Capítulo 4: O Alfa e Sua Luna
Perdida A enfermaria estava mergulhada em um silêncio carregado, denso como a névoa que precede a tempestade. A verdade havia sido arrancada das sombras e exposta como um osso quebrado à luz da lua. Beatriz não era uma estranha. Ela nunca havia sido. E Desmot sabia disso desde o começo. Ele permaneceu imóvel, os punhos cerrados ao lado do corpo, os olhos âmbar escuros como um abismo sem fundo. Sua expressão — sempre tão fria, tão controlada — agora era um turbilhão de emoções que ele se recusava a deixar transparecer. Mas Beatriz viu.
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Viu o modo como seu maxilar travou. Viu o músculo pulsar ritmicamente em sua têmpora. Viu como seus olhos a queimavam, não com ódio... mas com ressentimento. Um ressentimento profundo, visceral, antigo. Ela sentiu a verdade antes mesmo que ele pronunciasse uma única palavra. Desmot a reconheceu desde o início. E essa constatação fez algo profundo dentro dela se contorcer dolorosamente. A mulher — a mãe de Desmot, Caleb e da pequena menina que Beatriz salvara — ainda parecia em estado de choque. Suas mãos tremiam levemente, e seus olhos continuavam percorrendo cada traço do rosto de Beatriz, como se esperasse que a qualquer momento a ilusão se dissipasse e a garota desaparecesse novamente.
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Mas não havia ilusão alguma. A verdade era um fardo pesado sobre todos ali, palpável como o ar denso da enfermaria. E então, ela falou. — Você vem comigo. A voz dela era firme, carregando uma ordem inegável, a voz de uma matriarca acostumada a ser obedecida. Beatriz piscou, confusa. — O quê? A mulher — que exalava a presença de uma líder, de uma mãe-loba acostumada a proteger sua alcateia — endireitou os ombros e ergueu o queixo.
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— Você vai ficar na minha casa. — Não era um convite. Era uma declaração. Beatriz piscou novamente, tentando processar aquilo, mas antes que pudesse articular uma resposta, uma voz gélida cortou o ar como uma lâmina. — Isso não vai acontecer. Beatriz se enrijeceu involuntariamente. Desmot. Ele não estava gostando nem um pouco daquilo. Seu tom era baixo e perigoso, carregado de uma tensão que fez até mesmo Caleb prender a respiração e dar um passo atrás instintivamente. O Alfa se virou para a mãe, os olhos faiscando com raiva contida, uma besta enjaulada prestes a atacar.
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— Você sabe o que isso significa. — Cada palavra saiu lenta, medida, perigosa. — Você sabe o que ela é. A mãe dele o encarou sem recuar um centímetro sequer, inabalável diante da fúria do filho. — Ela é uma guerreira. — Ela é minha maldita Luna! As palavras explodiram no ambiente como um trovão, reverberando contra as paredes da enfermaria. A respiração de Beatriz falhou. Caleb arregalou os olhos. Elihas congelou no lugar, sua mão ainda suspensa sobre os instrumentos médicos.
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E a mãe de Desmot... sorriu. Um sorriso pequeno, melancólico, carregado de compreensão. Como se tivesse acabado de desvendar um segredo que já suspeitava há muito tempo. — Então é por isso que você a trata assim — disse ela suavemente, mais para si mesma do que para ele. Desmot bufou, desviando o olhar com brusquidão. — Não comece. Mas já era tarde demais. A mãe dele cruzou os braços sobre o peito, sua presença tornando-se ainda mais dominante, mais imponente. Quando falou novamente, havia um peso em suas palavras que não permitia réplica.
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— Você a reconheceu desde o momento em que a viu, não foi? Desmot permaneceu em silêncio, a mandíbula cerrada com tanta força que Beatriz imaginou que seus dentes poderiam se quebrar. — E mesmo assim — continuou a mulher, sua voz ganhando uma nota de decepção —, a tratou como uma intrusa. Como uma inimiga. — Porque ela sumiu! — A voz dele saiu rouca, rasgada, carregada de algo perigoso e doloroso ao mesmo tempo. Ele se virou abruptamente para Beatriz, seus olhos ardendo como brasas vivas. — Você simplesmente desapareceu, Beatriz. Sem explicações. Sem rastros. Sem uma maldita palavra. Você virou poeira no vento. Beatriz sentiu o coração afundar no peito, um peso esmagador comprimindo seus pulmões.
