Capítulo 11: O Retorno da Luna A culpa é da lua · Capítulo 13 de 36
Obra Menu

Capítulo 11: O Retorno da Luna

A vila estava desperta. Mesmo após a batalha, mesmo com a evacuação recente ainda fresca na memória, os lobos haviam voltado — trazendo consigo o peso da noite sangrenta, as cicatrizes de uma guerra que ainda não tinha terminado. Pequenas fogueiras foram acesas ao longo das ruas para afastar o frio cruel que seguia a chuva, e as casas iluminadas piscavam entre as árvores como vagalumes feridos, como se a própria vila estivesse respirando com dificuldade após sobreviver à tempestade.

128

Mas quando Beatriz entrou — envolta na jaqueta de couro de Caleb, ainda molhada e pingando água do rio, o corpo tremendo de exaustão — o silêncio caiu como uma lâmina. Todos os olhares recaíram sobre ela. Todos. Os guerreiros feridos, enfaixados e sangrando, se endireitaram com esforço. Os mais velhos, que haviam visto gerações nascerem e morrerem, murmuraram baixinho entre si — palavras em línguas antigas, bênçãos esquecidas, reconhecimento. Alguns se curvaram. Outros apenas a encararam com algo que parecia reverência, medo, gratidão.

129

Beatriz sentiu o peso das atenções como uma roupa molhada e pesada, mas não conseguiu reagir, não conseguiu processar o que via em seus rostos. Seu corpo doía em lugares que ela não sabia que podiam doer. Sua mente ainda estava presa no momento em que caiu do penhasco, na sensação do inimigo se dissolvendo em suas mãos como tinta negra, no frio cortante do rio roubando seu fôlego, na raiva incandescente de Desmot queimando mais quente que qualquer fogueira... Ela não queria lidar com aquilo agora. Não queria ser vista. Não queria ser reverenciada. Queria apenas desaparecer, encontrar um canto escuro onde pudesse colapsar em paz, mas antes que pudesse se virar para encontrar abrigo, para se esconder da atenção esmagadora, ela sentiu.

130

Uma presença atrás dela. Desmot. A aura dele se espalhou pelo espaço como um incêndio silencioso, como calor pulsante que distorce o ar. Seu cheiro — madeira antiga, ferro, sangue fresco e algo mais profundo, mais animal — a envolveu completamente, preenchendo seus pulmões. Beatriz percebeu, mesmo sem olhar, que ele não estava tão ferido quanto deveria estar. Os cortes que ela vira antes, os ferimentos profundos — estavam quase curados. A cura acelerada dos Alfas. Os lobos ao redor abriram caminho para ele imediatamente, como se ele fosse um rei entre espectros, uma divindade caminhando entre mortais. Ele não disse nada.

131

Apenas a olhou. E naquele instante, através da névoa de exaustão, Beatriz soube que ele percebeu. Percebeu que ela não estava bem. Percebeu que ela estava à beira do colapso. Percebeu que o preço da vitória estava finalmente cobrando seu tributo. Beatriz sentiu as pernas vacilarem — não muito, apenas um tremor quase imperceptível, mas suficiente. Antes que pudesse se forçar a manter o equilíbrio através da pura teimosia, ele se moveu. Sem uma palavra, sem aviso, sem pedir permissão, Desmot a pegou nos braços.

132

O corpo dela se ergueu no ar de repente, e ela teria protestado — teria xingado, teria exigido ser colocada no chão — se tivesse forças. Mas não tinha. Não restava nada além de exaustão. Ela apenas soltou um suspiro baixo e trêmulo, cedendo à inevitabilidade, e deixou a cabeça cair contra o ombro dele — sólido, quente, vivo. E cedeu. Ao cansaço. À dor. À segurança improvável de seus braços. Ele a carregou como se ela fosse algo precioso e frágil, como se fosse feita de vidro antigo que poderia se estilhaçar ao menor movimento brusco.

133

Os murmúrios ao redor aumentaram — vozes baixas, chocadas, algumas aprovadoras, outras confusas. Mas Desmot ignorou todos, não olhou para os lados. Não explicou. Não justificou. Apenas andou, firme e decidido, passando pelas ruas enlameadas da vila com sua Luna nos braços, como se carregar ela fosse a coisa mais natural do mundo. Como se fosse um direito. Uma verdade inevitável. A casa era quente — uma diferença chocante com o frio lá fora, o cheiro de lenha queimando e ervas frescas penduradas para secar estava no ar quando Desmot cruzou a porta, o calor envolvendo-os como um abraço gentil. — Mãe?

134

A voz de Caleb quebrou o silêncio da casa, chamando, alertando. Passos rápidos. Saphira, a mãe deles, saiu da cozinha às pressas, uma mulher de meia-idade com cabelos escuros presos em um coque bagunçado e olhos âmbar idênticos aos dos filhos. Sua filha Lyra, a garotinha de olhos curiosos, veio logo atrás. Saphira arregalou os olhos ao ver o Alfa com uma mulher nos braços. — Pelos espíritos... o que aconteceu? Ela está...? Lyra se engasgou ao reconhecer Beatriz — a mulher da lua, a que contava histórias, a que tinha o arco brilhante.

