Capítulo 8: A Chegada das
Sombras A noite estava pesada, carregada de algo errado — algo que fazia a pele arrepiar e o instinto gritar perigo. O vento cortava a vila como dedos invisíveis, trazendo um cheiro que não pertencia à floresta. O cheiro de algo corrompido, podre, antinatural. Beatriz sentiu primeiro. Foi um arrepio na espinha. Um calafrio que começou na base do crânio e se espalhou por cada nervo de seu corpo como gelo líquido. O mundo ficou mais escuro por um segundo, a lua obscurecida por algo que não deveria existir, e então as vozes sussurraram em sua mente.
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"Eles estão vindo." Ela abriu os olhos com um sobressalto, o coração disparado como um tambor de guerra. Os anciãos ainda estavam no círculo ritualístico, suas expressões solenes e imóveis. Desmot estava ao seu lado, mas seu rosto estava tenso, a mandíbula travada como se pressentisse algo. Ela se virou para ele, agarrando seu braço com urgência. — Eles estão chegando. Desmot franziu a testa, confuso. — O quê? Os dedos dela apertaram mais forte, suas unhas cravando no tecido de sua túnica.
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— Os inimigos. Eu posso sentir — sua voz tremeu, não de medo, mas de certeza absoluta. — Eles já estão próximos, e não estão vindo para conversar. O Alfa olhou para ela por um longo momento, seus olhos âmbar avaliando, ponderando, antes de soltar um suspiro impaciente. — Você acabou de passar pelo ritual. Seu corpo ainda está fraco, sua mente confusa. Não tire conclusões precipitadas. A raiva brotou na garganta de Beatriz como fogo vivo. — Escute-me. Ela se afastou bruscamente, virou-se para Erevan e os anciãos, sua voz ecoando pelo círculo. — A vila precisa ser evacuada. Agora.
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Os murmúrios começaram entre os lobos ao redor, ondas de desconfiança e inquietação. Caleb, que estava próximo observando tudo, deu um passo à frente. — O que exatamente você sentiu? Beatriz fechou os olhos por um segundo e deixou a sensação consumi-la — deixou que o presságio a invadisse por completo. O ar frio que queimava os pulmões, o cheiro de carne apodrecida no vento, misturado com cinzas e sangue seco, a escuridão rastejando como serpentes invisíveis entre as árvores, devorando a luz. O uivo de algo que não era um lobo — algo retorcido, errado, abominável. Ela abriu os olhos, e quando falou, sua voz era um sussurro carregado de pavor.
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— A morte. O silêncio caiu sobre todos como uma lápide. E então, Desmot riu. Não foi uma risada de humor. Foi seca. Fria. Descrente. — Você quer que eu evacue a vila inteira porque você sentiu algo? Beatriz cerrou os punhos, as unhas cravando nas palmas de suas mãos. — Sim. Desmot cruzou os braços sobre o peito, sua postura rígida, dominante. — Não.
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Ela trincou os dentes, a frustração fervendo dentro dela. — Você não entende. Eles são diferentes. Eles são... errados. — E eu sou o Alfa — ele rosnou, e havia ameaça naquele som. — Eu não recuo. Beatriz respirou fundo, tentando controlar a tempestade dentro de si. Ele não a escutaria. Palavras não eram suficientes. Então ela usou seus dons. Seus olhos brilharam prateados, luminosos como luas gêmeas na escuridão, e quando olhou para
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Desmot novamente, o tempo pareceu parar. O ar ao redor deles estremeceu com poder. Ela tocou sua mente — não com delicadeza, mas com força bruta. Ele viu. O massacre. A vila em chamas, as casas desmoronando sob o peso do fogo negro. O som de ossos quebrando, tendões rasgando, carne sendo dilacerada. O grito das crianças ecoando pela noite enquanto as sombras as devoravam. Sangue encharcando a terra sagrada.
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E Desmot, de joelhos no meio dos corpos, sozinho, destruído. A imagem foi tão intensa, tão visceral, que o Alfa cambaleou para trás como se tivesse levado um golpe físico. Ele agarrou a cabeça com ambas as mãos, os olhos apertados, a respiração pesada e descontrolada. — Maldição... — ele murmurou, a voz quebrada. Beatriz piscou, e o brilho prateado desapareceu. Ela voltou ao normal, mas seu corpo tremia com o esforço. Desmot ergueu os olhos devagar, e quando finalmente a encarou, havia fúria neles — fúria e algo mais profundo. Traição. — Você usou seus dons em mim.
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A acusação pendia no ar como uma sentença. Ela não recuou. Não piscou. Não se desculpou. — E você não me escutava. Por um momento, o ar entre os dois pareceu eletrificado, carregado de algo perigoso e incontrolável, mas então, ele se virou bruscamente, sua capa esvoaçando atrás dele. — Caleb. O Beta se aproximou imediatamente. — Evacue a vila — a voz de Desmot era dura, irrevogável. — Levem as crianças e os mais velhos para as montanhas. Agora.
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Caleb hesitou por apenas um segundo, os olhos movendo-se entre o Alfa e a Luna, antes de assentir e sair correndo, gritando ordens. Os lobos começaram a se mover com urgência disciplinada. As casas foram esvaziadas em minutos, os mais fracos protegidos e conduzidos para longe. Mas Beatriz sabia. Ela podia sentir no peso do ar, no olhar determinado dos guerreiros. Eles não fugiriam. Os guerreiros ficariam para lutar. E muitos morreriam. A vila estava vazia quando o vento soprou frio demais, gelado demais para ser natural.
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Os lobos guerreiros estavam reunidos ao lado do templo, formações de batalha já delineadas. Os anciãos permaneciam de olhos fechados, suas mentes conectadas, sentindo a perturbação no tecido da realidade. Beatriz viu a névoa rastejar pela floresta como uma criatura viva, devorando árvores e luz em seu caminho. Desmot caminhou até ela, os olhos ainda ardendo em irritação mal contida. — Você fica com os outros. Se esconda. Beatriz ergueu o queixo desafiadoramente. — Não. Os olhos dele escureceram, tornando-se quase negros.
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— Isso não é um jogo. Você fez sua parte — ele deu um passo mais perto, intimidador. — Agora saia do caminho. Ela cruzou os braços, plantando os pés no chão. — Você me chamou de Luna. Isso significa que eu pertenço a essa luta também. O Alfa rosnou, o som reverberando em seu peito como um trovão distante. — Eu não vou perder você de novo. As palavras saíram rápidas demais, cruas demais, honestas demais. Beatriz congelou. Desmot também percebeu o que dissera. Ele cerrou os dentes, os músculos da mandíbula saltando, e
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desviou o olhar bruscamente — mas já era tarde demais, a confissão pendia entre eles, impossível de recolher. O silêncio foi profundo, carregado de quinze anos de perda e dor não dita. Então, antes que ela pudesse encontrar palavras para responder, o primeiro grito rasgou a noite — agudo, desesperado, inumano. Eles haviam chegado. E o inferno se abriu sobre a vila.
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