanto. Desmot segurou o olhar dela diretamente, sem desviar, sem hesitar, deixando que ela visse a verdade crua e nua em seus olhos. — É óbvio que estou — ele respondeu com simplicidade devastadora, voz rouca. Não havia sentido em mentir ou esconder ou minimizar.
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“Como eu não estaria?” Ela soltou um suspiro trêmulo e pesado, os ombros curvando-se levemente, algo vulnerável e incerto cruzando seu rosto. — Você parece zangado — ela observou suavemente, quase com cuidado, como se tivesse medo da resposta. O Alfa soltou um riso seco e sem humor, curto e amargo, passando a língua pelos dentes em um gesto de frustração mal contida. — Eu estou — ele admitiu sem reservas, sem tentar suavizar ou esconder. Ele não escondeu a fúria que fervia dentro dele como lava. Deixou que ela visse.
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— Estou furioso pelo que fizeram com você — ele disse, voz ficando mais baixa mas mais intensa, cada palavra carregada de emoção bruta e honesta. — Pela forma brutal e violenta como te arrancaram daqui, desta vila, desta vida. Por terem me feito acreditar que você estava morta, que nunca voltaria, que eu tinha perdido você para sempre. Fez uma pausa, mandíbula se apertando. — Por quinze anos, Beatriz. Quinze anos vivendo com essa dor. O silêncio que caiu sobre a sala foi ensurdecedor e absoluto, pesado como chumbo, sufocante. O peito de Beatriz subiu e desceu lentamente, a respiração ficando irregular, os olhos arregalados enquanto processava as palavras dele e o peso emocional por trás delas.
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Ela abriu a boca para responder, as palavras se formando em sua mente, mas pareciam presas na garganta, se recusando a sair, engasgadas. A dor crua e visceral nos olhos dele — antiga, profunda, ainda sangrando depois de todos esses anos — era algo tão intenso e avassalador que ela não sabia como reagir adequadamente, o que dizer, como confortá-lo. Porque algo profundo dentro dela — algo que não dependia de memória consciente, algo gravado em ossos e alma — dizia que aquela dor era antiga e verdadeira. Que ela conhecia aquela dor. Que ela talvez tivesse sido a causa dela.
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Ela desviou o olhar rapidamente, incapaz de segurar o contato visual, engolindo em seco com dificuldade, a garganta apertada. E então, com voz pequena e hesitante, carregada de insegurança e confusão, ela perguntou: — Se eu esqueci tudo... se eu não me lembro de você, desta vida, do que fomos... — Sua voz tremeu levemente. — Por que você ainda se importa? A pergunta pairou no ar entre eles como um veneno lento, corrosiva e dolorosa. “Por que você ainda se importa com alguém que não se lembra de você? Por que você sofre por alguém que te esqueceu?” Desmot sentiu algo se romper dentro dele.
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Ele se moveu antes de pensar racionalmente, antes de considerar as consequências, agindo por puro instinto e necessidade emocional. Ele avançou rápido e fluido, fechando a distância entre eles em dois passos longos, os dedos grandes e calejados deslizando pelo queixo delicado dela com firmeza mas não agressividade, forçando-a gentil mas inexoravelmente a encará-lo novamente, a erguer aqueles olhos escuros e confusos para os dele. Seus olhos queimavam com intensidade feroz — fúria, dor, determinação, algo mais profundo que ele não conseguia nomear. E então, com voz rouca e carregada de emoção bruta, ele disse: — Porque você nunca deixou de ser minha Luna.
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As palavras saíram como um voto sagrado, como uma verdade absoluta e inquebrantável, algo que transcendia memória ou tempo ou circunstância. “Você é minha. Sempre foi. Sempre será. Memórias não mudam isso. O tempo não apaga isso. Magia não destrói isso.” Beatriz prendeu a respiração bruscamente, o ar ficando preso em seus pulmões, os olhos arregalando involuntariamente. O toque dele era quente — quase queimando — contra sua pele sensível, enviando ondas de calor se espalhando por seu rosto e pescoço. A intensidade absoluta no olhar do Alfa — focado, inquebrantável, possessivo — era algo que a fazia sentir um arrepio percorrer por toda sua espinha
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como eletricidade, descendo pela coluna vértebra por vértebra. Seu coração disparou violentamente, batendo rápido demais, forte demais, irregular. Desmot inclinou o rosto ainda mais para perto, eliminando a distância, a respiração dele tão próxima e quente que ela pôde sentir claramente o calor que emanava de seu corpo grande e sólido, pôde sentir o cheiro dele — terra, pinho, algo selvagem e masculino. Ele estava tão perto que ela podia ver cada detalhe de seus olhos escuros — as manchas douradas, a intensidade absoluta, a vulnerabilidade escondida sob a força. — Se acha que pode simplesmente desaparecer de novo, Beatriz — ele disse com voz baixa e rouca,
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cada palavra carregada de promessa e ameaça — está profundamente enganada. O nome dela nos lábios dele soou como uma prece e uma maldição simultaneamente, como uma promessa e uma reivindicação, algo sagrado e profano. “Você é minha e eu não vou deixar você ir.” Beatriz sentiu o ar faltar completamente nos pulmões, a respiração ficando presa, impossível. O mundo inteiro parecia ter encolhido e se reduzido, ficando pequeno e distante, reduzido apenas àquele momento singular e intenso — aos olhos dele nos dela, à mão dele em seu rosto, ao calor entre eles, ao espaço minúsculo que os separava. Nada mais existia.
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Nada mais importava. Ela não sabia como responder adequadamente, que palavras usar, como processar o turbilhão de emoções que estavam explodindo dentro dela como fogos de artifício. O peso das palavras dele era profundo demais, antigo demais, verdadeiro demais para ser ignorado ou descartado. Algo dentro dela — aquela parte enterrada e esquecida que estava acordando lentamente — reconhecia aquelas palavras. Reconhecia ele. Reconhecia isso.
