Capítulo 12: Febre e Delírios A culpa é da lua · Capítulo 14 de 36
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Capítulo 12: Febre e Delírios

A noite mergulhava a vila em uma escuridão densa e sufocante, e a lua — mesmo alta no céu, mesmo cheia e brilhante — parecia distante, indiferente, como se tivesse se virado de costas para seu mundo. O vento frio assobiava pelas frestas da cabana como fantasmas lamentando, mas dentro do quarto, o calor era opressivo, pesado, quase tangível. Beatriz se revirava na cama como alguém possuído, o rosto febril e brilhando de suor, o corpo coberto por uma fina camada de transpiração que encharcava os lençóis. Seu sono não era tranquilo — não era o descanso recuperador que ela tanto precisava. Não era sono. Era um delírio.

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Uma prisão de fogo e sombras da qual ela não conseguia escapar. Desmot estava sentado ao lado da cama desde que a noite caiu, rígido e alerta como uma estátua de pedra, recusando-se a se mover, recusando-se a deixá-la sozinha nem por um segundo. O desconforto crescia dentro dele como uma coisa viva — algo visceral que ele não entendia completamente e que o irritava por sua própria existência. A cada gemido baixo de Beatriz, a cada suspiro entrecortado, seu peito ficava mais pesado, sua mente mais tensa, seus instintos mais selvagens. Algo está errado. Ela tremia mesmo sob o peso dos cobertores, seus lábios se moviam em sussurros desconexos, palavras sem sentido que se perdiam no ar quente.

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E então... ela começou a falar com mais clareza. — Você... não é real... — sua voz era um fio frágil, fraca, perdida em meio ao calor sufocante da febre. — Tudo isso... só uma história... Desmot trincou os dentes, a mandíbula apertando dolorosamente. Ela estava falando dele. Dele. — Beatriz. — Ele chamou, baixo mas firme, tentando alcançá-la através do nevoeiro do delírio. Mas ela não escutava. Ela continuou murmurando, perdida em seu próprio mundo fragmentado, presa entre realidades.

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— Eu escrevi você... — as palavras saíram como uma confissão, como um segredo que ela nunca pretendera revelar. Ele sentiu um frio percorrer seu estômago, gelo se espalhando por suas veias. Escrevi você. “O que isso significa?” Ela se revirou mais uma vez, mais violenta agora, o rosto contorcido em agonia como se estivesse sendo sufocada por algo invisível, algo que apenas ela podia ver. — Isso não pode ser real... você não pode ser real... — sua voz quebrou, carregada de desespero. Desmot sentiu a respiração pesar em seus pulmões, o ar ficando mais denso.

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Ela estava alucinando. Tinha que ser isso. A febre estava fazendo-a delirar. “Mas e se não for só febre?” Ele passou a mão pelo rosto, tentando manter a calma, mas o sentimento queimava dentro dele como um incêndio descontrolado — frustração, preocupação, algo mais profundo que ele não conseguia nomear. Ela ainda não aceitava que pertencia àquele mundo, ainda lutava contra a realidade dele. Contra ele. Ele olhou para o corpo dela, para o suor escorrendo por sua pele pálida, para a forma como ela tremia. E então, viu. Sangue.

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A mancha de sangue no tecido da camisa, pequena, mas crescendo, seu coração parou por um segundo — depois bateu em dobro, violento. A fina camada de tecido sobre sua cintura estava vermelha, a cor se espalhando lentamente como tinta em papel. Não. Não, não, não. Ele puxou a coberta imediatamente, sem pensar, sem pedir permissão, e ergueu a barra da roupa dela com mãos que tremiam imperceptivelmente. E viu. O corte. A maldita ferida que ela tinha escondido — de todos, dele, talvez de si mesma.

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E estava infeccionada. O tom avermelhado e inchado ao redor da ferida fazia sua pele parecer queimada de dentro para fora. O cheiro — metálico misturado com algo mais azedo, mais pútrido — fez um rugido baixo e gutural escapar da garganta de Desmot, um som puramente animal. — Droga. — A palavra saiu como um rosnado. “Por que ela não disse nada? Por que escondeu isso?” Ele nunca se moveu tão rápido na vida. A porta do quarto bateu com força contra a parede quando ele desceu as escadas quase correndo, cada passo pesado como trovão.

