Capítulo 21: O Guardião das
Sombras O túnel de pedra era sufocante, as paredes suando uma umidade fria e oleosa que parecia sangrar da própria essência do Arquivo Sombrio. A escuridão era tão densa, tão absoluta, que as tochas pareciam apenas arranhar sua superfície, incapazes de penetrá-la verdadeiramente. Beatriz não precisava de luz para saber que algo estava ali. Ela sentia. Um frio que vinha de dentro. Um instinto primordial gritando para correr, para sair dali, para nunca olhar para trás, mas ela não correu.
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Lyra continuava na frente, os pequenos pés descalços pisando com precisão antinatural no chão irregular e úmido. Seus olhos grandes estavam fixos à frente, vendo coisas que ninguém mais via. — O selo está logo à frente — murmurou, a voz tão baixa que era quase um suspiro. Beatriz respirou fundo, tentando controlar o medo que começava a apertar seu peito como um punho de ferro. — O que tem além dele? A menina não respondeu. Desmot, logo atrás, manteve uma das mãos sobre o punho da espada. Seus olhos dourados escaneavam cada sombra, cada curva do túnel, cada possível ameaça.
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Caleb seguiu seu exemplo, os músculos tensos, pronto para sacar a lâmina ao primeiro sinal de perigo. E então, o som veio novamente. Scraaaaaaaaatch. Algo raspando as paredes. Só que dessa vez estava mais perto. Muito mais perto. Beatriz congelou. A pedra ao redor deles parecia mover-se — ondulando como água, distorcendo-se como se a própria estrutura do túnel estivesse viva. E então ela percebeu a verdade terrível. As sombras estavam realmente se movendo. — Não parem — disse Lyra, sem se virar.
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Sua voz não tremia. Não havia medo nela. Apenas uma aceitação calma e assustadora, ela sabia o que estava fazendo, mas então, a sombra tomou forma e o que saiu do meio da escuridão não deveria existir. Beatriz viu primeiro os olhos. Vazios. Profundos como buracos negros, sugando a luz ao redor. Não eram olhos vivos — eram ausências, vácuos onde a realidade simplesmente deixava de ser. O corpo era uma massa distorcida e grotesca, como se tivesse sido remontado de pedaços de coisas que não deveriam pertencer umas às outras. Seu formato era vagamente humanoide, mas as proporções estavam todas erradas. Os braços eram compridos demais, pendendo até o chão. Os dedos terminavam em garras que raspavam as pedras com cada movimento.
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E quando a boca se abriu... Não havia dentes. Havia outras bocas dentro dela. Cada uma sussurrando em línguas que nunca deveriam ser faladas. — Isso... não pode ser real — murmurou Caleb, a voz carregada de uma incredulidade horrorizada. Desmot não hesitou. Sacou a espada em um movimento fluido, o metal cantando ao sair da bainha, mas antes que pudesse atacar, Lyra levantou a mão pequena. — Não. O comando em sua voz era absoluto.
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Desmot parou, a lâmina suspensa no ar. Beatriz segurou o braço dele, sentindo os músculos tensos como cabos de aço. — O que é isso? Lyra olhou para a criatura diante deles, seus olhos completamente desprovidos de medo. — É o Guardião. O silêncio que se seguiu foi mais denso que a escuridão ao redor. — Guardião do quê? — perguntou Beatriz, sentindo o coração acelerar. Lyra piscou lentamente. — Do que foi trancado aqui.
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Desmot cerrou os dentes, a mandíbula trabalhando. — E vai nos deixar passar? Lyra virou-se para ele pela primeira vez desde que entraram no túnel. — Não. O Alfa rosnou baixo, um som que vinha de algum lugar primitivo dentro dele. — Então não temos escolha. Caleb levantou a espada, pronto para avançar, mas Beatriz sentiu algo dentro dela rejeitar aquela ideia com uma força que a surpreendeu. Ela não sabia por que, mas sabia — com uma certeza que vinha de algum lugar além da lógica — que lutar não era a resposta.
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Matá-lo poderia ser pior do que deixá-lo ali. Muito pior. Então ela fez a única coisa que fazia sentido. Deu um passo à frente. — Beatriz! O rosnado de Desmot foi um aviso e uma ordem, mas ela o ignorou, aproximou-se do Guardião, cada passo pesando uma eternidade. E então... ele falou. — Você não deveria estar aqui. A voz não veio de sua boca. Ela não viajou pelo ar.
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Ela simplesmente apareceu dentro da mente de Beatriz, ecoando em seu crânio como o sino de uma catedral submersa. Beatriz estremeceu, mas manteve a postura ereta. — Eu sei, mas preciso passar. O Guardião inclinou a cabeça de forma errática, como um pássaro estudando uma presa. O movimento era tão antinatural que fez o estômago de Beatriz revirar. — Eles... não querem que você volte. Os pelos da nuca de Beatriz se arrepiaram, ela não precisava perguntar quem eram "eles". Já sabia. Os que a tiraram dali. Os que roubaram sua memória. Os que a quebraram e a esconderam e rezaram para que ela nunca voltasse.
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Beatriz engoliu em seco. — Eu não vou parar. O Guardião a observou por longos segundos que pareciam se estender para sempre. E então... ele riu. O som era distorcido, errado, como se algo quebrasse dentro da própria realidade. Como vidro rachando em dimensões que não deveriam existir. — Então quebre as correntes. E simplesmente... deu um passo para o lado. Revelando o selo brilhante no final do corredor. Um círculo perfeito, entalhado na pedra viva, coberto de runas que pulsavam como veias com sangue luminoso.
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E dentro dele, Beatriz viu algo que fez seu coração parar. Não era apenas um selo. Era um espelho. E seu próprio reflexo a observava do outro lado. Mas aqueles olhos... não eram os seus. Eles pertenciam à Beatriz que foi esquecida. À Beatriz que foi roubada. À Beatriz que agora... Queria ser libertada. Beatriz deu um passo à frente, sentindo a energia do selo vibrar sob sua pele como eletricidade estática. — Como eu quebro isso?
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O Guardião sorriu — ou o que quer que passasse por um sorriso naquela face grotesca, e então, a verdade caiu sobre ela como uma lâmina afiada. — Você precisa se lembrar de quem realmente é. O selo começou a trincar. Linhas finas de luz se espalharam pela superfície como teias de aranha brilhantes. Beatriz ofegou. E então... O mundo começou a se despedaçar ao seu redor.
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