parte curiosidade.
— O que disse, pequena? — sua voz estava gentil mas intrigada. — O que quer dizer com 'lugar errado'? A menina deu de ombros com a naturalidade despreocupada da infância, como se o que estava prestes a dizer fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Entidades podem desbloquear memórias. — Ela disse isso com tanta certeza que não havia espaço para dúvida. — Se souberem como procurar. Se tiverem a chave certa. Desmot e Caleb trocaram olhares carregados de surpresa e inquietação.
175
De onde uma criança aprenderia isso? Ou talvez... como ela saberia disso? A pequena Lyra entrou mais na sala com passos silenciosos, seus pés descalços não fazendo nenhum som no chão de madeira, aproximando-se do fogo com a confiança de quem sabe exatamente o que está fazendo. Ela estava carregando um desenho na mão — papel amassado e marcado por lápis escuro. — Eu vi isso nos meus sonhos — declarou simplesmente, como se sonhos fossem mapas confiáveis, como se o mundo onírico fosse tão real quanto o vigil. Ela estendeu o papel para Caleb, que era o mais próximo.
176
O lobo aceitou o desenho com cuidado, como se fosse algo frágil ou potencialmente perigoso, e baixou os olhos para estudá-lo. E seus olhos se arregalaram. Desmot viu a reação do irmão e deu dois passos largos, olhando por cima de seu ombro. O que viu o fez parar completamente. Era um símbolo. Complexo. Intrincado. Belo de uma forma estranha e perturbadora. Algo antigo — muito antigo — circular e perfeitamente simétrico, feito de runas entrelaçadas e entalhes arcaicos que pareciam pulsar mesmo no papel estático. As linhas eram precisas demais para
177
o traço de uma criança. Era como se ela tivesse copiado algo que vira com perfeição fotográfica. — Onde viu isso? — Desmot perguntou, sua voz saindo mais baixa e rouca do que pretendia, carregada de algo próximo à reverência e ao medo. Lyra virou-se para olhar diretamente para o fogo, os olhos refletindo as chamas dançantes, pensativa de uma forma que crianças não deveriam ser. — Nos meus sonhos — repetiu com a paciência de quem explica o óbvio. — Tem um lugar nas minhas visões onde esse símbolo brilha. Ele pulsa como um coração vivo. E vozes falam coisas ao redor dele, palavras antigas em línguas que eu não entendo mas que fazem meu peito doer. Um arrepio percorreu a espinha de Desmot.
178
Caleb ainda encarava o desenho, os olhos fixos, a mente claramente trabalhando em conexões e memórias. E então, seu rosto se iluminou com a excitação súbita de uma descoberta. — Eu conheço isso — sua voz saiu um sussurro espantado. Os olhos de Desmot o perfuraram com intensidade laser, demandando respostas. — Como assim? — a pergunta saiu afiada como lâmina. — De onde? Caleb se virou rapidamente para enfrentar o irmão, os olhos brilhando não apenas com a luz refletida do fogo, mas com a excitação genuína e urgente de uma descoberta importante.
179
— Eu vi esse símbolo antes — ele respirou fundo, como se precisasse de coragem para continuar. — Anos atrás. Quando os anciãos me pediram para catalogar alguns dos textos mais antigos. — Fez uma pausa dramática. — Está em um dos livros do Arquivo Sombrio. Saphira congelou completamente, o sangue drenando de seu rosto. — O Arquivo Sombrio? — ela repetiu, voz fraca, quase inaudível. O nome ficou suspenso entre eles como uma maldição. Desmot franziu a testa profundamente, sentindo um peso desconfortável se instalar em seu estômago. O Arquivo Sombrio.
180
Aquela maldita biblioteca subterrânea dos anciãos, escondida nas profundezas sob o salão do conselho, cheia de segredos que nunca deveriam ser descobertos, cheia de verdades que nunca deveriam ver a luz do dia. Cheia de conhecimento proibido, magia esquecida, histórias apagadas. Caleb assentiu gravemente, toda leveza desaparecendo de sua expressão. — Se há um lugar neste mundo que pode nos dizer o que realmente aconteceu com Beatriz... — ele fez uma pausa carregada de significado — ...é lá. O Alfa sentiu algo escuro e frio crescer dentro dele, se expandindo como gelo em suas veias, porque se o Arquivo Sombrio tinha as respostas que eles buscavam... Se o símbolo dos sonhos de uma criança estava conectado aos textos mais antigos e proibidos de sua
181
espécie... Se os anciãos guardavam esse conhecimento trancado nas profundezas... Significava que o segredo do desaparecimento dela não era apenas um mistério.Era ainda mais sombrio, mais deliberado, mais perigoso do que qualquer um deles tinha imaginado. Significava conspiração. Significava que pessoas muito poderosas não queriam que Beatriz fosse encontrada. Ou pior. Não queriam que ela se lembrasse de quem era. Desmot olhou de volta para o corredor que levava ao quarto onde Beatriz dormia, inconsciente e vulnerável.
182
E naquele momento, tomou uma decisão. Se os anciãos escondiam segredos... ele os desenterraria. Se alguém tinha roubado as memórias dela... ele as recuperaria. Se houvesse um preço a pagar... ele pagaria. Não importa o custo. — Quando podemos entrar no Arquivo? — sua voz era puro aço. Caleb encontrou seus olhos, e pela primeira vez em anos, o lobo acadêmico pareceu genuinamente nervoso.
183
— O Arquivo não é guardado, Desmot. — Ele engoliu em seco. — É protegido. Por magia antiga, só os anciãos têm acesso livre. O Alfa sorriu — mas não havia humor no gesto. Era a expressão de um predador que acabara de aceitar um desafio. — Então vamos ter que ser criativos. Saphira se levantou abruptamente, preocupação escrita em cada linha de seu rosto. — Filho, se os anciãos descobrirem que você invadiu o Arquivo Sombrio... — ela não precisou terminar a frase. Todos sabiam o que acontecia com quem desafiava as leis mais antigas da matilha, mas Desmot apenas olhou para ela, seus olhos dourados brilhando com determinação inflexível.
184
— Eles já tiraram ela de mim uma vez, mãe. — Sua voz estava calma, mas carregada com o peso de uma promessa mortal. — Não permitirei que aconteça de novo. Lyra, que observara todo o intercâmbio em silêncio, sorriu levemente — um sorriso pequeno e misterioso que não pertencia ao rosto de uma criança. Como se soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer. Como se tudo estivesse se desenrolando exatamente como deveria. O fogo estalou alto, mandando faíscas para cima como estrelas fugazes. Lá fora, a lua cheia brilhava através das nuvens e em algum lugar nas profundezas da terra, no Arquivo
185
Sombrio, segredos antigos aguardavam para serem descobertos. Segredos que mudariam tudo.
186