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Saphira e Caleb estavam na sala, conversando em voz baixa perto da lareira, mas ambos se levantaram num sobressalto quando viram a expressão de Desmot — pura urgência misturada com algo próximo ao pânico. — Preciso de água fervendo e ervas para infecção. Agora. — Não foi um pedido. Foi uma ordem que não admitia questionamento. Saphira arregalou os olhos, a experiência de décadas lendo a gravidade da situação instantaneamente. — O que aconteceu? Desmot passou a língua pelos dentes, o maxilar apertado em frustração e medo. — Ela estava escondendo um corte. Está infeccionado, piorando.

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Caleb praguejou baixinho — uma palavra que raramente usava — antes de sair correndo para pegar os suprimentos médicos que guardavam para emergências. Saphira não disse mais nada, não perdeu tempo com perguntas. Apenas correu para a cozinha, já sabendo exatamente o que fazer. Desmot voltou às pressas para o quarto, subindo os degraus de três em três. Beatriz ainda se debatia nas cobertas, presa em seu pesadelo particular, a respiração entrecortada e superficial, o peito subindo e descendo rápido demais. — Não... — O sussurro dela era trêmulo, quebrado. — Não pode ser... Ele se ajoelhou ao lado da cama e segurou sua mão — pequena, delicada, queimando como carvão em brasa.

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Ela estava tão quente. Perigosamente quente. — Fique comigo, Luna — sua voz saiu mais suave do que pretendia, quase uma súplica. Mas Beatriz não o ouviu, seus olhos continuaram fechados, perdidos em algum lugar além do alcance dele. — Não pode ser real... — ela sussurrou novamente, virando o rosto para o lado, evitando-o até no delírio, rejeitando-o mesmo inconsciente. A raiva dele cresceu — não dela, nunca dela. Mas raiva do que a arrancou dele há tanto tempo. Do que a fez esquecer quem era. Do que a fez acreditar que ele, que tudo isso, era apenas uma fantasia, uma história.

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“Eu vou provar que sou real.” Ele não permitiria que ela sumisse de novo. Não desta vez. Não enquanto ele tivesse fôlego nos pulmões e força nos membros. A porta se abriu atrás dele com um rangido urgente, Caleb chegou primeiro, trazendo uma tigela de cerâmica fumegante com água fervendo e vários panos limpos dobrados sob o braço. — Isso vai doer — ele avisou, colocando tudo ao lado da cama. — Muito. Desmot pegou um dos panos e o mergulhou na água escaldante, torcendo-o rapidamente para remover o excesso. Saphira entrou logo depois, um pouco ofegante, segurando um frasco de vidro escuro cheio de uma pasta de ervas amassadas — o cheiro forte

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de alecrim, tomilho e algo mais amargo preencheu o quarto. — Passe isso na ferida depois de limpar — ela instruiu, colocando o frasco na mesa de cabeceira. — Vai queimar como fogo, mas vai impedir que a infecção se espalhe. Se já não for tarde demais. Desmot assentiu, a expressão grave, e então, começou. No momento em que o pano quente tocou a pele inflamada de Beatriz, ela gritou. Um som agudo, rasgado, de dor pura. Ela se arqueou contra a cama, o corpo inteiro se contraindo, a dor atravessando a névoa do delírio como uma faca, mas ele a segurou firme, uma mão grande pressionando seu ombro contra o colchão, impedindo-a de se machucar mais.

