Primeira Parte - Introdução - Capítulo V
Primeira Parte - Introdução - Capítulo V
Minha tia também me faz ouvir consolações, e sempre conforme as suas ideias religiosas.
Para ela, a minha miopia física é um imenso benefício da Providência, que assim menos exposto me deixou às tentações do diabo, que ataca o pecador pelos olhos; e a minha miopia moral, ainda mais precioso dom, porque dos pobres de espírito é o reino do céu.
A lógica piedosa da tia Domingas seria capaz de levá-la a rezar para que eu me tornasse surdo, mudo e paralítico, a fim de ser completa a minha bem-aventurança na terra.
Em consequência deste receio, nunca disse amém às consolações místicas de minha tia.
Ainda tenho uma terceira fonte de consolações; essa, porém, ao menos é mais poética.
A prima Anica é perdida pelos apólogos; quando pode explicar-se por meio deles, não se explica de outro modo: o apólogo é o seu capricho de moça.
Além disso, ninguém como ela se empenha tanto e mais habilmente em agradar-me. Sabendo que quase não vivo pelos olhos, procura recomendar-se açucarando a voz e usando de perfumes suavíssimos.
Às vezes, quando tem ocasião, faz-me também ouvir apólogos.
Um dia em que, como de costume, lastimava a minha desdita, que então nem me deixava distinguir as flores do jardim onde ambos passeávamos, colheu ela duas flores, uma rosa d'Alexandria e uma angélica, e deu-mas para que eu as reconhecesse.
Aproximei muito dos olhos as duas flores para apreciar suas cores, e um espinho da rosa feriu-me a ponta do nariz, onde ficou preso.
- Repara no que te ensina a rosa, disse Anica; repara e compreende quanto te pode aproveitar a miopia: as flores que mais almejas distinguir e admirar não são as do nosso jardim; são as que enfeitam e enchem de magia os salões das sociedades que não frequentas; são as jovens formosas com que sonhas em sonhos doidos de amor ainda mais doido. Essas, porém, assemelham-se à rosa d'Alexandria: têm espinhos que te despedaçariam o coração.
Anica interrompeu-se por breves instantes para suspirar. Eu ouvi o suspiro e ia perguntar-lhe, na minha simplicidade, se estava incomodada, quando ela continuou, dizendo:
- Contenta-te, pois, com a angélica, que é suave ao tato e que te pode embalsamar a vida do retiro com o perfume do amor e da virtude.
Fiquei mudo: tinha compreendido o apólogo, apesar da minha miopia moral.
Anica fez talvez um esforço para vencer o pudor e perguntou-me:
- Sabes quem é a angélica?...
Instintivamente, fingi-me mais pobre de espírito do que sou e respondi perguntando:
- A angélica? Pois não é aquela flor que me deste?...
Deixamos o jardim: eu saía dele com um espinho de roseira na ponta do nariz, e Anica, provavelmente, com o espinho da minha indiferença no seio.
Senti que chegara a ser cruel; mas eu nem sabia se Anica era bonita ou feia, porque nunca pudera ver-lhe distintamente o rosto. Se fosse bonita, não seria o seu amor a mais doce consolação para mim?
Tive uma ideia inspirada metade pela gratidão, metade pela curiosidade maliciosa: a ideia de ver se Anica era bonita ou feia, se me seria possível amá-la. Chegando à sala, sentei-me e pedi à prima que me tirasse o espinho da ponta do nariz.
A inocente moça prestou-se a fazer a fácil operação: armou-se da tesoura mais delicada que achou; com os macios dedos da mão esquerda segurou-me o nariz; com a mão direita dirigiu a ponta da tesoura; e, cuidadosamente ocupada em extrair-me o espinho, chegou seu rosto tão perto dos meus olhos que mais não era possível.
Durante três ou quatro minutos, vi, distingui, apreciei suficientemente o rosto de Anica... Não era o rosto com que eu sonhava; não era o das descrições das heroínas dos romances que me tinham lido... não era.
O rosto da prima Anica é muito respeitável; mas, em consciência, está muito longe de ser angélico.
A prova de que é muito respeitável está em que não tive necessidade de expelir de minha alma o menor desejo desrespeitoso, achando-se esse rosto, por alguns minutos, ainda mais perto dos meus lábios do que dos meus olhos.
A prova concludentíssima de que Anica não é angélica está em que a operação me pareceu tão dolorosa como demorada.
Anica tivera a bondade de fazer-me ouvir a significação moral do seu apólogo da rosa d'Alexandria e da angélica. O apólogo não lhe aproveitou; mas a culpa disso não está em mim.
Ofereço agora, não a Anica, porque me pesaria molestá-la, porém às senhoras a quem o caso possa interessar, a moralidade da história da extração do espinho da ponta do meu nariz.
É uma pequenina história que também pode correr como apólogo.
A moralidade é esta:
Moça que não for bonita não se preste a extrair espinho da ponta do nariz de homem míope.