Capítulo 9: A Caçada à Peeira
A floresta ficou silenciosa demais — o tipo de silêncio que precede a morte. O vento frio trouxe um cheiro de carne queimada e sangue seco, e a névoa rastejou pelo chão como se a própria terra estivesse sufocando, agonizando. E então eles surgiram. Sombras entre as árvores, vultos altos e retorcidos, olhos brilhando como brasas em fornalhas. Suas presenças carregavam algo errado, algo antinatural — como se fossem feridas abertas na realidade. Eles não pertenciam a este mundo. E o pior de todos estava no centro.
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Alto, envolto em um manto negro que parecia absorver a luz ao seu redor, pele pálida como ossos expostos ao sol por décadas, e olhos completamente negros — sem vida, sem alma, sem humanidade alguma. Ele deu um passo à frente, e a terra sob seus pés escureceu como se tivesse sido contaminada. — Onde está a peeira? A voz foi baixa, mas cada palavra soou como uma lâmina cortando o ar, rasgando o silêncio. Desmot se colocou na frente de Beatriz imediatamente, o corpo tenso como o de um lobo prestes a atacar, cada músculo preparado para a violência. — Você não a terá.
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O líder das sombras riu. O som era errado — seco, oco, como algo que nunca deveria ter rido antes, como se a própria ideia de humor fosse uma obscenidade vinda daquela boca. — Oh, Alfa... — a criatura inclinou a cabeça lentamente, estudando Desmot como um predador estuda sua presa. — Mas a lua nos prometeu a peeira. Você está interferindo no destino. Os lobos começaram a rosnar ao redor, o som reverberando entre as árvores — prontos para lutar, prontos para morrer. Mas o líder não se intimidou. Ele sorriu, revelando dentes que eram afiados demais, numerosos demais. — Ela nos pertence.
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Desmot deu um passo à frente, os punhos cerrados até os nós dos dedos ficarem brancos. — Venha buscá-la, então. A tensão explodiu como vidro se estilhaçando. A luta começou. Os guerreiros atacaram primeiro, os lobos se transformando em meio ao ar gélido, seus corpos contorcendo-se em formas bestiais. Uivos ecoaram pela floresta enquanto as sombras deslizavam para dentro do campo de batalha, seus movimentos erráticos, impossíveis — como se fossem feitas de pura escuridão líquida. Desmot não hesitou. Ele empurrou Beatriz para trás com força, forçando-a a recuar.
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— Fique escondida! Ela caiu contra um tronco de árvore, o impacto roubando seu fôlego. Antes que pudesse se levantar, o Alfa já estava lutando — garras contra sombras, força bruta contra escuridão viva. Beatriz tentou ignorar a raiva que crescia dentro dela como fogo vivo. Ficar escondida? Assistir enquanto eles morrem? Não. Isso não era ela. Nunca foi. Ela fechou os olhos e sentiu a lua dentro de si — não como algo distante no céu, mas como parte de seu sangue, de seus ossos, de sua própria essência.
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A energia queimou em suas veias, algo antigo e feroz, algo que estava nela antes mesmo de seu nascimento, antes mesmo de sua primeira respiração. O mundo ao seu redor pareceu desacelerar, cada som ficando mais nítido, cada movimento mais claro. E então... ela se lembrou. O cheiro do couro antigo. A madeira polida sob seus dedos. O peso familiar do arco sobre seus ombros. O sussurro da corda ao ser puxada. Beatriz abriu os olhos e ele estava ali. Seu arco.
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Velho, mas resistente — seu formato exatamente como nos seus sonhos, nos fragmentos de memória que ela pensava serem apenas ficção. A madeira estava entalhada com runas prateadas que brilhavam sob a luz da lua como veias de prata viva. Ela engoliu em seco, a garganta apertada de emoção. Seus dedos deslizaram pelo arco, sentindo o peso, sentindo a textura da madeira, sentindo a realidade. Isso era real. Sempre foi real. E então, ela puxou a primeira flecha encantada — a ponta brilhando com luz lunar, fria ao toque mas ardendo com poder. A luta era um caos de garras, gritos e sangue.
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Os lobos caíam e se levantavam, feridos mas nunca desistindo, nunca parando. Caleb lutava contra dois inimigos ao mesmo tempo, seus golpes rápidos e brutais, precisos como lâminas. Mas ele não viu. Uma sombra deslizando por trás dele, silenciosa como a morte. Uma lâmina negra materializando-se no ar, afiada como vidro quebrado, pronta para enterrar-se entre suas omoplatas. Beatriz não pensou. Não hesitou. Não teve tempo para duvidar. Ela ergueu o arco em um movimento fluido, mirou com uma precisão que não sabia possuir.