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— Fique comigo — ele repetiu, voz firme mas preocupada. — Eu sei que dói, mas preciso fazer isso. Ela tentou soltar, ainda presa em seus delírios, as mãos empurrando fracamente contra ele. — Me solta... você não é real... você não pode me machucar se não for real... As palavras cortaram mais fundo que qualquer lâmina. Desmot rosnou involuntariamente, o som vibrando em seu peito. — Eu sou real — ele disse com intensidade feroz, como se pudesse forçar a verdade através do delírio dela. — E você vai se lembrar disso. Ele manteve o pano pressionado contra a ferida, limpando o sangue seco e a sujeira que se acumulou, enquanto Beatriz gemia baixo, os músculos dela

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tremendo de dor e exaustão, o corpo pequeno convulsionando. Caleb observava da porta, os punhos cerrados, odiando ver alguém sofrendo assim mas sabendo que era necessário. Saphira murmurava uma oração baixa em uma língua antiga, pedindo à lua que protegesse sua filha perdida. Finalmente, quando a ferida estava limpa e a respiração de Beatriz se tornou mais leve — ainda entrecortada, mas menos desesperada — Desmot tirou o pano ensanguentado e pegou o frasco de ervas. O cheiro era forte, pungente, quase esmagador. Ele sabia que ia arder, sabia que ia machucá-la ainda mais, mas não hesitou.

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Com dedos surpreendentemente gentis para alguém tão grande, ele pegou uma quantidade generosa da pasta escura e começou a passar sobre o corte inflamado, espalhando a mistura com precisão cuidadosa, cobrindo cada centímetro da ferida. Beatriz soltou um suspiro entrecortado, o corpo inteiro enrijecendo. — Dói... — a voz dela era fraca, quase um pedido, uma súplica infantil. A expressão de Desmot se suavizou por um momento, algo quebrando dentro dele. Ele queria aliviar a dor dela. Tirar todo o sofrimento e carregar sozinho. Ele odiava vê-la assim — tão vulnerável, tão quebrada, tão longe dele mesmo estando tão perto. Ele odiava que ela não soubesse quem era. Quem eles eram.

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Mas ele esperaria. Ele tinha esperado quinze anos. Podia esperar mais. Se fosse preciso, ele lutaria contra a própria lua para trazê-la de volta. Desafiaria os espíritos, rasgaria o véu entre mundos. O que for necessário. — Vai passar — ele prometeu suavemente, cobrindo a ferida com um curativo limpo e amarrando com cuidado. — A dor vai passar e você vai ficar bem. A febre ainda não tinha baixado completamente, mas ela estava mais calma agora, o corpo relaxando aos poucos contra o colchão encharcado de suor. Saphira tocou o ombro dele suavemente, maternalmente.

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— Ela vai sobreviver — não foi uma pergunta. Foi uma afirmação, uma certeza. — Ela é mais forte do que parece. Desmot soltou um longo suspiro — profundo, exausto, aliviado — como se só naquele momento tivesse permitido a si mesmo respirar de verdade desde que viu o sangue. Ele não a perderia. Não de novo. Nunca de novo. Caleb saiu silenciosamente com Saphira, dando-lhes privacidade, fechando a porta suavemente atrás de si. Desmot ficou ali, sentado na beira da cama, observando a forma como o peito dela subia e descia, contando cada respiração como se fosse preciosa.

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Beatriz ainda estava longe dele — presa em algum lugar entre mundos, entre realidades, entre quem ela achava que era e quem ela realmente era. Mas um dia, ela se lembraria. Um dia, as memórias voltariam, as verdades se revelariam e quando isso acontecesse... Quando ela finalmente abrisse os olhos e o reconhecesse de verdade... Ela nunca mais duvidaria que ele era real. Que eles eram reais. Que o vínculo entre eles era mais real que qualquer outra coisa em qualquer mundo. Ele pegou a mão dela novamente — ainda quente, mas menos febril agora — e a segurou entre as suas,

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como se pudesse ancorar ela à realidade através do toque. — Volte para mim — ele murmurou, tão baixo que as palavras quase se perderam no silêncio. — Não importa quanto tempo demore. Eu vou estar aqui. Sempre. Lá fora, a lua finalmente emergiu de trás das nuvens, sua luz prateada derramando através da janela e iluminando o rosto de Beatriz com um brilho suave e etéreo. Como se finalmente, a lua estivesse prestando atenção. Como se finalmente, estivesse trazendo sua filha de volta para casa

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