Capítulo 13: Ecos do Passado
O quarto estava mais silencioso agora — um silêncio pesado, carregado, quase expectante — mas ainda carregava o peso da febre que assolara Beatriz como uma tempestade. Ela finalmente respirava de forma estável e profunda, sua pele já não parecia tão perigosamente quente ao toque, mas o que quer que estivesse preso dentro dela, aprisionado em camadas de esquecimento e negação... Ainda estava lá. Saphira suspirou longamente, observando a figura adormecida na cama — não apenas uma jovem
164
mulher ferida, mas a filha que a lua havia perdido e agora devolvia em pedaços. — Ela vai se recuperar — disse suavemente, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa. Uma prece disfarçada de certeza. Desmot não disse nada em resposta. Apenas ficou de pé ao lado da cama, imóvel como uma sentinela de pedra, os olhos fixos nela com uma intensidade que beirava a obsessão, como se ainda estivesse esperando que a febre voltasse a qualquer momento e a levasse de novo, que ela desaparecesse como fumaça entre seus dedos. Mas, no fundo de sua alma inquieta, não era a febre que ele temia. Era o esquecimento.
165
Era a coisa invisível que já a arrebatara uma vez, quinze anos atrás, e que ainda a mantinha presa em suas garras. Saphira tocou seu ombro largo suavemente, maternalmente. — Vamos deixá-la descansar — não foi um pedido. Foi uma ordem gentil mas firme. — Ela precisa de paz agora. Mesmo relutante, cada fibra de seu ser resistindo à ideia de se afastar dela, Desmot assentiu com um movimento rígido de cabeça. Caleb, que observava tudo da penumbra do canto com os braços cruzados e expressão pensativa, não disse nada enquanto saíam do quarto em fila silenciosa. Mas quando a porta se fechou atrás deles com um clique suave, ele lançou um olhar carregado de significado e preocupação para o irmão.
166
Precisamos conversar. Na sala principal, o fogo na lareira estalava baixinho em um ritmo hipnótico, lançando sombras dançantes e inquietas pelas paredes de madeira envelhecida. A luz alaranjada criava um contraste dramático — calor e escuridão em constante batalha. Saphira se sentou pesadamente em sua cadeira favorita perto do fogo, o olhar distante, perdido em memórias e medos antigos. Caleb encostou no batente da porta que levava à cozinha, os braços ainda cruzados, pensativo e alerta. E Desmot... Desmot estava inquieto. Ele não conseguia ficar parado.
167
Cruzou os braços sobre o peito amplo, depois os descruzou. Caminhou até a janela. Voltou. Parou perto da lareira. Se moveu novamente. Tentando manter o tom de voz controlado, mas falhando miseravelmente, ele finalmente rompeu o silêncio: — Ela se lembrou de mim. As palavras caíram como pedras em água parada. Saphira ergueu uma sobrancelha, o olhar aguçado voltando-se para ele instantaneamente. — Como assim? — sua voz estava carregada de curiosidade e apreensão. Ele trincou os dentes, a mandíbula apertando visivelmente, os músculos trabalhando sob a pele.
168
— Ela falou no delírio. Durante a febre, quando a infecção estava pior. — Fez uma pausa, como se as palavras fossem difíceis de pronunciar. — Disse que eu não era real. Que tudo isso era só uma história. Uma invenção. O silêncio na sala ficou pesado e denso como chumbo derretido, o fogo estalou mais alto, como se reagindo à revelação. Caleb franziu o cenho profundamente, descruzando os braços e se inclinando para frente. — Ela disse exatamente isso? — havia urgência em sua voz. — Que você não era real? Desmot assentiu lentamente, a mandíbula ainda rígida, os punhos cerrados ao lado do corpo. — Ela achava que nos criou. Que esse mundo inteiro era só um conto que ela inventou. — Ele
169
passou a mão pelos cabelos escuros, frustração e confusão emanando dele em ondas palpáveis. — Como se fôssemos personagens em uma de suas histórias. Saphira olhou para o fogo por alguns instantes longos e pesados, as chamas refletindo em seus olhos escuros, antes de murmurar em voz baixa e carregada de tristeza: — Então foi isso que fizeram com ela. A frase ficou suspensa no ar como fumaça tóxica. Desmot se virou bruscamente para encará-la, os olhos brilhando com intensidade perigosa. — Explique — não foi um pedido. Foi uma ordem áspera, quase um rosnado.
170
A mãe deles suspirou profundamente, esfregando a têmpora com dedos trêmulos, como se estivesse revivendo um pesadelo antigo que preferia esquecer. — Eu não sei tudo — admitiu com relutância. — Mas o que sei... o que ouvi em sussurros e meio-verdades ao longo dos anos... é que quando a última peeira desapareceu há quinze anos, os anciãos ficaram em pânico absoluto. Caleb se afastou do batente da porta, dando um passo para mais perto, estreitando os olhos com interesse intenso. — Por quê? — pressionou. — O que os assustou tanto? Saphira o encarou diretamente, sua expressão grave e sombria.
171
— Porque uma peeira não desaparece sem motivo, meu filho. — Sua voz estava carregada de peso e conhecimento antigo. — Especialmente não a peeira. A escolhida da lua. A última de sua linhagem. Desmot sentiu o corpo inteiro se retesar, todos os músculos ficando tensos como cordas esticadas ao máximo, prontos para romper. Alguém a tirou. Alguém a escondeu de propósito. Saphira continuou, sua voz ficando mais baixa, quase um sussurro conspiratório, como se temesse que até as paredes pudessem ter ouvidos: — Havia boatos na época. Histórias sussurradas apenas em cantos escuros. — Ela fez uma pausa, pesando suas palavras cuidadosamente. — Diziam
172
que algo... ou alguém... a escondeu deliberadamente. Que sua mente foi moldada, manipulada como argila, para acreditar que nunca pertenceu a este mundo. Que tudo que ela conhecia aqui era fantasia. As palavras caíram como golpes de martelo. O Alfa respirou fundo, o peito expandindo e contraindo pesadamente, tentando processar a magnitude da verdade que estava sendo revelada. Alguém a apagou. Alguém deliberadamente fez com que ela esquecesse quem era, o que era, de onde vinha. Roubaram sua identidade. Seu propósito. Seu destino. Mas quem?
173
E por quê? Que ameaça ela representava que justificasse algo tão cruel? A mente dele girava com possibilidades, cada uma mais sombria que a anterior. O silêncio pesado foi interrompido subitamente por uma voz pequena, clara e curiosamente confiante. — Talvez vocês só estejam procurando no lugar errado. Os três adultos se viraram como um só para a porta, surpresa registrada em cada rosto. Lyra estava ali, parada na soleira, descalça e de camisola, seus olhos grandes e escuros — velhos demais para uma criança — brilhando à luz do fogo.
174
Ela segurava um pedaço de papel amassado em suas mãos pequenas. Saphira franziu a testa, parte preocupação maternal,