Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XVI
Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XVI
Esta última experiência afligiu-me profundamente.
Quê! Até nos seres irracionais, e entre eles na própria avezinha, mimo da criação, sorriso de anjo e raio de sol nascente tornados pelo criador em passarinho, no próprio beija-flor só me é dado encontrar maldades e perversão!
Sempre turvos e sinistros desenganos! Sempre o mal neste mundo de peste e de misérias!... Este mundo será, pois, o inferno, ou pode o inferno ser pior que este mundo?
Deixei o Passeio Público, maldizendo da vida, detestando o homem, a mulher, toda criação, pedindo a Deus a morte, como o indigente faminto pede pão, como a escrava que é mãe, e a quem a maldição do cativeiro ainda não deturpou e anulou a sensibilidade, deseja e pede a liberdade do filho.
Que noite de horror e desespero passei! Mas enfim a fadiga, o sofrimento do corpo que respondia às torturas morais da alma, venceram a contenção do espírito que procurava debalde imaginar consolações e lenitivo: ao romper da aurora adormeci.
Lembra-me que meu último sentimento na tormentosa vigília foi de desgosto da vida e de repugnância a toda a humanidade.