Capítulo 20: O Ritual da Lua A culpa é da lua · Capítulo 25 de 36
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Capítulo 20: O Ritual da Lua

Negra A noite caiu como uma cortina de veludo negro, mais escura e densa que qualquer noite anterior. A lua, sempre imponente no céu, estava oculta por nuvens que pareciam mais espessas que deveriam, mais intencionais — como se alguém tivesse puxado um véu sobre o mundo. O vento soprava frio, trazendo consigo o cheiro de terra úmida, madeira queimada e algo mais profundo... algo errado. Um cheiro de decomposição antiga e magia corrompida. Desmot estava de pé diante da mesa de madeira na cabana principal, os punhos cerrados sobre a superfície escura, os olhos fixos nas chamas vacilantes das tochas. Sua sombra dançava na

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parede atrás dele — grande, ameaçadora, quase viva. — Temos que agir agora. Sua voz era um rosnado baixo, carregado de uma urgência que fazia o ar vibrar. Beatriz, ao lado de Saphira e Lyra, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia o que aquilo significava. O plano não era mais um plano. Agora era um ultimato. Agir ou morrer. Não havia terceira opção. — Os anciãos já reforçaram as proteções do Arquivo — disse Caleb, de braços cruzados, o rosto esculpido em tensão. Havia uma veia pulsando em seu pescoço.

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— O que significa que temos que entrar antes que seja tarde demais — completou Saphira, sua voz mais baixa e controlada que o normal. Lyra estava sentada perto do fogo, desenhando com carvão sobre um pedaço de pergaminho amarelado. Beatriz se aproximou e observou o desenho. Era o mesmo símbolo que a garotinha havia mostrado antes — círculos concêntricos entrelaçados com runas antigas, formando um padrão hipnótico. O selo. A chave para suas memórias. E agora, o caminho para a verdade. — Beatriz e Lyra têm que ir.

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A declaração de Desmot cortou o ar como uma lâmina, Beatriz ergueu os olhos imediatamente, o coração disparando. — O quê? Desmot finalmente se virou para encará-la completamente. Seus olhos âmbar brilhavam com determinação absoluta. — Se você for a chave, e Lyra for o caminho, então vocês precisam estar lá dentro quando o selo for quebrado. A respiração de Beatriz ficou pesada, presa em algum lugar entre seus pulmões e sua garganta, a ideia de entrar no Arquivo Sombrio já era suficientemente assustadora, mas levar Lyra...? Ela olhou para a garotinha, que agora a observava com aqueles olhos grandes demais, sábios demais.

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— Não podemos arriscar. — As palavras saíram em um sussurro rouco. — Ela é apenas uma criança. Lyra inclinou a cabeça levemente, e quando falou, não havia medo em sua voz. Apenas uma certeza tranquila e terrível. — Se eu não for, vocês não vão encontrar o que procuram. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Beatriz trincou os dentes. Ela odiava isso. Odiava cada segundo dessa decisão. Saphira fechou os olhos, exausta de uma forma que não tinha nada a ver com sono. — Uma criança que já viu mais do que deveria.

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Beatriz apertou os punhos, mas odiava ainda mais a verdade que se recusava a ser encontrada e sabia que não havia outra escolha. A floresta estava mais fria que antes — um frio antinatural que não vinha apenas do ar, mas parecia emanar da própria terra. O grupo se movia em silêncio, cada um envolto pela escuridão como uma segunda pele. Suas respirações formavam pequenas nuvens de vapor que desapareciam rapidamente na penumbra. Desmot seguia à frente, todos os seus sentidos aguçados. Cada movimento de folha, cada rangido de galho, cada sussurro do vento era analisado e classificado como ameaça ou não. Caleb estava logo atrás, o corpo tenso como uma mola prestes a disparar, a mão sempre próxima da lâmina presa à cintura.

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Beatriz andava ao lado de Lyra, os olhos constantemente voltados para a menina, garantindo que ela não ficasse para trás. Saphira os acompanhava como uma sombra protetora e silenciosa. Nenhum deles falava. Apenas sentiam o peso esmagador do que estavam prestes a fazer. O caminho para o Arquivo era mais denso do que Beatriz lembrava — ou será que nunca tinha percorrido esse caminho? A floresta parecia distorcida, as árvores mais próximas umas das outras, os galhos entrelaçados formando uma teia acima de suas cabeças. Era como se algo estivesse moldando a realidade ao redor deles, então, Lyra parou de repente e Beatriz quase colidiu com ela. — O que foi?

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Os olhos da garotinha estavam fixos na escuridão entre as árvores — não na escuridão comum, mas em algo mais profundo, algo que Beatriz não conseguia ver mas podia sentir. — Eles estão esperando. O sangue de Beatriz gelou. — Quem? Lyra virou-se para ela, e seus olhos brilhavam com uma luz que não vinha do luar. — Aqueles que roubaram suas memórias. Quando finalmente chegaram ao limite do Arquivo Sombrio, o tempo parecia ter parado completamente.

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O local era um antigo templo de pedra, meio engolido pela floresta, oculto nas profundezas de uma ravina onde a luz do dia nunca chegava completamente. As paredes eram cobertas de runas pulsantes que emitiam uma luz azul fantasmagórica. Correntes de energia mágica envolviam a estrutura, vibrando com um zumbido grave que se podia sentir nos ossos. Caleb lançou um olhar para Desmot. — E agora? O Alfa analisou a área por um longo momento, os olhos percorrendo cada sombra, cada pedra, cada possível entrada e saída. Então seus olhos pousaram sobre Lyra. — Você disse que há outro caminho.

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A garotinha assentiu. — Sim, mas não é seguro. Beatriz franziu o cenho. — E qual deles é? Lyra ergueu a mão pequena e apontou para uma parede de pedra aparentemente sólida, coberta de musgo e liquens. — Por aqui. Desmot hesitou apenas por um segundo — um único segundo de dúvida, mas então sem escolha, aceitou, afinal agora, não havia mais volta. O corredor secreto era estreito e sufocante, as paredes tão próximas que Caleb tinha que andar de lado. A escuridão ali era mais densa do que deveria

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ser — como se fosse uma substância física, algo que resistia à luz das tochas. Os passos do grupo ecoavam de forma estranha, o som reverberando de maneiras que desafiavam as leis da acústica. Era como se houvesse mais espaço atrás das paredes do que deveria existir. Beatriz sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Lyra estava na frente, guiando-os com uma certeza assustadora, como se tivesse percorrido aquele caminho centenas de vezes. E então, ela parou. Beatriz quase esbarrou nela. — O que foi?

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Lyra virou-se lentamente, o rosto pálido na luz da tocha. — Estamos perto. O silêncio foi brutal. E então, um som cortou a escuridão. Scraaaaaatch. Algo raspando as paredes. Algo grande. Algo antigo. Algo que sabia que eles estavam ali. Beatriz sentiu o coração disparar, batendo tão forte que ela tinha certeza de que todos podiam ouvi-lo, porque naquele momento, ela finalmente compreendeu.

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Abrir as portas do Arquivo não era a única ameaça que enfrentavam. Algo estava esperando por eles ali dentro. Algo que nunca deveria ter sido libertado. E estava faminto.

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