Capítulo 25: O Sangue e a
Verdade O Arquivo Sombrio tremeu, as paredes vibrando com um zumbido grave e assustador. O ar estava tão carregado de magia antiga que cada respiração parecia pesar nos pulmões. No centro do caos, Luna sorria. Beatriz ainda estava no chão, o corpo fraco, a mente desmoronando em fragmentos de memórias dilaceradas, mas não havia tempo para se recuperar, porque Desmot e Caleb já estavam em movimento novamente. O rugido do Alfa cortou a escuridão como um trovão.
366
Desmot atacou primeiro, rápido e implacável, cada movimento calculado para matar. Sua lâmina brilhou sob a luz fantasmagórica das runas, um arco afiado de fúria e instinto protetor, mas Luna se dissolveu em sombras, desviando do golpe como se o próprio tempo estivesse a seu favor. Caleb não perdeu tempo. Ele girou a lâmina em um movimento fluido, tentando prever onde ela reapareceria, usando a intuição aguçada de anos de combate. E ele acertou. O aço perfurou o ombro dela, penetrando profundamente, e por um breve momento, Luna cambaleou, mas não sangrou.
367
Seu corpo apenas se partiu em fragmentos de sombras, como vidro se estilhaçando em câmera lenta. E então... se refez. Perfeitamente. — Boa tentativa — sussurrou Luna, erguendo o olhar para Caleb com algo que poderia ser admiração. Então, ela sorriu. E explodiu em movimento. Desmot tentou prever o próximo ataque, mas Luna era um borrão de trevas e velocidade impossível. Ela deslizou entre eles como fumaça venenosa, movendo-se rápida demais para ser capturada, fluida demais para ser prevista.
368
Mas então... Ela parou de repente. E olhou diretamente para Beatriz. — Você ainda não escolheu. Beatriz sentiu o estômago afundar, porque Luna tinha razão. Ela ainda hesitava. E a hesitação estava matando-a. — BEATRIZ, LEVANTE-SE! O grito de Desmot rompeu o torpor, injetando adrenalina em suas veias, mas Beatriz não olhou para ele. Seu olhar se voltou para Lyra.
369
A garotinha estava encolhida contra a parede, os olhos arregalados em puro terror, lágrimas escorrendo pelo rosto pequeno. E então, Beatriz soube. Ela precisava entender. Se não conseguisse a verdade completa, jamais conseguiria tomar a decisão certa. Com os músculos gritando de dor, ela se forçou a levantar. Seus passos eram instáveis, bambos, mas ela não parou. Chegou até Lyra e se ajoelhou diante dela, ignorando a batalha que acontecia a poucos metros. — Me diga. Lyra piscou, ainda tremendo.
370
Beatriz segurou os ombros da menina com firmeza, olhando fundo naqueles olhos que viam demais. — Por que dividiram minha alma? O silêncio foi brutal. Lyra engoliu em seco, e quando respondeu, sua voz era um fio frágil. E a verdade despedaçou Beatriz por dentro. — Porque você ia destruir tudo. Cada palavra caiu como uma lâmina de gelo em seu coração. Beatriz sentiu o mundo parar. — O quê?
371
Lyra respirou fundo, as lágrimas ainda escorrendo, tentando organizar pensamentos que eram pesados demais para uma criança carregar. — Os anciãos... viram. — Ela hesitou, mordendo o lábio. — Você ia se tornar algo... perigoso. Beatriz sentiu o peito apertar, o ar se recusando a entrar em seus pulmões. — Eles mentiram para mim. Lyra assentiu lentamente. — Mas não completamente. O coração de Beatriz batia descontrolado, cada batida ecoando em seus ouvidos.
372
Lyra parecia tão pequena, tão assustada, mas sua voz carregava um peso que não deveria pertencer a alguém tão jovem. — Luna não é só você. — Ela olhou de relance para a luta acontecendo no centro do corredor, onde Desmot e Caleb ainda tentavam conter a sombra. — Ela é o que você estava se tornando. Beatriz sentiu um frio absoluto se espalhar por seus ossos, infiltrando-se em cada célula. Ela olhou para Luna, que ainda lutava com uma facilidade absurda, um sorriso cheio de crueldade e poder nos lábios. E então... compreendeu. — Eu ia me tornar... como ela?
373
Lyra hesitou por apenas um segundo, mas então, respondeu. — Sim. Beatriz ofegou, o ar saindo de seus pulmões como se tivesse levado um soco e Luna riu — uma risada rica e cheia de alegria sombria. Ela girou no ar, desviando de mais um golpe de Caleb com um sorriso quase afetuoso. — Agora você entendeu. Beatriz não conseguia respirar. Os anciãos não mentiram sobre ela ser perigosa. Eles não apagaram suas memórias apenas por medo do que ela sabia.
374
Eles apagaram suas memórias para impedir que ela se tornasse um monstro. E agora... ela tinha uma escolha. Aceitar quem realmente era... Ou tentar lutar contra seu próprio destino. Desmot rosnou, sua lâmina finalmente rasgando uma parte substancial de Luna. Dessa vez, ela sentiu o golpe. Ela cambaleou, as sombras ao redor tremendo e distorcendo. Mas então... Ela olhou para Beatriz. E sorriu com algo que poderia ser... esperança?
375
— O que vai ser, Beatriz? A voz dela soou como um eco dentro da mente de Beatriz. Beatriz sentiu o coração bater forte e violento. Ela se virou lentamente para Desmot e Caleb. Eles estavam esperando sua decisão, exaustos, feridos, mas ainda lutando. Por ela. Mas a escolha nunca foi deles. A escolha sempre foi dela. E agora... Ela precisava decidir: Entre ser Beatriz e permanecer incompleta...
376
Ou ser Luna e aceitar o monstro que vivia dentro dela.
377