Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXVII
Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXVII
Na manhã seguinte eu tinha os olhos inchados, a cabeça atordoada, e o rosto inflamado; senti-me doente; mas não quis anunciar o meu estado.
Às dez horas introduziram no meu quarto o Sr. A..., o dono da casa donde eu fora expelido na noite antecedente.
Recebi-o sem ressentimento.
Está doente? perguntou-me.
Um pouco; sofri muito esta noite.
Eu o previ, meu amigo, e por isso me apressei a vir dar-lhe explicações, que reputo indispensáveis até para o bem do seu futuro.
Agradeço a sua bondade; eu, porém, sei tudo e sei demais.
Que sabe, pois?
Que um miserável, o muito conhecido velho Nunes, fez espalhar a notícia de que eu possuo uma luneta mágica, pela qual chego à visão do mal, e descubro todos os segredos e todas as maldades e vícios que se escondem e se dissimulam; e que o medo que causa a minha luneta faz com que se levantem contra mim todos os homens, porque com efeito todos são perversos e temem que sejam conhecidas suas perversidades.
E então...
Então, desde que se espalhou tal notícia, eu tenho sido apupado, insultado, repelido por toda parte onde apareço. Não é isto?
Não é tudo, como lhe parece.
Explique-se.
Não se ofenderá se eu lhe disser toda a verdade?
Não: diga tudo.
Meu amigo; a população da nossa capital é muito civilizada, e não acredita no poder da sua luneta mágica.
Neste caso, por que me fogem? Por que me apupam? Por que me temem?
Aqueles que o têm perseguido com apupadas e os que fogem tremendo da sua luneta dividem-se em duas classes: uma, a que pertencem todos os crédulos e pobres de espírito que ainda prestam fé a feiticeiros e artes mágicas; há dessa gente em todas as capitais; a outra é a dos garotos que ousam rir e zombar de infortúnios e males a que todos estamos sujeitos.
Que quer dizer?
Quanto aos mais, eu vou dizer-lhe o que há, e arme-se de coragem para ouvir-me.
Nada mais me pode admirar, e menos assustar neste mundo.
O velho Nunes, que se proclama seu amigo e íntimo confidente, foi com efeito o propalador das notícias que correm; e sabe o que se pensa? O que todos acreditam?
Diga.
Que o senhor, tendo imaginação ardentíssima e fraquíssima razão, foi arrastado por um pérfido e malvado armênio até deixar-se dominar pela mais inacreditável mania; que por isso o senhor imagina ver o que não vê, o que não é real; supõe, julga infalível a visão extraordinária da sua luneta, e nas confidências de alguns amigos, que aliás abusam da sua credulidade enferma, descreve os corpos, e expõe íntimos das consciências de quantas senhoras, e de quantos homens fita com a sua luneta.
Mentira e verdade! Corpos não, é falso; minha luneta é honestíssima; almas sim, minha luneta as patenteia plenamente, e eu tenho visto em todos hediondas maldades.
Não discutamos agora esse pretendido poder da sua luneta. O que é certo é que o simples receio de que o senhor, acreditando que vê realmente o que apenas molestamente imagina, e que descreve em confidências de amigos quadros físicos, defeitos e virtudes, em que ninguém crê; mas que em todo caso ridiculizam não pouco as vítimas da sua luneta, faz com que todos o evitem, todos o queiram longe, todos temam somente o ridículo que provém do que chamam sua mania.
Mania! Que o seja embora; mas eu juro que não tenho um só amigo, que não tenho confidentes: isso é calúnia.
Cumpria-me dar-lhe estas explicações, meu amigo. Fique certo de que não há homem, nem senhora de juízo que dê importância e que tema a sua luneta mágica; mas das suas falsas apreciações, e dos sonhos extravagantes, mas não recatados, não ocultos da sua imaginação, resultam o ridículo de que todos querem escapar.
Entendo-o perfeitamente.
O Sr. A... disse-me ainda algumas palavras consoladoras; convidou-me a tratar da minha saúde alterada pelo excesso de imaginação e fraqueza do espírito, e deixou-me enfim.