Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo X
Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo X
Nas ruas vi tudo de passagem e fruí mil gozos novos para mim com a simples visão das aparências; mas, chegando à sala do júri e tomando a minha cadeira, dispus-me a não poupar o meu privilégio da visão do mal.
Nesse dia não saí sorteado, embora se formassem dois conselhos que consecutivamente julgaram: o primeiro, um réu; o segundo, dois réus.
Em qualquer dos três réus encontrei um coração negro, um homem-fera; do primeiro julgado, porém, não descobri na consciência indício algum do crime de que o acusavam, e foi exatamente contra esse que mais vigorosa se desencadeou a palavra do acusador.
Fitei minha luneta no advogado que assim falava por parte do autor, e no fim de breves minutos reconheci que ele estava convencido da inocência do réu que acusava.
Examinei, no segundo processo, a consciência do eloquente defensor dos dois réus justamente processados por crime de homicídio, e vi que ele fazia prodígios de habilidade sofista para iludir os jurados e levá-los a obter injusta sentença de absolvição.
Arredei de meus olhos a luneta que acabava de fazer-me descrer do sacerdócio da advocacia.
Como é, perguntei a mim mesmo; como é que um advogado ostenta a mentira e o dolo, rebaixando uma das mais nobres e esplêndidas profissões, sustentando, demonstrando o contrário do que pensa e do que sente, para ganhar a soma por que contratou a acusação ou a defesa?
Como é que se abate assim o talento, e se aniquilam as grandes noções do dever?
Um advogado era para mim a luz do direito, o escudo da inocência, o campeão da lei; era a Sabedoria a pleitear pela justiça. Como, pois, um advogado se anima a mentir diante de Deus e dos homens, a malfazer a sociedade, esforçando-se com todo o poder das suas faculdades para que se julgue inocente e puro um assassino conhecido e provado, um malvado que ele sabe que é assassino? E, mil vezes ainda pior, como é que outro advogado, profundamente convencido de que o réu não cometeu o crime que lhe imputam, ousa ir acusá-lo, ousa ir pedir que o encarcerem, que o condenem a trabalhos forçados?
E além da mentira, o dolo! O dolo; porque tais advogados se empenham em enganar os juízes de fato, tecem ardis, desfiguram os atos praticados, enredam e perturbam as testemunhas, tornam o processo caos com o fim de arrastar o júri a decisões contrárias à verdade e à justiça, e só em proveito dos clientes que os têm contratado para acusar ou defender.
E do mesmo modo que praticam em questões criminais, que afetam a moralidade e a segurança da sociedade, e a liberdade e os direitos individuais, hão de também praticar nas questões que se referem à propriedade! Haverá, pois, advogado que, convicto da infame velhacaria do seu cliente, ainda assim lhe alugue a sua banca, que devia ser altar nobilíssimo, e ponha em tributo os recursos da sua ciência para ajudar o cliente a roubar o alheio?
Ah! visão do mal que me estás levando a descrer da humanidade! Tu me serás talvez fatal; mas eu te quero, e não te dispenso mais, porque tu és luz, embora sejas luz do inferno.