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Ela não lembrava. Ela não lembrava de nada. Mas Desmot sim. Ele lembrava de tudo. E cada dia sem respostas, cada noite esperando por ela, pareceu ter se transformado em uma ferida invisível, sangrando lentamente, até se tornar algo muito pior: ressentimento profundo, amargo, destrutivo. A mãe dele suspirou pesadamente, passando a mão pelo rosto com cansaço. — Desmot... você pode odiá-la o quanto quiser. Pode nutrir esse ressentimento pelo tempo que achar necessário. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras penetrarem. — Mas isso não muda o fato de que ela está aqui agora. Viva. Real. E eu não vou deixá-la sozinha depois do que aconteceu esta noite.
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— Ela não está sozinha — retrucou ele rispidamente. — Você a tratou como uma inimiga desde que ela chegou. Desmot cerrou os dentes, a fúria percorrendo cada linha de seu corpo tenso, mas antes que pudesse encontrar uma resposta adequada, Caleb se intrometeu cautelosamente. — Mãe... — Sua voz era hesitante, cuidadosa. — Tem certeza disso? Trazer ela para nossa casa, quero dizer. A mulher assentiu uma vez, sua decisão já tomada e imutável. — Ela salvou sua irmã. Trouxe minha filha de volta da morte. — Seus olhos brilharam com emoção contida. — Isso é mais do que suficiente para mim.
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Ela se virou então para Beatriz, e quando falou novamente, sua voz era suave mas firme, maternal mas autoritária. — Você precisa de um lugar seguro para se recuperar. Para processar tudo isso. — Fez um gesto abrangente. — Minha casa será esse lugar. Você tem minha palavra. Beatriz hesitou, olhando de relance para Desmot. O Alfa rosnou baixo, um som primitivo que ecoou do fundo do peito. Virou-se bruscamente, os músculos das costas tensos sob a camisa. — Faça o que quiser — disse ele, já caminhando em direção à porta. — Eu tenho coisas mais importantes para resolver.
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Ele girou nos calcanhares e saiu da enfermaria sem olhar para trás, deixando apenas o eco de seus passos pesados e o rastro de sua fúria. O caminho até a cabana da família do Alfa foi envolto em silêncio. Beatriz se sentia como uma intrusa, uma peça fora de lugar em um quebra-cabeça que ela nem sabia estar montando. Tudo parecia intenso demais, rápido demais, como se sua vida estivesse simultaneamente desmoronando e reconstruindo-se diante de seus olhos. Ela não sabia o que pensar sobre ser a Luna de Desmot. Não sabia como processar o fato de que eles já se conheciam — que havia uma história entre eles, uma história que apenas ele lembrava. Mas, por alguma razão inexplicável, o clima na casa dele não parecia hostil. Caleb foi quem abriu a porta
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da frente, segurando-a aberta enquanto todos entravam. O ambiente era surpreendentemente acolhedor, um contraste stark com o frio cortante da noite lá fora. As paredes de madeira escura e polida, o aroma reconfortante de chá de ervas e lenha queimando suavemente na lareira, a luz dourada e dançante das velas — tudo aquilo trazia um conforto estranho, inexplicável, como se aquele lugar já fizesse parte dela de alguma forma ancestral. E então, uma pequena mão quente segurou a sua. Beatriz olhou para baixo e encontrou a garotinha olhando para ela com aqueles olhos imensos e brilhantes. A criança que deveria estar morta. A criança que ela havia, de alguma forma impossível, trazido de volta.
