Capítulo 15: Fragmentos de uma A culpa é da lua · Capítulo 18 de 36
Obra Menu

Capítulo 15: Fragmentos de uma

Verdade Perdida O quarto estava envolto em escuridão profunda e sufocante, iluminado apenas pela fraca e fantasmagórica luz prateada da lua que se infiltrava pelas frestas da janela de madeira, desenhando linhas etéreas e trêmulas nas paredes irregulares. O cheiro intenso e amargo de ervas medicinais ainda impregnava o ar denso — raiz de valeriana, folhas de salgueiro-branco, pétalas de camomila — um lembrete silencioso e persistente do que Beatriz havia passado, da febre que quase a consumira, do limiar entre mundos que ela quase cruzara. Mas agora, depois de dias à deriva em delírios e pesadelos, ela estava acordada. Verdadeiramente acordada.

206

Seus olhos abertos, focados, conscientes. E, pela primeira vez desde que chegara à vila carregada por Caleb, ferida e sem memória, ela começava a lembrar. Fragmentos. Sussurros. Ecos de algo enterrado profundamente. Desmot estava sentado ao lado da cama em uma cadeira simples de madeira que ele arrastara para perto durante as longas noites de vigília, o corpo inclinado ligeiramente para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos escuros e intensos fixos nela com uma atenção absoluta e inquebrantável que beirava a devoção. Mas sua expressão não era de frieza calculada ou distância profissional como ele mantinha com todos os outros.

207

Era algo mais profundo, mais visceral, mais contido — como uma tempestade violenta sendo segurada por pura força de vontade. Preocupação. Medo. Esperança. Fúria. Tudo entrelaçado tão firmemente que era impossível separar uma emoção da outra. Ele ficou observando-a por um longo momento carregado de peso silencioso, vendo a consciência voltar aos seus olhos, vendo a confusão e o medo lutando com a determinação e então, com voz baixa e controlada mas carregada de urgência reprimida, ele perguntou: — Me diga... o que você lembra do lugar de onde veio?

208

A pergunta caiu no silêncio entre eles como uma pedra em água parada, criando ondulações invisíveis. Fez Beatriz franzir a testa delicadamente, linhas de concentração aparecendo entre suas sobrancelhas escuras, os olhos se estreitando levemente como se ela estivesse tentando enxergar através de névoa espessa. Por um momento longo e tenso, ela hesitou, como se precisasse reorganizar os próprios pensamentos fragmentados, juntar os cacos espalhados de memórias quebradas, encontrar palavras para descrever algo que não fazia sentido — realidades que não se encaixavam, mundos que colidiam. Ela se lembrava de algo. Isso era claro pela forma como seus olhos se moviam, procurando, vasculhando, mas tudo parecia

209

distante e indistinto, fragmentado como vidro estilhaçado, enevoado como um sonho meio esquecido ao amanhecer... quase como páginas violentamente arrancadas de um livro, deixando apenas bordas rasgadas e palavras incompletas. Ela umedeceu os lábios secos e rachados, a língua passando nervosamente enquanto procurava as palavras certas, antes de responder com voz rouca e hesitante: — Eu... lembro de luzes... Fez uma pausa, buscando mais detalhes na névoa de suas memórias fragmentadas. — Luzes... altas. Muito altas. Frias. Brancas. Não como fogo ou velas... diferentes. Artificiais.

210

Desmot permaneceu absolutamente imóvel e em silêncio, sem interrompê-la, sem pressionar, apenas ouvindo com atenção total e concentração absoluta. Cada palavra que saía de sua boca era uma pista, um fragmento do quebra-cabeça impossível que ele precisava montar. Beatriz continuou, voz ficando mais firme mas ainda carregada de confusão e estranheza: — Lembro de prédios... enormes. Prédios grandes de pedra e vidro e metal brilhante que subia até o céu. De ruas pavimentadas com um material negro e liso que não era pedra natural. Ela fez outra pausa, olhos distantes, vendo algo que não estava no quarto. — De sons que ecoavam o tempo todo. Mecânicos. Constantes. Rugidos de máquinas em movimento.

