Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo VII
Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo VII
A visão do mal, o conhecimento das paixões ruins, dos vícios e dos intentos pérfidos ocultos nas dobras negras dos primeiros corações humanos que eu devassara com a minha luneta mágica, começavam a produzir no meu espírito os seus naturais efeitos.
Se meu irmão, minha tia e minha prima, os únicos parentes que me restavam no mundo; se os dois primeiros, que me haviam criado desde bem tenros anos; se Anica, que fora minha camarada da infância, quase minha irmã, assim tão cruelmente me enganavam, que poderia eu esperar dos estranhos e dos indiferentes?
E o armênio aconselhar-me que me abstivesse da visão do mal! Que erro! Deveria eu preferir viver iludido, vítima cega e estúpida, entregue de corpo e alma àqueles que abusam da minha inocência e simplicidade para sacrificar-me ao seu egoísmo e à sua ambição criminosa?
Oh! Mil vezes, não! A visão do mal me envenenará talvez a vida; mas há de ser o meu escudo contra os pérfidos, e me acenderá luz para livrar-me dos laços da traição.
Eu sinto já que a minha miopia moral vai se desvanecendo sob o influxo de uma ciência amarga, desconsoladora, triste e deprimente: a ciência do mal; em todo caso, porém, ciência.
Eu já compreendo e reflito; já sei meditar e resolver por mim. Não sou mais o pupilo perpétuo do mano Américo. A visão do mal emancipou-me.
Dói-me ter perdido a suave, a deleitosa crença na lealdade do amor dos parentes; dói-me, porém acabo de perdê-la.