135

— Ela está machucada? — a voz da criança saiu pequena, assustada. Caleb entrou logo atrás de Desmot, fechando a porta contra o frio, limpando as mãos em um pano — ainda havia sangue seco sob suas unhas. Ele soltou um suspiro cansado, arrastado, e seu sorriso característico estava completamente ausente. — Ela pulou de um penhasco. O silêncio que se seguiu foi violento em sua completude. Os olhos de Saphira se arregalaram até parecerem ocupar metade de seu rosto, e Lyra soltou um gritinho agudo de choque puro. — Você o quê?! — Saphira praticamente gritou, a voz subindo três oitavas.

136

Beatriz gemeu baixo, ainda meio perdida entre sono e consciência, tentando se mexer fracamente nos braços de Desmot como se fosse se defender. — Foi uma decisão... estratégica... — sua voz saiu pastosa, arrastada, quase inaudível. Saphira colocou as mãos na cintura em um gesto universal de incredulidade e exasperação maternal. — Se jogar de um maldito penhasco é estratégico desde quando?! Criança, você bateu a cabeça?! Mas Desmot a ignorou completamente, como se Saphira não tivesse falado, sua atenção totalmente focada em Beatriz. — Ela precisa descansar — sua voz não admitia argumentos.

137

Sem esperar mais protestos, sem dar explicações, ele subiu as escadas com ela ainda nos braços, cada passo firme e cuidadoso. Saphira e Caleb se entreolharam — uma conversa silenciosa passando entre mãe e filho, sobrancelhas erguidas, significados não ditos. Mas nenhum deles o impediu. Lyra apenas observou, os olhos grandes e brilhantes, enquanto o tio subia as escadas com a mulher da lua nos braços. — Ela vai ficar bem? — sussurrou para Caleb. Ele passou a mão nos cabelos da sobrinha, gentil. — Ela vai, pequena. Ela é mais forte que parece. Forte o suficiente para pular de um penhasco e sobreviver, ele pensou, mas não disse em voz alta.

138

O quarto de Desmot era escuro, mas aconchegante — um contraste marcante com a persona pública do Alfa. O cheiro dele estava por toda parte, impregnado nas madeiras, nos tecidos, no ar — terra revolvida após a chuva, madeira de cedro, fumaça de fogueira e algo mais quente, mais profundo, quase almiscarado. O cheiro de território. De proteção. De casa. Beatriz mal processou quando ele a colocou na cama com cuidado quase reverente, como se ela fosse algo sagrado. O colchão macio abraçou seu corpo dolorido, e ela sentiu a exaustão a puxar como correntes invisíveis, como mãos gentis arrastando-a para a inconsciência. Os olhos pesaram como chumbo. Ela ouviu a porta se fechar — um clique suave.

139

Desmot ainda estava ali. Não tinha saído. Sua presença preencheu o quarto, sólida e inegável. Beatriz tentou se erguer, lutar contra o sono que tentava reivindicá-la, mas ele se moveu rapidamente, pressionando a mão grande contra sua testa — quente, firme, reconfortante. — Durma. Não foi um pedido. Foi uma ordem, mas gentil, preocupada e por algum motivo, seu corpo obedeceu antes que sua mente pudesse protestar. Ela piscou devagar, as pálpebras ficando cada vez mais pesadas, o corpo relaxando contra o colchão como se tivesse finalmente recebido permissão para parar de lutar.

140

Antes de fechar os olhos completamente, antes de se render ao negro acolhedor do sono, ela sentiu o peso do olhar dele sobre si. Algo intenso como fogo. Algo sombrio como a noite sem lua. Algo feroz e protetor e possessivo de uma forma que ela não conseguia nomear, não conseguia compreender ainda. Mas ele estava ali. Não tinha ido embora. Não a tinha deixado sozinha. E, pela primeira vez naquela noite interminável — pela primeira vez desde que caiu do penhasco — ela não estava sozinha. E isso foi suficiente.

141

Beatriz se deixou afundar no sono, cercada pelo cheiro dele, aquecida pela presença dele, protegida de uma forma que não sabia que precisava. E, por um momento antes de a escuridão a reivindicar completamente, ela pensou que talvez — apenas talvez — estar ali não fosse tão ruim assim. Desmot ficou ali parado por longos minutos depois que ela adormeceu, observando a forma como sua respiração finalmente se acalmou, como a tensão se dissolveu de seus ombros, como seu rosto ficou suave e jovem no sono. Havia lama seca em suas bochechas, sangue sob suas unhas, seu cabelo estava emaranhado e ainda úmido. E ela era a coisa mais bonita que ele já tinha visto. Ela pulou de um penhasco.

142

A realização atingiu ele novamente, fazendo seu peito apertar dolorosamente. Para matá-lo. Para salvar todos nós. Ele cerrou os punhos, sentindo as unhas cravarem em suas palmas. As palavras de Caleb ecoaram em sua mente como sinos de funeral: "E um dia, ela pode cansar de lutar para te salvar." Desmot respirou fundo, o ar entrando em seus pulmões como vidro quebrado. Não. Não ia deixar isso acontecer. Não ia perdê-la de novo. Não por orgulho. Não por medo. Não por teimosia.

143

Ele se inclinou, movendo-se devagar para não acordá-la, e puxou o cobertor sobre seu corpo tremendo, cobrindo-a completamente. Seus dedos roçaram o rosto dela por um segundo — apenas um segundo — antes de se afastar. Minha Luna. O pensamento veio sem permissão, visceral e certo. Ele se virou e saiu do quarto silenciosamente, fechando a porta com cuidado, mas não foi longe. Sentou-se no chão do corredor, de costas para a porta, como um guardião. Como um lobo protegendo sua alcateia. Não ia deixá-la sozinha. Nunca mais.

144

1/1
Menu

Fazer anotação