211

Vozes de centenas de pessoas. Barulhos que nunca paravam. Ela franziu o cenho mais profundamente, a expressão tornando-se perturbada, quase nauseada pela memória. — Era um mundo barulhento — ela disse, voz ficando mais baixa, carregada de algo entre repulsa e fascínio. — Rápido demais. Tudo se movia muito rápido. As pessoas, os veículos, a própria vida. Como se ninguém pudesse parar, como se todos estivessem correndo sem destino. Ela abraçou os próprios braços inconscientemente, como se estivesse sentindo frio. — Eu sentia que não pertencia àquele lugar — admitiu com voz quase sussurrada, vulnerável. — Que estava errada ali, deslocada, como uma peça que não se encaixava no quebra-cabeça, mas... era a

212

minha realidade. Eu vivia lá. Eu era daquele lugar, de alguma forma. Desmot trincou a mandíbula com força suficiente para doer, os músculos do rosto ficando tensos, as mãos apertando involuntariamente os joelhos. “Ela realmente havia sido levada para outro mundo.” Não apenas para outra terra ou território, mas para um mundo completamente diferente, um mundo de metal e luzes frias e barulho constante, um mundo que não tinha lobos ou magia ou luas que conversavam com peeiras. “Como? Quem tinha poder para fazer isso? E por quê?”

213

Ele forçou a raiva para baixo, controlando-a com esforço consciente, mantendo a voz calma e neutra quando perguntou: — E o que você fazia lá? Nesse mundo? Beatriz abaixou o olhar lentamente para as próprias mãos pálidas descansando sobre o cobertor, os dedos finos se movendo suavemente, quase inconscientemente, como se estivessem acostumados a segurar algo invisível — uma caneta, uma ferramenta, algo pequeno e familiar. — Eu escrevia — ela disse simplesmente, voz baixa mas firme. Houve um peso nessas duas palavras que fez o ar ficar mais denso, ela ergueu os olhos de volta para Desmot lentamente, e ele sentiu um arrepio involuntário percorrer sua espinha quando viu o brilho estranho e intenso nos olhos dela — algo

214

entre lucidez absoluta e loucura, entre conhecimento e confusão. Algo antigo e poderoso lutando para emergir e então ela disse, com uma simplicidade devastadora: — Eu escrevia mundos. As palavras saíram calmamente, mas atingiram como um trovão, o silêncio que se seguiu caiu como uma lâmina afiada cortando a realidade. Pesado. Absoluto. Sufocante. Desmot sentiu o impacto físico daquelas três palavras atingindo seu peito, roubando seu fôlego por um instante. Ela escrevia mundos.

215

Não histórias simples. Não contos de fadas ou lendas. Mundos... Beatriz respirou fundo, enchendo os pulmões lentamente como se precisasse de coragem para continuar, e então as palavras começaram a fluir mais livremente: — Era o que eu fazia — ela explicou, voz ficando mais clara mas também mais perturbada. — Meu trabalho. Minha vida. Eu criava histórias, personagens inteiros com vidas e passados e futuros... lugares completos com geografia e história e culturas. Ela fez uma pausa, olhos se enchendo de algo que parecia tanto dor quanto admiração.

216

— Eu construía realidades inteiras no papel. Mundos que respiravam, pessoas que viviam. E então, com uma risada curta e sem humor, amarga e quebrada, balançando a cabeça lentamente como se não conseguisse acreditar no absurdo de tudo aquilo, ela disse: — E um desses lugares que eu criei... era essa vila. Esses campos. Essas montanhas. Essas pessoas. Fez uma pausa devastadora. — Você. A respiração de Desmot ficou pesada e irregular, o ar entrando e saindo de seus pulmões com dificuldade crescente. “Não.

217

Não, não, não.” Porque isso confirmava seu pior medo. Ela realmente acreditava — verdadeiramente, profundamente acreditava — que tudo isso era apenas uma história que ela havia inventado. Que ele não era real. Que a vila não era real. Que quinze anos de dor e busca e amor não eram reais. Apenas tinta no papel. Palavras em uma página. Uma criação de sua imaginação. E agora, presa no mundo que "inventara", ela estava lutando desesperadamente contra essa verdade

