Primeira Parte - Introdução - Capítulo I A Luneta Mágica · Capítulo 1 de 112
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Primeira Parte - Introdução - Capítulo I

Primeira Parte - Introdução - Capítulo I

Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome.

Nasci sob a influência de uma estrela maligna; nasci marcado com o selo do infortúnio.

Sou míope; pior do que isso: sou duplamente míope, física e moralmente.

Miopia física: a duas polegadas de distância dos olhos, não distingo um girassol de uma violeta.

E por isso ando pela cidade e não vejo as casas.

Miopia moral: sou sempre escravo das ideias dos outros, porque nunca pude ajustar duas ideias minhas.

E por isso, quando vou às galerias da Câmara temporária ou do Senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão.

Se ao menos eu não tivesse consciência dessa minha miopia moral!... Mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a única luz que brilha sem nuvens no meu espírito.

Disse-me um negociante, meu amigo, que por essa luz da consciência represento eu a antítese de não poucos varões assinalados, que não têm dez por cento do capital de inteligência que ostentam e com que negociam na praça das coisas públicas.

- Mas esses varões não quebram, negociando assim?... perguntei-lhe.

- Qual! São as coisas públicas que andam, ou se mostram, quebradas.

- E eles?...

- Continuam sempre a negociar com o crédito dos tolos e sempre se apresentam como boas firmas.

Na cândida inocência da minha miopia moral, não pude entender se havia simplicidade ou malícia nas palavras do meu amigo.

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