Capítulo 10: O Abismo e a Ira do
Alfa O vento gelado rugia ao redor do penhasco, chicoteando os cabelos de Beatriz como serpentes furiosas enquanto ela encarava o inimigo — sem fuga, sem aliados, sem esperança. A sombra que antes parecia intangível, apenas névoa e pesadelo, agora estava ali — sólida, real, inegavelmente presente. Olhos vazios como poços sem fundo perfuravam sua alma, e sua presença era errada em um nível fundamental, primordial, como se não pertencesse a este mundo, como se a própria realidade se retorcesse ao seu redor. Ela estava sem saída. O penhasco atrás dela, cortando o céu como uma lâmina.
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O abismo abaixo, faminto e expectante. O inimigo à frente, inevitável. Ele sorria — e aquele sorriso era veneno condensado. — Você é tola, pequena — a voz dele escorria como veneno líquido, gotejando maldade em cada sílaba. — Acha que pode fugir de mim? Ela apertou o arco com força suficiente para fazer a madeira gemer, sentindo o suor frio escorrer pela nuca e descer pela espinha. O medo tentava dominá-la, tentava paralisá-la, tentava transformá-la em mármore. Mas ao invés de recuar, ela sorriu. Um sorriso selvagem. Insano. Desafiador.
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— Fugir? E então seu corpo moveu-se antes que seu cérebro compreendesse a loucura absoluta do que estava fazendo. Ela saltou para frente. Direto para a morte. Agarrou a sombra com ambas as mãos, dedos cravando em algo que era sólido e líquido ao mesmo tempo. O choque percorreu sua pele como eletricidade estática, como tocar um raio vivo. O inimigo arregalou os olhos — pela primeira vez, genuína surpresa, choque puro estampado naquele rosto inumano. — O que você está fazendo?!
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Beatriz sentiu a gravidade puxá-los com força implacável. Os dois. Eles caíram. Juntos. Para o vazio. O vento rugiu ao redor deles como uma fera enfurecida. O mundo virou de cabeça para baixo, o céu tornando-se terra, a terra tornando-se céu. Mas as mãos de Beatriz já se moviam — uma ainda agarrada à criatura, a outra puxando a última flecha de sua aljava com dedos que tremiam mas não hesitavam.
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Ela olhou direto nos olhos negros da criatura, viu o ódio ali, o desprezo, a fome insaciável. E sorriu. — Diga adeus. E atirou. A curta distância — menos de um palmo — a flecha perfurou o olho esquerdo do inimigo com um som nauseante de carne rasgando e algo mais profundo se quebrando. O grito dele rasgou o ar, ecoou pelo abismo como mil vozes gritando em uníssono. Seu corpo começou a se dissolver em pura sombra, como tinta se espalhando na água, gritando maldições antigas em línguas mortas que se perderam no vento. Então ele desapareceu.
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E Beatriz estava sozinha. Caindo. O impacto da água veio segundos depois — ou anos, o tempo perdeu significado. SPLASH. O frio cortou seu corpo como mil navalhas, penetrando os ossos, congelando sangue. Os pulmões travaram com o choque, todo o ar sendo expulso em uma explosão de bolhas. O rio era fundo, violento, cruel — e a corrente a arrastava para longe do penhasco como mãos invisíveis tentando reivindicá-la. Suba. Suba. SUBA. Ela lutou para subir, contra a água, contra o cansaço, contra a morte. Seus músculos ardiam em protesto, o
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cansaço da batalha finalmente cobrando seu preço. Mas a adrenalina ainda pulsava em suas veias como fogo líquido, recusando-se a deixá-la desistir. Com um último esforço desesperado, ela emergiu. Ar. A lua estava acima dela, serena e indiferente a seu sofrimento, mas tudo parecia irreal, distante, como se ela estivesse vendo através de um véu de névoa. Ela nadou até a margem — cada movimento uma guerra contra a exaustão. Seus braços estavam pesados como chumbo. A roupa encharcada a puxava para baixo como âncoras. O frio adormecia seus membros. Mas, finalmente, seus dedos tocaram lama. Terra firme.
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Viva. Ainda viva. Ela se arrastou para fora da água como um animal ferido, caiu de joelhos na margem enlameada, e vomitou água do rio, os pulmões ardendo como se tivessem sido preenchidos com vidro moído enquanto tossia violentamente. O som de passos. Rápidos. Urgentes. Desesperados. Beatriz ergueu a cabeça, a visão embaçada pela água e exaustão, e viu duas figuras correndo como se suas vidas dependessem disso. Caleb e Desmot. Caleb chegou primeiro, ajoelhando-se ao lado dela com um baque, o olhar oscilando violentamente entre alívio e incredulidade.
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— Porra, Beatriz! Você pulou de um maldito penhasco! Ela ainda tentava recuperar o fôlego, tremendo incontrolavelmente, mas Desmot não esperou, não perdeu tempo com palavras gentis. Ele a segurou pelos braços e a puxou para cima com força bruta, os dedos cravando em sua pele, o rosto contorcido em fúria absoluta. — VOCÊ QUER MORRER?! O grito ecoou pela margem do rio, pelos rochedos, pelas árvores. Beatriz arfou, sentindo a raiva dele como uma tempestade prestes a desabar sobre sua cabeça, prestes a consumi-la. — Eu salvei sua droga de vila!
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Desmot rosnou — um som gutural, bestial, perigoso — apertando os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos como osso. — Você poderia ter morrido! Ela o encarou, olhos prateados faiscando mesmo através da exaustão que pesava em cada fibra de seu ser. — E você poderia ter morrido lutando contra três deles sozinho! Os olhos âmbar de Desmot queimavam como brasas em fornalha. Ele estava furioso — mais furioso do que ela jamais o vira, mais furioso do que deveria ser possível, mas havia algo mais ali, algo mais profundo que a raiva, algo que ele lutava desesperadamente para esconder. Medo.