218

distorcida que alguém plantara em sua mente como veneno. “O que fizeram com você?” Ele cerrou os punhos com tanta força que as unhas cravaram nas palmas, deixando marcas de meia-lua, a dor física ajudando-o a manter o controle. “Como alguém poderia fazer isso? Como alguém poderia apagar a realidade de uma pessoa — suas memórias, sua identidade, sua própria existência — e substituí-la por um mundo falso? Por uma mentira tão completa e elaborada?” A fúria cresceu dentro dele como uma fera enjaulada, quente e violenta, querendo explodir, querendo destruir quem quer que tenha feito isso com ela, mas ele a controlou com esforço brutal,

219

empurrando-a para baixo, prendendo-a atrás de dentes cerrados e músculos tensos. Agora não era o momento para perder o controle. Agora era o momento para entender, para descobrir. Para recuperá-la. Ele forçou sua voz a sair calma e controlada, embora cada palavra custasse: — E o sonho? — perguntou, mudando de assunto deliberadamente, guiando-a para território diferente. — O sonho que teve antes de acordar agora. O que viu? Beatriz piscou lentamente, várias vezes, como se estivesse emergindo de um transe ou voltando de muito longe. — O quê? — ela murmurou, confusa pela mudança súbita de assunto.

220

— O sonho que mencionou antes — ele esclareceu, voz paciente mas urgente. — Você disse que sonhou com um lugar. Com portas. O que viu exatamente? Ela franziu o cenho profundamente, os olhos se tornando distantes e desfocados, como se estivesse buscando as memórias etéreas na névoa persistente da própria mente. Por um instante tenso, pareceu que não conseguiria alcançá-las — que o sonho havia se dissolvido como fumaça, impossível de segurar. Mas então... Algo mudou. Os olhos dela escureceram visivelmente, as pupilas se dilatando, a expressão se tornando distante e quase assustada.

221

E as palavras começaram a fluir, saindo lentas e cuidadosas, como se ela estivesse caminhando em terreno perigoso: — Eu estava em um lugar branco — ela começou, voz baixa e distante, quase sonhadora. Ela fechou os olhos lentamente, como se isso ajudasse, tentando recriar a sensação exata do sonho, mergulhar de volta naquele espaço impossível. — Era... vazio. Infinito. Branco em todas as direções. Não havia chão ou teto ou paredes visíveis. Apenas... brancura. Fez uma pausa, respirando fundo. — Era silencioso — ela continuou, voz ficando mais tensa. — Mas não um silêncio comum, natural, como uma floresta à noite ou um quarto vazio. Era algo diferente. Errado.

222

Ela franziu o cenho, procurando as palavras certas. — Era como se o som não existisse ali. Como se tivesse sido arrancado violentamente do mundo. Sugado. Devorado. Como se não pudesse existir. Desmot sentiu um arrepio percorrer sua pele, os pelos de sua nuca se eriçando instintivamente. O Limiar. Ela estava descrevendo o Limiar entre mundos. O lugar onde apenas as peeiras mais poderosas podiam caminhar. Beatriz respirou fundo novamente, a voz mais baixa agora, quase sussurrada, carregada de algo entre admiração e terror: — Havia portas.

223

Desmot se inclinou ligeiramente para a frente na cadeira, intensificando a atenção intensificando, cada músculo tenso com expectativa. — Quantas? — ele perguntou rapidamente, urgência transparecendo. Ela abriu os olhos lentamente, olhando para ele, mas também através dele, ainda meio presa no sonho. — Muitas — ela respondeu simplesmente. — Dezenas. Talvez centenas. Eu não consegui contar. Elas se estendiam em todas as direções, desaparecendo na brancura infinita. Fez uma pausa. — Todas brancas. Perfeitamente iguais em aparência, mas... diferentes de alguma forma que eu não consigo explicar. Como se cada uma levasse para algum lugar único.

224

— E o que havia além delas? — Desmot pressionou, voz urgente mas controlada. — Você abriu alguma? Ela hesitou, algo parecido com medo e frustração cruzando seu rosto. — Não sei o que havia além — admitiu com voz baixa e frustrada. — Eu tentei. Tentei abrir várias, mas... Ela engoliu em seco, a garganta se movendo visivelmente. — Elas estavam trancadas. Todas. Seladas de alguma forma. Não importava o quanto eu puxasse ou empurrasse... elas não abriam. Seladas. Desmot apertou os dentes com força, mandíbula ficando tensa.

