Capítulo 18: Laços e Pesadelos
O alvorecer chegou envolto em névoa e silêncio, como se a própria terra respirasse ainda sob o fardo da batalha noturna. O frio cortava a pele com lâminas invisíveis, e o vento que sussurrava entre os pinheiros trazia consigo não apenas o perfume úmido da floresta, mas também um prenúncio — uma advertência inscrita no ar. Beatriz despertou antes do sol, os olhos se abrindo para o teto de madeira da casa de Saphira. A febre havia finalmente cedido, deixando apenas um cansaço profundo nos músculos e uma névoa persistente na mente. Mas algo mais a perturbava — uma sensação de que peças de um quebra-cabeças que ela não conseguia ver estavam se movendo no escuro, convergindo para um ponto que ela ainda não compreendia.
292
Desceu as escadas com passos lentos, cada degrau gemendo sob seu peso. O fogo na lareira estalava sua canção matinal, preenchendo a casa com o aroma de fumaça e resina. Na cozinha, Saphira se movia com a eficiência tranquila de quem conhece cada movimento necessário, preparando o desjejum enquanto Lyra brincava no chão de pedra. A garotinha empilhava pequenas figuras de madeira — lobos, árvores, pedras — em um padrão peculiar que, quanto mais Beatriz observava, mais se assemelhava a uma porta. Uma porta entreaberta. Quando Beatriz cruzou a soleira da cozinha, Saphira se voltou. Seus olhos, aqueles olhos que viam demais e falavam pouco, a examinaram com atenção clínica antes de oferecer um sorriso suave. — Está melhor? Beatriz assentiu, a garganta ainda áspera.
293
— Sim. Obrigada... por tudo. Saphira apenas acenou com a mão, dispensando a gratidão como se fosse tão desnecessária quanto agradecer o sol por nascer. — Se quer me agradecer, venha me ajudar. A manhã escorreu entre tarefas simples — lavar roupas, consertar tecidos rasgados, preparar ervas para chás e unguentos. Era um trabalho manual que acalmava a mente de Beatriz, ancorando-a no presente quando sua memória insistia em nadar em águas turvas. Ela não gostava de ficar parada. A inatividade permitia que os fantasmas se aproximassem demais. Pela primeira vez desde sua chegada àquela vila de lobos e segredos, Beatriz sentiu-se útil. Necessária. Como se, ao costurar uma bainha ou lavar um
294
lençol, estivesse também costurando a si mesma de volta à existência. Lyra as observava de seu posto junto à janela, os olhos grandes e luminosos seguindo cada movimento. Havia algo de antinatural na atenção daquela criança — como se ela não apenas visse o que estava diante dela, mas também as sombras que se moviam por trás, os fios invisíveis que conectavam todas as coisas. Depois do almoço, quando Lyra finalmente se rendeu ao sono e subiu para descansar, Beatriz e Saphira se instalaram na varanda. Cada uma segurava uma xícara de chá de ervas — camomila, valeriana e algo mais que Beatriz não conseguia identificar, algo amargo e terroso, o vapor subia em espirais preguiçosas, dissipando-se no ar gelado.
295
Saphira contemplava a muralha de árvores que cercava a propriedade, os olhos perdidos em algum ponto além da linha das copas. — As coisas nunca ficam calmas por muito tempo — murmurou, mais para si mesma do que para Beatriz. Beatriz assentiu lentamente, bebendo seu chá. — Sinto isso também. O silêncio entre elas era confortável, cúmplice. Então Saphira a observou de relance. — Ainda não lembra de tudo, não é? Beatriz apertou os dedos ao redor da xícara quente, buscando conforto no calor contra sua pele.
296
— Não... — Ela hesitou. — Mas sei que está lá. Como um livro que eu não consigo abrir. As páginas estão coladas, mas consigo ver sombras das palavras através do papel. Saphira sorriu levemente, um sorriso triste e conhecedor. — O tempo traz as respostas certas, mas algumas precisam ser arrancadas à força. Beatriz estava prestes a perguntar o que ela queria dizer quando o grito rasgou o ar. — NÃO! As duas se levantaram de um salto, as xícaras quase caindo. Lyra irrompeu pela porta, o rosto banhado em lágrimas, os olhos tão arregalados que pareciam
297
ocupar metade de seu rosto pequeno. Não eram os olhos de uma criança assustada por um pesadelo comum. Eram os olhos de alguém que havia visto o fim de todas as coisas. — Lyra! Beatriz nem pensou. Seus braços se abriram e a menina se jogou contra ela, agarrando-se com uma força surpreendente, o corpinho tremendo como uma folha em tempestade. Estava gelada, tão gelada que Beatriz estremeceu ao tocá-la. Saphira se ajoelhou ao lado das duas, as mãos segurando o rosto da filha com firmeza gentil. — O que viu, pequena? Lyra soluçava contra o peito de Beatriz, os dedos minúsculos se cravando no tecido de sua blusa como
298
se ela fosse a única coisa sólida em um mundo que desmoronava. — As portas... estavam todas abertas... O silêncio que se seguiu foi mais cortante que qualquer lâmina. Saphira ficou imóvel, apenas por um segundo, mas Beatriz captou o medo que lampejou em seus olhos antes de ela escondê-lo sob a máscara de controle. Beatriz engoliu em seco, a garganta de repente muito apertada. — Que portas, Lyra? A garotinha ergueu o rosto, os olhos marejados encontrando os de Beatriz. E quando falou, sua voz era tão pequena quanto o sussurro de folhas mortas.
299
— As do Arquivo. O coração de Beatriz disparou. Ela não sabia por que aquelas palavras a encheram de pavor, mas encheram. Como se alguma parte esquecida de si mesma gritasse um aviso que ela não conseguia ouvir claramente. Saphira respirou fundo, a mão ainda acariciando os cabelos da filha. — Lyra tem um dom. — Sua voz era baixa, controlada. — Ela vê coisas que estão acontecendo ou vê o que está escondido dos outros olhos. Beatriz olhou para a criança em seus braços. Aqueles olhos eram grandes demais, profundos demais — como poços que levavam a lugares onde crianças não deveriam ir.
300
— Ela sonha com o que precisa ser visto — continuou Saphira, o tom quase reverente. — Mesmo quando não queremos ver. Beatriz apertou Lyra com mais força, passando a mão por seus cabelos macios, um gesto que nasceu de algum instinto maternal que ela não sabia possuir. — Foi só um sonho — murmurou, mais para convencer a si mesma do que à menina. — Estou aqui. Você está segura. Lyra fechou os olhos, o rosto aninhado no pescoço de Beatriz. Respirou fundo uma, duas, três vezes. E então, finalmente, relaxou. O corpo pequeno ficou pesado nos braços de Beatriz, a respiração desacelerando até o ritmo lento do sono. Saphira observava a cena com uma expressão que Beatriz não conseguia decifrar — algo entre admiração e melancolia.
301
— Ela nunca se acalma tão rápido depois de um sonho desses — disse, a voz carregada de algo não dito. Beatriz olhou para Lyra adormecida contra seu peito, sentindo um calor estranho se expandir em seu coração. Saphira bebeu um gole de chá já frio, pensativa. — Talvez porque, de alguma forma, ela já saiba quem você é. Beatriz não soube o que responder. Mas quando seus olhos se voltaram para a floresta novamente, algo havia mudado. Ela não se sentia mais tão sozinha e isso, de alguma forma, era ainda mais assustador.
302