Capítulo 19: Ecos na Escuridão
A tarde avançava com a relutância de alguém que teme o que a noite trará. O frio se intensificava, infiltrando-se sob as roupas e nos ossos, carregado de um peso invisível — a sensação de estar sendo observada por algo que não tinha olhos, mas via tudo mesmo assim. Beatriz permaneceu na varanda, Lyra ainda dormindo em seu colo. A garotinha murmurava ocasionalmente, perdida em sonhos que Beatriz esperava fossem mais gentis que o anterior. Saphira estava sentada ao lado, a xícara de chá esquecida entre as mãos. Seu olhar estava distante, como se ela enxergasse através das árvores, além das montanhas, até os lugares onde as sombras se acumulavam.
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— Se as portas estavam abertas no sonho dela... então já é tarde. Beatriz virou o rosto bruscamente. — O que quer dizer? Saphira passou a mão pelos cabelos, e pela primeira vez, Beatriz notou os fios de prata escondidos entre o castanho. Ela parecia ter envelhecido anos em minutos. — Lyra nunca sonha com coisas que ainda vão acontecer. — Sua voz era baixa, pesada. — Ela sonha com o que já está acontecendo. O frio que Beatriz sentiu não veio do vento. Veio de dentro, irradiando de algum lugar profundo em sua alma. — Então... o Arquivo já foi violado?
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Saphira assentiu lentamente. Se aquilo era verdade, então o que quer que estivesse selado dentro daquelas paredes de pedra e magia... estava livre agora. Estava se movendo e sabia que ela estava voltando. A vila começou a ganhar vida quando os lobos retornaram de suas patrulhas. Os primeiros chegaram em silêncio, rostos fechados, olhos escaneando cada sombra com uma vigilância que beirava a paranoia. O medo era uma presença palpável — podia-se sentir seu gosto metálico no ar. Caleb foi um dos primeiros a aparecer. Seus passos eram firmes, mas seu rosto estava mais sombrio que o normal, as mandíbulas cerradas em tensão mal contida. Ao avistar Beatriz na varanda, ele parou ao pé dos degraus.
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— Eu perdi alguma coisa? Saphira tomou um gole de seu chá frio antes de responder. — Lyra teve um sonho. Caleb franziu o cenho, subindo os degraus com dois passos largos. — Sobre o quê? Beatriz respirou fundo, sentindo Lyra se mexer levemente em seus braços. — Ela viu o Arquivo. Todas as portas estavam abertas. O palavrão que Caleb soltou foi criativo e colorido. — Droga. — Ele passou a mão pelos cabelos, o gesto nervoso de alguém que está calculando
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probabilidades ruins. — Se isso for verdade, então o plano tem que ser adiantado. Beatriz sentiu o peito apertar. — E se já for tarde? Caleb não respondeu. Porque ele não sabia. E a ausência de resposta era resposta suficiente. Então ele chegou. Beatriz sentiu a presença de Desmot antes mesmo de vê-lo — uma mudança na pressão do ar, um despertar de todos os seus sentidos simultaneamente. Era como se a floresta se curvasse ligeiramente em sua direção, reconhecendo o predador que caminhava entre as árvores. O Alfa subiu os degraus da varanda com passos decididos, mas havia algo contido em cada
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movimento — uma fúria prestes a explodir, mantida sob controle apenas pela força de vontade de aço. Ele não olhou para ninguém de imediato. Apenas respirou fundo, os ombros subindo e descendo, como se tentasse controlar algo selvagem e escuro dentro dele. Quando finalmente falou, sua voz era grave e controlada. — Os anciãos começaram a suspeitar. O silêncio foi imediato e absoluto. Beatriz sentiu todos os músculos de seu corpo se tensionarem. — De mim?
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Os olhos âmbar de Desmot finalmente encontraram os dela, e havia fogo ali — não de raiva contra ela, mas de uma fúria direcionada ao mundo que insistia em colocá-la em perigo. — Eles não sabem exatamente o que está errado. — Ele cruzou os braços, o gesto quase defensivo. — Mas sentem que algo mudou desde que você voltou. Beatriz apertou os dedos ao redor do tecido de seu vestido. — Isso significa que eles vão reforçar o Arquivo. Desmot assentiu lentamente, os olhos nunca deixando os dela. — E significa que temos menos tempo do que imaginávamos.
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— Eles vão dobrar a segurança — murmurou Caleb, começando a andar de um lado para o outro como um tigre enjaulado. — E a Lua Negra já está próxima — acrescentou Saphira, seu olhar afiado como vidro quebrado. Beatriz olhou para Lyra, ainda dormindo em seu colo, e sentiu um instinto protetor crescer dentro dela como uma fera acordando. Essa garotinha não deveria carregar esses fardos. Nenhum deles deveria. E ainda assim, todos estavam presos nesse jogo — peças em um tabuleiro que ela mal conseguia enxergar. — Precisamos descobrir quem invadiu o Arquivo — disse Beatriz, e sua voz soou mais forte do que esperava.
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Desmot segurou seu olhar por um longo momento. Ele não negou. Não concordou. Apenas a encarou com aquela intensidade que fazia Beatriz se sentir transparente e sólida ao mesmo tempo. Porque ele sabia que ela estava certa. O problema era que quem quer que tivesse entrado antes deles... estava esperando e Beatriz sentia, com uma certeza que não podia explicar, que quando as portas se abrissem de verdade... O verdadeiro pesadelo começaria.
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