Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXII A Luneta Mágica · Capítulo 45 de 112
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Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXII

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXII

Era dia, e eu estava já cansado de refletir e de esperar.

Fraco, abatido e apreensivo, uma prolongada e grave meditação podia ter consequências funestas para mim; tive medo da exaltação do meu espírito, mas para dominá-la, para arrancar-me a ela, eu precisava de uma distração poderosa.

Mas de que modo entreter-me, distrair-me no triste encerro do meu sótão; deitado no meu leito, e com guardas a dois passos?

De que me havia de lembrar?... da minha luneta mágica; foi uma lembrança muito natural.

Tanto tempo já tinha passado sem que eu gozasse o poder miraculoso desse tão perseguido vidrinho ótico!

Não pude conter-me; a que risco me expunha? Os meus guardas eram escravos da família e habituados a respeitar-me; eu estava certo de que eles não ousariam vir lutar comigo para me tirar com violência a luneta mágica.

Não hesitei.

Com o maior cuidado e sossego desatei a luneta mágica, que pouco antes atara prudentemente a uma de minhas pernas, e deitado, como estava, não tendo objeto de escolha ou de preferência em que a fitasse, fitei-a indiferentemente no teto da casa.

O sótão, onde eu tinha o meu aposento, era cômodo, porém muito modesto, conforme as regras de humildade da tia Domingas; o teto era de telha vã, e a casa já contava de existência meia dúzia de lustros.

O que a minha luneta me mostrou foi uma multidão de insetos muito comuns, e demasiadamente conhecidos de todos nós para que eu me ocupe em fazer a sua descrição, segundo os apreciei durante os três minutos da visão das aparências.

Chegada, porém, a visão do mal, que imensa corte de demônios! Quanta maldade em corpos tão pequenos!

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