Capítulo 2: O Sangue da Lua A culpa é da lua · Capítulo 4 de 36
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Capítulo 2: O Sangue da Lua

O cheiro de sangue pairava denso no ar. A enfermaria estava silenciosa, mas não era um silêncio de paz. Era o tipo de silêncio que antecede a tempestade, carregado de presságios sombrios e verdades enterradas. Elihas trabalhava rápido, as mãos experientes deslizando pela pele fria de Beatriz, costurando feridas, prendendo-a por um fio à vida, mas havia algo errado. Algo que se escondia sob sua pele, algo que fazia o curandeiro hesitar por um breve segundo antes de continuar seu trabalho. Caleb não tirava os olhos dela. Ele ainda sentia o peso de seu corpo desacordado nos braços. O calor do sangue dela ainda manchava sua pele. “Ela sangrou por mim.” Desmot, encostado na entrada da enfermaria, observava tudo com olhos calculistas. Mas havia algo diferente em sua expressão. Não era apenas irritação. Não era apenas frieza.

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Era inquietação. Ele sentia, assim como todos ali. A lua queria algo daquela garota. E isso nunca significava coisa boa. Beatriz abriu os olhos devagar. A dor veio primeiro. Depois, a vertigem. Seu corpo estava fraco, o mundo girava ao seu redor, e as sombras das velas oscilavam sobre as paredes como espectros. Ela piscou algumas vezes, até que seus olhos encontraram Caleb. Ele estava ali. Vivo. Olhando para ela como se carregasse um fardo invisível nos ombros. Beatriz abriu a boca, a voz saindo fraca: — Você... era o lobo. — Sim. A palavra ecoou pelo quarto, mas antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, uma voz cortou o ar como uma lâmina afiada.

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— Ela não deveria estar aqui. Beatriz virou a cabeça e encontrou Desmot. O Alfa avançou para a beira da cama, a luz da lua escorrendo por seus traços como prata fria. Seus olhos âmbar eram duros, impiedosos. — Mas a lua decidiu o contrário e agora temos um problema. O coração de Beatriz falhou uma batida. — Problema? Desmot abaixou um pouco, os olhos perfurando os dela como garras. — Você cruzou a fronteira entre os mundos. — Sua voz era baixa, mas carregava um peso que fez Beatriz se encolher. — E a lua te marcou. Isso significa que — — Isso significa que vocês dois calem a maldita boca! Elihas interrompeu, sua voz rugindo pelo ambiente.

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Desmot parou imediatamente, os olhos faiscando de irritação. Caleb se sobressaltou, e Beatriz piscou, surpresa. O curandeiro limpou as mãos sujas de sangue no avental e apontou para o ombro de Beatriz. — Ela não é uma humana normal. A enfermaria mergulhou em um silêncio sepulcral. Beatriz olhou para onde ele apontava. E então viu. O sangue seco cobria parte de sua pele, mas mesmo assim, a marca estava ali. Uma cicatriz antiga, mas que nunca esteve em seu corpo antes. Ela se estendia do ombro até a clavícula, formando a silhueta de um lobo em meio à lua crescente. Ela ofegou. — O... que é isso? Desmot se enrijeceu.

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— Isso é impossível. Elihas se aproximou mais, seus olhos brilhando com algo entre temor e reverência. — Ela é uma peeira. O ar na enfermaria ficou pesado. Caleb franziu a testa, confuso. — O quê? Elihas soltou um suspiro, como se as palavras queimassem em sua garganta. — As peeiras são as filhas da lua. Elas não pertencem a lugar algum, são chamadas sempre que o equilíbrio entre os mundos está para ruir. Elas caminham entre os vivos e os mortos, entre os lobos e os humanos, onde quer que apareçam... a história muda. Beatriz sentiu a garganta secar. — Isso... não pode ser verdade. O curandeiro soltou uma risada seca. — E no entanto, aqui está você.

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Beatriz piscou, incapaz de processar aquilo. Desmot virou o rosto para o lado, a mandíbula tensa. Seus olhos brilhavam com uma fúria silenciosa. — Se isso for verdade, os anciãos não vão aceitar. Elihas ergueu o queixo. — Eles não têm escolha. A lua a trouxe. Desmot respirou fundo. — Isso significa que ela está marcada para algo. E se for um presságio ruim, eu não hesitarei em removê-la deste mundo. Beatriz sentiu um arrepio gelado. Ele estava falando sério. O olhar de Desmot encontrou o dela, e naquele momento, ela entendeu. Ela não pertencia mais ao mundo de onde veio. E, pior ainda. Talvez nunca tivesse pertencido.

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