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Seus olhos eram imensos e luminosos, cheios de uma curiosidade inocente, mas algo mais profundo também habitava ali — algo antigo, sábio, que não deveria existir em uma criança tão pequena. — Você brilha — disse a menina suavemente. A voz era como um sussurro, delicada como pétalas ao vento. Beatriz franziu a testa, confusa. — O quê? A menina sorriu, um sorriso pequeno e misterioso. — Quando fechou os olhos, na enfermaria. Quando tocou em mim. — Ela inclinou a cabeça, como um passarinho curioso. — Você brilhava, como a lua cheia.
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Beatriz não soube como responder a isso. As palavras pareciam presas em sua garganta. A mãe da menina apareceu silenciosamente ao lado delas, pousando uma mão carinhosa e protetora sobre os cabelos dourados da filha. — Ela sempre viu coisas que nós não conseguimos ver — explicou ela tranquilamente, com um toque de orgulho maternal. — Coisas além do véu. Beatriz engoliu em seco e se ajoelhou lentamente, ficando na mesma altura da garotinha. De perto, podia ver as pequenas sardas que pontilhavam seu nariz, o brilho sobrenatural em seus olhos. — Você tem um nome? — perguntou ela gentilmente. A criança inclinou a cabeça pensativamente, como se estivesse ponderando se deveria ou não
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compartilhar tal informação preciosa. Finalmente, respondeu: — Lyra. O nome ecoou na mente de Beatriz como um sino de cristal, ressoando em algum lugar profundo de sua consciência. Era um nome importante, carregado de significado, de poder, de destino. A pequena Lyra a puxou suavemente pela mão, seus dedos pequenos entrelaçados aos de Beatriz com confiança absoluta. — Você pode dormir no meu quarto, se quiser — ofereceu ela com sinceridade tocante. Beatriz piscou, surpresa pela generosidade espontânea da criança, mas havia algo tão puro, tão genuíno no gesto da menina, que ela não conseguiu — não quis — negar.
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— Eu adoraria — respondeu ela suavemente, sentindo uma emoção estranha apertar seu peito. A mãe delas observou a cena com um brilho de lágrimas contidas nos olhos, uma expressão de gratidão e esperança pintada em seu rosto. Depois de um momento, ela se afastou discretamente para preparar algo quente para a recém-chegada. Beatriz deveria estar apavorada. Deveria estar questionando cada decisão que a trouxera até ali. Deveria estar planejando sua fuga, sua próxima jogada. Mas ali, naquela casa aquecida pela lareira, com a pequena Lyra segurando sua mão como se fosse a coisa mais natural do mundo, pela primeira vez naquela noite caótica e sangrenta, Beatriz não se sentiu completamente perdida.
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Do outro lado da vila, Desmot caminhava em passos pesados e furiosos até o templo dos anciãos. Cada passo ecoava em sua mente como um trovão distante, anunciando a tempestade que se aproximava. Ela voltou. As palavras giravam incessantemente dentro dele como veneno sendo lentamente absorvido por sua corrente sanguínea. A lua a trouxe de volta. A mesma garota — não, a mesma mulher agora — que desaparecera anos atrás como uma sombra varrida pelo vento da manhã, sem deixar rastros, sem dar explicações. A Luna que ele nunca deveria ter perdido. A Luna que ele passou anos tentando esquecer.
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E agora ela estava de volta, como se os anos de dor e ressentimento não significassem nada. Como se ela pudesse simplesmente reaparecer e tudo voltaria a ser como antes. Seus olhos brilharam perigosamente no escuro, refletindo a luz prateada da lua. Ele não podia fugir disso. Não importava o quanto quisesse. Não importava quantas vezes negasse para si mesmo. O vínculo ainda estava lá, pulsando sob sua pele como uma coisa viva, insistente, exigente, mas os anciãos precisavam saber. Precisavam entender o que estava acontecendo. E ele precisava desesperadamente descobrir a verdade. Porque se a lua havia marcado Beatriz duas vezes — primeiro como sua Luna, depois com o poder de curar os mortos...
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O destino estava apenas começando a se desenrolar e algo dizia a Desmot que nenhum deles estava preparado para o que estava por vir.
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