Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XVII A Luneta Mágica · Capítulo 30 de 112
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Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XVII

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XVII

E como esses cinco últimos dias, ainda mais trinta, um mês inteiro de desenganos e desilusões! Em casa o quadro constante de tríplice traição na companhia obrigada de meus três e únicos parentes; fora de casa a pronta descoberta da maldade e da perfídia de todos os homens e de todas as mulheres.

Vi, encontrei somente o mal em tudo e em toda a parte, nos seres orgânicos e nos inorgânicos, nas obras das ciências e das artes, nos livros e nos monumentos.

Para escrever tudo quanto me mostrou a visão do mal me fora preciso encher, com a pena molhada em fel, muitos e volumosos livros, e atormentar a minha alma com o registro vivo das mais aflitivas observações.

Resumirei muito em breves palavras.

Eu tinha por amigos dois jovens da minha idade que moravam perto de nossa casa; a intimidade em que eu vivera com ambos nos tempos da minha miopia física e moral me fora sempre de grande consolação; mas a luneta mágica fez-me em breve conhecer o erro perigosíssimo dessas relações de tantos anos: um desses mancebos, o mais alegre, espirituoso e folgazão, era um homem imoral, desprezador das leis humanas, afrontador das leis de Deus, sem consciência, sem crenças, sem fé, tipo da sensualidade sem freio, besta que só cuidava em fartar-se nos pastos do mundo.

O outro, que me agradava ainda mais, porque se mostrava sempre grave, pensador e comedido, era um calculista frio, sem escrúpulos na escolha dos meios para atingir ao fim que tinha em mira; o seu princípio moral consistia em salvar as aparências; furtaria a bolsa do amigo, se tivesse a certeza de o não verem furtar; venderia sentenças, se fosse juiz; estava cansado de esperar pela morte de um tio, de quem contava ser herdeiro; filho único, porém não legítimo, do pai houvera abastada fortuna, e esquecia a mãe ainda viva e abandonada na miséria e no desprezo.

Separei-me de homens tão indignos da minha amizade; mas por isso mesmo mais profundos se tornaram o deserto e a noite da minha vida, e a medonha solidão no meio da mais ruidosa e brilhante sociedade.

O que faz sofrer este estado lúgubre, terrível, do espírito, ninguém sabe, ninguém faz ideia, só eu que o estou sofrendo.

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