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Medo puro, visceral, incontrolável. Beatriz viu isso na forma como sua mandíbula tremia, na forma como seus dedos apertavam e relaxavam, na linha tensa de seus ombros. E isso a deixou ainda mais irritada. — Você acha que pode me trancar em um canto e esperar que eu fique calada enquanto todos vocês sangram por mim?! — sua voz subiu, crua e quebrada de emoção. — Eu sou a Luna! Isso significa que eu luto também! Desmot respirou fundo, o peito subindo e descendo pesadamente, claramente prestes a explodir em uma tempestade de palavras que ela não queria ouvir. Mas antes que pudesse, Beatriz cambaleou.
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O frio e o cansaço finalmente a alcançaram, o preço da batalha e da queda finalmente cobrando seu tributo. O mundo girou. Seu corpo vacilou, as pernas cedendo como galhos quebrados. Ela teria caído de cara no chão enlameado se Caleb não a segurasse, passando um braço firme e gentil ao redor de sua cintura. — Você está um desastre — ele murmurou, mas havia carinho genuíno na voz, respeito conquistado. Ela suspirou, grata pela presença dele, pelo calor de outro corpo vivo. — Valeu, Caleb. Ele sorriu de lado — aquele sorriso característico que parecia desafiar o mundo — tirou sua jaqueta de
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couro e colocou sobre os ombros dela com cuidado quase fraternal. — Você está tremendo como uma folha. Precisa se aquecer ou vai pegar uma pneumonia e morrer depois de sobreviver a isso tudo. Beatriz puxou a jaqueta mais apertada ao redor de si, o tecido ainda morno do calor corporal dele, e olhou para Desmot uma última vez. O Alfa ainda estava ali, de pé como uma estátua de pedra e raiva, o rosto uma máscara de emoções conflitantes — fúria, alívio, medo, algo mais profundo que ela não conseguia decifrar. Mas ela estava cansada demais para lutar mais uma batalha. Cansada demais para decodificar homens complicados.
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— Vou para a vila — sua voz saiu baixa, exausta, sem força para mais confrontos. Ela se virou e começou a caminhar, cambaleando levemente como uma pessoa bêbada, usando a jaqueta de Caleb como âncora contra o frio que tentava penetrar seus ossos. Desmot ficou para trás, imóvel como rocha. Mas Caleb não. Ele esperou até que Beatriz estivesse longe o suficiente, fora de alcance auditivo, sua silhueta pequena desaparecendo na escuridão entre as árvores. E então, girou nos calcanhares para encarar o irmão, todo o humor e leveza desaparecendo de seu rosto como fumaça ao vento.
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— O que diabos você está fazendo, Desmot? O Alfa ergueu o olhar, ainda fervendo de raiva mal contida, o maxilar apertado. — Cale a boca, Caleb. Mas Caleb deu um passo à frente, plantando-se firmemente, não recuando nem um milímetro, não se intimidando com o posto ou com a fúria. — Você vai deixar o orgulho te cegar até quando?! — sua voz era baixa mas feroz, carregada de meses — talvez anos — de frustração acumulada. — Ela te salvou. Salvou a vila. Salvou os anciãos. Matou aquela coisa. E VOCÊ AINDA QUER TRATÁ-LA COMO UMA INTRUSA?! Desmot apertou os dentes, os músculos da mandíbula saltando perigosamente.
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— Isso não é — — Isso é exatamente o que eu estou dizendo! — Caleb interrompeu, não deixando espaço para escapatórias ou desculpas, os olhos dourados faiscando sob a luz da lua. — Você sabe quem ela é para você, Desmot. Todo mundo sabe. Você sabe que a perdeu uma vez e que isso quase te destruiu. Agora ela voltou, contra todas as probabilidades, contra o impossível, e tudo o que você consegue fazer é ser um idiota orgulhoso?! Desmot cerrou os punhos, todo seu corpo tremendo com emoção reprimida, com palavras não ditas. O ar entre os dois irmãos estava tenso, carregado de verdades não ditas, feridas não curadas, ressentimentos que se acumularam como poeira. Ninguém falou por longos segundos.
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Apenas o som do rio fluindo e o vento nas folhas preenchiam o silêncio pesado. Finalmente, Caleb respirou fundo, a raiva dando lugar a algo mais suave — preocupação, talvez. Compaixão fraternal. Ele olhou para o caminho por onde Beatriz tinha desaparecido, sua ausência quase palpável. — Ela é a sua Luna — sua voz saiu mais baixa agora, quase gentil, quase triste. Ele se virou para Desmot de novo, olhos encontrando olhos. — E um dia, ela pode cansar de lutar para te salvar. De lutar para provar seu valor. De lutar contra sua teimosia.
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Com isso, Caleb se afastou, seguindo o caminho de Beatriz. Desmot ficou parado, sozinho na margem do rio, os olhos fixos no chão enlameado, enquanto as palavras do irmão martelavam em sua mente como pregos sendo cravados. Ela pode cansar de lutar para te salvar. A chuva começou a cair. Primeiro uma gota. Depois outra. Então um dilúvio, como se os céus finalmente tivessem decidido chorar por tudo que estava quebrado.
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E, pela primeira vez naquela noite — pela primeira vez em quinze anos — o Alfa não tinha uma resposta. Ele apenas ficou ali, sob a chuva, enquanto a água lavava o sangue e a lama. Mas não lavava a verdade. Ele tinha medo de perdê-la de novo. E dessa vez, seria culpa dele.
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