Capítulo 1: O Preço do Chamado
O chão era frio sob os pés de Beatriz, e a floresta parecia diferente agora. Cada árvore, cada folha sussurrava segredos que ela não podia compreender, como se o próprio bosque a observasse. O uivo ainda reverberava em sua mente, ecoando por cada fibra do seu ser. Alguém precisava de ajuda. Ela correu. Seus pulmões ardiam, seu coração batia descompassado. Por que estava fazendo isso? Nada fazia sentido, nada deveria ser real. Mas o instinto gritava mais alto que a razão, e o destino já a puxava pelas mãos invisíveis do impossível. Desmot veio atrás dela. Os passos dele eram firmes, precisos, como se soubesse exatamente para onde estavam indo. Sua presença era sufocante, como se a própria floresta dobrasse a vontade diante dele. — Pare! — a voz dele veio como um trovão, cortando o ar gelado. Beatriz ignorou.
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Outro uivo. Desta vez, mais próximo. Seu corpo respondeu antes que sua mente pudesse processar. Ela correu mais rápido, o ar gelado queimando sua pele. “O que estou fazendo?” Mas a resposta veio quando ela finalmente o viu. A clareira era iluminada pelo luar. No centro, sobre a terra manchada de sangue, um lobo de pelagem marrom tremia de dor. Seus olhos brilhavam com um desespero primal, sua respiração era fraca, errática. Ao seu lado, uma figura humana segurava um machado manchado de carmesim. O lenhador. A cena queimou na mente de Beatriz. O lobo estava morrendo. Sem pensar, ela se jogou à frente dele. O tempo pareceu desacelerar.
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O lenhador hesitou por um segundo, surpreso com a presença dela, mas então seus olhos endureceram e o machado desceu. Dor. A lâmina encontrou a carne. O golpe foi rápido, feroz. Um calor estranho se espalhou pelas costas de Beatriz, algo quente e pegajoso escorrendo por sua pele. Sangue. Ela caiu de joelhos. O lenhador arregalou os olhos, como se percebesse tarde demais o que havia feito. Então, com um grunhido de medo, virou-se e desapareceu na escuridão da floresta. Beatriz piscou. O mundo girava. Alguém a segurou antes que caísse por completo. Braços fortes, quentes. Ela forçou os olhos para cima e viu o lobo marrom se transformando.
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A forma animal se dissolveu, como névoa ao sol, e no lugar dele estava um homem jovem, de cabelos revoltos e olhos dourados. Ele ofegava, as mãos tremendo ao tocá-la. — Você me salvou. — sua voz era entrecortada, assustada. Caleb. O irmão mais novo de Desmot. — Eu... — A voz de Beatriz falhou. Sua visão escurecia, o gosto de ferro tomava sua boca. Seu corpo tremia, o sangue escorria rápido demais. — Ela vai cair. — A voz fria de Desmot veio de algum lugar atrás deles, mas soou distante, como se estivesse do outro lado de um abismo. Caleb a segurou antes que seu corpo tocasse o chão. — Eu não vou deixar você morrer. — A determinação na voz dele era feroz, quase desesperada. Desmot soltou um suspiro impaciente.
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— Não deveria ter interferido, Caleb. Isso não nos pertence. Os olhos de Caleb brilharam com fúria. — Ela salvou a minha vida! Um silêncio tenso se instalou. O vento assobiava entre as árvores. Finalmente, Desmot cruzou os braços, seu olhar duro como pedra. — Então é você quem vai carregar essa responsabilidade. Caleb não hesitou. Ele a ergueu nos braços e correu. A vila dos lobos era um segredo escondido do mundo. Entre as árvores ancestrais e as montanhas imponentes, cabanas de madeira se erguiam ao redor de um grande salão central, onde a luz da lua banhava o chão de pedra. Os lobos já os esperavam. Sussurros percorreram a multidão quando Caleb entrou carregando Beatriz. Olhares desconfiados a
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perfuravam como lâminas. Uma humana ferida, manchando de vermelho as terras sagradas. — Quem é ela? — O que uma humana faz aqui? — O Alfa permitiu isso? Mas Caleb não parou. Ele atravessou a vila, ignorando os olhares, ignorando as regras, ignorando a tradição. Beatriz havia sangrado por ele. E agora, ele sangraria por ela, se fosse necessário. Ele a levou até a enfermaria, onde Elihas, o curandeiro da alcateia, o encarou com incredulidade. — Pelo espírito da lua... — murmurou Elihas ao ver o estado dela. — Caleb, o que você fez? —Ela me salvou — A voz de Caleb saiu entrecortada. Elihas se ajoelhou ao lado de Beatriz, pressionando as feridas em suas costas. — Ela precisa de uma transfusão. Rápido.
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Caleb tentou se levantar, mas a dor em seu próprio corpo o traiu. Ele também estava ferido, não poderia ajudar. Um silêncio pesado se instalou na sala. E então, Desmot falou. — Eu autorizo. Todos congelaram. Caleb ergueu os olhos para o irmão. Desmot nunca quebrava as regras, mas ali estava ele, concedendo à humana o direito de viver. Elihas não hesitou. Ele começou o procedimento e Beatriz, inconsciente, mal sabia que ao salvar um lobo, havia selado seu próprio destino. A lua a havia escolhido. E os anciãos não ignorariam esse chamado.
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