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Mas então a insegurança fria e familiar tomou conta de sua mente como veneno se espalhando, empurrando a certeza momentânea para longe. “Mas eu ainda não sei tudo. Ainda não lembro tudo, ainda não entendo quem eu realmente sou. Como posso ser a Luna dele se não sei quem sou?” Seus olhos vacilaram, a certeza momentânea se dissolvendo, se afastando lentamente do olhar intenso dele, quebrando o contato que parecia quase físico. Desmot percebeu imediatamente a mudança — a hesitação, a dúvida, o medo retornando. “Ela ainda não está pronta, não ainda... ela não se lembra o suficiente. Eu a estou pressionando demais, muito rápido.”
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O Alfa soltou um suspiro pesado e frustrado, o ar saindo de seus pulmões lentamente. Ele recuou um pouco, reduzindo a intensidade física, dando-lhe espaço para respirar, mas não se afastou completamente — permanecendo perto, ainda dentro do espaço pessoal dela, ainda conectado. — Você não precisa se lembrar de tudo agora — ele disse com voz mais suave, tentando ser paciente apesar da urgência que queimava dentro dele. — Não estou pedindo isso. Não estou exigindo memórias que você não tem. Ele passou os dedos pelos próprios cabelos escuros em um gesto frustrado e cansado, como se tentasse fisicamente controlar a própria frustração crescente e impotência. — Mas, Beatriz — ele continuou, voz ficando mais firme, mais intensa — se existe algo que quero que
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entenda agora, neste momento, algo que não depende de memória... Fez uma pausa significativa. — É que você não está sozinha. Não mais. Nunca mais. “Eu estou aqui. Eu não vou deixar você enfrentar isso sozinha. Não vou deixar eles te levarem de novo.” Ela sentiu aquilo profundamente, visceralmente, em algum lugar abaixo das palavras e da razão. As palavras ressoaram dentro dela como um eco antigo de algo que talvez sempre estivesse lá, esperando, dormindo — uma verdade enterrada sob anos de mentiras e memórias falsas.
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“Você não está sozinha.” Algo dentro dela queria acreditar desesperadamente nisso. Queria se agarrar a essas palavras como uma tábua de salvação em um mar violento. Ela não respondeu verbalmente, incapaz de encontrar as palavras certas, mas, pela primeira vez desde que acordara nesta vida confusa e estranha, ela não tentou negar. Não tentou argumentar. Não tentou se afastar. Apenas aceitou em silêncio. O silêncio que se instalou entre os dois não era mais desconfortável ou tenso como antes. Era diferente.
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Era carregado de algo não dito mas profundamente sentido — uma conexão invisível mas real, um entendimento tácito, uma promessa silenciosa. Desmot ficou observando-a por um momento longo e carregado, os olhos escuros procurando no rosto pálido dela, tentando decifrá-la, tentando entender o que estava acontecendo por trás daqueles olhos confusos e assustados mas curiosos. E então ele suspirou novamente, forçando-se a recuar ainda mais, dando-lhe o espaço que ela claramente precisava. — Descanse — ele disse suavemente, voz voltando a um tom mais neutro e gentil. — Você precisa dormir. Seu corpo ainda está se recuperando da febre. Ela assentiu lentamente, obedientemente, um movimento pequeno e hesitante de cabeça, deitou-se
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contra os travesseiros macios com movimentos cuidadosos e lentos, acomodando-se sob o cobertor pesado, mas seus olhos escuros e brilhantes ainda estavam fixos nele com intensidade inquestionável — seguindo cada movimento, observando cada detalhe. Não querendo que ele saísse do campo de visão. Desmot hesitou antes de se afastar completamente, o corpo tenso com indecisão. “Devo ficar? Devo ir? Ela precisa de espaço ou precisa de companhia? O que é melhor para ela agora?” Mas então ele viu algo no olhar dela. Algo pequeno e vulnerável, que não precisava de palavras e
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naquele momento preciso Beatriz percebeu algo importante e surpreendente sobre si mesma. Ela não queria que ele saísse. A ideia dele deixando o quarto, descendo as escadas, se afastando — deixando-a sozinha no escuro com suas memórias fragmentadas e medos sem nome — causava uma sensação desconfortável e aguda de pânico em seu peito. “Não vá. Por favor, não vá.” Mas ela não disse nada em voz alta, as palavras se recusando a sair. Não tinha coragem ainda.
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Apenas fechou os olhos lentamente, as pálpebras pesadas descendo, escondendo a vulnerabilidade e o medo. Fingindo sono que ainda não tinha chegado e, antes que o sono real finalmente a levasse gentilmente para a escuridão misericordiosa, ela sentiu claramente o calor reconfortante e sólido da presença dele ainda ali, permanecendo ao lado dela como uma sentinela fiel e inabalável. Ouviu a respiração profunda e controlada dele. Sentiu o peso de seu olhar protetor. Como se, mesmo em silêncio absoluto, ele estivesse fazendo uma promessa silenciosa mas sagrada que não precisava de palavras. “Eu estou aqui.
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Eu não vou a lugar nenhum. Você está segura. Eu prometo.” E com aquele conhecimento reconfortante envolvendo-a como um cobertor invisível mas quente, Beatriz finalmente permitiu que o sono a reivindicasse. Pela primeira vez em dias — talvez em anos, em toda uma vida roubada — ela dormiu sem pesadelos. Sem portas brancas trancadas. Sem presenças antigas observando. Sem medo. Apenas paz.
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E a presença silenciosa e protetora de alguém que prometeu nunca mais deixá-la sozinha.
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