Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XLII
Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XLII
Senti verdadeira dor de consciência por estar com o meu fingido sono enganando ao homem que tão decidido me defendera.
Abri os olhos; fiz de conta que despertava.
Como vamos? perguntou-me o doutor.
Acho-me bom; mas fraquíssimo.
Fui eu que o enfraqueci: tirei-lhe sangue, como nenhum outro médico se lembra mais de tirar; agora a moda é condenar a lanceta; eu, porém, adoro ainda a minha...
Obrigado, doutor. Se me quiser estender sua mão, eu a beijarei... duas vezes.
Tão bom me acha?
Pela minha gratidão acho-o ótimo.
Logo nem todos os homens são maus.
Compreendi a alusão e guardei silêncio.
Daqui a alguns dias resolveremos esta importante questão; agora não lhe permito conversar nem mesmo com os seus parentes.
Pode ficar descansado nesse ponto, doutor; juro-lhe que não lhes darei nem palavra.
Que ingrato! murmurou Anica que me apertava uma das mãos.
Além disso quero que esteja absoluta, perfeitamente tranquilo, e sem a mais leve apreensão triste ou temerosa no ânimo.
Como?
Que é da sua luneta?
Tenho-a escondida, doutor.
Escondida por quê?
Não me pergunte o que sabe: a minha luneta é o único tesouro que possuo no mundo ou na vida, e querem roubar-ma!
Não é preciso exaltar-se tanto; confie mais em seus parentes que o amam, e que são os primeiros a garantir-lhe a posse do seu pretendido ou verdadeiro tesouro.
Ontem à noite empregaram a força, lutaram, magoaram-me para arrancar-me a luneta...
Engana-se: ontem à noite o senhor teve ardente febre e delírio... não se passou o que acaba de dizer; pode usar de sua luneta sem receio algum; tranquilize-se, serene o seu espírito; os seus parentes estão aqui, e em prova de cuidado e de amor estão prontos, embora não seja isso necessário, a dar-lhe todas as seguranças...
Sim, mano Simplício, disse Américo com acentuação enternecida; podes usar da tua luneta com a mais plena liberdade, que eu serei o primeiro a fazer respeitar por todos os meios.
Benza-te Deus, menino! Que mal nos faz a tua luneta? exclamou a tia Domingas.
Primo, eu preferiria morrer a causar-lhe o menor desgosto, assobiou suavemente Anica com a sua voz de música afinada.
Já ouviu? perguntou-me o doutor.
Eu estava dentro de mim revoltado contra aquela hipocrisia refinada dos meus três parentes inimigos; por eles media, aquilatava ainda uma vez a perversão e a malvadeza da humanidade, e em meu assanhado ressentimento desejei castigá-los, ostentando a minha desconfiança.
O médico proporcionou-me a oportunidade do castigo.
Que é da sua luneta? perguntou-me ele outra vez, notando sem dúvida a minha reflexão.
Receio... desconfio sempre, respondi com azedume franco.
Apresente-a; sirva-se dela; conte com a proteção de seus parentes.
E quem é deles o fiador? perguntei acerbo.
Percebi um movimento, tríplice movimento de contrariedade e de viva impressão de ofensa; libei a minha vingança.
Injusto irmão! disse Américo.
Que pecado contra a natureza! bradou a tia Domingas, acrescentando em voz baixa: ave Maria, Deus te perdoe!
Meu primo! como você é ingrato! balbuciou a prima Anica.
O doutor desatara a rir.
Os médicos são os homens que mais riem ou os homens que nunca riem, porque são os homens que mais e melhor estudam a humanidade por obrigação do ofício.
Eu quis provar que me não deixara comover, e, aplaudindo em minha consciência a eloquente risada do médico, firmei a sentença da minha bem fundada desconfiança, repetindo a pergunta:
E quem é deles o fiador? Quem se atreve a ser o fiador dos meus três parentes?
Eu, disse o doutor.
Sem mais hesitar desatei a luneta, e apresentando-a, fixei-a ousadamente, observando em rápido volver as quatro pessoas que estavam diante de mim.
O médico ria-se, com um sarcasmo a rir desenvoltamente.
O mano Américo, a tia Domingas, e a prima Anica mostravam-se contrafeitos pelo vexame, e no mais completo e ridículo desapontamento.
Como é vil, ruim, baixa e indigna a humanidade!