Capítulo 5: O Julgamento da Lua
O templo dos anciãos ficava no topo da vila, esculpido na rocha viva, onde a lua sempre podia alcançá-lo sem obstáculos. As tochas ardiam com chamas pálidas, lançando sombras longas sobre as paredes de pedra marcadas por séculos de história. Desmot subiu os degraus com passos firmes, mas sua mente era um campo de batalha. Ela voltou. O pensamento queimava dentro dele. Beatriz. Sua Luna. A garota que sumira como um fantasma há quinze anos e que agora, como uma maldição esquecida, fora arrastada de volta pela vontade da lua.
54
Ele respirou fundo antes de empurrar as pesadas portas do templo. Lá dentro, os anciãos já o esperavam. O salão era frio e sombrio, construído em pedra escura, iluminado apenas pelo brilho prateado da lua que se infiltrava através das fendas no teto. Sentados em um círculo de tronos ancestrais, os anciãos erguiam suas presenças como pilares do passado e da tradição. Havia seis deles. Velhos como as montanhas, mas seus olhos brilhavam com a sabedoria e o peso do tempo. No centro, o mais velho e implacável de todos: Erevan, o Guardião da Lua. Ele ergueu o olhar assim que Desmot entrou.
55
— O Alfa da alcateia vem perante os anciãos — sua voz era rouca como folhas secas sendo esmagadas sob os pés. — Você sabe por que foi convocado. Desmot permaneceu de pé diante deles, seus olhos âmbar faiscando com determinação. — Sim. O silêncio que se seguiu foi pesado. Erevan entrelaçou os dedos ossudos e inclinou a cabeça levemente. — Então diga-nos, Alfa... — sua voz carregava a frieza do destino inevitável. — A peeira voltou. A palavra pairou no ar como um encantamento proibido. Os outros anciãos trocaram olhares. Alguns murmuraram entre si. Uma deles, uma mulher de
56
cabelos prateados chamada Sybilla, estreitou os olhos na direção de Desmot. — Onde ela está agora? Desmot cerrou o maxilar. — Minha mãe a levou para nossa cabana. Os murmúrios cresceram. Erevan ergueu uma mão e o silêncio voltou instantaneamente. — Isso é perigoso — a voz de um ancião idoso chamado Morthal ressoou pelo salão. — A última peeira não deveria ter voltado. Sybilla, a única entre os anciãos que nunca recuava, inclinou-se para frente. — Se a lua a trouxe de volta, então a pergunta certa não é por que ela está aqui, mas o que ela veio fazer.
57
Erevan apoiou os cotovelos nos braços do trono, seu olhar penetrante fixo em Desmot. — Ela desapareceu há quinze anos. Sem rastros. Sem explicação. Agora retorna como se nunca tivesse partido, carregando um destino que nem mesmo ela compreende — sua voz desceu um tom. — O que você sabe, Alfa? Desmot segurou a raiva que tentava ferver em seu peito. Odiava esse tom, como se fosse culpado por algo que não fizera. Como se Beatriz fosse um erro dele. Mas ele sabia que essa não era a verdade. Ele nunca a esquecera. Nunca.
58
E agora ela voltava como uma peça fora do tempo, uma sombra de um passado que ele não conseguia decifrar. — Ela não se lembra. O silêncio no templo tornou-se opressor. Os anciãos se entreolharam, as sobrancelhas franzidas em descrença. Sybilla estalou a língua. — Uma peeira não pode esquecer. Ela nasce ligada à lua. Desmot não recuou. — E, no entanto, ela não tem memória do que aconteceu.
59
Morthal, o ancião mais velho além de Erevan, respirou fundo. — Se ela não se lembra... então significa que algo ou alguém fez com que ela esquecesse. O estômago de Desmot revirou. — O quê? — Existem muitas forças neste mundo, Alfa. Algumas desejam proteger o equilíbrio... e outras desejam destruí-lo. Os olhos âmbar de Desmot brilharam como fogo na escuridão. — Então vocês acham que... ela foi tirada daqui de propósito? Erevan assentiu lentamente.
60
— Se a lua a trouxe de volta, é porque algo no destino foi interrompido. Um calafrio percorreu a espinha de Desmot. O que isso significava? Que algo ou alguém a tirara dele? E agora que ela voltara... o que mais viria atrás dela? — Ela não pode permanecer aqui — a voz de Morthal soou como um decreto. Desmot se enrijeceu. — Ela salvou minha irmã. Minha mãe já decidiu. Sybilla encarou Erevan.
61
— Se for verdade que ela é a mesma peeira de quinze anos atrás... então ela não é apenas uma forasteira. Ela pertence a esta terra. Erevan fechou os olhos por um momento, ponderando. A decisão não era simples. E Desmot sabia disso. Porque agora... o destino de Beatriz não era apenas um problema para a alcateia. Era um problema para o mundo inteiro. Finalmente, Erevan abriu os olhos. — Ela fica. Morthal franziu a testa, descontente.
62
— Até quando? Erevan fixou o olhar em Desmot. — Até sabermos a verdade. Desmot não relaxou. Não confiava neles. Não confiava na lua. Mas, por ora, Beatriz estava segura, pelo menos... até que o destino se revelasse por completo e quando isso acontecesse, ele temia que nenhum deles estivesse pronto para o que viria
63