Segunda Parte - Introdução - Capítulo V A Luneta Mágica · Capítulo 68 de 112
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Segunda Parte - Introdução - Capítulo V

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Refletindo bem, parece-me que este medo chega a ser pueril. Tenho duas presunções a favor da minha segurança, duas observações que destroem todos os fundamentos do medo.

Não se provou, conforme as exigências da lei, que eu estivesse ou fosse doido; o pronunciamento de muitos homens irrefletidos apenas poderia indicar que eu era um excêntrico ou enfim possuído de esquisita mania, o que nem por isso prejudicava o meu juízo em relação a todas as circunstâncias e condições da vida particular e social.

Ora, na cidade do Rio de Janeiro não só não se recolhem ao hospício dos alienados os excêntricos e maníacos da ordem em que fui contemplado, como é certo que os excêntricos e adoidados não reconhecidos legalmente doidos gozam privilégios de tolerância e de indulgência, e quando algum deles ofende a sociedade com o escândalo público, em que compromete o decoro da família ou ataca de frente as mais veneráveis e santas considerações sociais, encontra impunidade certa e desculpa segura na voz do povo que diz: "não se faça caso: aquilo tudo é excentricidade, o homem tem suas manias, mas no fundo é boa coisa".

Eu creio, pois, que não há lugar nem cidade como o Rio de Janeiro em que se possa ser impunemente e sem inconveniência pessoal não somente excêntrico e maníaco, mas até doido, completamente doido, contanto que se traje de paletó escovado e se tenham meses ou dias de lucidez.

Afora esta importante consideração que deve utilizar-me, conto por mim o tempo, que ainda mais foi ajudado pela notícia da destruição ou despedaçamento da minha luneta mágica.

Perdida, quebrada a luneta, cessou o motivo da perseguição que moviam contra mim.

E lá vão oito dias!

Oito dias valem oito anos para memória e para as impressões mais fortes do povo da nossa capital.

Em oito dias regenera-se o político que a opinião pública irritada condenou.

Em oito dias do réu se faz o juiz do pleito em que fora réu.

Em oito dias, às vezes, a rocha Tarpéia se transforma em Capitólio.

Em oito dias corre o Letes por onde estava bramindo a memória de um escândalo.

Em oito dias a sociedade ligeira, inconstante, mudável, seria capaz de santificar o diabo.

Não há atividade de opinião que resista à extensão, à eternidade de oito dias na nossa capital.

O nosso povo é a certos respeitos povo um pouco francês.

Eu tenho por mim oito dias: refletindo assim, perdi o medo e vou sair à rua.

Ensaiarei um passeio de simples experiência, e se eu for feliz, se me deixarem em paz andar pela cidade, amanhã ou depois de amanhã irei à casa do Reis.

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