Capítulo 3: O Sussurro da Lua A culpa é da lua · Capítulo 5 de 36
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Capítulo 3: O Sussurro da Lua

O frio cortava a noite como uma lâmina invisível, e a lua cheia pairava sobre a vila como um olho atento, derramando sua luz pálida sobre as cabanas de madeira e os lobos inquietos. A enfermaria ainda cheirava a sangue e ervas amargas quando a porta foi arrombada. Uma mulher entrou correndo, o desespero esculpido em cada fibra de seu rosto pálido. Em seus braços, uma menina pequena se debatia, sufocando, a pele adquirindo um tom azulado sob a luz das velas. — Ela não consegue respirar! — a voz da mulher cortou o silêncio da enfermaria como um trovão. Elihas imediatamente se levantou da mesa onde preparava uma infusão, sua expressão tornando-se séria. — Ponham-na na cama. Agora! A mulher obedeceu sem hesitar, deitando a criança na superfície de madeira enquanto suas pequenas mãos se fechavam em torno da própria garganta, lutando por ar.

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Desmot e Caleb entraram logo atrás, seus olhares carregados de tensão. Beatriz, ainda fraca da transfusão, forçou-se a sentar-se na cama. Seu corpo protestava, mas algo dentro dela a puxava para aquela criança. Um chamado silencioso, algo primal e inegável. A mãe da menina se virou para Desmot, os olhos úmidos e suplicantes. — Faça alguma coisa! Mas até mesmo o Alfa parecia incerto. Ele olhou para Elihas, que já estava examinando a menina com rapidez, mas sua expressão não era boa. — A garganta dela está fechando. — A voz do curandeiro era fria, profissional, mas havia um tom de urgência em sua fala. — Algum tipo de reação alérgica ou envenenamento... eu preciso de mais tempo para entender. — Ela não tem tempo! — A mulher gritou, a voz tremendo. Beatriz sentiu uma onda de calor subir por seu corpo. Seu coração martelava contra o peito. Sua pele formigava.

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Ela sabia o que fazer. Antes que pudesse pensar, seus pés tocaram o chão frio. Ela cambaleou, mas se firmou. O olhar de Desmot caiu sobre ela, cheio de desconfiança. — O que você está fazendo? Beatriz não respondeu. Ela simplesmente sabia. Ela se ajoelhou ao lado da cama, os olhos fixos na menina. A respiração dela estava curta, irregular, cada inspiração mais fraca que a anterior. Beatriz estendeu a mão, ao tocá-la, uma força atravessou seu corpo como um relâmpago, seu coração desacelerou. Sua visão se tornou turva. O tempo parou. E então... ela viu. O mundo se dissolveu à sua volta, transformando-se em sombras e luzes oscilantes. Beatriz sentiu como se estivesse flutuando, como se tivesse sido puxada para além da carne, além do tempo. Ela viu cordões prateados saindo do corpo da menina, finos e frágeis, retorcendo-se no ar como

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fios de seda prestes a se partir. Algo escuro se enroscava neles, sufocando-os, apertando-os com dedos invisíveis. O instinto tomou o controle. Beatriz ergueu a mão. Ela tocou os fios. E sentiu o sussurro da lua dentro de si. O quarto explodiu em luz. Um brilho prateado emanava do corpo de Beatriz, escorrendo por seus braços como uma névoa viva. A mãe da menina arfou, recuando. Elihas tropeçou um passo para trás. Desmot ficou completamente imóvel, os olhos âmbar arregalados pela primeira vez. Beatriz não percebeu nada disso, ela sentia as trevas deslizando por suas mãos, tentando escapar. Mas ela não deixaria. Com um suspiro profundo, ela puxou o mal para si, quebrando o que quer que estivesse prendendo a menina.

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A criança arquejou. E então, respirou fundo. Seus olhos se abriram, a pele voltando a ganhar cor. O silêncio na enfermaria foi avassalador. Ninguém se moveu. Beatriz piscou, sentindo o peso da realidade desabar sobre ela. “O que... o que eu fiz?” A mãe da menina soluçou antes de puxá-la para seus braços, apertando-a com força. — Ela voltou... ela voltou! Beatriz sentiu as pernas fraquejarem, e antes que pudesse cair, Caleb segurou seu braço, firmando-a no lugar. Elihas foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Isso... isso foi impossível. Mas a mãe da criança não parecia chocada. Parecia horrorizada.

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Ela olhou para Beatriz como se visse um fantasma. Seus olhos percorreram o rosto dela, as feições ainda suaves, os cabelos emaranhados, os traços que pareciam... familiares. — Não... — a mulher murmurou, um arrepio percorrendo sua espinha. Beatriz franziu a testa. — O quê? A mulher deu um passo para trás, sua mão tremendo ao cobrir a boca. — A última peeira apareceu há quinze anos. Ela era apenas uma criança... dez anos, no máximo. O sangue de Beatriz gelou. — Quinze anos... A mulher hesitou. Seus olhos analisavam Beatriz, observando cada pequeno detalhe, como se buscasse por algo que só ela podia ver. E então, sua expressão mudou.

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Seus lábios se entreabriram, seu rosto perdeu a cor. — Não... não pode ser. O coração de Beatriz acelerou. — O que foi? A mulher se virou para Desmot, seu olhar tomado por puro choque. — Ela... ela se parece com a criança. A peeira de quinze anos atrás. A sala se encheu de um silêncio denso. Beatriz sentiu o próprio mundo ruir ao seu redor. Desmot finalmente quebrou o silêncio. Sua voz saiu baixa, perigosa. — Isso significa... que a lua a escolheu duas vezes. E naquele momento, Beatriz soube. Não havia mais escapatória. Ela nunca teve escolha.

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