Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XIII A Luneta Mágica · Capítulo 26 de 112
Obra Menu

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XIII

Primeira Parte - Visão do Mal - Capítulo XIII

Não era uma, eram cem as senhoras que passavam e que estavam no terraço.

Sentei-me em um dos bancos de mármore e deixei fixada a minha luneta.

Mais de vinte jovens senhoras me pareceram bonitas; defronte de mim, porém, estava sentada, junto de um venerando ancião, a mais formosa donzela.

Vestira-se de branco; tinha os cabelos negros, os olhos pretos, grandes e suavíssimos; eram olhos que não abrasavam, mas que inundavam de doçura, de luz branda, de enfeitiçadas delícias, o coração do homem que lhe merecia um olhar. Tinha no rosto a palidez enlevadora, que não indica sofrimento e atesta fina sensibilidade: o seu corpo era esbelto, e sua cintura de proporções delicadíssimas; trazia na mão pequenina e branca um leque de madrepérola com que se abanava distraída, absorta na contemplação do mar, ou divagando pelos mundos da imaginação; levantou-se a convite do ancião, sem dúvida seu pai, e com ele passeou ao longo do terraço; no fim de alguns minutos tornou a sentar-se no mesmo lugar em que estivera.

Era indizível a graça do seu andar tão suave como o deslizar da nuvem pela face do horizonte.

A donzela pálida afigurou-se-me revelação de todas as perfeições humanas, completando um portento de formosura. O rosto é o espelho da alma, a graça, dom do céu: a donzela pálida era necessariamente o símbolo do amor e da pureza dos anjos.

O meu coração palpitava transportado de admiração, e já dominado pelo poder miraculoso de tanta beleza.

Como está hoje arrebatadora Dona Rosinha! disse um mancebo, falando a outro perto de mim.

Ela chamava-se Rosa; tinha o nome da rainha das flores.

Está hoje como sempre; mas em que cismará ela? Provavelmente em coisa nenhuma: quer que se acredite que tem horas de embevecimento poético.

Não; ela fez vinte anos ontem, e está sem dúvida cismando nos motivos por que ainda não se casou...

Revoltei-me contra os dois sacrílegos, apartei-me deles com sentimento de aversão.

Eu tinha observado a formosa jovem, lançando-lhe vistas repetidas, mas passageiras, receoso de sobressaltar o seu virginal pudor; não pude, porém, resistir por mais tempo ao ardente empenho da adoração da sua alma, e fitei nela a minha luneta por mais de três minutos.

A donzela apercebeu-se da minha contemplação e, por acaso ou de propósito, deu a seu corpo flexível uma atitude de gracioso abandono, que me deixava apreciar todos os encantos da sua figura, inclinando langorosa a cabeça para o ombro de seu pai, e esquecendo os olhos no céu.

Ah! Foi para mim um abismo de magias, um arrebatamento do espírito, irresistível perdição de toda a minha liberdade durante três minutos...

E no fim de três minutos o coração da donzela se patenteou a meus olhos, e os segredos de sua alma se revelaram à visão do mal.

O demônio das contradições absurdas reunira naquela alma de mulher formosa a vaidade mais descomedida e a inveja mais violenta e cruel: Rosa julgava-se a mais encantadora e bela das mulheres e invejava de uma os cabelos loiros, de outra os olhos azuis, de sua mãe o vestido mais rico, de sua prima a voz de contralto, da amiga da infância uma prenda que lhe faltava, da noiva desconhecida a fortuna do casamento; invejosa, aborrecia todas as senhoras; vaidosa, queria ser amada, requestada por todos os homens; pela inveja era mordaz, maldizente, intrigante e aleivosa; pela vaidade era imprudente e louca, coração corrompido; não poupava sorrisos, nem olhar animador, nem palavras comprometedoras para prender um namorado. O que era em solteira prometia ser quando casada, namoradeira sempre; e, pela combinação da vaidade e da inveja com a sua organização e suscetibilidade nervosas, havia de impor-se absoluta dominadora do marido, a quem não amaria como marido, e só olharia como escravo; frenética, doida em ímpetos de brutais ciúmes não derivados de amor, rancorosa, raivosa, dissipadora, sem consciência do dever, sacrificando por uma noite de baile um ano de pão para a família, não hesitando em reduzir à miséria pai e esposo para alimentar o seu luxo, só pensando nos gozos da ostentação e de apaixonados cultos na terra, sem fé, sem religião, em moça era tentação infernal; velha havia de ser o desgosto de si própria degenerado em malvada ira contra todos, em vaidade condenada, em inveja corroída, em aborrecimento do mundo, e em ódio a todos elevado a expansões delirantes, capazes de transformar o lar doméstico em geena desesperadora.

Eu vi tudo isto, e ainda mais podia ver, porque longe ainda deviam estar os treze minutos que limitavam a visão do mal: podia e tinha mais que ver naquele coração desgraçado; mas não quis... tive horror de um ponto negro, que se ia esclarecer; tive horror... deixei cair a luneta, e, amaldiçoando a inveja e maldizendo da vaidade, fugi, correndo, precipitado para fora do terraço.

1/1
Menu

Fazer anotação