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Soltou a flecha. Shhhhhhhhh. O som cortou o ar como um sussurro mortal. A flecha atravessou a distância em menos de um segundo. O atacante gritou — um som agudo, inumano, agonizante. Sua forma se dissolveu no ar antes que a lâmina tocasse Caleb, desaparecendo como fumaça ao vento. O lobo girou no mesmo instante, o peito subindo e descendo com força, sangue escorrendo de um corte em seu ombro. Seus olhos encontraram os de Beatriz, arregalados de surpresa e... respeito. — Foi você?
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Ela apenas assentiu, já procurando o próximo alvo. Caleb sorriu — um sorriso feroz, selvagem. — Bela mira, Luna. Mas não havia tempo para celebrações. Outro ancião caiu no chão com um grito abafado, uma das sombras o derrubando com força brutal. Ele não teria tempo de reagir. A criatura ergueu uma lâmina de escuridão solidificada, pronta para o golpe final. Beatriz agiu de novo, o instinto assumindo o controle. Outra flecha cortou o ar. Shhhhhhhhh.
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A sombra desapareceu em um grito silencioso antes de tocar o ancião. Ele engasgou, o peito subindo e descendo descontroladamente. Seus olhos antigos e sábios, que haviam visto séculos, encontraram os de Beatriz através da névoa e do caos. E pela primeira vez na história, um ancião se curvou para ela. — Minha gratidão será eterna, peeira. Beatriz sentiu o coração acelerar, não de medo, mas de propósito. Isso. Isso era quem ela era. Mas então... Desmot.
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Ela o viu através da batalha, cercado. O Alfa lutava contra três oponentes de uma só vez, seu corpo já marcado por cortes profundos, o sangue escorrendo pela pele e encharcando sua túnica. Seus golpes eram rápidos, ferozes — mas ele estava sozinho, encurralado, superado. Beatriz sentiu a raiva explodir dentro dela como uma tempestade. Ela ergueu o arco e mirou em um dos inimigos, sua voz rasgando o campo de batalha. — Ei, desgraçados! Sua voz cortou o ar como um trovão. Todos pararam por uma fração de segundo.
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Até Desmot, que a encarou com olhos arregalados — choque, medo, e algo que parecia orgulho. Beatriz puxou a corda do arco até o limite, os músculos dos braços tremendo com o esforço. — Vocês queriam a peeira? Ela soltou a flecha. SHHHHHHHHH. A flecha atravessou o ar como um cometa prateado. Atingiu uma das sombras que lutava contra Desmot, dissolvendo-a instantaneamente em uma explosão de luz lunar. O Alfa congelou, o peito subindo e descendo pesadamente e então a atenção do líder inimigo mudou.
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Completamente. Os olhos negros e vazios dele brilharam com algo que poderia ter sido satisfação, triunfo. Ele sorriu — e foi a coisa mais aterrorizante que Beatriz já vira. — Aí está você. Beatriz sentiu o perigo real naquele momento — não a ameaça abstrata, mas o terror visceral e imediato de ser caçada. O chão tremeu sob seus pés. As sombras ao redor se contorceram, respondendo ao seu mestre. O líder estava vindo. Direto para ela.
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Os olhos de Desmot se arregalaram em pânico puro. — Beatriz, corra! O sangue dela gelou em suas veias. Ela girou nos calcanhares e correu. As sombras deslizavam pelo chão atrás dela, movendo-se rápido demais, impossíveis de serem naturais — como água escura fluindo sobre pedras. Seu coração batia como um tambor de guerra dentro do peito, cada batida ecoando em seus ouvidos. Mais rápido. Corra mais rápido. Elas iriam pegá-la e ela sabia disso. Seus pulmões queimavam. Suas pernas gritavam de esforço e então ela viu. O penhasco.
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O precipício se abrindo diante dela como uma boca de pedra. O nada abaixo dele — escuridão profunda, insondável. Merda. Seus pés tocaram o limite da terra firme, pedrinhas caindo no abismo. Ela olhou para trás, a respiração presa na garganta. Os olhos do líder das sombras se fixaram nos dela através da distância — negros, vazios, famintos. Ele estava a metros de distância. Ele ia pegá-la. E não havia para onde correr.
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