Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXI A Luneta Mágica · Capítulo 44 de 112
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Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXI

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XXXI

E em certos casos de que vale a consciência ao homem contra a guerra teimosa e perversa dos outros homens?

Nem Hércules contra dois; que poderá um contra todos?

Aqui estou eu certíssimo de me achar em meu perfeito juízo e com sérias apreensões de ver-me obrigado a endoidecer em breve.

Os meus parentes, os meus conhecidos, e todos creem ou fingem crer, e dizem, proclamam, gritam por toda parte que estou doido.

Há situação mais horrível e ameaçadora?

Considere-se cada qual no meu caso.

Em casa, apenas levantado da cama, e durante o dia todo, a família, os parentes, com hipócritas aparências de compaixão, a repetirem mil vezes: "coitado! está doido..."

Os falsos amigos em suas visitas dizerem-me: "trate-se! creia que a sua cabeça não está boa..."

Na rua, no passeio, no teatro, em toda parte uns a rir e a gritar: "está doido!"; outros com voz lastimosa a murmurar: "pobre moço! está doido".

Durante a noite, guardas possantes velando no quarto do doido.

E oito, quinze dias seguidos, um mês, família, amigos, conhecidos, desconhecidos, toda a população de uma cidade a repetir de hora em hora, de minuto a minuto, incessantemente: "está doido! está doido!"

Quem seria, quem é capaz de resistir a semelhante impulso violento para a loucura?

De que vale em tais casos a própria consciência contra esse acordo geral que a condena?

O homem mais forte cede exasperado à convicção de todos, e em breve prazo começa a duvidar de si...

E desde que começa a duvidar de si, começa a enlouquecer...

Oh! é horrível!... é um martírio que os algozes mais ferozes nunca imaginaram!

Mas eu hei de reagir!

Zombarei da fúria desses monstros que se chamam homens.

Sinto-me grande, porque sou um a assoberbar a todos.

E para assoberbá-los é condição indispensável sofrer com frieza, resignação, e sem desesperar: saberei fazê-lo; e além da frieza e da resignação no sofrimento, é também essencial o mais profundo desprezo da humanidade.

Oh! é impossível que eu a despreze mais!

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