225

“Isso se encaixava perfeitamente. O selo que Lyra desenhou. As marcas antigas nos registros do Arquivo Sombrio. As entidades que guardavam memórias roubadas e segredos enterrados.” Beatriz não estava apenas tendo sonhos comuns, ela estava acessando suas próprias memórias — ou tentando e essas portas trancadas no Limiar... poderiam ser o caminho físico-espiritual para recuperá-las. Cada porta representando uma memória selada, um fragmento de sua vida real que alguém trancara e escondeu.

226

“Eu preciso encontrar a chave. Preciso descobrir como abrir essas portas.” Mas então, Beatriz se encolheu ligeiramente, os ombros curvando-se para dentro, os braços se fechando ao redor do próprio corpo em um gesto defensivo e instintivo. Seu rosto empalideceu visivelmente. — Havia... algo me observando — ela sussurrou, voz trêmula e carregada de medo visceral. Desmot se enrijeceu instantaneamente, todo o corpo ficando tenso e alerta como se preparando para uma ameaça física. — O quê? — ele perguntou rapidamente, voz afiada. — O que estava observando?

227

Beatriz engoliu em seco com dificuldade, o som audível no silêncio pesado do quarto. — Eu não sei — ela admitiu, voz mal mais que um sussurro agora. — Não vi nada. Nenhuma forma, nenhuma sombra, nenhuma figura. Fez uma pausa, tremendo levemente. — Mas senti. Com tanta certeza quanto sinto você aqui agora, com tanta certeza quanto sinto meu próprio coração batendo. Ela abraçou os próprios braços com mais força, os dedos apertando a própria pele, como se estivesse sentindo o mesmo frio penetrante e sobrenatural do sonho retornando agora, invadindo o quarto escuro. — Era... uma presença — ela continuou, voz ficando mais baixa, mais assustada. — Enorme.

228

Invisível. Imensamente antiga. Algo que existia antes de tudo, que vira eras inteiras passarem. Ela fez uma pausa, olhos arregalados. — E estava me observando. Observando cada movimento. Esperando, como um predador vigiando uma presa. Outro tremor percorreu seu corpo. — Eu sabia — ela sussurrou, voz quebrando — que ele não queria que eu abrisse aquelas portas, que eu não deveria tentar. Que se eu conseguisse... algo terrível aconteceria. O ar no quarto ficou pesado e denso, quase difícil de respirar. Opressivo.

229

A respiração de Desmot desacelerou, tornando-se profunda e controlada, forçando o oxigênio para os pulmões enquanto processava essa informação devastadora. Alguém estava vigiando. Ou algo. Uma entidade antiga e poderosa que não queria que Beatriz recuperasse suas memórias, que a mantinha presa nessa identidade falsa. Que selara suas lembranças e guardava as chaves. E quem quer que fosse... ainda estava lá. Ainda a observava. Ainda tinha poder sobre ela. A raiva que ele havia controlado momentos antes voltou com força total e avassaladora — não mais como uma fera enjaulada, mas como um incêndio consumindo tudo em seu caminho.

230

Violenta. Absoluta. Incontrolável. “Como se atrevem? Como se atrevem a fazer isso com ela? A prendê-la? A vigiá-la como se ela fosse propriedade?” Ele não deixaria que isso continuasse — não por mais um dia, não por mais uma hora. Seja lá o que foi feito com ela, seja lá quem ou o que estava guardando suas memórias, ele consertaria tudo. Ele quebraria cada selo. Abriria cada porta. Destruiria cada guardião. Ele a traria de volta — seu verdadeiro eu, suas verdadeiras memórias, sua verdadeira identidade. Ela não iria desaparecer de novo.

231

Não seria mantida prisioneira em uma mentira elaborada. Nunca mais. “Eu juro. Pelos anciãos, pela lua, pelos deuses antigos — eu juro. Você voltará para mim. Completamente.” Desmot olhou para Beatriz — frágil e assustada, abraçando a si mesma no escuro, presa entre dois mundos e duas identidades — e fez uma promessa silenciosa que ecoou em sua alma como um voto sagrado: “Eu vou salvá-la.

232

Não importa o que eu tenha que enfrentar. Não importa o que eu tenha que destruir. Você é minha. Sempre foi. E eu nunca vou deixar você ir novamente.”

233

1/1
Menu

Fazer anotação